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terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A magia de uma data (por Dr. Armando Pimentel)

De todas as datas a que maior fascinação exerce sobre o homem, a que mais lhe impressiona os sentidos e cativa a alma é sem dúvida a do Natal.
Vem de longa data o encantamento. Já na velha Roma do paganismo se celebrava o Natale Solis invicti, festa consagrada ao astro rei – à luz que dissipa as trevas. Não tendo o sabor do Natal cristão, de cujo talvez esteja na origem, já traduzia um jubiloso sentimento de fraternidade motivado por uma ideia-força que a todos entusiasmava – o sol que nasce e vem para libertar o homem da prisão da noite. Era como que um “muito obrigado”, ao grande amigo – gritado em coro, de mãos dadas e coração ao alto.
Pode dizer-se que o Natal é festejado em todo o mundo – embora com simbolismo diverso e diferentes exteriorizações de alegria. Crentes e incrédulos são tocados pela magia desta data.
Olhos postos no Céu – vendo o Bambino Sublime – os crentes transportam-se à origem, viajam regressivamente no tempo, e, como se na hora de Belém, festejam o nascimento do “verdadeiro sol” (como lhe chamou s. Cipriano), do “novo sol” (como lhe chamou Santo Ambrósio) – festejam a Luz que chega para iluminar a Noite da História que assombra e onde sossobra a alma das gentes.
Os homens cultos e os ignorantes já conheciam os deuses – os mitológicos deuses que (bem podemos dizer) eram “pau para toda a colher” – mas não conheciam o Deus Verdadeiro, o do Amor, da Bondade, da Fraternidade… aquele que veio ao mundo para dar ao homem a Grande Dimensão que lhe faltava – aquela que de si fez Um Outro Homem.
No tempo – o acontecimento de Belém foi notícia que correu e não pôde ser ignorada… nem pelos que tapavam os ouvidos para não ouvir, nem pelos que fechavam os olhos para não ver. Nascera Um Menino… que era mais do que um menino. Os homens de bom coração e boa fé – os crentes – viram logo que “nele estava a vida e a vida era a luz dos homens”.
Os incrédulos olharam-se – e olhar-se já queria dizer que alguma coisa de estranho lhes acontecia… “a Luz resplandece nas trevas” mas, porque eram de pouca fé, “os homens não compreenderam”.
Os que compreendem e os que não compreendem irmanam-se neste dia e festejam o Natal.

Festeja-se. Em volta de uma mesa a família está reunida - o patriarca preside, perora e dá a bênção. Cantam-se hinos ao Deus Menino junto do Presépio. É o Natal cristão.
Festeja-se. Estoiram as garrafas de champanhe. Dá-se à perna ao ritmo endiabrado do yé-yé. Este é o Natal pagão.
Que magia será a desta data que assim enfurece as almas em volta de dum Presépio ou duma garrafa de champanhe – insuflando-lhes ânsias de um outro ritmo de vida! Que magia será esta que aqui sentimentaliza o homem arrancando-lhe do fundo da sua dor uma lágrima de saudade, na hora da ceia, perante a cadeira vazia de um ante querido que anda por longes terras (mas há-de voltar) ou se perdeu nos mistérios do Além (e a cadeira ficará sempre vazia)! Que magia será esta que ali torna o homem folgazão e festejeiro – um espectáculo gritante de uma vida que transborda!
É a magia do Natal.

A magia – como o mistério – olha-se e respeita-se … para que continue.

… e quando assim não for…
Acreditem que a hora do Apocalipse está próxima.

Dr. Armando Pimentel

Texto da autoria do Dr. Armando Pimentel, no Jornal "A Torre", publicado em 30 de Dezembro de 1965.

3 comentários:

N. disse...

Caro Aníbal! Sempre certeiro e oportuno!!! Na "mouche" do próprio dia!
Grande prenda, mesmo já depois de passado o dito Natal... E que premonição a do Dr Pimentel... Quando isto escreveu, pelo natal de um já longínquo ano de 1965, há 43 anos, será que ele previra que nos deixaria num dia de Natal?? durante uma Consoada desconsolada em que se despedia dos Amigos em redor de uma mesa como a que descreve e de que era o Patriarca? (ver o post que citei, do Blog do professor Rentes de Carvalho)...
Bem, o certo é que uma cadeira (uma Cátedra) ficou vazia para sempre, nessa távola Estevaleira, nessas terras inóspitas a Leste do nosso concelho...
Obrigado e parabéns pela "descoberta", o que só revela a necessidade imperiosa de editar os seus textos dispersos, singelos e profundos, como este.

LOPES disse...

Meu caro amigo Nelson como sabes
de letras até não sou entendido, a minha area não é essa, mas como
um amante de tudo o que seja raízes moncorvneses e transmontanas, ao verificar a situação do Borges escritor de raízes moncorvense não podia deixar em claro passar o assunto, por além será sempre bom além fronteiras falar de Moncorvo ou seja dos antepassados Borges, aqui fica quem quiser consultar e porque se trata também de um site transmontano e douriense, quem quiser saber mais sobre o escritor referido deverá consultar o site a seguir referido.
Obrigado e um bom ano 2009 para todos os colaboradores e para todos os que nos visitam.

http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=554&id=4473&action=noticia

N. disse...

Viva, Caro Lopes,
de letras somos todos entendidos, homem! pois que as lemos e as escrevemos, é pq as entendemos, mais ou menos, como eu com os computadores (que é mais para o menos, ehe!) - E o seu post foi mt oportuno, pq eu também recebi o "aviso de notícia" (a internet faz maravilhas). Mas como ando sempre mt ocupado (como diz o Angel), passou-se-me!
E acho q sim, devemos puxar a brasa à nossa sardinha! Se o grande escritor J.L. Borges "quis" ser nosso (porque falta a documentação que comprove com rigor a naturalidade do seu ascendente, não sei se o coronel Francisco Borges, ou do pai deste), isso deve ser um grande motivo de orgulho para nós!!! Acho que se deve continuar a pesquisar a genealogia da família Borges, a ver se aparece algum documento inequívoco da naturalidade dos seus ascendentes.
Lembro, a propósito, que outro moncorvense ilustre, o capitão Claudino Pimentel (mais tarde General Claudino), que seria contemporâneo do avô (ou bisavô) de Borges, também andou pelo Brasil e militou na tal campanha de La Plata. Bem podem ter ido juntos, sabe-se lá!... - Pode ser oportuno um post futuro com mais elementos biográficos sobre estes personagens.
Boas Entradas tb para si!
N.

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