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domingo, 7 de dezembro de 2008

Zona Quente em Terra Fria

Mais uma reportagem do Assis Pacheco, a última sobre Moncorvo (a ordem é arbitrária, embora neste caso, foi a pensar no Nelson e no seu ferro).

1ª O sonho das minas..., sempre as minas no imaginário dos moncorvenses . O Museu do Ferro nasceu para não esquecermos o passado e inventarmos um futuro sem esse sonho que bloqueou a vila durante gerações. O futuro estava nas minas! E não havia outra saída. Assim se pensava. Grande erro, que tão caro nos saiu. Afinal, havia outras alternativas. O concelho desenvolveu-se noutras direcções e hoje, quando regressamos, sentimo-nos em casa, na nossa casa restaurada, melhorada e conservando o seu carácter.
A rua do Quebra-Costas já não está vazia, com as casas abandonadas às criadas. Está lá a Biblioteca, moderna, funcional e aberta a TODOS. Não é preciso ir à boleia ao Sabor para tomar banho. Vamos a pé ao Marmeleiro, onde a câmara construiu as piscinas. Já não trazemos pastéis de Bragança, Vila-Real ou Porto para os que tinham ficado. Compramos os económicos, as empadas, as amêndoas cobertas, os bolos-reis, as alheiras, o presunto, o salpicão, o vinho...para degustarmos e oferecermos e dizermos com orgulho: Come, é bom, é da minha terra.

2.ª A vila a pente fino. E se hoje se juntassem outros quatro moncorvenses com um jornalista e voltassem a passar a vila a pente fino? Sem anonimato, não ao M1,2,3,4, mas com os nomes próprios. O Assis Pacheco, quando esteve em Moncorvo, descobriu um jornalista disfarçado de professor, de nome Rogério Rodrigues.
Do trabalho que fiz com o Assis, sobraram umas 50 fotos que ilustram essa época e, voltar a percorrer esses caminhos para novas imagens, é para mim uma obsessão. Rogério, vamos a isso? Porque sei que também é a tua vontade.

3 comentários:

N. disse...

Só a falta de disponibilidade de tempo me tem impedido de comentar o conjunto de reportagens sobre Torre de Moncorvo com que o Leonel Brito nos brindou, saídas no jornal República mesmo nas vésperas do 25 de Abril (são do mês de março de 1974, segundo informação do Rogério Rodrigues, tendo o trabalho de campo sido feito em Fevereiro). Na verdade são um documento cuja compilação e reedição se impunha, sob a forma de brochura, acrescentando-se-lhes, talvez, mais algumas das tais 50 fotografias que então foram tiradas.
Trata-se de um documento notável, do ponto de vista económico e social, que contrasta com o modelo de reportagem meramente paisagística e “de encomenda”, adivinhando-se que pudesse ter causado algum mal-estar, à época, junto de alguns visados, que aqui são responsabilizados pelo que se considerava o atraso da terra, identificados como “forças de bloqueio” como soe dizer-se.
O apontamento sobre as minas é muito interessante e bem documentado com informação oficial sobre os constrangimentos e expectativas de superação. Na realidade, arrastava-se por essa época o plano Champalimaud, que fazia depender o futuro do ferro de Moncorvo do relançamento da siderurgia nacional, projecto que haveria de ser, de certa forma, retomado no período logo após o 25 de Abril , ou seja, na fase da nacionalização da Ferrominas e da Siderurgia (após a fuga de Champalimaud para o Brasil). Todavia, o problema mantinha-se o mesmo: o da longa distância de Torre de Moncorvo até ao Seixal, onde estavam os altos-fornos, aí instalados por conveniência de Champalimaud (aproveitamento das escórias para depois de recicladas se aproveitarem na indústria cimenteira). Por outro lado, a consabida má qualidade do minério de Moncorvo, com os seus altos teores de fósforo, obrigando a altos investimentos para a sua depuração. Pensava-se que com nova tecnologia americana se poderia debelar parcialmente o problema. E nisso apostava o Projecto Mineiro de Moncorvo do final da década de 70/inícios de 80. O que implicava grandes investimentos. Pelo que, julgo eu, se contava com eventuais financiamentos da então CEE, logo que se entrasse nela, o que veio a acontecer em 1985. Mas, deve ter sido por indicação negativa dos eurocratas que o governo nacional (penso que o 1º governo de Cavaco Silva) viria a abandonar o projecto, constituindo um balde de água fria nas expectativas locais e regionais. E tudo isto porque o Ferro de Moncorvo era um mito que vinha sendo alimentado desde os anos 70… mas do século XIX! Ou seja, um século de expectativas. E é interessante a maneira como começa a Conclusão da série de reportagens, assinadas por Assis Pacheco (com fotos de Leonel Brito): “Se um dia as minas funcionarem a sério… se um dia Moncorvo for a terra do ferro” (é interessante esta persistência do conceito, que houe deu lugar a slogan…).
Comenta agora Leonel Brito: “O futuro estava nas minas! E não havia outra saída. Assim se pensava. Grande erro, que tão caro nos saíu. Afinal, havia outras alternativas”. Na verdade, Moncorvo parece que sempre viveu de grandes Sonhos, muitas vezes gorados. Logreou ser a maior comarca do reino (não sei bem se foi mérito de uma certa centralidade, na convergência de três eixos: um vindo de Sul – Foz Côa, Lisboa; outro para Norte – Mirandela, Bragança; outro para Este e Nordeste – Espanha, Mogadouro, Miranda, ou se houve realmente forças locais que convenceram o poder central nesse sentido); mas, por outro lado, não conseguiu ser sede de diocese, no século XVI e XVII, o que lhe abria as portas à elevação a cidade, o eterno objectivo "secreto"; no final do século XIX falhou a linha férrea do Pocinho para Bragança, com um ramal para as minas, tendo de se contentar com uma linha secundária e periférica, a linha do Sabor, que nunca chegou ao seu destino (Miranda) ficando-se por Duas Igrejas. Já no pós 25 de Abril falhou o hospital central, que foi para Mirandela, como se tinha perdido a prioridade do liceu (como se lê na reportagem) tendo vindo mais tarde, já no pós-25 de Abril; com o fim do sonho das minas, veio o encerramento da linha, e, para agravar, o eixo rodoviário de base ao IP-4 deslocava definitivamente a centralidade para o meio do distrito, enquanto o troço do IP-2 o desviava da passagem da vila. Depois veio a desertificação humana paulatina, progressiva, voraz... E, de novo, outros sonhos, nem que sejam meros balões de oxigénio passageiros. Não interessa! É o mesmo fervor feito ânsia, ou de permanência, ou de mais rápida evasão, não sabemos. Por isso, é nesta incógnita em que nos encontramos que se torna mais interessante ainda reler a reportagem com “canal aberto” que o jornalista pôs à disposição dos quatro moncorvenses de então, e que falaram desassombradamente, como só seria possível em vésperas de revolução, mesmo após a fase da "primavera marcelista" (ou então a censura não esteve para se chatear com o teor algo político e crítica do "sistema" local, feito pelos 4 de Moncorvo). Para nós hoje, numa óptica historicista, teria sido interessante também ouvir alguma voz do “sistema”, para se perceber igualmente o seu ponto de vista.

Destas análises, ressalta que, para alguns dos intervenientes o futuro estava na revolução económica e social que passava (estava a passar) pelo regresso dos emigrantes e pela promoção social dos seus filhos. No entanto, alguém notou logo que estes estavam a ir antes para a Lisnave e para os meios urbanos do Portugal continental em vez de ficarem na região e de promoverem o seu desenvolvimento. Mas logo houve alguém que disse, de forma mais pessimista: "a emigração vai continuar" (…) isto “só cá vão ficar os velhos até ao despovoamento”(está no último parágrafo). – Quase 35 anos depois acho que muita gente subscreveria este pessimismo. E, entretanto, passaram-se muitas coisas que os quatro entrevistados (e os próprios jornalistas) estavam longe de imaginar: o golpe no mês seguinte, o “período revolucionário”, a “descolonização”, os “retornados” (que representaram um acréscimo populacional que retardou a desertificação anunciada já por um dos intervenientes), de novo a grande expectativa da Ferrominas do início dos anos 80, os fundos comunitários, de novo a desertificação, e, agora, neste quadro de neo-liberalismo extreme, o encerramento de serviços públicos (sabendo nós que Moncorvo sempre viveu muito do sector terciário) e, também de novo, outras grandes expectativas cujos resultados se aguardam. A par dessas, o receituário Turismo, Ambiente, Paisagem, Artesanato (TAPA, como alguém já lhe chamou, jocosamente), parece ser a saída mais consentânea, não para conseguir estancar a desertificação, inelutável, mas, pelo menos, para conseguir um mínimo de residentes para que não se apague, de vez, a memória de mais de 700 anos de História. Talvez fiquem a vila e algumas escassas povoações limítrofes (as que estão à beira das estradas principais), pois estamos em crer que muitas (com muito pesar o dizemos...) se converterão em “aldeias desertas” com direito a visitas guiadas e às romagens de nostalgia, por parte de alguns descendentes dos últimos habitantes, a viver algures nas periferias das urbes...
Com o investimento no Douro como destino turístico que se espera (outra expectativa!!), e com um forte capital de “Passado” e de infra-estruturas culturais, gastronómicas, hoteleiras e de lazer, Torre de Moncorvo dispõe de alguns trunfos relativamente a outros concelhos circum-vizinhos. Mas o caminho terá que ser, também a este nível, trabalhar em conjunto, concertadamente. A filosofia de intervenção que a unidade de missão do Douro tem defendido parece-nos correcta. Mas nada se consegue sem investimento. E a pergunta é: até onde vai esta crise? E qual é o futuro do mundo?? - que outro alguém nos responda daqui a outros 35 anos…

- Perdoem-me os leitores, por este comentário tão extenso (é quase um artigo tão extenso como a reportagem que lhe deu origem), mas foi aonde me levaram as palavras e a riqueza dos documentos em boa hora “ressuscitados”. E mais diria, se me detivesse na documentação fotográfica que ilustra a reportagem – de que destaco o simbolismo da "casa de emigrante" pespegada na montureira (por acaso não será no Canafichal, entre a Corredoura e a Nória?), já que a cintura das hortas pertencentes aos senhores da vila só no pós-25 de Abril se acabariam por romper (por um lado foi pena a destruição desses hortos mimosos, dando lugar ao cimento; por outro, foi o rebentar do colete de forças que apertava o urbanismo da Torre de Moncorvo desde, pelo menos, o século XVII-XVIII): os tais bairros da Romãzeira, o Santo Cristo (era um olival do grande proprietário A.Montenegro), o Mercado e os Bombeiros, e, do lado Poente, as avenidas novas que “ocuparam” a quinta Judite e outras propriedades significativas…

Por aqui me fico, aguardando outros documentos deste género, tão ricos. E da próxima prometo estender-me menos. Desculpem!
Nelson R.

Anónimo disse...

Parabens Nelson R. pelo comentário feito supra, tal a clareza da exposição e a abordagem realista e certeira feita, o que muito nos elucida neste caminhar do " descobrir torre de moncorvo " blog este que vale por si muito mais do que muitas manifestações culturais promovidas superiormente.

N. disse...

Caro Anónimo, agradeço, pela parte que me toca, a sua apreciação elogiosa. Realmente tb concordo que este "blog" veio contribuir para o recuperar de algumas ligações dos "moncorvenses da diáspora" com as suas origens e com outros moncorvenses; além de fomentar tb o diálogo entre os habitantes cá do burgo (e alguma discussão também, o que até é saudável, sempre com respeito pela opinião alheia). Aproveito para destacar o papel do prof. Aníbal Gonçalves, um vizinho que "anda por aí" (Carrazeda, Vila Flor, Mogadouro e q também já por cá leccionou) e que é o pai da ideia desta série de blogues de divulgação regional neste nosso cantinho transmontano-duriense. Adaptando uma frase de J.F. Kennedy: "pergunta o que podes fazer pela tua terra; não perguntes o que ela pode fazer por ti!" Assim, acho que esta é uma forma voluntariosa e barata de se promover a terra, sem sobrecarregar o erário público, além de ser um espaço cívico.
Quanto às "manifestações culturais promovidas superiormente" é preciso dizer que tem havido um investimento cultural significativo e uma boa programação (disponível em Agenda Cultural) com o qual nos devemos congratular. Aliás neste blog tem-se feito eco de alguns desses eventos e de outros, já que o objectivo é puxarmos todos para o mesmo lado, no que toca à promoção do concelho, em primeiro lugar, e, de uma forma concertada, em articulação com os concelhos circunvizinhos, numa óptica mais alargada.
Esperando que continue a acompanhar o Blog, subscrevo com votos de boas festas,
nelson r.

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