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terça-feira, 20 de maio de 2008

Morreu o Manel DJ

Não resisti a publicar este texto, que já saiu na altura da morte deste meu amigo no Jornal de Notícias ( edição de Lisboa,na rubrica Passeio Público), como uma homenagem a muitas das figuras de Moncorvo que vão desaparecendo. O texto é conhecido de algumas pessoas, mas gostaria que fosse conhecido por muitas mais, em nome do Manel que foi um homem notável. Gostaria também que para esta galeria de ausentes escrevessem outras pessoas. Por exemplo o Gil do Peredo merecia bem uma prosa e um lamento. Aqui fica a sugestão ou o desafio se quiserem.

Morreu o Manel

Mal cheguei à terra, o olhar cheio de urzes e estevas floridas, de maias e giestas pujantes e flocos de sabugueiro, a primeira notícia que me deram soou a raios, trovões e águas turvas na memória: "Sabes?, o Manel morreu".
Não ouvi o dobrar dos sinos do alto da torre por este meu amigo, um quasimodo franzino, com um curto respirar de pássaro.
"De que morreu?"
A resposta é vaga, não sabem por inteiro.
"Talvez dos pulmões". O corpo deformado, a corcunda, iam-no asfixiando aos bocadinhos. É o que se diz sem nenhum rigor científico, apenas com alguma fatalidade poética.
Há muitos anos entrei, já a noite ia longa, num bar, o primeiro que abrira na terra. Chamava-se o Noitibó.
A um canto, numa espécie de aquário de vidro, um dj frágil, como um peixe triste, ia servindo música. Com o seu olhar, como que entendia as necessidades de momento de cada cliente. Era sábio na sua administração.
Conheci então o Manel.
Nas noites seguintes quando o bar fechava e no cheiro intenso a fumo flutuava uma suave melancolia, eu, o patrão e o Manel tomávamos a última bebida.
Num gesto de ternura escondida, colocava o último lp, expressamente para mim, da Maria Bethânia a cantar, num álbum de parceria com Caetano Veloso, o "Leãozinho", o "Meu primeiro amor" e o "Adeus, meu tempo de chorar".
Saíamos para a madrugada, havia silêncio na rua íngreme, da Cal se chama, e só muito ao longe se ouvia o ladrar de algum cão.
Era um tempo sereno e medido.
O Manel não conheceu a paixão e eram ignorados os seus subterrâneos de afecto.
Mas um sonho houve que o acompanhou durante longos anos: cursar engenharia.
Depois de muitas e inúmeras noites de dj num aquário de sons, num bar de rua estreita, conseguiu matricular-se em engenharia.
Terminava este ano o curso.
Faltavam poucos meses para realizar o sonho, o único que tinha de seu, além da casa herdada dos pais.
Era a família que lhe custeava os estudos.
Só agora soube que o Manel, o meu amigo quasimodo franzino, se chamava Manuel Mota e já tinha 43 anos.
Nunca o vi sem gravata e duas mangas. Receava o vento e algum resfriado.
O funeral passou ao lado do jardim. Mas no jardim já não havia amoras negras.
Ontem à noite regressei ao Noitibó. O aquário já desapareceu. Estava o patrão, completamente sozinho. A um canto do balcão, velhos lp's amontoados. Comecei a procurar a Maria Bethânia. O patrão pôs o álbum no gira-discos e serviu três bebidas, para nós e para o ausente.
A lágrima furtiva não se percebeu na penumbra do bar.
Porra, o Manel morreu.

Rogério Rodrigues.

7 comentários:

n. disse...

Caro Rogério,
Como bem disse, este fabuloso texto é conhecido de alguns, de alguns privilegiados, tanto por esta evocação, como por terem conhecido o Manel… O Manel é dos tais casos em que se aplica o velho adágio segundo o qual só a erva ruim a não queima a geada (alguns aqui dirão, “tal como tu!”, “pois sim, caros inimigos, tal como eu, porque não sou melhor que vós, mas espero sobreviver-vos, nem que para isso tenha que ser ainda mais mau que vós”). Por isso não sei se compensa ser bom… como o Manel. No meio da verrina típica e atávica do pequeno burgo, no meio do famoso “espírito da vila” de que a Idade Média fez derivar um não sei se substantivo ou adjectivo, pois, desse espírito, e à revelia desse espírito, brotou uma flor inteira e de homem bom (talvez lhe assente melhor a palavra “rapaz”, porque foi um eternamente jovem, e que jovem morreu, porque o amavam os Deuses), direito no ser, mais direito que outros aparentemente o são, mas mais retorcidos no espírito e na alma (que não na coluna vertebral, só aparentemente vertical).
O Manel foi/é o Amigo. Não podia beber muito, talvez por causa do problema que nos escondia… Por isso, em noites longas de sábado em que sobretudo eu afogava outras mágoas em certa discoteca fozcoense, o Manel ia comigo e fazia de minha consciência. E, de regresso, trazia-me o carro (o velho chaimite…). Porque, mau grado o seu problema, tirou a carta e conduzia. Tinha até sido instrutor de condução e possuía, inclusive, um pequeno carrito, um Fiat, que foi deixando parar, não sei se por avaria e falta de dinheiro para o compor, com a prioridade do curso. Lembro-me do Manel, o eternamente jovem, desde os tempos do Secundário, na velha escola da Rua do Hospital Velho. Mas só o conheci verdadeiramente vários anos mais tarde…
Tal como o Rogério não quis acreditar, em certo dia, em que chegado do Porto, me deram a má nova. Foi numa quarta-feira, num dia a seguir ao primeiro de Abril, pois se fosse no dia anterior, cuidaria que era mentira. Infelizmente não era. Não sei como isso era possível se o Manel tinha ido comigo, no sábado anterior, à eterna Acrópole fozcoense. Mas as más notícias são sempre verdade… Não consegui entrar no cemitério e estive algum tempo sem ir ao velho templo de Foz Côa, o que foi notado pelos amigos (os guardiões do Templo), quando lá voltei. Em jeito de explicação entreguei-lhes um texto, publicado num jornal, este que o Rogério aqui “postou”. Ficaram atónitos e transtornados. Sim, era verdade, o Manel morrera… No último dia em que fecharam o Templo e me deram a honra de girar a chave daquele último Paraíso (ao menos copofónico e visual), passando em retrospectiva os bons tempos aí passados, o pessoal chorou… Outras mágoas recalcadas vieram ao de cima, e o Manel foi lembrado, como um bom exemplo de colega que tinha sido do João (que chorava baba-e-ranho, antes de ser o cliente especial e amigo de todos nós. Como profetizei, o Templo reabriu, tempos mais tarde, como um restaurante de referência. Até que um dia os guardiães do novo Templo (agora, de Comer), me ligam para me dizerem que tinha lá ido um senhor de barbas almoçar, e que olhando melhor, lhes parecera o da fotografia que assinava a tal crónica do jornal (era o J.N.), intitulada “O Manel morreu!” E, tendo-se afoitado a perguntar-lhe se se chamava Rogério, ele lhes dissera que sim… Contaram-me o resto, confirmado depois pelo próprio: pediram-lhe que o acompanhasse ao gabinete onde faziam a escrita (e aqui imagino o ar desconfiado do Rogério, num sítio onde entrava pela primeira vez, ao ser assim reconhecido, certamente de pé atrás em relação ao que sairia dali). Entrando no cubículo, pintado de amarelo, apontaram-lhe a parede onde estava afixado o recorte que eu lhes entregara na noite da fatídica notícia (tempos depois do acontecido, mas logo a seguir à publicação da crónica). Não sei o que então sentiu o Rogério. Mas tenho a certeza que ali se constituiu, de imediato, um vínculo forte, invisível, imprescrutável com aquele lugar. Talvez uma mão invisível o tivesse ali guiado. Quero acreditar que foi o Manel, maroto e dado à brincadeira, com o seu humor fino e sorriso bem disposto, que lhe pregou esta partida, como quem diz, vaidoso: “olha onde está o que escreveste!”… A verdade é que, mesmo que aquele sítio não fosse um Templo de Comer, de divinos manjares, continuaríamos a ir aí, como quem celebra uma Eucaristia, uma Missa, pela alma do Manel. Mas não sendo o caso, pois como tudo aí é Excelso, é como se subíssemos aos Céus e aí estivéssemos todos, de vez em quando, em ameno convívio com o nosso Amigo sempre Presente… Sim, porque os verdadeiros Amigos, esses nunca morrem.

Obrigado Rogério por esta “postagem”. Quanto ao Gil, sim, também lá iremos. Também a ele se aplica o final deste comentário. Neste filme de curta-metragem que é a Vida, é o que nos fica do que cá vamos passando. E bem gostava de ser crente para acreditar que um dia, todos juntos, repetiríamos estes ágapes lá nas alturas...

rosita disse...

Devo dizer que não conheci o Manuel mas depois de ler este texto e o comentário de N. fiquei com muita vontade de ser uma das amigas dele e muita mais vontade ainda de ter amigos como estes dois.
O Manuel não acabou o curso, foi pena, mas conseguiu uma das coisas mais importantes e mais difíceis de se conseguir na vida. Conseguiu verdadeiros amigos e penso que só por isso, lá em cima deve estar muito feliz ao ver a homenagem que eles lhe fazem cá em baixo.
Parabéns aos dois por isso.

n. disse...

Querida Rosita,
Com muito pesar nosso o Manel já não poderá conhecer, a não ser de forma indirecta. No que aos restantes diz respeito, ainda por cá andamos, pelo que é só aparecer e bebermos um copo à saúde, cá em baixo, pois esta é a única certeza que temos... Ah, e a Amizade também, que é algo que decorre do fundo bom que certas almas têm e que a elas nos vinculam, mesmo "post mortem". - Quanto ao mais, que leve a breca os rasteirinhos, os mesquinhos, os invejozinhos, que são boa parte dos espíritos que, infelizmente, também povoam estes "reinos maravilhosos"...

euroluso disse...

Belo texto!
Ternura, amizade, boémia, nostalgia, vidas ...
Está lá tudo isso.
O Quasimodo pode não ter tido uma Bela mas fez amigos e, à maneira dele, deve ter sido feliz.

rosita disse...

Amigo N., seria um prazer tomar esse copo em nome da verdadeira amizade com alguém a quem já considero amigo e ficar a conhecer um pouco o famoso Manuel, assim o farei quando a vida me permitir.
Quanto aos demais a que se refere só me ocorre dizer ”Sê como a árvore do sândalo, que perfuma até o machado que a corta “.
até breve amigo.

n. disse...

Amiga Rosita, cuidado que o prometido é devido. Em contrapartida poderei fazer o "relatório" sobre o nosso saudoso Manel e apresentar-lhe outros amigos felizmente ainda vivos. Que quando aos outros, e tomando a sua poética citação, é bom lembrar que o sândalo é também uma madeira muito dura de roer, eheh. Fica um convite para uma actividade a realizar-se no próximo sábado à tarde, no espaço de tipo Serralves que figura num post que ficou lá muito atrás neste blog. Um espaço q tb é seu, Mu(ito)seu :)

rosita disse...

Obrigada N. por partilhar comigo seus amigos presentes e ausentes. Agradeço também por considerar meu esse cantinho que eu sei que é muito precioso para si.
Aproveito para lhe pedir um favor, cuide bem do meu "cravo".
Até breve. :)

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