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domingo, 25 de maio de 2008

Contos de rodapé

Uma vez que a edição de "Contos de Rodapé" de João P. V. Costa está esgotada, pedi autorização ao autor para publicar aqui alguns dos textos que, de alguma forma, possam fazer referência a Moncorvo. Com a utorização obtida, passaremos a contar com mais esta temática, embora, tal como garantiu o autor, possam ocorrer alguns retoques no texto e imagem originais. Mas também poderão surgir alguns inéditos...




Verbasco

Passaram os ciganos por Açoreira e, por engano, levariam de arrasto os arreios de um macho e uma charrua de ferro. Fosse lá como fosse, sumiram as alfaias necessárias à labuta diária de Jaquim Manel e de Manel Jaquim, irmãos de um ventre, que teimavam em não deixar entrar os tractores no seu prédio. É que a força e o mau jeito das máquinas arrebunham oliveiras e amendoeiras, chegando mesmo a assassiná-las! Sem esta ferramenta, ficava a lavra por fazer, enquanto as ervas iam comendo as árvores.
Simão vigiava o rebanho por ali e viu realmente passar a caravana dos ciganos. Mal soube do desaparecimento dos objectos dos vizinhos, correu a informá-los dos suspeitos que àquela hora já estariam acampados perto da Meda. Os homens que acabavam de arrear da jeira largaram o cabanal e carregaram a fundo no sentido do acampamento. Pelo caminho, a raiva era tão forte que não sentiam os pés de sola natural, apesar de muitos atalhos serem a galgar paredes e espinheiros.
Já perto das tendas, enquanto as rondavam, foram interceptados pelo chefe que lhes pediu a razão de tanta espreitadela.
- Queríamos ver se tinham por aqui umas coisas para vender!
- E que coisas, meus senhores ?
- Uma charrua boa para lavrar, como nos disseram por aí!
- Não temos nada disso e podem ver à vossa vontade!
Com o anoitecer, a fome e o frio começaram a roer a roupa colada às costelas e o pescoço desconfiado de Jaquim Manel ia vendo cada vez menos o acampamento deixado há um bom naco de tempo.
Juliana vivia sozinha num casebre, desde que o marido tinha partido. Nessa noite, veio cá fora apanhar uma roupa esquecida no arame. Teve a impressão de ver mais duas sombras do que as que tinha estendido a secar, ao meio dia e um arrepio de sincelo percorreu-lhe a espinha até ao cabelo mais branco.
- Boa noite, minha senhora. Não se assuste connosco! Já vimos de muito longe, sempre a pé e gostaríamos que nos deixasse dormir por aí num canto. Pensávamos que os ciganos nos tinham roubado umas ferramentas, mas afinal os desgraçados não têm nada e nós nada temos!- disse Manel Jaquim a tiritar de frio, ao mesmo tempo que o nariz se ia reduzindo a uns pingos a quem o braço cortava a trajectória.
- Como me parecem ser boas pessoas, entrem cá e cheguem-se às brasas porque o frio ainda vos tempera de uma vez por todas! Também devem vir com fome?
- Se nos desse uma buchita para a barriga deixar de roncar!..
- Eu tenho ali um pedacito de peixe de molho...Se quiserem uma punheta de bacalhau...
- Ficamos muito agradecidos !
Os setenta e nove anos de Juliana limaram-lhe a maior parte dos dentes e deram aos dedos das mãos uma espécie de ferrugem, assim o bacalhau era desfiado com as mós e com as gengivas. Jaquim Manel ficou agoniado e desmontou uma desculpa para não comer o bacalhau. Ficou-se por um bocado de pão. A dona do casebre também lhes arrumou um enxergão de palha e uns cobertores, num canto da cozinha.
O pedaço de pão de Jaquim não durou para calar o estômago e por isso levantou-se durante a noite para fazer um rebusco completo. Não podia acender a candeia, por isso teve de contar só com a luz dos olhos. E foram estes que viram tremeluzir alguma coisa numa fresta da parede xistosa. Embicou para lá o nariz e engoliu um troço de toucinho semi-oculto por um rasgo de folha de couve. Serviu, ao menos, para calar o rato que parecia sair pela garganta.
De manhã, já a senhora os fazia levantar com uma canecada de café e ia perguntando se tinham passado bem a noite. A resposta foi a de um agradecimento enorme. Repararam então que, de repente, a senhora se sentiu um pouco entristecida.
- A senhora parece triste ? Não é por irmos embora ?!
- Não, não. É que eu já não tinha mais barbasco para pôr nas minhas almorródias e arranjei um pouco de toucinho que estava guardado ali na parede. Agora estou muito sentida com os senhores, porque ele desapareceu.
A agonia de Quim Manel parecia descolar-se de dentro das tripas e regar todo o caminho até casa.
Os arreios e a charrua nunca mais foram vistos e a carne de toucinho era interdita no prato de Jaquim.

Gala Crista


Os pós de Maio eram sempre um ataque aos olhos claros de Angélica. O remédio andava num bolso do avental, na carteira feita lenço da mão. Com um nó se guardavam as sementes de gala crista que eram a vassoura daquele olhar. Com outra ponta do lenço colavam-se as moedas que iriam comprar o pão.
Na véspera do dia de feira, a freima foi enorme em arranjar a carga para o burro. Toda aquela lenha das Quintas até Freixo seria mais uma bicada para alimentar o ninho. Porque o seu António herdara aquela doença, na primeira grande guerra, em África, era ela, agora, que mais lutava. E, pelo longo caminho até à vila, com as passadas de cor, fazia o rol das trocas que aquela carga lhe iria dar. Ia recordando os tempos em que o António, pelo trilho de Mazouco, contrabandeava com o outro lado do rio. A lenha, nessa altura, escondia a farinha espalmada no lombo do burro, não fosse o olho de algum guarda dilatar o tempo da fome.
Lá estava a Torre e a Matriz. Já faltava pouco para aliviar o animal daquele ganha-pão. O local de descarga foi mesmo ali ao lado de uma feirante que calcetava o chão com os barros cozidos. Angélica atou o burro e, depois de esfriar o bolso de moedas pelo despacho da mercadoria, foi dar uma espreitadela pela feira. Havia ali muita coisa que apeteceria levar para casa, mas o dinheiro pesava sempre menos que as gotas de suor. Comprazia-se, assim, em deixar que toda a feira lhe ferisse o azul do olhar.
Junto de uma banca com sacas, o cobre da lenha acabara por se desfazer em farinha. Desta forma, ficaria a semana preenchida com o pão.
De repente, a feira parecia estar entornada. Um remoinho de braços e berros alastravam à volta do burro. Ora nem mais! O animal acabara de fisgar uma parceira e resolvera pôr a conversa em dia. Afinal nem só aqueles que os levavam à rédea tinham na feira um dia de encontros, como de um Domingo se tratasse. Esticou a ânsia e levou pela frente púcaros, bilhas, alguidares e todo o resto da artilharia de barro que o impedia de chegar à aparição daquele pêlo. Foi o cabo dos trabalhos! Angélica nem queria acreditar, mas a dona dos barros não se ficou pelos berros. Queria tudo pago!
Aquilo que o burro desperdiçou em pão arregalava, agora, os olhitos das crianças. Nunca tinham visto tanto caco para brincar. A penúria dos mais velhos partiu-se em fartura para os mais novos.
Ao deitar, Angélica desfez um dos nós do lenço da mão e retirou duas sementes de gala crista. Colocou-as, depois, nos olhos, para que aquela poeira da má sorte fosse expulsa durante a noite e permitisse um dia seguinte mais azul.
AZEDA

O carro de praça já está à porta e ainda é preciso colher uma mão cheia de azedas para meter no tapar o ar de plástico. Os chouriços de ossos, os de mel e amêndoa há muito que estão enroupados dentro da mala. As alheiras para lá caminham, talvez a rechear um qualquer par de meias de lã de ovelha.
No aeroporto, dá-se algum aos funcionários já conhecidos para que estes extintores da saudade possam entrar numa casa portuguesa no Canadá. Durante o voo, Adelaida parece levar um novelo na garganta de tão preocupada com a separação dos bocados da terra que lá vão noutro local do avião, mas o sono chama-a por umas horas.
De repente, o estômago subiu-lhe aos lábios numa velocidade incontrolável e foi então que ficou a conhecer a utilidade daquele saquito que tinha no banco. A turbulência do avião transitou logo para uma preocupação angustiante. Se as alheiras tivessem saltado do aparelho? Seria um caso sério o embate de um enchido destes na cabeça de um possível presidente do país sobrevoado nessa altura. Não havendo qualquer indisposição diplomática, poderia o turismo rural agradecer a sua expansão internacional, caso o produto levasse consigo o certificado de qualidade e proveniência.
Calíbio! Tudo não passou de um susto. Segundo uma voz que rebentava do tecto do avião, tinha sido um poço de ar o responsável por toda aquela saraivada de solavancos e abanicos. Com esta explicação, a mulher segredava ao tecido do banco uma outra descoberta:
- Se há poços de ar que soltam o vento, também os deve haver de água que destapam a chuva...e, em tapando essa mina, muita enxurrada acabará lá em baixo!
Com estas considerações, o avião até se despachava mais, só para se livrar do passageiro que dialogava com o banco. Daqui a pouco estaria na posse dos comandos do aparelho...
Estava, finalmente, a chegar a viagem ao seu extremo. Não tinha graça nenhuma andar tanto tempo suspensa no ar! Por um postigo do avião já se via muita gente no aeroporto. De certeza absoluta que estavam à espera!
Depois do enorme pássaro já estar pousado há uma boa meia hora, aparece Adelaida, pintada de uma alegria azeda.
- Ó mãe, que é que lhe fizeram para demorar aí dentro tanto tempo?
- Oh! Valha-me Santo António! Vamos mas é imbora!...
Fez-se serão para arrumar as malas, pôr a conversa em dia sobre a terra e contar os segredos da viagem. No fim do relambório todo saiu o mais azedo:
- Quando ia buscar a trouxa, ouvi um aparelho a apitar. Disseram que era o detonador de metais e que a mala tinha qualquer coisa. Abriram-ma e desfizeram-me uma alheirinha toda. Era aquela mesma que tinha o focinho do reco caseiro, ainda com o arganel.
- Ó mãe, tem cada uma que nem duas!
As outras que não tinham estômago de lata escaparam ao detector, mas também não passaram desse dia, tal como as azedas que as acompanharam.
Afinal, o recheio de um bom produto é o próprio rótulo de qualidade.


in Contos de Rodapé, 2001

3 comentários:

n. disse...

humm, que apetitoso... uma alheirinha (de Moncorvo) com uma saladinha de azedas!... tudo regado com um bom pingato de lavrador, que maravilha! Mais outro pitéu de tasca virtual do Vasdoal. Só é pena que seja virtual...

n. disse...

Caro Vasdoal, cada conto melhor que o anterior. E esse da "Gala Crista" soa-me a bem verdadeiro. Outros tempos... Se bem percebi, a Angélica era "quinteira" (das bandas das Quintas de M. Tirado, Macieirinha, etc.). E, de facto, o negócio da lenha e do carvão era um dos magros "ganha-pães" da gente das quintas. Os "quinteiros" viviam no aro das freguesias de Mós e Carviçais, em terrenos inóspitos e pobres, longe de tudo e de todos, gente que daria o mote para mais uns Avieiros ou Gaibéus, a um Alves Redol, se os tivesse conhecido. A quase totalidade dessas "quintas" desertificaram-se, resistindo apenas três ou quatro núcleos.

n. disse...

Caro Vasdoal!
O conto do "barbasco" está do melhor!!! Uma singular estória do antigamente, das que se contavam à lareira e que pareciam ter acontecido em todos os lugares... (eram as anedotas de outros tempos).
Caso não tenham percebido, esta planta (o Verbasco) era usada para curar as hemorróideas, eeheheh

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