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terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Borges filho de Moncorvo

TRANSMONTANOS DURIENSES - JORGE LUÍS BORGES



Nasceu em Buenos Aires em 24.08.1899. Faleceu em 1406/1986, de cancro hepático, em Genebra.

Deixou uma obra vastíssima e marcante. Chegou já a ser considerado o melhor escritor mundial da sua época. Porque o invocamos aqui? É porque ele era de origem portuguesa e transmontano pelo lado do bisavô. E fazia grande questão disso.

O caderno DNA (1998), dedicou-lhe uma série de páginas, assinadas por Eduardo Pita, Tiago Rodrigues e outros e, precisamente este último, em artigo intitulado do "O Bisavô Português, escreveu no lead: «José Luís Borges sempre se orgulhou das suas raízes portuguesas e interessou se muito pelos antepassados quando visitou o nosso país, em 1921 e em 1984. Sabia se que seu avô, Francisco Borges, saiu um dia de Torre de Moncorvo, com destino ao Rio da Prata. Em Trás-os-Montes, procurámos o rasto do homem que deu ao grande escritor o seu apelido". No corpo do texto reafirma se "Regressa a Portugal em 1984. Declara que essa visita é também uma homenagem ao seu bisavô português, Francisco Borges. Nessa ocasião, afirma saber que Torre de Moncorvo era a terra natal desse antepassado. Em Lisboa, numa visita ao Grémio Literário, encontra se com representantes da autarquia de Moncorvo que o declaram cidadão honório da pequena vila do nordeste transmontano. Borges quis saber coisas sobre essa terra do bisavô Francisco, da qual já ouvira falar, mas nunca chegou a visitá la". Pelo seu interesse transcrevemos todo o texto de Tiago Rodrigues: Rondaria os vinte e dois dias quando visitou Portugal. Em 1921, Jorge Luís Borges findava uma estadia de três anos em Espanha com a família. Conhecera Valle Inclán, lera Unamuno e vertera poetas germânicos para castelhano. É então que chega ao nosso país com o propósito de encontrar esses seus "mayores", a "vaga gente" do seu sangue. Cinquenta anos mais tarde, contará numa entrevista como tentou auscultar o paradeiro da família do seu bisavô português: "Quando consultámos a lista telefónica, havia tantos Borges que era como se não existisse nenhum. Tinha cinco páginas de parentes. O infinito e o zero assemelham se. Não podia telefonar a cinco páginas de pessoas e perguntar: "Digame uma coisa: na sua família houve um capitão chamado Borges, que embarcou para o Brasil em fins do século XVIII ou princípios do XIX?..." No entanto, descobri com tristeza que um inimigo de Camões se chamava Borges e tiveram um duelo». Por essa altura (1984) algumas redacções enviam jornalistas para a vila. É descoberta uma família Borges, ao que parece antiga, numa aldeia do concelho. Felgueiras, terra de famílias judaicas e de apicultores, parecia ser o ponto de partida desse homem que viajou até à América do Sul para oferecer outro sotaque ao seu apelido. Apesar da precaridade das provas, a tal família é apresentada como a raiz portuguesa do grande escritor argentino. Mas essa hipótese, essa pista genealógica, está condenada a cair por terra, uma vez que dos Borges de Felgueiras só há registo a partir do final do século XIX. As origens transmontanas do homem que escreveu "O Aleph" são, obviamente, muito mais remotas. A Biblioteca Municipal de Moncorvo seria local inevitável a ser visitado por Jorge Luís Borges, numa hipotética estadia na terra dos seus antepassados. Quem conseguisse esse roteiro imaginário, acabaria por encontrar António Júlio Andrade, bibliotecário e director do jornal "Terra Quente". Homem que se ocupa dos arquivos, ele tem procurado Francisco Borges em todo o tipo de registos e correspondências. Alguns dos documentos que descobriu são inéditos e permitem uma indicação mais precisa da sua origem. Que pode muito bem estar no Morgadio do Mindel, o mais antigo que há conhecimento na comarca de Moncorvo, pertencente a uma outra família Borges muito anterior à de Felgueiras. Esta família possuía, além de algumas casas na vila (agora já desaparecidas), uma quinta na Vilariça os campos mais férteis do concelho e todo o território da aldeia de Peredo dos Castelhanos.

O argentino D. Luís Guillermo de Torre, parente de Jorge Luís Borges e membro da Comissão Heráldica da Argentina, forneceu dados biográficos fundamentais sobre Francisco Borges. "Terá sido baptizado numa das paróquias de Moncorvo, talvez em 1782. Era filho de Manuel António Cardoso e de Maria Antónia. Ignora se o apelido da mãe, que se supõe ser Borges. Chegou ao Rio da Prata em 1817, na expedição do general Lecor. Casou em Montevideu, em 3 de Fevereiro de 1829, com a argentina Carmen Lafinur". Deste casal nasceu o avô paterno Francisco Borges Lafnur, que se casaria com a inglesa Frances Haslam Arner. Este avô é evocado em 1969, no poema "Alusão à morte do coronel Francisco Borges (1833/74)". Guillermo de Torre também aponta a data de morte. "Morreu em Montevideu em 1837, com 55 anos. Daí a data apontada para o seu nascimento". Estes são dados porventura recolhidos junto da família.

Quanto aos que referem Torre de Moncorvo como sua terra natal, apoiam-se provavelmente em recordações do que Francisco Borges teria eventualmente contado. Talvez seja também esta, de resto, a justificação para o facto de Jorge Luís Borges mencionar Moncorvo, quando nos visitou em 1984. Tudo indica, portanto, que Francisco Borges pertencesse aos tais Borges do Morgadio do Mindel. Família ainda mais portentosa porque dela fazia parte Frei Miguel da Madre de Deus, um homem que chegou a ser arcebispo de Braga. No seu tempo, esteve sempre nas boas graças do Príncipe Regente, hoje, ensombra a sacristia da Igreja matriz de Moncorvo. É por este ilustre antepassado que é possível encontrar uma árvores genealógica dos Borges. Isto porque a Igreja investigava a carga genética dos seus bispos, buscando qualquer rasto de sangue judeu até à sétima geração. Guillermo Torre afirma que o pai de Francisco Borges se chamava Cardoso, um nome judeu. Talvez esse nome como era comum acontecer fosse revertido para um nome mais cristão, como Cruz, apelido bem usual entre os Antónios da família Borges de Moncorvo. A possível alteração dos nomes de origem judaica torna muito difícil descobrir a filiação de Francisco Borges na árvore genealógica de Frei Miguel, mas há vários casais cujos primeiros nomes e datas de nascimento coincidem com os que poderiam ser os dos seus pais. Se procurarmos o próprio Francisco Borges, encontramos três homens, nascidos à volta de 1870, com esse nome. Todos eles irmãos e sobrinhos de Frei Miguel. Um deles até nascido em 1782, data apontada para o nascimento do bisavô português de Jorge Luís Borges. Só que este foi cavaleiro fidalgo e vereador da Câmara de Moncorvo numa data posterior à da partida da armada do general Lecor para o Rio da Prata. As coincidências levam a acreditar que, investigando mais a fundo, encontraríamos Francisco Borges nesta família de Torre de Moncorvo. Entretanto, existe pelo menos uma prova irrefutável de que ele nasceu nesta vila, o registo dos homens que, com a Sétima Companhia de Fuzileiros, embarcaram em 1821 para o Rio da Prata. Este documento, do Arquivo Histórico Militar, revela que dois homens com o nome de Francisco Borges partiram nessa armada do General Lecor. Ambos tinha nascido na comarca de Moncorvo. Um era alferes e outro tenente. Mas nenhum outro dado nos permite apontar se algum deles era o futuro bisavô do homem que escreveu "O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam".

Em Torre de Moncorvo, o escritor dá hoje o nome a uma avenida moderna. A Av. Jorge Luís Borges, de bom asfalto, onde fica o terminal das carreiras. Lugar de chegada e partida, lugar onde se cruzam pessoas e mercadorias. Mesmo ao alto da avenida, está uma fonte antiga, que se chama de Santo António, da qual se diz que quem beba aquela água há de casar em Moncorvo. Esquivo também antes da morte, o bisavô Francisco foi casar à Argentina.


FONTE[DOUROPRESS]

Borges é o último gigante literário de que se pode falar

O escritor José Saramago defendeu em 14-12-2008 que Jorge Luís Borges é "o último gigante literário" de que se pode falar, considerando que "há mundos que existem a partir do momento em que ele os criou".
Saramago falava na inauguração do Memorial ao escritor argentino, da autoria de Federico Brook, no jardim do Arco do Cego, a poucos metros da residência do Nobel português e da embaixada argentina.
Por isso, disse, por morar perto "talvez virá" com a sua mulher, Pilar del Río, ao jardim, sentar-se num banco e "para estar ao pé dele".
Saramago salientou que Borges é um "grande escritor e humanista" que "descobriu a literatura virtual".
Um conceito que reconheceu ser-lhe difícil de explicar mas que se aplica à prosa e poesia na medida em "há mundos que existem a partir do momento em que Borges o criou".
Antes, a viúva de Borges, Maria Kodama, que se referiu a Saramago e à sua mulher como «anjos providenciais», recordara que Borges considerava que a palavra «saudade» lhe estava no sangue, apesar de não ter um conhecimento claro da sua família portuguesa que seria originária de Torre de Moncorvo (Trás-os-Montes).
"Pouco se sabe da família Borges" que serão de Trás-os-Montes, concordou Saramago, rematando: "parece que a família existiu para produzir este José Luís Borges e depois não deixou rasto".
Presente na cerimónia, o embaixador argentino, Jorge Faurie, considerou que o memorial "será um marco das relações históricas entre Portugal e a Argentina".
É "um elo palpável entre Portugal e Argentina", acrescentou, recordando que as relações entre os dois povos existem "desde o tempo das descobertas", de que deu como exemplo a exploração portuguesa da região de La Plata.


17 comentários:

N. disse...

Caro Lopes, O J.L. Borges é mais bisneto de Torre de Moncorvo, do que filho. Aliás pouco se sabe dessas suas origens, embora seja certo que ele, em dada altura da sua vida, se lembrou de dizer que um seu avô (ou bisavô) era natural de Torre de Moncorvo. Parece ter havido, de facto, um capitão Borges, de Torre de Moncorvo, q nos inícios do séc. XIX (o Brasil ainda era colónia de Portugal, tal como parece que ainda era a tal colónia de Sacramento, ou o território então em disputa, no Sul do Brasil, onde se travou a campanha do rio de La Plata com os Argentinos ou espanhóis, pois acho q a Argentina ainda não era independente, tal como o Brasil também não). O nosso Borges então teria ido parar às pampas argentinas e aí deixou a sua semente, que culminaria no grande Jorge Luís Borges (e não José, como apareceu escrito), o nome maior das letras castelhanas do séc. XX. Chegou a ser proposto várias vezes ao Nobel, mas ficou conhecido como o homem q falhou o Nobel... Senhor de um saber enciclopédico (seguindo o seu paradigma da biblioteca de Babel), começou a cegar a partir de certa idade, tendo morrido completamente cego em 1986.
Esteve pouco antes em Portugal, nos anos 80, tendo sido entrevistado pela jornalista Maria Elisa para a RTP. Nessa reportagem mostram-se imagens cá da vila, porque entretanto lhe foi atribuído o título de Cidadão Honorário de Torre de Moncorvo, tendo ido uma "embaixada de Moncorvo" a Lisboa a fazer essa entrega, pois o J.L. Borges, devido à avançada idade, não pôde vir até nós (por estradas q, nesses tempos, ainda eram escabrosas...). No seguimento de tudo isto, foi atribuído o seu nome à avenida que fica à saída de Torre de Moncorvo para Carviçais, Mogadouro, Espanha...
Em dado momento, Leandro do Vale escreveu uma peça de teatro baseada na biografia de Borges, a qual foi representada no Cine-Teatro, nos ano 90.
Saramago inspirou-se num texto dele para escrever o Ano da Morte de Ricardo Reis.
É um escritor de leitura obrigatória!

elizabet almeida disse...

a verdadeira história de jorge luis borges

Cheiro a Tempo antigo
Até no acto de nascer foi original: nasceu de oito meses. O médico que o assistiu declarou não se sabe se por cortesia tranquilizadora ou por experiência profissional que essas crianças costumam ser talentosas.

Viu a luz do dia em 24 de Agosto de 1899, em casa de sua avó materna, na rua Tucumán, entre Esmeralda e Sui­pacha, na cidade de Buenos Aires.

O pai, com uma doença dos olhos, vivia uma inquietude compreensível e quando lhe mostraram o filho observou atentamente os seus olhos. Nesse momento tinha-os azuis, como os de sua mulher, e murmurou: "Está salvo". Era como o pequeno Moisés a sair indemne da cesta que corria pelo líquido amniótico. A doença não o afectaria como a ele. Mas enganou-se. A sexta geração também estava condenada à cegueira.

Dentro de casa, nunca chamou aos seus progenitores papá e mamã, mas sempre Pai e Mãe e eles sempre o trataram por Georgie. Eram palavras que consagravam um clima de solenidade, distanciamento geracional, respeito e
carinho, soavam de forma mais nobre e decente e tinham um sabor a tempo antigo.

Algumas crianças criam-se na rua, na penúria e na odisseia ruidosa e incontrolável da multidão. Outras crescem num recinto muralhado, onde a realidade do mundo soa de longe. Agora é mais difícil escapar-lhe, porque a mensagem turbulenta penetra diariamente por todos os cantos através da televisão. Tal como o próprio Deus, é ubíqua. Sim, há ou houve quem se criasse em quartos ou em jardins cercados. Foi o caso de Borges. E sempre o confirma com uma precisão biográfica e um sentido poético: "Durante anos, acreditei ter crescido num subúrbio de Buenos Aires, um subúrbio de ruas cheias de aventuras e de ocasos visíveis. A verdade é que fui criado num jardim, atrás de um gradeamento com lanças..." Quando a família se mudou para o número 2135 da rua Serrano, mudaram de facto para os arredores. Não era normal que ali vivesse gente da classe alta. "O Palermo de então – o Palermo em que nós vivíamos, Serrano e Guatemala – ficava nos miseráveis confins a norte da cidade e muita gente, envergonhada por dizer que vivia ali, falava de forma difusa que vivia na parte norte". A mãe brincava com a sua filha Norah, "não tens vergonha de ter nascido nos arredores? És uma saloia, caramba!"

N. disse...

Olá Elizabet, isso é que é saber sobre Borges!! Na verdade ele dizia q contava os anos pelos do século: "tenho a idade do século XX", chegou a declarar.
E esse ambiente algo "british" teve alguma repercursão na sua obra, pois que era um admirador da cultura anglo-saxónica. Penso que por ser um escritor atípico dentro daquilo q a Academia sueca (e a intelectualidade em geral dos anos 50-70) deveria considerar dever ser um escritor latino americano: revolucionário q.b., ou, no mínimo, de intervenção, de esquerda, meio neo-realista, ou seja, pondo a tónica nas desigualdades sociais (tipo Neruda, Garcia Marquez, J.Amado), dizia, penso q foi por isso q Borges falhou o Nobel. Porque estava mt acima dessa dimensão regional. Ele quis ser (e era) um escritor Universal... quis abarcar a Humanidade e o Universo inteiro num ponto único: o Aleph...
Essa aspiração de universalismo/universalidade/infinito, espelha-se bem em numerosos escritos, sobretudo alguns contos do Livro de Areia, nos Imortais, ou das Ficções.
É um escritor difícil para quem não tenha uma certa bagagem cultural, pois não é autor do romancezinho com uma historiazinha. É rebuscado, e com conceitos elaborados, mas q surpreende sempre pelas suas conclusões inopinadas.
Boas leituras!!
P.S. - a Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo possui as Obras Completas de Jorge Luís Borges > para quem vive por cá, ou cá venha passar uns dias, fica a sugestão: passem por lá - e acho que até podem requisitar esta obra (volume a volume, julgo eu), desde q tenham cartão de leitor!

elizabet almeida disse...

Meu caro “N” obrigado por dizeres o que me dizes, vejo que comungo contigo o mesmo gosto por este escritor universal, deixo-te aqui para ti e todos os que visitam este excelente blog este escrito que ao longo deste anos (desde que comecei a conhecer o J.L.B.) me tem acompanhado, estou em crer que tu ficaras tambem fascinado com esta pequena/grande homenagem que eu quero dar a todos vós

“A rosa,
A imarcescível rosa que não canto,
A que é peso e fragrância,
A do negro jardim na alta noite,
A de qualquer jardim e qualquer tarde,
A rosa que ressurge da mais ténue
Cinza pela arte da alquimia,
A rosa da Ariosto ou a dos Persas,
A que está sempre só,
Aquela que é sempre a rosa das rosas,
A jovem flor platónica,
A ardente e cega rosa que não canto,
A rosa inatingível.”

Jorge luis borges

N. disse...

Bem, não sei se é a Elizabete Almeida q eu conheço, mas, seja ou não, o nosso muito obrigado por este poema belíssimo de Borges, que, de resto, desconhecia. Onde o publicou?
Esta Rosa é simbólica (releia-se o Nome da Rosa), e terá q ver com a Rosacruz, pelas referências à alquimia e ao ideal inatingível. Mais um ponto de contacto deste autor com o nosso F. Pessoa, que ele conheceu mal (só literariamente, mais na parte final da sua vida, e nunca pessoalmente). De resto o duplo-Ego de Borges (o duplicado do sujeito/autor) é algo muito próximo da heteronímia pessoana, apenas com a diferença de, no caso de Borges, se tratar de uma despersonalização temporal do mesmo sujeito, mas sem perder o vínculo ao Ego, ao invés dos outros sujeitos de Pessoa, mais a um nível "altero", apesar dos semi-heterónimos.
Ainda quanto às origens moncorvenses de Borges, remeto para o opúsculo do Padre J. M. Rebelo, intitulado: "Uma visita que não se fez - o escritor argentino Dr. Jorge Luís Borges pensou visitar Torre de Moncorvo", separata de Brigantia, vol. XIII, 3/4 Jul./Dez. 1993.
É um facto que ainda no século XVIII existia em Torre de Moncorvo uma ilustre família dos Borges, que possuíam quintas e propriedades no vale da Vilariça. Seriam estes os ascendentes do escritor argentino? ou essa sua "descoberta" seria mais um dos famosos jogos borgianos, a partir de um qualquer momento em que tropeçou no topónimo Torre de Moncorvo, em qualquer enciclopédia das muitas q devorava?? - Que é um nome português não há dúvida alguma, e ele, antes de se vincular à nossa vila, havia escrito já um poema nesse sentido, q não resisto a transcrever (em trad. portuguêsa):

"Nada ou muito pouco sei dos meus maiores
Portugueses, os BORGES: vaga gente
que prossegue na minha carne, obscuramente,
os seus hábitos, rigores e temores.
Ténues como se nunca tivessem sido
e alheios aos trâmites da arte,
indecifravelmente fazem parte
do tempo, da terra e do esquecimento..."

Quanto ao avô coronel Francisco Borges (1833-1874) seria já natural da Argentina, pelo que o suposto antepassado moncorvense seria já o pai deste), ou seja, bisavô de Borges, não deixando de ser estranho que se perdesse a documentação familiar, sobretudo numa família que não era, de modo nenhum, de pobres emigrantes a tentar a sorte no "novo mundo", mas sim "gente de algo". A esse avô Francisco Borges, J.L.B. dedicou dois poemas: "Alusión a la muerte del coronel Francisco Borges (1833-74)" e "Junín", visto q o dito avô morreu na batalha de Junín, fundamental para a independência da Argentina (uma espécie de Aljubarrota deles, também contra os "castelhanos"...). Já agora, também aqui o deixo, em castelhano, para não perder o sabor original:

"Soy, pero soy también el otro, el muerto
el otro de mi sangre y de mi nombre;
soy un vago señor y soy el hombre
que detuvo las lanzas del desierto.
Vuelvo a Junín donde no estuve nunca,
a tu Junín, abuelo Borges. Me oyes,
sombra o ceniza última o desoyes
en tu sueño de bronce esta voz trunca?
Acaso buscas por mis vanos ojos
el épico Junín de tus soldados,
el árbol que plantaste, los cercados
y en el confín la tribu y los despojos.
Te imagino severo un poco triste.
Quién me dirá cómo eras y quién fuiste".

(in Nueva Antología Personal, Bruguera, LibroAmigo, 1983)

N. disse...

Ainda para Elizabete Almeida (ou para quem se interesse por J.L. Borges), ver:

http://www.renatoroque.com/umaespeciedeblog/
(ver os posts de 14 de Dezº. e 29 Novº )

... de onde se prova que há mais "borgianos" por aí...

Anónimo disse...

Se o bisavô de Borges é natural de Moncorvo ou não?.Porquê tanta dúvida ,passado tanto tempo?
Que a Julia Biló faça com o Borges o que fez com o Constantino :tripas de fora e tudo á mostra.
Julia para a Argentina,JÁ.
Com passaporte da câmara.
Zé do cabo

N. disse...

Subscrevo: Drª Júlia para a Argentina, já!

Anónimo disse...

Olá, Amigo Nelson e demais conterrâneos:

Não tive computador durante o mês de Dezembro. Só agora estou a pôr as minhas leituras bloguistas em dia.
No meu pequeno livro sobre algumas figuras moncorvenses: "De Olvido e de Silêncio", publicado em 2001, na crónica 'A Lucília Ceguinha' faço uma breve referência ao facto de o grande Jorge Luis Borges enviar dinheiro (creio que através da Embaixada da Argentina ) e, pelo menos, umas duas vezes ou três - a confiar na Lucília Ceguinha - ele lhe terá escrito ou mandado alguém escrever-lhe.
Por que haveria ela de mentir ou inventar o nome desse primo longínquo que ela nunca conhecera? Nem sabia que ele era escritor. Referia-se-lhe dizendo : "O meu primo Jorge Luis é o melhor homem do mundo". E não fui eu a única pessoa a ouvir-lhe esta frase ou outras muito semelhantes. Penso que a Mª José Garcia também deve ter ouvido a Lucília Ceguinha falar do " bondoso primo Jorge Luis" .
Mas achei muita graça ao Zé do Cabo em querer mandar-me para a Argentina investigar essa questão do tal bisavô do grande Borges.
Um abraço para ele e outro para o Nelson.
Júlia Ribeiro Biló

N. disse...

Viva Drª Júlia! Que bom "vê-la" por aqui!
Pois fez bem em lembrar-nos o seu livro Do Olvido e do Silêncio, porque, de facto, já me tinha "olvidado" dessa história, na verdade algo insólita. Quando a li achei-a pouco credível (aliás, já tinha ouvido dizer, antes, que havia alguém por cá se pretendia familiar de J.L.Borges). Achei, na altura, que seria "coisa de velhos", e, no caso vertente, agravada pelo facto de a senhora também ser cega (como Borges...). Se, na verdade, o dito J.L.B. lhe mandava dinheiro via embaixada da Argentina, será que não há documentação comprovativa? Essa tal senhora Lucília teria deixado algum espólio (cartas, papéis, fotografias) e a quem? Seria interessante fazer-se o seu registo genealógico através dos registos paroquiais... Bem, parece que já tem aqui uma ponta por onde começar a sua investigação! (a Argentina vem depois, eheh)
Abraço tb para si, e bom trabalho!
N.

Anónimo disse...

Temos tema, investigadora, colaboradores, vontade.
O que falta? Nada, claro.
Estas raízes estão mesmo a pedir ...
Dr.ª Júlia ,por favor, não deixe cair isto...
Se Macedo tem o alto de Bornes, nós temos a grandeza do Borges.
E se há estatuas de Borges em Lisboa (o resto é paisagem, N,.)nós sentamo-nos no castelo a ler “A História Universal da Infâmia”
Zé do Cabo

Anónimo disse...

Já não me restam duvidas: a Menina Lucília (assim a tratavam na rua da Misericórdia/rua Campos Monteiro onde morava) é mesmo parente do nosso Borges .As mesmas feições, a cegueira e agora os testemunhos da Júlia e da Maria José (e talvez mais...),que a ouviam falar da generosidade do primo Jorge Luís. Estou a “vê-la”, subindo a rua do Cano/rua do Colégio, a caminho da casa da Mariazinha Madeira ,levando nos braços a sua Sagrada Família, que ali pernoitava para, no dia seguinte, a recolher, depois da reza em comum com a dona da casa e do habitual e cobiçado copinho de vinho fino de que nunca prescindia. São imagens do “Gente do Norte”,que tenho bem presentes na memória.
Estou de acordo com o Zé do Cabo e com o Nelson: Júlia à Argentina, já! Que investigue ,que se façam testes de ADN, que, finalmente , se prove que Borges é mesmo nosso.

Leonel Brito

Anónimo disse...

O meu Obrigado ao Lopes por "desenterrar" o dito cujo texto da DNA, de que já não me lembrava. Aí está praticamente tudo o que se sabe sobre as origens trasmontanas de Borges. Penso que o Tiago Rodrigues co-autor dessa peça é o filho do nosso colaborador Rogério. Só a uma militância moncorvense levaria tão a fundo a questão. Realmente, J.L.B., a ter relação com alguns Borges de Moncorvo, seria com os do Morgadio de Mindel, proprietários e fidalgos cá da vila. Já agora, o quadro do Arcebispo de Braga D. Frei Miguel da Madre de Deus, outro moncorvense ilustre, já não está na sacristia da igreja, mas provisoriamente no coro alto, onde foi recentemente inventariado pelo PARM tendo em vista o seu restauro e integração no futuro Museu de Arte Sacra previsto para a igreja da Misericórdia. Onde parará o espólio documental do Arcebispo? - o grande problema para a construção da História é sempre o do paradeiro da documentação, normalmente extraviada por herdeiros pouco cuidadosos e menos interessados em papéis do que em outros valores...
O testemunho do Leonel sobre a Srª Lucília quase que me convence, mas seria preciso mesmo o tira-teimas do ADN...

Anónimo disse...
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rogerio rodrigues disse...

Com efeito, o Tiago Rodrigues é meu filho. Quanto ao último anónimo é tipicamente de Moncorvo, de um certo Moncorvo. Enfim...Andei nestes dias por terras de Miranda com os meus amigos Ramos Preto ( deputado) e Amadeu Ferreira que vai publicar em mirandês/banda desenhada do José Ruy a história de Miranda e também Os Lusíadas/ banda desenhada do José Ruy. Falar do passado como se escreve no blogue é também uma forma de perspectivar o futuro. O blogue tem-me ensinado a compreender melhor o presente. Por último, nunca na vida escrevi nada que fosse anónimo. Sou do tempo em que se podia ser preso por denúncia ( anónima, claro...)

N. disse...

Sobre o q sou ou não sou, o q faço ou não faço, nada lhe vou dizer, nem nos devemos identificar perante a cobardia anónima e boçal. Sobre o conteúdo, é uma opinião e vale o que vale.

Anónimo disse...
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