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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Livro - "Jardim da Alma", de Maria da Assunção Carqueja

Procurando dinamizar a Biblioteca do blog (secção "Livros e Escritores") apelamos a que se coloquem na "montra" as novidades bibliográficas (ou mesmo obras saídas há algum tempo) que sejam de autoria de moncorvenses ou de autores que, embora não sendo daqui originários, versem sobre este rincão.
Porque alguém nos desafiou, há pouco tempo atrás, a postar aqui algo mais de autoria de Maria de Assunção Carqueja, iniciamos esta secção com o seu mais recente livro, de poesia, neste caso, intitulado: "Jardim da Alma".


Maria da Assunção Carqueja nasceu no Felgar, no nosso concelho, licenciou-se em Ciências Histórico-filosóficas na Universidade de Coimbra, tendo exercido a actividade docente, primeiro no ensino liceal, depois orientando estágios para formação de docentes do Ensino Secundário. Autora de diversos trabalhos de investigação, alguns em parceria com seu marido, o Prof. Doutor Adriano Vasco Rodrigues, como por exemplo o estudo das ferrarias do concelho de Torre de Moncorvo (1962), trabalhou no Instituto de Investigação Científica Tropical e, mais tarde, como técnica da União Europeia (Bélgica), no âmbito da metodologia para o ensino da Filosofia. É membro da Associação Internacional dos Professores de Filosofia, sendo autora de livros e artigos nesta especialidade. No que respeita à investigação histórica sobre o nosso concelho, destacamos a sua tese de licenciatura, intitulada "Subsídios para uma monografia de Torre de Moncorvo" (Coimbra, 1955), recentemente revista e publicada, com o título Documentos Medievais de Torre de Moncorvo (ed. da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, 2007), e a monografia do Felgar (2006), em parceria com o Prof. Adriano Vasco Rodrigues. No domínio da poesia, escreveu:
- Versos do meu diário (sob o pseudónimo de Miriam), publicado em 1978,
- Porquê mais que nada, 2002
- Os tempos do tempo, 2005, e, finalmente:
- Jardim da Alma, saído em Dezº de 2008.
Estes últimos livros têm como editor Adriano Vasco Rodrigues e o patrocínio da empresa Carqueja Almonds (exportadora de frutos secos), gerida por Jorge Carqueja Rodrigues, filho da autora.

O prefácio de Jardim da Alma coube ao escritor Mário Cláudio (que, para quem não sabe, tem raízes no concelho de Freixo de Espada à Cinta). Sobre a temática e expressão poética de Assunção Carqueja assim escreveu o ilustre prefaciador:"As linhas de poesia que Maria da Assunção Carqueja Rodrigues nos propõe, privilegiando o soneto como forma comunicante por excelência, decorrem do padrão das grandes inquietações do ser, com o qual historicamente se tece a manta de letras mais duradoura em que nos inserimos"(...) E, mais precisamente sobre este livro, diz: "o fresco ramalhete de afectos que o livro nos oferece, entrelaçados na recorrência da obsidiante reflexão metafísica, cobra acrescidas energias do exercício de uma memória que revisita os lugares de infância, e os converte em sinais tranquilizantes, a marcar o caminho dos 'peregrinos perdidos em qualquer lado'. São as lucilações de uma certa ruralidade transmontana, avistadas no plano em que, 'fundindo-se presente com passado', se experimenta a proximidade de uma infinitude, postulante da vitalíssima fonte onde medos e fracassos se consumam. Também aqui o que se pensa e o que se sente se congregam no casulo em que a alma exulta, princesa acontecida no meio do seu jardim".
Poderíamos seleccionar algum poema mais de índole filosófica, de reflexão pessoal sobre o devir, ou inquietações pessoais da autora, que fosse mais ilustrativo da sua "poiesis". Optámos, no entanto, por razões óbvias, por este preito de homenagem à nossa vila:

MONCORVO
Com seu denso arvoredo
era uma linda serra,
a serra do Roboredo...
E que fértil era a terra!

Entre o monte e o Sabor
cedo se organizou
um povo trabalhador
que Moncorvo se chamou!

O corvo, Deus dos ferreiros
tornou-se o Deus do castelo,
foi bandeira dos guerreiros
que vieram defendê-lo!

Feiras francas se faziam
protegidas pelos reis
que, na vila, bem sabiam
terem vassalos fiéis...

Aos trabalhos dos louceiros,
aos vinhos e cereais
juntavam-se os dos ferreiros
e ainda muitos mais!...

Corria água das fontes
nas encostas e caminhos
e sempre vinha dos montes
a música dos passarinhos!


A bela capa do livro Jardim da Alma, é de autoria de Isabel Rodrigues Konrad, filha da autora.

5 comentários:

Wanda disse...

Lindo poema de Maria da Assunção Carqueja.
Nota-se o amor com o qual ela escreveu os versos!
Tenho o livro que conta parte da história de Moncorvo,
"Conheça a Nossa Terra" de Virgilio Tavares-editado em 1990.
Tenho também um livro escrito pelo mesmo autor "Lousa História e Tradições"
Nos dois livros estão o hino da Lousa:
....................
Lousa querida
Nosso tesouro,
Bem alto erguida
Por sobre o Douro
Teus horizontes
São sem rival
Em trás os montes
E em Portugal

Tu possuis miradouro de encantos
Panoramas sem par no país
Só quem vive em teus doces recantos
Minha Lousa ,é deveras feliz

Dos Remédios ás festas brilhantes;
Quando chega o fulgor do verão
Vêm, Lousa, teus filhos distantes,
Em arroubos de fé e paixão!

O teu povo é bairrista e sem medo!
São Lourenço é teu protector!
Terra farta de azeite e vinhedo.
Minha Lousa, meu sonho de amor!

Arthur de Carvalho

----------------

Não tem hino que não venha cheio de paixão, e nem quem o cante sem que se marejem os olhos!

A todos do blog, abraços!

Wanda

São Paulo-12 de fevereiro de 2009

Anónimo disse...

Nesta busca das origens recordo aqui o que Rentes de Carvalho referiu uma vez que delas não se conseguia libertar e, estando longe, se considera um homem dividido entre dois mundos- a sua terra de origem e a sua terra de vida.
Declinando a saudade, palavra que não faz parte do seu vocabulário literário , prefere seguir em frente. O apelo das raízes tem mais a ver com questões de identidade ou, como também disse ," é a aceitação de quem sou e do lugar donde venho".
Aqui o subscrevo inteiramente.
E, noutro registo, gostava de citar Manuel da Fonseca ." O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo (...)todas as cores todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta".
Prova de que a poesia , quando o é, intervém e transforma, superando a emoção pelo gesto e a forma pela acção.
Daniel de Sousa

N. disse...

Caro Daniel, se é apreciador do grande escritor que é Rentes de Carvalho (o Desconhecido-dos-portugueses-que-é-sucesso-na-Holanda), então acompanhe o seu blogue:

http://tempocontado.blogspot.com/

Informo que em Junho proferiu aqui, no auditório do Museu do Ferro, em Torre de Moncorvo, uma excelente conferência sobre as relações entre Portugal-Holanda. Saíu, finalmente, editado em português e em Portugal, com a chancela da Quetzal, o livro "Com os Holandeses", o seu grande best-seller no país das tulipas, com cerca de umas 20 edições, creio eu, desde 1972. - A outra edição que esta obra teve em português, foi impressa na Holanda! - Adianto, já agora, que está prevista a saída de uma recensão a Com os Holandeses, na edição do Expresso do próximo dia 21.
De resto, Rentes de Carvalho é um grande amigo de Torre de Moncorvo, onde vem amiúde quando se interna na sua tebaida dos Estevais (ou "Estebaida") de Mogadouro . Passou por cá o Natal, onde assistiu à partida do seu grande amigo Dr. A.Pimentel, como aqui noticiámos no blog, e, mais recentemente, regressou à Holanda, devido a problemas de saúde de que, esperamos, esteja já restabelecido, fazendo votos de um breve regresso.
É um vulto que merece ser aqui mencionado no blog, na nossa secção literária. E, com um bocado de jeito, vamos tentar q seja nosso colaborador, pois sabemos q é um aficcionado da blogosfera e da internet. Daqui lhe enviamos, desde já, um forte abraço,
N.

Júlia Ribeiro disse...

Os montes, a terra, a água da fontes, os caminhos e as encostas, a vinha, as searas, os ferreiros e os oleiros ... a singeleza que é também a fibra do poeta e do povo trabalhador , o povo de Trás-os-Montes.
Obrigada, Dra.Maria da Assunção Carqueja .

Júlia Ribeiro

Anónimo disse...

É fácil gostar de uma terra como o Felgar. Tem encantos para nos encantar de forma definitiva.
Já não é tão fácil dizê-lo, escrevê-lo, manifestá-lo da forma superior como a autora o faz.
Daí a minha vénia e o meu aplauso!

A. Manuel

Declaração de interesses: sou felgarense, obviamente :D

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