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quarta-feira, 4 de março de 2009

“O Roboredo” de Campos Monteiro (continuação)

O poeta evoca aqui, bucolicamente, as paisagens que se divisam da serra do Roboredo, a partir de uma casa onde afirma que passou a sua infância (será que viveu mesmo aí, ou seria uma casa de campo onde a família ia amiúde? - era interessante determinar qual). Decerto não seria muito longe da capela de N. Srª da Conceição, a outra “casa” (que se imagina próxima) onde diz que mora “a Virgem Mãe de Deus”.
Fala ainda de um surto de febre-amarela, ocorrido nos meados do séc. XIX, que vitimou muita gente (sendo muitos enterrados junto da dita capela). Prolongando as pestes medievas, estas epidemias, tais como pneumónicas, tuberculoses, carbúnculos, tifos, febres palúdicas (ou sezões), etc., eram frequentes, de tempos a tempos, provocando grandes mortandades, tendo chegado ainda aos inícios do século XX – só a generalização das vacinas a partir dos anos 40-50 foi debelando esse problema.

"Ouvia-se na vila o toque das trindades..." - ao fundo as "ribas do Sabor" (foto N.Campos)

Mas passemos a palavra ao Dr. Campos Monteiro, então um jovem médico de férias na terra natal:
(…)
São léguas de terreno. E em tal distância,
só duas casas sob o azul dos céus!
- Duas casas banais, pobres, sem importância…
N’uma delas passei a minha infância.
Na outra mora a Virgem Mãe de Deus.

Velha Casa da Serra! Que saudades!
Do teu balcão, que lindo era o sol-pôr!
Ouvia-se na vila o toque das trindades,
e o fumo que subia das herdades
envolvia num véu as ribas do Sabor!

Nas montanhas da Lousa o sol caía,
'inda toucando de oiro o Cabeço da Mua…
A Vilariça, exangue, adormecia…
Vinha o crepusc’lo… terminava o dia…
- silêncio enorme!... e despontava a lua…

Lá vejo ao lado a mancha verde luzidia
Das figueiras do cimo-do-pomar,
às quais, quando criança, impávido subia,
enquanto em baixo meu avô fingia
que dormitava, pr’a não me ralhar.

Dentro do souto vejo ainda o bardo
Para o rebanho à noite se acolher.
D’aquele sítio que lembranças guardo!
Foi ali mesmo que meu tio Eduardo,
Quási brincando, me ensinou a ler!

Da Conceição, ao fundo, eis a capela,
com ar de mágoa e de desolação.
Há meio séc’lo já que houve a febre amarela.
Enterravam-se os mortos junto dela,
e ficou assim triste desde então…

Quando eu passava no caminho em frente,
a minha mãe mandava-me ajoelhar,
- e de mãos postas, fervorosamente,
rezava ainda pela pobre gente
que a epidemia veio ali matar!

O sol já vai em meio da subida,
e o meu olhar, ansioso, não descansa.
A saudade é uma dúlcida bebida!
Recordar é viver de novo a vida,
e eu sinto-me hoje inda uma vez criança!

(continua)

4 comentários:

JORGE DELFIM disse...

Novamente o Nelson a deliciar-nos com mais uns poemas de Campos Monteiro.
Muito Bem!
É sempre bom ler ou reler algo escrito por algém na nossa região.


Jorge Delfim

Wanda disse...

Olá!
O escritor Campos Monteiro descreve sua terra e sua gente na poesia, a maneira de tornar tudo mais bonito!
O belo está nos olhos de quem vê, é preciso reconhecer que há poesia em tudo, o viver por sí só já é poesia.

Mário Quintana é meu poeta preferido, ele escreveu:
"Há certas coisas que não haveria mesmo ocasião de as colocarmos sensatamente numa conversa – e que só num poema estão no seu lugar. Deve ser por esse motivo que alguns de nós começaram, um dia, a fazer versos. Um modo muito curioso de falar sozinho, como se vê, mas o único modo de certas coisas caírem no ouvido certo.”

Quem não gosta de ver sua terra descrita com tanta emoção como nos versos de "O Roboredo"?
Emociona!

Abraços a todos do blog e com agradecimentos ao Nelson por esta oportunidade de conhecer tão rica literatura.
Wanda
São Paulo, 5 de março de 2009

Anónimo disse...

Uma das facetas pouco conhecidas de Campos Monteiro foi a da revista ( ou magazine como lhe chamavam na época )Civilização que ele fundou com Ferreira de Castro em 1928. Eu tive ocasião de disfrutar de uma colecção de Civilizações ( era uma revista mensal) em casa de meu Tio Daniel em Lisboa onde vivi parte da minha infância e adolescência. Ali se guardavam ciosamente essas já velhas revistas e foram para mim o meu grande primeiro contacto com a grande literatura e como tal devorava ,literalmente , as páginas escritas por Malheiro Dias, Aquilino, Dantas e muitos outros e alguma colaboração poética de Florbela Espanca.Lembro-me também das magníficas ilustrações do Bernardo Marques e dos anúncios das bolachas...
Tudo desapareceu entretanto na voragem da vida.
Mas sempre quero aqui dizer sobre Campos Monteiro que lhe prefiro de longe o Saúde e Fraternidade, pela formidável construção satírica e de crítica social que só tem paralelo talvez no melhor Eça.
Abraços aos blogueiros!
Daniel

n. disse...

Obrigado Wanda, por me ter apresentado o Mário Quintana; sou pouco versado em literatura brasileira e, como tal, desconhecia este autor. Numa breve busca descobri a sua vasta colecção de máximas e epigramas.
E a sua transcrição foi certeira: "há certas coisas que não haveria mesmo ocasião de as colocarmos sensatamente numa conversa – e que só num poema estão no seu lugar. Deve ser por esse motivo que alguns de nós começaram, um dia, a fazer versos".
- neste caso Campos Monteiro, embora supostamente contando coisas da sua infância e do seu estado de alma ao amigo, ele está a desenvolver um solilóquio. Ora a poesia popular usa a rima como forma de rememorar coisas; é como a canção, o ritmo e a melodia ajuda a fixar, a memorizar. Os Aedos da Grécia antiga memorizavam milhares e milhares de versos, com a história da guerra de Tróia, que, pretendem alguns, Homero apenas compilou. É um processo semelhante aos "caminhos do Sonho", os percursos cantados dos aborígenes australianos (cf. o Canto Nómada, de Bruce Chatwin, leu?) - assim terá começado a poesia: rememoração de percursos reais ou temporais, viagem ao mundo dos antepassados, através de mitos contados/cantados de anciãos para netos, ao redor da fogueira, ou em rituais propiciatórios, mágicos, evocativos, festivos... E a poesia continua sendo tudo isso, né?
- Quanto à colecção das "Civilizações" do Daniel, realmente isso é um tesouro!! pelo grafismo de época, como pelos conteúdos literários e descritivo-geográficos. Uma boa intelectualidade por lá passou, como p. ex. Teixeira de Pascoais (creio eu), além dos q nomeia. E de onde se prova que o nosso C.M. até era um espírito aberto e respeitado por democratas e republicanos convictos, como Ferreira de Castro Aquilino R., que colaborou no volume de homenagem póstuma coordenado por Carlos Passos, com um texto muito simpático. Divergências à parte, estes homens respeitavam-se e colaboravam conjuntamente em projectos como esse da "Civilização". Nunca li o "Saúde e Fraternidade", mas do que tenho lido sobre esse livro converge com o que diz o Daniel. Todavia acho que o sucesso momentâneo que teve, à época, ditou a sua "morte" póstuma. A intelectualidade de esquerda viu no anti-bolchevismo do livro (e, pretendem alguns, um certo mussulinianismo), uma reaccionarite grave, que, aliada à persistência monárquica e não-adesiveira(como certos alguns, e, digo eu, mais execrável) do autor, o condenou irremediavelmente ao ostracismo e ao esquecimento. Do ponto de vista literário, acabou prisioneiro de um formalismo camiliano serôdio, sem os arrojos dos jovens Aquilinos e Ferreira de Castro (este também hoje incompreensivelmente esquecido), ou mesmo sem os arroubos (mais no campo da poesia) do seu contemporâneo e quase conterrâneo Guerra Junqueiro. Em todo o caso, pensamos que é útil resgatar do esquecimento as páginas que dedicou à nossa terra, Torre de Moncorvo, porque são quadros vívidos de uma época, em muitos casos ressumados de nostalgia e carinho pelo rincão que sempre considerou como seu, apesar de ter saído dele pela força da vida, como muitos dos nossos conterrâneos, embora transportando-ono coração. É essa identidade de situações, tantos anos volvidos, que aqui nos interessa. Deixo-o claro para que não haja "confusões".

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