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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Incompreensão

Dois. Depois, olho em redor, esquadrinho os teus montes, procuro neles esse vislumbre que tu não és capaz de me dar. Procuro nas giestas, nas estevas, na dureza das fragas, nos torrões, nas amendoeiras, nas rugas dos homens de pele curtida, até na toponímica que tanto me impressionou noutros tempos, e que nunca soube explicar, procuro esse sinal, e o resultado... Parece que troças do meu desalento. Ris-te despudoradamente desta minha incapacidade, deste minha veleidade de tudo querer captar, desta minha fantasia de querer entrar nessa tua quinta-essência, que eu sei possuíres, mas tu ignoras-me, estás rendida a outros valores que não são meus, que eu não compreendo, não te consigo entender, estás fechada em ti mesma,fazes-me pena.
Não sei qual a origem da tamanha incompreensão.

Projecto LIMPAR PORTUGAL

Partindo do relato de um projecto desenvolvido na Estónia em 2008, um grupo de amigos decidiu colocar “Mãos à Obra” e propor “Vamos limpar a floresta portuguesa num só dia”. Em poucos dias estava em marcha um movimento cívico que conta já com cerca de mais de 17000 voluntários registados.Neste momento já muitas pessoas acreditam que é possível. O objectivo é juntar o maior número de voluntários e parceiros, para que todos juntos possamos, no dia 20 de Março de 2010, fazer algo de essencial por nós, por Portugal, pelo planeta, e pelo futuro dos nossos filhos.
Muito ainda há a fazer, pelo que toda a ajuda é bem vinda!

Quem quiser ajudar como voluntário só tem que consultar o sítio do projecto na internet, http://www.limparportugal.org/, onde tem toda a informação de como o fazer.

O projecto Limpar Portugal também está aberto a parcerias com instituições e empresas, públicas e/ou privadas, que, através da cedência de meios (humanos e/ou materiais à excepção de dinheiro) estejam interessadas em dar o seu apoio ao movimento.

No dia 20 de Março de 2010, por um dia, vamos fazer parte da solução deixando de ser parte do problema.

“Limpar Portugal? Nós vamos fazê-lo! E tu? Vais ficar em casa?"

Veja aqui: http://www.limparportugal.org/

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LIMPAR PORTUGAL/TORRE DE MONCORVO
No caso concreto de Torre de Moncorvo, desde cedo um grupo de jovens aderiu a este projecto, o que muito saudamos. Nos últimos tempos gerou-se uma dinâmica maior, tendo já aderido, até este momento, 42 pessoas (individuais e colectivas), entre as quais diversas Juntas de Freguesia, Câmara Municipal e Agrupamento de Escolas.
Está prevista uma reunião sobre este assunto, a qual terá lugar no próximo dia 27 de Fevereiro no auditório da Biblioteca Municipal.

LIMPAR PORTUGAL/GRUPO TORRE DE MONCORVO:

Pode inscrever-se aqui: http://limparportugal.ning.com/groups/group/show?id=3644063%3AGroup%3A12523&xg_source=msg_mes_group

COORDENADOR: Nuno Mourão Carvalho (Grupo de Jovens de T.Moncorvo)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

HISTÓRIAS POLÍTICAS

O Anel do Navarro


Em 1904 inaugurou-se em Torre de Moncorvo um moderno hospital. Era, sem dúvida, uma das melhores casas do género, então existentes no Nordeste Trasmontano. Foi baptizado com o nome de Hospital D. Amélia, em homenagem à rainha.
O edifício era uma casa antiga, de muito nobre arquitectura, sólida e bem arejada. Nela funcionara, na década anterior, o Colégio de Santo António que chegou a contar com setenta e tantos alunos internos. Antes disso fora sede da Reitoria da Igreja Matriz.
Era conhecida como a Casa das Teixeiras por ter sido arrematada em hasta pública, na altura da extinção das ordens religiosas, por uma família daquele nome que parece nunca ter nela habitado. Foi então vendida para hospital.
Na comissão instaladora do novo hospital pontificavam os chefes regeneradores: dr. Ferreira Margarido e Caetano de Oliveira. Mas quem angariou mais dinheiro para comprar o edifício foi César Augusto Macedo Ribeiro, um moncorvense que estava emigrado no Brasil e bem de vida. Conseguiu angariar por aquelas bandas a formidável quantia de 5 contos e tantos mil réis. Aos maiores contribuintes eram cedidos títulos honoríficos, um diploma com o selo da monarquia e a assinatura de um ministro. O mecenato sócio-cultural era então muito barato e não dava direito a desconto nos impostos. Quem conseguia esses títulos em Lisboa? Naturalmente que era o deputado eleito pelo círculo de Moncorvo, o dr. Lopes Navarro, a pedido do dr. Margarido e Caetano de Oliveira.
Naturalmente que, por detrás de tudo isso, havia também os interesses políticos. E foi assim que, na véspera de mais umas eleições, se procedeu à inauguração do hospital. Imaginam, com certeza, que tal solenidade se transformou em mais um acto de campanha eleitoral do partido regenerador. E imaginam também que as honras foram todas para o deputado Lopes Navarro, dando-se menos importância ao grande benemérito César Ribeiro, ausente no Brasil.
Aconteceu que, para além da bênção do padre, o gesto principal da cerimónia consistiu na oferta de um anel, por parte do dr. Margarido, ao deputado Navarro.
Só que o anel custara uma fortuna e o dinheiro foi retirado daqueles cinco contos que César Ribeiro angariou – segundo disseram os penicheiros na campanha eleitoral que se seguiu. E o anel do Navarro transformou-se no principal argumento deste partido não apenas naquela campanha eleitoral mas em outras que se seguiram.
E a verdade é que, a partir de então, Lopes Navarro não voltou a ser apresentado como candidato a deputado pelos regeneradores de Torre de Moncorvo.
- Será com medo que lhe peçam o anel? – Perguntava-se com escárnio, no jornal do partido progressista da terra.
E também terá sido por causa do anel que a estrela do dr. Ferreira Margarido começou a empalidecer, deixando as rédeas do poder em Moncorvo escaparem-lhe das mãos.
Diga-se, porém, que os políticos de outrora gostavam muito de usar o humor nas suas prosas jornalísticas. Veja-se, a título de exemplo, este trecho publicado no órgão oficial do partido Progressista de Moncorvo em 29.1.1905, a este respeito:
- Vai brevemente passar a segundas núpcias a Srª D. Barba Margarido, viúva desconsolada do dr. Mosquito (António Bernardo de Morais Leal), com o exº sr. Conselheiro Navarro Lopes. Diz-se que já houve troca de anéis, sendo de grande valor o que a noiva ofereceu ao seu futuro consorte. É um auspicioso enlace, porque ela é uma virtuosa senhora, gaguejante e alma desinteressada; e ele é um cavalheiro digno em todos os sentidos, forte em letras e em tretas e por um triz não é um grande orador parlamentar. Como amigos de suas excelências, desejamos-lhe uma lua de mel prolongada e podendo ser… estrelada!

Por: António Júlio Andrade


Nota do postador:

Fotogramas do documentário "Gente do Norte" .Em 1977 o antigo hospital funcionava como escola.Solicito ao Vasdoal que envie um convite para colaborador a António Júlio ,como fez,e muito bem, a Sá Gué.
Leonel Brito


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Ainda...

Sábado cultural, na Biblioteca Municipal

Momento da inauguração da exposição de Pintura/desenho.
Foi inaugurada no passado sábado (dia 20 de Fevereiro) no Centro de Memória (extensão da Biblioteca Municipal) de Torre de Moncorvo, uma exposição de pintura e desenho de autoria de Gomes da Rocha, sob o título: "Sem escola nem escala". Num total de 26 obras, sobre a arte de Gomes da Rocha, escreveu Antero Afonso no Catálogo da mostra: "...revela-se como uma criança; perde-se nos traços; confunde-se nas tintas; debate-se nas formas. Nessa infantilidade reafirmada aos sessenta, como já o fizera aos treze, podemos encontrar a síntese do seu percurso:- pinta para se espantar, ainda que os olhos lhe sorriam, sobretudo quanto surpreende os outros".
Obsessiva, nesta mostra, é a figura feminina, apenas esboçada ou sugerida, pondo-se a tónica nos seios, como anota o seu crítico: "as mamas são pretas, azuis, policromáticas", talvez reflexo da passagem do pintor por terras africanas, onde fez a tropa (Guiné).
Nascido no Porto (1950), Gomes da Rocha é advogado, foi jornalista e considera-se um pintor auto-didacta, pintando "por ociosidade". Conta com algumas exposições no seu currículo, nomeadamente no Ateneu comercial do Porto e na Casa do Douro (Régua). Tem participado também em exposições colectivas.
A Exposição está patente até ao dia 21 de Março, no Centro de Memória de Torre de Moncorvo
Aspecto parcial da Exposição
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Na mesma tarde de Sábado, como anunciámos, foi também apresentado, no auditório da Biblioteca, o livro de António Sá Gué (o mais recente colaborador aqui do blogue). A obra, intitulada "Na intuição do tempo", foi apresentada pelo nosso também colega de blogue Rogério Rodrigues, que evidenciou os principais aspectos do livro, aproveitando para fazer uma profunda reflexão sobre o Tempo, considerado numa dimensão que extravasou o histórico e entrou no filosófico. Uma leitura/abordagem digna de figurar em prefácio, numa futura reedição.
 Mesa de honra (da esquerda para a direita: Rogério Rodrigues, o apresentador do livro, Chefe de Divisão de Cultura e Turismo, Presidente da Câmara, Presidente da Assembleia Municipal e o autor, António Sá Gué)
A obra, que o próprio autor considera não ser propriamente um romance, mas um ensaio ficcionado, ou uma metáfora, é um vislumbre sobre o nosso tempo, ou antes, o tempo que abarca a memória das pessoas que hoje estão na "meia idade", para usar a expressão do Engº. Aires Ferreira, que abriu e encerrou a sessão, na qualidade de Presidente do Município. Ou seja, aqui se aborda o tempo final da Guerra Fria, das ideologias e dos idealismos, como o movimento hippie, Maio de 68, etc., até à queda do famoso Muro de Berlim, a que se sucedeu uma espécie de tempo de euforia, com o novo-riquismo, o consumismo, e o seu reverso, com os problemas/preocupações ecológicas e o depauperamento (não só económico) de um homo pouco sapiens. Tudo isto perpassa num diálogo que dura uma viagem de combóio - o combóio existencial, acrescentamos nós.
Aspecto da plateia, com um auditório repleto de público.

(Fotos de N.Campos)

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Inauguração da XXIV Feira de Artesanato de Torre de Moncorvo

Foi inaugurada ontem, pelas 12;00h, a XXIV Feira de Artesanato de Torre de Moncorvo, com a presença do Presidente da Estrutura de Missão do Douro, Engº. Ricardo de Magalhães, Governador Civil do Distrito de Bragança, Engº. Jorge Gomes, Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, Engº. Aires Ferreira, e outras individualidades. Contando com várias dezenas de expositores de todo o país (incluindo da Região Autónoma da Madeira), a exposição está patente, como é habitual, no pavilhão gimnodesportivo da Corredoura, durante este período de festas da Amendoeira em Flor.
Aqui ficam algumas imagens da mesma:
Momento inaugural.
"Stand" de Moncorvo
A famosa amêndoa coberta de Moncorvo não podia faltar, tal como os cestos de vime de Carviçais.

Artesanato de madeira de Sever do Vouga

Renda de bilros - um trabalho de grande perícia e destreza manualColheres de Pau de Pardieiros

A Feira de Artesanato estará aberta diariamente até ao dia 28 de Fevereiro, durante a tarde e noite, até às 11;00 (aos sábados até à meia-noite). A não perder!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

CARVIÇAIS 1932

Numa das minhas idas à Biblioteca Nacional , encontrei este folheto.Guardei-o.Enquanto o Rogério, na nossa biblioteca, apresenta o novo livro de Sá Gué, eu posto estes versos de ceguinho, saudando os dois .


Apresentação do livro "Na intuição do Tempo", de A. Sá Gué, em Torre de Moncorvo


Na contracapa, que fecha o livro, deixa-se a questão: "Será possível fazer a síntese de um determinado tempo e percepcionar o Futuro? Que movimentos, que ideias nos influenciaram e nos fizeram seguir em determinada direcção? Este é o propósito deste livro, que procura condensar alguns dos movimentos sociais do séc. XX, materializados em personagens que interagem entre elas dentro do comboio do tempo, um tubo de ensaio onde as personagens, ora exteriorizam os seus pensamentos, ora os verbalizam, ora comentam a paisagem que vai surgindo através da vidraça do imperecível combóio, permanentemente fustigado pela força das intempéries da tecnologia e que o engenheiro Norberto acredita dominar. / Nada acontece por acaso".

O autor, António Sá Gué (nome literário do tenente-coronel António L.), nasceu na freguesia de Carviçais, concelho de Torre de Moncorvo em 1959, tendo frequentado o ensino secundário nesta vila. Estreou-se na escrita em 2007 com a publicação do romance "As duas faces da moeda", a que se seguiu, logo no mesmo ano, o belo livro "Contos dos Montes Ermos" (que tem por cenário a nossa região), numa edição da ArtEscrita. Em 2008, com a chancela da Papiro Editora, publica "Fantasmas de Uma Revolução", onde ficciona o PREC.
No presente livro, "Na intuição do Tempo", o autor analisa os grandes movimentos do séc. XX - o movimento hippie, o marxismo, o capitalismo... - e procura projectar o futuro pela interacção de vários "personagens-tipo" que viajam num comboio, animado de um movimento perpétuo. - Acrescentaremos nós que a esta metáfora ferroviária não estarão alheias as centenas de viagens de um magala pelas linhas do Sabor e do Douro (além da linha da Vida...).

A apresentação em Torre de Moncorvo é daqui a pouco, às 16;00h, na Biblioteca Municipal - não falte!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Muros

Alguns MUROS caíram às primeiras palavras de ordem. Tinham tão tosca sustentabilidade, os princípios eram tão leves, os caboucos tão pouco profundos, tão mesquinhos e interesseiros que, aos primeiros encostos, tombaram. Outros, mais resistentes, não pela sua nobreza, mas pelo enraizamento nos longos dias de desertificação, iam deixando adivinhar translucidez, era como se um qualquer remorso lhe roesse na consciência e deixassem transparecer o desconforto sentido e a fazer adivinhar a sua queda para breve. Mas não se julgue que tombavam por magia, não! Gente de martelo e escopro em punho derrubava secções, abria fendas, trabalhava afincadamente para que isso acontecesse. Aos mais curiosos, era vê-los empoleirados a espreitar às janelas, às soleiras das portas, ansiosos de participar naquela caravela que velejava desgovernada. Muitos, seduzidos pelo canto da sereia, como que encantados, sem motu próprio, deixam engrampar-se pela corrente que tudo derruba. Na sede de vingança, a enxurrada tudo transportava: bons e maus, ricos e pobres. Nela boiavam cadeiras, bancos, raiva de séculos, quilos de impaciência, inconsciência, gritos de revolta.

" Na Intuição do Tempo" de António Sá Gué

O Grémio Literário Vila-realense apresentou, ontem, o recente romance Na Intuição do Tempo, de António Sá Gué. Num encontro quase familiar, o escritor, natural de Torre de Moncorvo e apresentado por António M. Pires Cabral, deu alguns acordes desta obra alegórica que termina nuns carris de esperança. Antes da sessão de autógrafos, esclareceu algumas questões colocadas pela assistência. Como curiosidade, soubemos que o pseudónimo de Sá Gué provém de alcunhas dos seus avós.

António Sá Gué e António M. Pires Cabral, escritores com fortes ligações a Torre de Moncorvo.

Festas da Amendoeira em Flor /Torre de Moncorvo - programa para Sábado:

(Clicar sobre o convite, para AMPLIAR)

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Entrudo no Felgar #2

A complementar a mensagem anterior deixo aqui um apontamento da dança final.

Entrudo no Felgar - a dança satírica

Dança do Entrudo (ou dança satírica) do Felgar, talvez nos inícios dos anos 70 (foto gentilmente cedida por Agripino Paredes, a quem agradecemos) 
Realizou-se na passada terça-feira de Carnaval, a famosa Dança Satírica, ou dança do Entrudo do Felgar.
O Padre Joaquim Manuel Rebelo chama-lhe a "Marcha Cantada Entrançada" (cf. A Terra trasmontano-duriense, ed. CMTM/ACTM, 1995, pág. 16), embora também utilize a palavra "Dança" para descrever o cortejo que se organiza depois em roda, a que se segue uma representação com diálogos entre as personagens, que integram um "velho" e uma "velha", quatro moços e quatro "moças" (rapazes fazendo o papel de raparigas).
O Prof. Santos Júnior, por seu lado, no estudo que dedicou a esta dança/representação entende que a mesma não se enquadra muito na designação de "marcha", preferindo a designação de "dança satírica" (Santos Júnior e A.M. Mourinho, Coreografia popular trasmontana, ed. SPAE, 1980).Todavia, é ainda este autor quem regista que os felgarenses também conheciam esta tradição como a "dança do amor à terra", devido ao facto de o cortejo, noutros tempos, levar uma tabuleta com esse escrito.
Em artigo publicado em 22.02.2002 no Mensageiro de Bragança, Mendes Corvo chama-lhe apenas "Dança do Entrudo" do Felgar. No entanto, convenhamos que (pelo menos nas representações mais recentes) também há pouco de "dança", tratando-se mais uma dramatização. No cartaz que este ano anunciava o evento, diz-se apenas: "Carnaval [porque não Entrudo?] do Felgar" e em subtítulo: "Teatro de rua". 
A origem desta representação, como a de tantas tradições, perde-se na bruma do tempo. Esteve meia perdida, mas, graças ao empenho e bairrismo da juventude do Felgar, a mesma tem vindo a ser felizmente retomada desde há uns anos a esta parte.

A "marcha" encaminha-se para mais uma representação, neste caso no largo por detrás da Junta de Freguesia.
Mas demos a palavra aos Mestres:
"Nesta 'Dança' entravam o Velho e a Velha, o Garoto e quatro ou cinco pares, todos rapazes, mas alguns vestidos de raparigas. Só podiam entrar na 'Dança' rapazes. / O texto da 'Dança' (...) era extremamente crítico, grosseiro, sobretudo em relação às raparigas que durante o ano tinham tido deslizes de ordem moral. Mas a Junta de Freguesia e o Pároco também não escapavam a estas críticas, ou então louvores" - digamos que, neste aspecto, a tradição se mantém, tendo principiado a dança de 2010 com as habituais farpas às raparigas, através dos seus referentes em presença (rapazes vestidos de raparigas, com trajos já mais em consonância com os da actualidade: mini-saias, adereços garridos e cabeleiras de madeixas coloridas).
E ele foi um "fartar-vilanagem" de "bocas" que só os felgarenses entenderão, os que estão dentro dos assuntos, e em que não faltaram os reparos aos namoros com o pessoal barrageiro que anda lá para o Sabor. Diga-se que, noutros tempos, ainda segundo o Padre Rebelo, as "bocas" iam para as que preferiam os mineiros da Ferrominas e Minacorvo, com quadras como esta: "Raparigas do Felgar, / casai com nós cá da terra, / não queirais malta de fora / que nós temos melhor tempéra".
Ah, mas o Padre, o Presidente da Junta, a Câmara, a Comissão de Festas, agora como no Passado, também não escaparam!
Tanto Santos Júnior como o Padre Rebelo se referem aos ensaios, sempre feitos no maior segredo, cerca de um mês antes do Entrudo. Iam por isso para lugares esconsos, fora do povo, "às vezes num velho e arredio palheiro" (Santos Jr., obra citada), tal como especifica o Pe. Rebelo: "fazia-se em lugares escuros - Ribeiro dos Moinhos, Abrolhal, Eirinha, etc.". Este ano sabemos que foi lá para as bandas do Sabor, julgamos que em Silhades.

Organiza-se a "roda", ora girando num sentido, ora noutro.
O texto, normalmente em verso, era da lavra de um mais inspirado criador, com acrescentos de outros membros do grupo. Há uma Entrada, mais ou menos estereotipada, tal como o Encerramento, e, de permeio os diálogos alusivos às situações que se procuram "denunciar", criticar, satirizar, ou, mais raramente louvar. O objectivo é suscitar a hilaridade da assistência (acabando por se rir, por vezes, até os próprios "actores"). O personagem do "Velho" (de chapéu, capote coçado, algo mal vestido, com uma bota de vinho a tiracolo, um pau ferrado na mão com um chocalho na ponta), com um apito comanda as operações: conduz o cortejo, organiza a roda e convoca os "visados(as)" por interpostas pessoas para o meio da roda, onde se dá uma espécie de "tribunal popular" (no fundo a "vox populi").
Entretanto há uma personagem castiça que é a "Velha", vestida de preto como manda a regra, agarrada a uma bengala, com um lenço e xaile e de tal forma curvada que não se lhe vê a cara (é a personagem-enigma). Pega normalmente nas deixas do "velho" e lança mais achas para a fogueira, com comentários acintosos. Ao contrário do que afirma Santos Júnior e em concordância com o nosso amigo Dr. Carlos Seixas (ilustre felgarense que também já escreveu sobre esta Dança), a "velha" não é uma figura apagada no contexto da representação. Talvez Santos Júnior assim o entendesse porque a Velha não toma propriamente a iniciativa e espera pelas acusações para depois "botar mais lenha" para a fogueira, como se costuma dizer.  Tal foi o caso, nesta última Dança, em que se mencionou a rotunda com uma fonte, que está em construção à entrada do Felgar: "- Deve ser pra lá buberem os buuurros!" - dizia a Velha. Muitas das vezes não se percebe bem o que que Velha diz, surgindo as suas falas mais como remoques relativamente ao que se disse.
O "Velho" toma posição no centro da roda, enquanto a "Velha" deambula pela periferia - às bocas, claro!
Refere Santos Júnior que se escolhiam para esta iniciativa "rapazes desembaraçados no falar e destemidos, isto é, capazes de aguentar qualquer reacção às críticas que vão fazer (...). A reacção de temperamentos assomadiços tem originado zaragatas, que os oito dançantes têm de aguentar e de levar a melhor", embora conclua: "a cordura, no entanto tem sido a norma" - tal como agora. O "escudo de protecção" era o tal "amor à terra", pelo que se entendiam estas críticas como construtivas, ou destinadas a "corrigir" desvios, comportamentos, ou então as iniciativas em relação às quais havia/há (alguma) discordância popular. E, em jeito de defesa, lá vinham (como continuam a vir) as desculpas finais, no momento do encerramento, como registou o Padre Rebelo: "Pois nós vamos terminar / Mas antes de acabar, / pedimos perdão de tudo. / E pedimos pelas Almas / que nos deiam muitas palmas / E passem bem o Entrudo".
Logo ao início as "raparigas" vão sendo convocadas ao centro da roda, para a descompustura, tipo "julgamento", por parte dos moços e do Velho.
Sobre o significado desta "dança", como escrevemos algures, ela insere-se no período do Carnaval (o Carnis Valerium = adeus à carne), tempo em que, como se sabe, desde a Antiguidade, tudo era permitido durante três dias de excessos, em que os prazeres da carne não eram só gastronómicos (o Santo Entrudo da carne gorda - a "tchicha do reco") e se alargavam ao mundano, à licenciosidade, à permissão social, tempo de inversão social (em que as mulheres se vestiam de homens e os homens de mulheres), numa espécie de mundo às avessas, em que as críticas e as partidas são mais ou menos toleradas ("é Carnaval, ninguém leva a mal"). No caso do Felgar, noutros tempos, não era só a Dança do Entrudo (ou dança satírica) que se fazia. Como anotou o Padre Rebelo, nas semanas próximas do Carnaval havia o costume das "cacadas": "pequenos grupos, quase sempre de jovens (rapazes e raparigas), disfarçados, pela calada da noite, quando as pessoas ceavam, abriam os postigos das portas daquelas casas cujos moradores não lhes eram simpáticos, ou ferviam em pouca água, e despejavam no átrio 'restos de louças partidas, pedras, cascos de bois, latas, pedaços de cântaros de barro e, por vezes, outras coisas menos delicadas. / O barulho provocado pelo lançamento destas 'coisas' era grande e os moradores revoltados vinham à porta, mas a escuridão da noite quase nunca lhes permitia conhecer e menos apanhar os prevaricadores". 

Continuam os "julgamentos", com muito povo ao redor e alguns fotógrafos e etnógrafos atentos.
Mas não era só: o Professor Adriano Vasco Rodrigues (que, como se sabe, casou no Felgar com a Srª. Drª. Maria da Assunção Carqueja), na monografia do Felgar publicada em parceria com sua esposa (em 2006), fala ainda do correr o Entrudo nesta aldeia, em que se punham dois rapazes nos extremos da povoação, proclamando, com auxílio de dois grandes búzios (para ampliarem a voz), o que se tinha passado ao longo do ano. Faziam ainda o Enterro do Entrudo, queimando um boneco de palha que previamente deitavam numa padiola, sendo levado numa espécie de funeral (tal como se fazia noutras aldeias trasmontanas). Quando o boneco de Entrudo era queimado, acabava o Carnaval e dava-se início ao período da Quaresma (Maria da Assunção Carqueja Rodrigues e Adriano Vasco Rodrigues, Felgar, 2006, pág. 172.).
Ui!, este é o momento em que os homens do povo atacam as instituições - nem Junta, nem Câmara, nem padre escapam!
Citando Mendes Corvo: "tal como nas antigas Festas dos Loucos medievais, cujas raízes se situam no período romano e, quiçá antes, o corpo social comprazia-se (ou avespinhava-se) nesta subversão, que seria como que uma manifestação do seu lado negro. O Carnaval corresponde, assim, a um momento de catarse colectiva, na transição do Inverno para a regeneração da Primavera que se aproxima. Um parto que não se faz sem a dor da Quaresma. / Função análoga à sátira carnavalesca do Felgar tinham as loas, colóquios, comédias, e, de certa forma, as serrações da Velha [sempre a Velha!...]. Para além do escapismo social, há nisto, por outro lado, uma associação cosmogónica decorrente dos ciclos do ano (expulsão do Inverno = Velho/Velha) e reordenação das forças do mundo [em que pontua a Juventude, não sendo por acaso que a Dança do Felgar é também um rito de iniciação da Juventude, com os seus desvarios, que os Velhos procuram corrigir e orientar, pela Crítica - o velho mundo e o mundo novo]. - São tudo velhas tradições que estiveram associadas a um modo de vida ancestral, hoje em vias de extinção. / Independentemente do fim de ciclo que deu sentido a estas manifestações, num tempo em que a televisão apareceu para exercer esse papel laudatório ou de pelourinho de uma sociedade mais alargada, urge preservar estas tradições como pergaminhos e penhor dos valores 'identitários' da 'aldeia real'."
Por isso faço minhas as palavras de M. Corvo, dando os meus parabéns à Juventude do Felgar, fazendo votos para que continuem e não deixem nunca morrer estas coisas - pelo Amor à Terra!
_________
Em tempo: para além dos textos citados, acrescente-se o excelente artigo de Carlos Seixas, intitulado "Felgar - As folias do Entrudo", in Terra Quente, 15.02.1998, que entretanto o autor nos entregou e a quem muito agradecemos. A par do trabalho de Santos Júnior é o registo mais completo que conhecemos sobre este costume felgarense. Porque não compilar estes estudos numa brochura? - fica o repto.
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Nota: pedimos as devidas desculpas pela extensão deste "post", mas julgamos que se impunha uma análise e uma interpretação um pouco mais alargada desta tradição, se bem que pessoal (fica aberta a discussão).

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010


terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Exposição "O Ciclo da Amêndoa" - até 14 de Março

Em rigor a exposição começa a vislumbrar-se cá fora, nos jardins do Museu: uma amendoeira mais adiantada começando a florescer...
Aspecto geral da Exposição: fotografias e alguns objectos associados ao "ciclo da amêndoa".

Grupo de visitantes confraternizando...

Exposição "O Ciclo da Amêndoa" - vista geral, no auditório do Museu

Partindo amêndoas - os mais velhos explicam aos mais novos.
A Exposição pode ser visitada até ao dia 14 de Março.
Entrada livre!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Cartas de Amor de outros tempos

Quando ainda não havia Dia de S. Valentim, as declarações eram assim:


Carta de um soldado, natural de Mós (concelho de Torre de Moncorvo), dirigida à sua amada - cópia efectuada pelo próprio, escrita num caderninho, onde se lê, em título: "Carta a pedir namoro", sendo datada do Porto, em 31 de Janeiro de 1949: «Menina F... / Em primeiro lugar faço votos para que estas minhas duas letrinhas / a possam encontrara a gozar uma perfeita saúde, que eu / ao descrever-lhe o meu amôr que sinto pela / menina, fico bom felizmente. / Menina, desde o primeiro dia em que tive a suprema felicidade de a poder apreciar, fiquei um pouco emprecionado / e não pude dirigir-lhe uma pequena frase, / para que meu coração ficasse mais um pouco calmo / Mas enfim como hoje acorda-se com um coração / em sobre-saltos, fui obrigado a declarar-lhe o meu amor / que pela sua pessoa sinto. A menina para mim foi a mulher mais bela, que / desde o meu nascimento pude apreciar com a minha visão. Linda todo o seu corpo me pareceu um fenómeno. Esses seus olhos lindos pareceram-me duas pedras / preciosas imaginárias, seus cabêlos como o ouro e a sua face rosada, enfim não posso / descrever-lhe como você seja bela e formosas. Bem sei que a minha dignidade / como homem não se compara com a da menina, mas enfim desculpe-me de eu lhe dirigir esta simples carta, pois foi só simplesmente para lhe declarar o amôr que por / si sinto. Pois de si espero uma pequena resposta à minha declaração, e espero que ela me venha a agradar; e para isto basta dizerme que me declara amôr. / Sem mais passo a pedir-lhe desculpa pela ousadia que tive em lha escrever. Estimo que tenha / saúde e felicidade, sou este que me assino, [...]


O caderno contém ainda os poemas que vão acima e outros escritos, tudo supostamente dos anos 40 ou inícios de 50, pertencente a um mózeiro, hoje octogenário.
Os nossos agradecimentos ao Autor, pela cedência e autorização de publicação, e ao nosso amigo Luís Lopes, também mózeiro, pela sua recolha e cedência para o Blogue.

Felgar - Carnaval 2010




Na próxima terça-feira cumpre-se a tradição.

Venha assistir.

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