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domingo, 8 de junho de 2008

Á descoberta da Adeganha

Hoje (dia 7), a Descoberta levou-me até à Adeganha. Não podia ter feito melhor escolha. A freguesia da Adeganha é muito grande e cheia de história e estórias. Embora tenha passado em várias povoações, é nela que vou centrar hoje a atenção.
Apesar de situada a menos de 500 metros de altitude, quando se parte do Vale da Vilariça, a pouco mais de 150 metros de altitude, parece complicado chegar a Adeganha. Apresentavam-se-me duas alternativas: subir a N215 que passa na Junqueira, Noselos, apanhar a N611 na Eucísia, Gouveia, Cardanha e depois Adeganha; a segunda alternativa era perto da Ponte do Sabor, mais concretamente na Quinta da Portela, apanhar a mesma N215, subindo a Estevais, Cardanha e depois Adeganha. Distâncias à parte, porque de automóvel isso importa pouco, optei pela primeira hipótese. Não me arrependi. A paisagem é fantástica e é das melhores estradas panorâmicas do concelho. É pena que o troço de estrada no concelho de Alfandega da Fé, logo depois de Gouveia, quase nem mereça a denominação de estrada, de tão deteriorada que está.

Não me demorei muito no caminho, mas fiz algumas paragens rápidas, para tirar fotografias.
Quando cheguei a Adeganha fiquei surpreendido por ser um aglomerado habitacional tão pequeno. . Já estive uma vez na Adeganha, foi há mais de 15 anos, pouco me recordo. Parei antes de chegar à aldeia, num alto, junto ao depósito da água, na Rua das Cortinhas. Fiz uma “radiografia” rápida, marcando mentalmente alguns pontos a visitar.
As principais ruas estão muito limpas, calcetadas e a circulação é muito fácil. Parei no Largo da Capela, junto à Capela de Nossa Senhora do Rosário, onde há duas amoreiras carregadinhas de amoras negras.
Só a visão da capela, já justificava a visita. Na frente há um pequeno jardim, com gradeamento. Entre várias espécies de plantas aí existentes, há duas roseiras carregadinhas de flores, que dão um ar de subtil beleza. Mas há também a sineira, em arco de volta perfeita e os bonitos pináculos cilíndricos.

A minha vontade era descer rapidamente em direcção à igreja, mas controlei o impulso e segui pela Rua da Escola. A escola está, como tantas outras, praticamente abandonada, à espera de alguma utilização (a de Gouveia, já afecta ao turismo, não tinha melhor aspecto). Respirei fundo e subi pela Rua do Outeiro, a um cabeço (482 metros) de onde se avista toda a aldeia e muitos quilómetros de paisagem em redor. As condições atmosféricas não eram as que gosto para a fotografia, mas era para isso que eu ali estava.

Desci à aldeia e segui para a igreja, Monumento Nacional. O primeiro contacto trouxe-me à memória a Igreja de S. Salvador, no Castelo de Ansiães e a Igreja de Santa Maria, no Azinhoso, Mogadouro.
Depois de uma vista na fachada principal, procurei enquadrar de perto o baixo-relevo representando três mulheres, conhecido pelas Três Marias. Expostas a milhares de olhos desde o Séc. XII, deram origem a uma das mais curiosas histórias existentes no concelho de Torre de Moncorvo. A ideia de que duas das irmãs meteram a terceira numa fogueira, como vingança por ela fazer batota e ganhar todos os jogos de cartas, gritando “arde e ganha”, não deixa de ser curiosa. Não imagino três irmãs a jogar às cartas, no Séc. XII. Partilho da ideia de muitos outros, de que o que está representado é um parto. As duas “Marias” dos lados seguram a terceira Maria, que está de pé, a dar à luz. São visíveis pormenores da vagina e o criança é representada dentro de uma bolsa. Também a figura da criança no canto superior esquerdo tem uma explicação: tem a água e o pano necessários para o parto. O parto, é um momento doloroso e assustador para muitas mulheres. O medo leva-as a recorrer ao divino. Recordo-me de ver entre Mogadouro e Macedo de Cavaleiros uma capelinha da Senhora do Bom Despacho! Terá esta representação, ido ali parar por uma promessa de alguém que passou por grande aflição?
Gastei horas a registar os pormenores dos trabalhos em granito que existem em redor da igreja! Não sou entendido em história mas parece-me que o grosso da construção é do estilo românico notando-se pontualmente outros estilos. O portal é gótico.

É interessante olhar um a um os cachorros que sustentam a cornija. Representam rostos humanos mas também porcos, aves, ovelhas e touros. Há um total de quatro arcossólios com túmulos, três no alçado Norte e um no alçado Sul. A decoração das duas portas laterais também é muito interessante. Há ainda outros elementos decorativos que despertam a atenção: no alçado norte há um baixo-relevo que me parece representar um monge (há quem diga que é um guerreiro); no alçado Sul há um baixo-relevo com duas formas antropomorfas, uma delas deitada, outra ajoelhada; nos alçados laterais e fachada existem abaixo da cornija blocos de pedra salientes designados mísulas, algumas com feições antropomórficas, outras com motivos vegetais. Nestes blocos apoiariam traves que suportariam uma estrutura, criando uma área coberta, que serviria de protecção aos peregrinos que aqui pernoitariam no seu caminho para Santiago de Compostela.

A exploração do interior carece ainda de mais tempo. Apesar da simplicidade e da talha dourada ser muito posterior ao edifício, não faltam os motivos de interesse. Os dois altares que ladeavam o arco triunfal da capela-mor foram retirados, deixando à vista um conjunto de belos painéis de frescos pintados nas paredes.
No altar-mor existe de cada lado, um painel pintado representando S. Martinho e S. Lourenço.
Surpreendeu-me a forma geométrica de alguns elementos decorativos usados nas pinturas das paredes laterais e por detrás do altar-mor! Também atrás do altar, está escondido um fresco representando Santiago Maior mais conhecido por Santiago de Compostela.
No chão da igreja é bem visível uma sepultura datada de 1660.

Embriagado com esta viagem à história, abandonei a igreja e dei uma última volta pela aldeia: Rua da Lagareta, Rua da Capela, Rua do Eivado, Largo da Barreira, Rua Abílio Mateus, Rua Bernardo Magalhães… e um conjunto de becos e travessas. Gostei das placas identificativas das ruas: rústicas, artesanais, completamente enquadradas no ambiente.
Saí de Adeganha com a intenção de ir ao Santuário de Nossa Senhora do Rosário. Depois de percorrer um longo caminho, pareceu-me que estava a descer demasiado em direcção à Junqueira. Achei que me tinha perdido e voltei para trás. Percebi depois que estava no caminho certo. Tenho pena de não ter ido ao santuário. Seria uma visita mais completa à Adeganha e também seria uma oportunidade de ver o Vale da Vilariça de um lugar privilegiado. Ficará para outro dia.

Da Adeganha segui para a Cardanha, depois para Estevais, À Descoberta do concelho de Torre de Moncorvo, terminando o dia no Miradouro de S. Gregório. Aprovei os últimos raios de sol, saturados de laranja, para fotografar a Foz, o Vale, o céu até o próprio sol, quando este esmoreceu.
Foi um tarde cheia de “descobertas”.

3 comentários:

lopes disse...

FORÇA CONTERRÂNEOS TRANSMONTANOS, NA DESCOBERTA DA HISTÓRIA ESQUECIDA PARA OS MAIS NOVOS E RENASCIDA PARA AQUELES QUE JÁ A CONHECEM, BEM HAJAM NO MEMORIAL COLOCADO AO DISPOR DE TODOS.
LOPES-BLOG E SITE DE MÓS NÃO OFICIAIS.
UM ABRAÇO CÁ DAS TERRAS DO BOCAGE

Nelson disse...

Caro Aníbal, parabéns por mais esta excelente reportagem. Efectivamente a igreja de Adeganha é estruturalmente românica, embora o arco apontado (dito de ogiva) do pórtico principal se integre já no gosto do gótico. Isto significa que, pelo menos a fase final de construção, seja já algo tardia, relativamente ao resto. Assim sendo, e aceitando a ideia do historiador de arte Carlos Alberto Ferreira de Almeida (professor da Faculdade de Letras do Porto, infelizmente já falecido), segundo o qual o românico transmontano é algo tardio, não podemos considerar a igreja de Adeganha como sendo do século XII, mas talvez do XIII, podendo até ter sido concluída no século XIV. A ausência de documentação não nos permite dizer mais sobre este assunto.
Acrescentamos apenas que os frescos e os retábulos do altar-mór foram objecto de restauro há poucos anos, por iniciativa da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, existindo três artigos directa ou indirectamente relacionados com estes elementos decorativos, publicados na revista "Monumentos", nº 20 (Março, 2004), respectivamente de autoria de Franklin Pereira, Lúcia Rosas e Carlos Nodal. - Registe-se que a intervenção inicial da DGEMN incidia apenas sobre a talha dourada do altar-mor. Desmontado o conjunto da talha verificou-se a existência de uma verdadeira "tapeçaria pintada" e uma imagem de Santiago, sentado, com um chapéu de peregrino na parede de fundo da capela-mor (estas pinturas já se vislumbravam antes, parcialmente, devido ao acesso por uma portinhola na base do retábulo e os elementos do PARM sabiam da sua existência); uma vez desmontado o altar teve-se a percepção da plenitude da parede rebocada, com as pinturas a assomarem pontualmente sob a cal. Os elementos do PARM, em que me incluo, alertaram a DGEMN para a necessidade de se preservarem, valorizarem e estudarem estas pinturas, tendo inclusivamente chamado a RTP que fez uma reportagem no local. Veio depois a resposta da DGEMN informando que já era sua intenção intervir também nas pinturas, apesar de não ter sido esta a informação que nos havia sido dada pelos técnicos de restauro da talha que inicialmente trabalhavam no local. Seja como for, há que enaltecer o trabalho finalmente realizado, lamentando apenas que se tivessem destruído, noutros tempos (talvez nos anos 40 ou 50 do séc. XX), as restantes pinturas que naturalmente deveriam recobrir todo o interior da capela-mor e, talvez, grande parte da nave principal. O que sobrou deve-se à pronta acção, naquele tempo, de um amante do património, que foi membro de uma comissão municipal de Arte e Arqueologia, além de professor de Ciências e Veterinário municipal, que foi o Dr. Horácio Simões. Terá sido ele que impediu que o crime tivesse sido maior!! E por aqui imaginamos o que deve ter sido destruído em muitas acções do Monumentos Nacionais, noutros tempos, na sua intenção de restituir aos "monumentos pátrios" o fácies granítico, austero e severo, que se julgava ter sido apanágio dos edifícios medievais. Talvez assim fosse, após a construção, mas à medida em que as igrejas iam acumulando algum dinheiro, de doações ou rendas, iam enobrecendo e embelezando o seu interior, como se vê, pelo caso de Adeganha. Parece-nos ver aí dois níveis de pinturas, umas mais antigas, talvez de um momento imediato à construção (séc. XIV? e XV) e outras talvez do séc. XVI. Para além do Santiago (patrono da igreja), que acabou por voltar a ficar por trás do altar-mor, destacamos uma Adoração dos Magos, do lado esquerdo da nave, e um gigantesco S. Cristóvão, do lado direito.
Aproveitamos para informar que se encontra no prelo uma monografia sobre esta igreja, de autoria do Sr. Comandante Eugénio Cavalheiro, membro do PARM e estudioso de História de Arte (co-autor de uma monografia sobre a igreja matriz de Torre de Moncorvo e autor de um estudo sobre os Frescos de Senhora da Teixeira, entre outros).
Achamos que por todos os motivos a Adeganha e a sua igreja merecem bem uma visita.
Por isso, aproveitem esta sugestão do Anibal Gonçalves e vejam com os vossos próprios olhos.
Nelson R.

jalles@iol.pt disse...

Gostei do trabalho, parabens!!!
Queria fazer só um pequeno reparo, quando diz que ia para o santuário da nossa sr.ª do Rosário, deve dizer nossa senhora do Castelo.

Carlos Lages

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