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sábado, 10 de janeiro de 2009

Notícias do burgo II - Neve


Recortando-se contra o paramento lateral da igreja, pareciam moscas brancas... pois, mas eram flocos de neve, caindo pela manhã do dia 9 (ontem)... Vendo-a cair, de mansinho, veio-me à mente uma canção de Brell: "Tombe la neige / sur Liège...."

E a neve foi tombando, "leve, levemente" (diria Augusto Gil), aqui como por toda a parte. Apesar de, na vila, ela pegar pouco, nada que se compare com o Carvalhal ou o alto da serra do Roborêdo, cá ficou ainda alguma, sobretudo ao cair do dia, dando um aspecto verdadeiramente feérico e irreal à paisagem. Frio, mas belo!

5 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado ao "postador" N. Campos pelas suas fotos de Moncorvo nevada. Mais do que tudo, e até para além de alguma nostalgia do Inverno transmontano que estas minhas paragens meridionais de agora me causam, fica a demonstração do espírito de partilha - das imagens e das emoções. Como Pessoa ( no caso Ricardo Reis e as Odes ) tão bem exprimiu - " Mais vale, se a memória é quanto temos, lembrar muito que pouco . E se o muito no pouco te é possível , mais ampla liberdade de lembrança te tornará teu dono".
Desculpem-me esta minha divagação...e aqueçam-se bem.
Daniel de Sousa

Anónimo disse...

Caro Daniel, talvez seja para isto (a tal de partilha) que existe a blogosfera... E este Blog, em especial, é uma espécie de Arca pessoana... entram/saiem daqui relíquias de baú (fotos antigas, como a dos caçadores ou dos guarda-rios), imagens do aqui e agora, para quem está longe possa ter notícias do burgo e/ou seu entorno, seja a caçada ao javali, seja o dia de neve.
Os computadores transformaram-se em extensões da memória; a internet (com os "sites" e os "blogs" são extensões até para fora do nosso cérebro... passam, talvez a ter vida própria, e a existirem para além de nós, admitindo que um dia, um ET qualquer possa ler o que vai para o éter, via satélite.
A blogosfera, voltando ao nosso semi-conterrâneo J.L.Borges, é uma espécie de "Funes, el Memorioso": um tremendo caleidoscópio de imagens, ideias, palavras, que Deus nenhum conseguirá sintetizar... esse seria uma espécie de Aleph. O que fazemos é captar pequenas partículas da realidade (ou do que julgamos ser a realidade) e aglutinarmo-nos a elas: seja o rincão sagrado, sejam outros elementos da nossa esfera de interesses. E, como átomos, agregamo-nos uns aos outros (ou repelimo-nos), consoante os comprimentos de onda. Mas, na base de tudo está a Memória, de facto. Voltando a Borges (talvez o homem que mais pensou e desenvolveu o assunto), e em resposta ao seu (nosso) Ricardo Reis, aqui lhe deixo esta de Borges: "somos simultaneamente algo cambiante e algo permanente. Somos uma coisa essencialmente misteriosa. O que seria cada um de nós sem a sua memória? Será uma memória em boa parte feita de ruído, mas nem por isso deixa de ser essencial. (...) A ideia do futuro viria a justificar a antiga concepção platónica de que tempo é a imagem móvel do eterno. Se o tempo é a imagem do eterno, o futuro viria a ser o movimento da alma em direcção ao porvir. Quer isto dizer que a nossa vida é uma permanente agonia. Quando S. Paulo disse: 'Morro cada dia', não se trata de uma expressão patética. Na verdade morremos todos os dias, e todos os dias nascemos. Por essa razão, o pro blema do tempo toca-nos mais do que todos os outros problemas metafísicos. Estes são abstractos, ao passo que o tempo é o 'nosso' problema. Quem sou eu? Quem é cada um de nós? Talvez o venhamos a saber. Talvez não. Entretanto, como disse Stº. Agostinho, a minha alma arde por sabê-lo" (J.L. Borges, "O Tempo", in Borges Oral, p. 86-87).
Daí que o que aqui temos sejam fragmentos de Passado, momentos de Presente. É este o nosso Património para defrontar o Futuro. Só tendo esta "consciência de si", e, com ela, podemos perspectivar melhor o que queremos. E, o que queremos, é a grande questão para este rincão. Plantar tudo de floresta, deixar aqui um motel, um restuarante e uma estação de serviço (gasóleo, gasolina, gaz ou hidrogéneo ou electticidade para carregar o automóvel do transeunte acidental) e irmos irmos todos embora, sabe-se lá para onde? para a "Urbe" morrer de tédio ou de stress, e, entretanto, ir morrendo aos poucos da saudade (cá está a memória outra vez) do dito cujo "locus" sagrado, até que as gerações seguintes de mutantes se olvidem de vez do som do vento nas giestas e vivam felizes desmemorializados?
Pois, talvez alguém perceba, finalmente, que esta "chachada" se calhar tem um objectivo... pode ter, mesmo não havendo uma intencionalidade consciente - e não houve, que o diga o Pai-fundador dos "À descoberta..." - porque mesmo os mais pequenos gestos se suportam numa "theoria" que é toda a nossa vivência, melhor, conjunto de vivências. Por isso laboravam em erro os latinos, quando em resposta aos velhos filósofos gregos e fazendo alarde do seu espírito prático, diziam: "primum vivere, deinde philosophare". Filosofamos de toda a maneira. Mesmo quem alarvemente disser que "para trás mija a burra", e que "o Pachado não interecha, 2que augas pachadas num mobem moinhos", que "o que importa é dixcutir o Futuro", está a exprimir uma filosofia, a sua! Discutível, como todas.
Mas vamo-nos encontrando por aqui, que o Blog também pode ser uma espécie de Jardim da Academia.... por onde possamos deambular e dar largas à Imaginação - cuja falta é a verdadeira raiz da Crise. De todas as Crises.
Abraço,

P.S. - Como alguém poderia dizer: ora lá está o gajo a armar-se! - aqui ficam estas bocas como Anónimo, pois as "bocas", parvas ou nem por isso, podem existir independentemente do sujeito. - Esta é das tais situações em que aceito o anonimato: sem fulanizar, ou atacar objectivamente ninguém (só ideias para o ar).

Anónimo disse...

Caro Anónimo
À contraluz talvez lhe adivinhe a identidade, o que não é importante - de qualquer modo as ideias circulam ,como bem diz, independentemente da assinatura, esse é o mérito e o recurso do eterno devir. O pensamento vai sempre adiante da acção e com ela interage, ao inverso do que uma certa dialéctica propõe .
Há realmente aqui um espaço de memória que alguma interioridade cultural proporciona - a própria "diáspora" ( termo
difícil que o ciberespaço anulou)só se entende actualmente em termos de exílio cultural, e esse é fruto desta terrível civilização imediatista. O que hoje nos comove, amanhã abominamos. A morte vê-se em directo. A guerra vive-se ao vivo. O culto do supérfluo impera.Vive-se no horizonte do agora.
De tal modo que estes pequenos sinais de um "certo" tempo e de um "certo" espaço mais nos congregam , porque são referenciais. Chamem-lhe raízes se quiserem.
E é aqui que este e outros espaços adquirem significado. Porque abrem um outro espaço muitíssimo mais vasto e enriquecedor que é o da solidariedade, da humanização
e da verdade .
Também um abraço, quem quer que seja.
Daniel de Sousa

Anónimo disse...

Sim, caro Daniel, Anónimo ou Antónimo, pouco interessa.
Sobre o que diz "...exílio cultural, e esse é fruto desta terrível civilização imediatista. O que hoje nos comove, amanhã abominamos. A morte vê-se em directo. A guerra vive-se ao vivo. O culto do supérfluo impera.Vive-se no horizonte do agora", está tudo em dois livros fenomenais saídos há já uns anitos, ambos de autoria de um certo Lipovetsky: "A Era do Vazio" e o "Império do efémero"... Talvez a marca da pós-modernidade...
uma "aldeia global" que não é "aldeia", é "cidade", metrópoles e macrópoles, onde o descartável, a começar pelos valores, acabando nas referências.
E, talvez por isso, aplicando-se a 2ª Lei do Movimento de Newton, toda a acção gera uma reacção igual e em sentido contrário... igual ainda não é... mas é natural que comece a sentir-se já um bocadinho esta necessidade de uma geo-referenciação em direcção ao nosso Ser, o nosso Norte... (e, no caso de Moncorvo, fosse lá porque fosse, talvez pelo gigantesco magneto que é o Roboredo com os milhões de toneladas de Ferro/hematite, mas tb magnetite, que cá dormem,
a verdade é que tendo eu deambulado muito tempo, como o outro, "por aí", acabava por dar sempre comigo com o nariz virado para esta montanha, como se fosse a agulha de uma bússula... ).
Confronto-me com o problema da subsistência aqui, como muitos por cá. Até que ponto a força centrípeta interna aguentará os factores externos?
Até que ponto não voltarei à Diáspora, que, ao contrário do que diz o ciberespaço não anulou, ou antes, só anulou virtualmente. Porque podemos, por um blogue, mandar-lhe as imagens da neve na serra, ou os campos da Vilariça, ou as memórias do Leva-leva... Mas é diferente o sentir os espaços, o frio, o sabor dos grelos das nabiças cozidos com um fio de azeite ali de baixo, da Cooperativa, com uma batatinha cozida com uma alheirinha assada, ainda caseira, feita às escondidas das ASAE's...
Bem, talvez como diz o Rogério, parece que, indo ao encontro do sinal dos Tempos, este blogue está a "desenhar uma identidade para Moncorvo". Seguramente essa identidade sempre existiu e existe, mas, tal como num título de Pirandello, era uma personagem (ou, ao momento, cerca de 10.00 0 personagens -ainda serão??), em busca de uns "autores" (ou, quiçá, uns "boqueiros", ehehe).
Abraço,
do Antónimo (à contraluz)

Anónimo disse...

Adenda:
No 1º parágrafo, onde se diz: "onde o descartável, a começar pelos valores, acabando nas referências...", faltou acrescentar: ..."são a imagem de marca!"
- peço desculpa por mais uma outra gralha, que se devem ao adiantado da hora e às letas miudinhas.
Boa semana para a malta toda, votos deste Anónimo, ou Antónimo, como quiserem.

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