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terça-feira, 1 de julho de 2008

Baganha

Transcrevo mais um conto de rodapé sugerido pela visita ao Larinho e por ter sido observado pelos frutinhos do lodão (celtis australis) que não me largaram até ao rio. Estes pequenos frutos comestíveis eram do agrado das crianças que por aqui lhe chamavam baganha. Noutras regiões do país utilizam-se no fabrico de um licor.
Baganha



A canalhada caiu na vinha como um bando de tordilhos. Algumas parreiras ficaram sem poder mostrar os olhos brancos de sumo ou tintos de solidão. Mesmo os cachos de quilhão de galo, sempre camuflados de folhas, foram limpos num instante! Lá irão ficar mais uns espaços no forro da sala, anualmente preenchidos pelas passas.
Não foi necessário muito tempo para que estes incréus trepassem ao lodão plantado ali na canada ao pé da vinha. Era sempre esta jangada que os salvava de uma torrente de ira que o Tio Russo transbordava pela face, ao vê-los deslizar da vinha para o abrigo aéreo. Não hesitou. As pedras voavam por entre o palpitar da árvore, até pintar de vadiagem a ponta dos ramos. Os olhos negros da miudagem já se confundiam com as bagas mais maduras que eram engolidas com caroço e tudo, substituindo uma qualquer chiclete anti-nervosismo.
Já cansado de tanto arremesso, reparou no pelotão desorganizado de sapatos, chinelos e chanatos a decorar o pé da árvore. Enfiou-os todos numa vara, como se fosse numa pescaria invulgar.
- Num tindes bergonha, seus badios?!
- Não, não, Ti Quilhão! Temos é baganha!
- Ai sim! Então vão já pagar as vacas ao dono!
Pegou na espetada de calçado e atirou-a ao Douro que já estava à espreita ali a uns metros. Os peixinhos mais vulneráveis iriam ter uma casa nova.
Depois desta despedida do dono da vinha, o frio e a corrente das águas impossibilitaram qualquer mergulho para salvar os barquinhos de cabedal. Tiveram de ir para casa de focinho no chão a contar as pedras que se alojavam entre os dedos dos pés.
In, Contos de Rodapé

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