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sexta-feira, 13 de junho de 2008

Contos de Rodapé

Urtiga

A caça ainda une os companheiros no banco da praça. Agora que as pernas estão mais perras do que uma culatra enferrujada, o grupo vai-se arrastando até ao centro da vila, para que a língua recorde as chumbadas, pelos cabeços e carrascais. Era um orgulho trazer um cinturão suspenso de animais.
Como um burro teimoso, Aníbal era o último a unir-se ao grupo:
- Ainda estou meio empanturrado! O coelho bravo do almoço estava uma maravilha! A minha mulher tem cá um dedo para o compor...
- Pois é ! – ladraram os outros – Há cães que têm sorte! Nós ficamo-nos por um caldito, uma sardinha assada e é um pau!
O outro ensaboava a barriga, como que a fazer inveja aos elementos restantes da associação do gatilho. Depois de um café, entornaram a conversa para o passado, altura em que as perdizes, nas ladeiras do Douro, acompanhavam, a passo, o comboio. Agora, nem uma coisa nem outra. Talvez as malandrecas tivessem apanhado a carruagem de primeira classe e adeus! Os porcos bravos ainda galgam pelas serras, embora lhes façam muitas esperas. A morte de um destes, por uma arma de dois canos, fora da lei, foi aperitivo para o paleio do outro dia. Como de costume, Aníbal era o último a arrastar a cadeira para a mesa dos gatilheiros. O palito do almoço ainda bailava entre os dentes, à espera de ser manchado pelo café:
- Ainda trago aqui um restito de javali encalacrado nos dentes. Parece um fio de estopa.
- E queixa-se, tio Aníbal! Nunca se lembram de nós. Nem, ao menos, uns coiratos para amostra! Se me dessem uns rijõezitos, até era capaz de ir buscar força para escavar coelhos no meio das fragas! – resmungava Chico.
- Por falar nisso, lembro-me de uma cadela que, em três tiros, me trazia quatro coelhos! – lampejou António. Porcos nunca apanhei, mas não me importava de provar agora um naco de um berrão assadinho na brasa.
- Quem tem amigos não morre de desejos! – palitou estas palavras o atrasado do costume.
O dia de feira misturava as farturas com as bacias de plástico, os caldeiros de lata, os chás das maleitas e a confusão no Banco. Com tudo isto, Aníbal acabou por chegar ainda mais atrasado. Entretanto os comparsas resolveram tirar a limpo aqueles almoços com carne do monte e já tão raros. Benigno, empregado da farmácia, poderia arranjar um remédio. Havia lá uma gaveta com uma mixórdia qualquer capaz de pôr cá fora tudo o que o gabarolas tinha comido!
- Aí vem ele! Amanhã faremos a prova dos nove! Saberemos a cor do porco assado em mentiras! – empolgava-se António.
- Ó rapaziada, esta confusão da feira fez demorar o almoço. A mulher foi comprar umas coisas... Mas ainda bem, porque lhe trouxeram uma lebre que ainda me vem a saltar na barriga.
- Ai tio Aníbal, tem de beber já um bagacito para ver se a bicha adormece e lhe deixa tomar o café em paz! – insistiu Benigno, para expulsar aquelas aldrabices. Sem qualquer um se aperceber, amigou-se de uma saquita de açúcar intacta e caminhou para a farmácia. Com cuidado, substituiu o que era doce por algo mais azedo, com a mesma cor, e fechou o invólucro, escondendo aquela pólvora branca.
A praça General Claudino estava à espera da nova peta e escutou mais uma vez o palito a tagarelar:
- Já estou enjoado de tanto coelho bravo!
- Tome então o cafezinho para desenjoar! – respondeu Benigno, escostando à chávena o açúcar de farmácia.
O gole da mistela puxou rápido o enjoo. As tripas pareciam querer sair todas ao mesmo tempo, levando o palito de rastos. Num jacto, a calçada ficou pintada de berças e essências de urtigas.
- Ó tio Aníbal, está-me cá a parecer que andou a ruminar o pasto dos animais!

1 comentário:

n. disse...

Oh Vasdoal! Qualquer semelhança com Moncorvo é pura coincidência!! A não ser o pormenor do palito, pois o pessoal das aldeias e das vilas em redor chamava aos de Moncorvo os "paliteiros"... Mas não era porque comiam caça, mas sim batatas com coives, e aosdepois binham prá praça a palitar os dentes pra que se pensasse que tinham comido chicha!...
Qualquer dia vamos postar aqui os "apodos" colectivos de todas as aldeias do concelho e de algumas vilas em redor. Por exemplo, e só de aperitivo, os de Vila Flor eram conhecidos pelos "merendeiros"; os de Foz Côa por "judeus" (como se aqui não os houvesse...); os de Freixo de Espada-à-Cinta por "papa-lagartos" (e parece que os comiam mesmo, que petisco!!); os de Mós eram os "cucos"; da Adeganha, os "morcegos"; os de Felgueiras, "choqueiros", os do Felgar, "pucareiros", por causa de lá terem olaria, etc...

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