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sábado, 14 de março de 2009

Saúde e Fraternidade

Muito se tem falado e escrito sobre Campos Monteiro. E muito pouco sobre o seu livro de maior êxito, "Saúde e Fraternidade". Publicado em 1923 ainda sem as caricaturas de A. (Américo) Amarelhe que só aparecerão na capa na versão definitiva da sátira, não sei se na segunda ou terceira edição, o "Saúde e Fraternidade" chegou a vender 40 mil exemplares, a ponto de Aquilino Ribeiro reconhecer que foi um dos livros de maior êxito no primeiro quartel do século XX. Após um longo esquecimento, só em Dezembro de 1978, nas Edições Templo, é que saiu a última edição da "Saúde e Fraternidade ", baseada na sétima e décimas edições, incluindo ilustrações de Amarelhe. Contudo, numa edição pouco cuidada, enganam-se na data do preâmbulo dos editores. Onde, na primeira edição, Campos Monteiro escreve 1993, eles erram escrevendo 1939.
Tanto a primeira edição com a última (eu tenho ambas) serviram para uma consulta de que vou dar alguns apontamentos neste post.
"Saúde e Fraternidade (História dos Acontecimentos Políticos em, Portugal desde Agosto de 1924 a novembro de 1926), Livraria Civilização Editora, Rua das Oliveiras, 75, Porto)" é um libelo contra os últimos anos da República e um sonho, jamais realizado, da reintauração do regime monárquico através do levantamento popular dos camponeses do Minho e e Trás-os-Montes contra um Estado Bolchevique. Já lá iremos. Escreve Campos Monteiro, numa espécie de advertência preambular: "Este livro há-de ser escrito daqui a 70 anos. Por um processo especial de adivinhação, já conhecido de resto, pelos que se dedicam ao estudo do Iluiminismo, conseguiu quem o dá a lume saber a maneira como os historiadores do século XX hão-de encarar os sucessos políticos a que nós, homens de agora, vamos assistindo (...) Publica-se a obra tal como saiu dos lábios do Vidente, da nossa pena de simples secretário seu, tal como há-der sair dos prelos de uma imprensa do Porto, em certo dia de Outubro de 1993".
O prefácio serve para criticar Afonso Costa, um dos alvos predilectos de Campos Monteiro, a par de Júlio Dantas e Lopes Cardoso.
Com uma capacidade satírica notável, ridiculariza, ao jeito da "Queda de um Anjo", de Camilo, o Parlamento e o anticlericalismo dos primeiros anos da República. A título de exemplo critica e diverte-se com o facto de o deputado (mais tarde primeiro ministro) Sá Pereira, se rebelar contra a Igreja, considerando casus belli a erecção do Coração de Jesus no morro do Corcovado (Rio de Janeiro). Júlio Dantas, o cortesão médico/ escritor da "Ceia dos Cardeais" é dado por Campos Monteiro como o exemplar, por excelência, dos adesivos. De monárquico chegará a Comissário dos Sovietes, mas quando estes são derrotados começa a escrever a história de Ilustre Casa de Bragança... O Almada (Negreiros) é que o topou. E o Mário Viegas também, declamando o "Manifesto Anti-Dantas".
Como Vidente, ou seu secretário, imagina um Governo revolucionário em que "não houve soldado que não ficasse sargento". São encerrados os centros políticos que não sejam radicais ou socialistas, redobra o "velho ódio às crenças cristãs", o Dente d'Ouro, o sargento Olímpio, da Marinha é libertado do forte de Elvas e trazido em apoteose para Lisboa. Diga-se que o Dente d'Ouro, era natural da Cardanha e esteve na Noite Sangrenta em que foram mortos António Granjo, primeiro-ministro, natural de Chaves, Machado dos Santos, o herói da Rotunda, e Carlos da Maia. O Dente d'Ouro seria o matador, encomendado e pago pelo padre Lima, também da Cardanha como mais tarde terá confessado a Berta Maia, viúva de Carlos da Maia que, com frequência, visitava na cadeia o assassino do seu marido, numa investigação quase heróica. O livro de Berta da Maia só saiu em 1926, exactamente na altura de "revolução do 28 de Maio", o que deu a que tenha ficado na penumbra durante todos estes anos. Espero que o centenário da República seja a data ideal para uma reedição digna.
Continuando: segundo as profecias de Campos Monteiro teria sido também libertado, Júlio Costa, o assassino de Sidónio Pais. Não deixa de ser curioso que o regicida Alfredo Costa seja da mesma terra, Garvão (Alentejo) que o assassino de Sidónio Pais, ainda que, com o mesmo nome, não fossem nada um ao outro.
Mas é o ministério de Procópiode Freitas que é alvo da grande sátira (é obrigatório reconhecê-lo), ainda que de um reaccionarismo incomodativo, no mínimo. Salienta que o nacionalismo lusitano onde navegavam os monárquicos sob a tutela ideológica do integralista António Sardinha sonhavam com o fascismo de Mussolini.
Não resisto a transcrever a demissão de três ministros de Procópio de Freitas. Textual:"... O País estava descontente com o ministério; e não só o país: o próprio partido,-sem reparar em que , se o governo nada fizera, fora porque o partido o não deixara. Nesta condições, o gabinete punha nas mãos do chefe do Estado a solução da crise, oferecendo-lhe desde já a sua demissão.Bernardino Machado continuava anediando a pêra e cofiando o bigode. Os seus olhos, agora, cravavam-se no ministro das Finanças.
- Suponho não ser preciso tanto - disse depois de uma pausa. - São três apenas os ministros que desgostaram a opinião pública: o das Finanças e Trabalho, o da Instrução e o da Guerra. E não será necessário apelar para a sua dedicação ao regime quando se reconhecer a impossibilidade...
Aragão e Brito, Camilo de Oliveira e Veiga Simões ergueram-se, depondo as suas pastas sobre a secretária presidencial.
- Muito bem! - disse Bernardino Machado, com o mais amável dos seus sorrisos. - Nem outra coisa seria de esperar da isenção e inteireza de carácter que sempre me aprouve reconhecer em vossas excelências.
E chamando o seu secretário, antes que os três se arrependessem ou algum dos presentes alvitrasse qualquer outra solução:
- Meu caro Ângelo! Faça aí a nota oficiosa de que os ministros das Finanças, Instrução e Guerra solicitaram a sua exoneração, e mande-a já para a Imprensa.
Ângelo Vaz ia retirar-se, ajeitando as lunetas, quando Bernardino Machado tornou:
- Ouça. Não se esqueça de pôr que Sua Excelência o Presidente insistiu com os ilustres estadistas para que retirassem o seu pedido, sem conseguir demovê-los da resolução tomada.
E voltando-se para Procópio de Freitas:
--O senhor presidente do ministério terá a bondade de mandar lavrar imediatamente os decretos, sem esquecer as palavras sacramentais, que desta vez são de absoluta justiça: "serviram com zelo, comprovada dedicação e acendrado patriotismo".
Os três ministros demissionários iam a retirar-se quando se abriram de par em par as batentes de uma porta e por ela entraram dois criados com bandejas de prata na mão. E o presidente cordialíssimo:
- Então já se retiram? Não tomam uma chávena de chá? Um cálice de vinho?
Como os outros recusassem, agradecendo, e marchassem para a saída, o chefe de Estado terminou, de chávena na mão e roendo uma torrada:
- Que pena terem tanta pressa! Mal imaginam como estão deliciosas estas torradas, com manteiga da minha fábrica de Coura...
***
A notícia da demissão dos três ministros acalmou o país. Ninguém lamentou a sua queda, salvo eles próprios, que deram um cavaco medonho com a história. Aragão e Brito, então, estava furioso. Aquela piada presidencial da manteiga provava-lhe que fora especialmente o monopólio desse produto, altamente prejudicial para a a indústria dos lacticínios do norte, quem o deitara a terra. E comentava para os companheiros de desgraça, no automóvel que os reconduzia ao centro da cidade:
- Todos os ministros caem escorregando numa casca de laranja. Nós escorregamos num pacote de manteiga.
- Escorregássemos fosse no que fosse, a questão é que caímos - respondeu o tenente-coronel Camilo de Oliveira.
- Mas não ficaremos assim!Eu pelo menos! - disse Veiga Simões. - Amanhã corro a filiar-me no partido sindicalista.
- E dois! - fez Aragão e Brito.
- E três - concluiu o ex-ministro da Guerra.
Assim foi, de facto. Dois dias depois os jornais noticiavam a adesão dos três estadistas ao anarquismo."

Poderá parecer excessivamente longo este excerto narrativo de Campos Monteiro. Mas exemplifica bem o estilo de Campos Monteiro, a sua capacidade de "inventar" situações e recriar diálogos, não fosse ele um homem que escrevia muitas obras para o teatro e operetas. E depois tem o registo do que ele chama as trouvailles. Ainda o francês era a língua nobre.
Recorda, salivando de satisfação, os dias turbulentos do Parlamento, em que havia pancadaria a sério, deputados ferrabrás, para quem estes Eduardo Martins e Afonso Candal não passavam de meninos de coro. Não deixa de brincar com os nomes dos ministeriáveis. E não faz por menos quando sabe que o ministro de Guerra é o Manuel Maria Coelho e o do Interior, Alfredo Gusado. Escreve ele que a má língua lisboeta chamou logo a este ministério o "ministério do coelho guisado".
Diverte-se com a questão do amor livre, em que cada deputado poderia votar "segundo a sua consciência ou o seu temperamento"
Noticia que Trindade Coelho aderiu ao partido monárquico.
Mas a sua sanha vai para Lopes Cardoso, conterrâneo seu, cuja casa, segundo me dizem, seria aquela da Rua do Cano, actualmente na posse do meu amigo Chico Sendas. Seria interessante saber as causas desta aversão a Lopes Cardoso.
Afirma Campos Monteiro que o acordo dos radicais e conservadores para uma lista não agrada a Lopes Cardoso " com o fundamento de que sendo o bolchevismo uma criação da grande judiaria europeia, e pertencendo ele à raça judaica, não lhe ficava bem combater os sindicalistas".
Esta ideia de bolchevismo ligado à judiaria do grande capital, alastrou e chegou mesmo à Alemanha de Hitler com uns apócrifos "Protocolos de Sião", escritos no princípio do século XX, justificativos de alguns pogroms e que teriam chegado a Paris pela mão de uma duvidosa condessa russa.
Ter-se-á então desenvolvido um grande movimento grevista, enquanto a fome alastrava pelo país. Campos Monteiro dramatiza ao máximo a situação. Seria interessante ( e é pena que agora não tenha oportunidade e sobretudo tempo) cotejar a verdade histórica com a "invenção" de Campos Monteiro.
Assim, o proletariado, os camponeses, numa remake da ocupação do Palácio de Inverno e mais tarde, já em 1975, do cerco e momentânea ocupação da Assembleia Constituinte pela Cintura Industrial de Lisboa, Campos Monteiro imagina o Parlamento nas mãos dos populares com um deputado, Moura Pinto, ainda a reagir, exclamando: " Estamos aqui por mandato do povo e só sairemos desta sala na ponta das baionetas.
- Vocês saem mas é na ponta dos nossos sapatos, respondeu um popular juntando o gesto à palavra".
Bernardino Machado foge de Belém e refugia-se no quartel do Carmo. Procópio de Freitas desfralda o pavilhão da república social no topo do navio. A marinha revolta-se. São criados os comissários do povo e o Alto Conselho dos Sovietes. Os jornais deixam de existir. Os estrangeiros fogem do país. A marinha mercante abandona os nossos portos. São cortadas relações diplomáticas e comerciais. Portugal fica entregue a si mesmo. o Governo russo reconhece a "república sovietista (sic) portuguesa". O Diário da República começa a chamar-se "Monitor da República dos Sovietes". É adoptado como hino a Internacional. É proibido qualquer culto religioso. São extintos todos os bancos. É decretada a pena de morte. O país é dividido em seis províncias. A província de Trás-os-Montes começou a chamar-se Kropotkine, o príncipe russo anarquista que pouco ou nada teve a ver com o leninismo, diga-se de passagem, o que parece Campos Monteiro não saber, não entender ou não querer entender.
Segundo o Vidente de que Campos Monteiro é secretário, no Verão de 1925 "havia fome em todo o país". E de novo vem Lopes Cardoso à baila. " O delegado adstrito ao corpo militar enviado a pacificar Trás-os-Montes foi Lopes Cardoso, antigo monárquico, ministro democrático, reconstituinte, nacionalista e radical, enfim tornado bolchevista. Era sua e da sua gente a província que pisava agora, à frente de uma coluna do Exército Vermelho (...) Era bem o homem que tendo sido católico ao ponto de não faltar a uma procissão em Bragança e realista ao ponto de conspirar contra Paiva Couceiro, desatar a desterrar padres e a transferir juízes apenas se viu ministro da Justiça".
Muito mais haveria ainda a dizer sobre este ficcionado regime bolchevique por Campos Monteiro. As marquesas e condessas montaram um restaurante, Alfredo da Silva, o homem mais tarde da CUF, era empregado de mesa, o Teatro Nacional foi transformado em Teatro Lenine e Júlio Dantas começou a escrever peças de "realismo socialista".
Paiva Couceiro revolta-se, mas não tem apoios e regressa á Galiza. Até que o povo do Minho e de Trás-os-Montes começando em Alijó bate o Exército Vermelho e proclama em S. Pedro do Sul a monarquia. E Campos Monteiro, pelos vistos, fica feliz com uma ilusão que nem em 1993 (como se fora um serôdio Orwell) a monarquia vingou. É um livro divertido, para não ser levado a sério mas que de qualquer modo se aprecia pelo talento satírico, pelo reconstruir de situações em que Campos Monteiro é exímio.
Peço desculpa por esta escrita tão apressada, sem jeito nenhum. Quis apenas deixar o registo de um livro que, hoje é tão pouco conhecido.

9 comentários:

Daniel de Sousa disse...

Li a primeira vez o Saúde e Fraternidade na minha juventude, na famosa edição de 1923, que me foi ofertada por um primo afastado , de Vilar Torpim, e professor de Filosofia no Liceu da Guarda e depois no Camões, monárquico convicto e igualmente relapso salazarento que pretendia iniciar-me ( como se viu depois sem sucesso quer num quer noutro)nos respectivos catecismos . Guardo esta edição com estima pelo seu valor intrínseco e pelo respeito pelo meu primo , que não por afinidade ou mera simpatia pela causa. Através da sua leitura não só me convenci do magnífica talento satírico do nosso Campos Monteiro ( facto sobre o qual já dialoguei com o Nelson, neste blog) como sobretudo da honestidade intelectual do Autor , que na monarquia via a salvação da Pátria e a redenção do pântano moral em que ele a via chafurdar. Todavia o tempo deu-me ocasião de reler, em épocas diferentes e com diferentes motos, o texto - e sempre lhe achei ( imagine-se!)razões de fulgurante pertinência em muitos aspectos. Sobretudo na contundência com que desancou os oportunistas , cujo exemplo mais veemente foi Dantas ( Marquesa, isto é descer?), de resto também ulteriormente desancado pelo Almada .
No mais ( e a análise de Rogério Rodrigues refere muitos dos momentos mais notáveis do livro) prova-se que o circunstancialismo é por vezes repetitivo .
Retirada a poeira do tempo, permitindo assim diversos níveis de leitura, é patente pelo menos a charge política apesar do seu tremendo reaccionarismo.
Mas o silêncio tenebroso da ditadura viria em breve a proibir por quarenta penosos anos essa e qualquer outra manifestação de crítica política.
Gostaria de saber se o nosso C.M. se fosse vivo não escreveria então outro livro , porventura
chamado Silêncio e Atrocidades.

Anónimo disse...

Tenho aqui a 8ª edição com uma dedicatória assinada pela mão do autor que diz: "Ao Conselheiro Luiz de Magalhães, com a simpatia e a admiração de sempre, oferece Campos Monteiro".
Adquiri esse exemplar numa livraria no Porto.

A. Manuel

Anónimo disse...

Houve uns Lopes Cardoso em Cedães (quem vai de Mirandela, em direcção a Alfãndega da Fé, antes de chegar a Bornes, como sabemos), disse-me quem conheceu um deles, advogado, mas venderam aquilo tudo, por bom dinheiro, num tempo em que os terrenos agrícolas ainda tinham mercado. Serão os mesmos dos aludidos de Moncorvo, ou primos?

Texto de grande escrita de Rogério Rodrigues, o que acabo de ler - não apenas sobre Campos Monteiro, evidentemente - representativo do que é ser fiel ao «amor das nossas coisas e a alguns que bem o praticam» sem cair, por pouco que seja, em laivos de provincianismo empobrecedor. Claro que a escola do bom jornalismo e a vida da capital abrem horizontes que ajudam ao expurgo do acessório. Todavia, o universal está no quintal, como querem Raul Brandão e outros - nas horas da verdade se vê, pela enésima vez.

Carlos Sambade

Anónimo disse...

"Todavia, o universal está no quintal"
A nossa verdade, vai estar patente ao publico,em Setenbro ,na cortinha da guarda.

Anónimo disse...

"Saúde e Fraternidade", em 6 meses teve 7 eidções; em 1925 teve a 10ª, com 30.000 exemplares; a História de Portugal dirigida por João Medina, ao referir-se a este período, refere este livro e dá à estampa a capa da edição da caricatura do Campos Monteiro feito galaró, tal qual a ilustração deste artigo do Rogério.
Sim, que este "post" é um verdadeiro artigo, de resumo e análise de um livro que, confesso, nunca li, primeiro porque nunca o consegui arranjar, depois porque achava que o conteúdo deveria ser demasiado datado (personagens e factos da época que hoje pouco ou nada dizem, projecções futuristas ditadas por angústias políticas de momento, daquele momento). Isto apesar da curiosidade em querer entender as razões de tamanho best-seller!... Só isto me moveria a procurar o livro e, também agora, esta análise do Rogério, acrescido dos demais comentários. Ah, e ainda o depoimento do Aquilino Ribeiro, este:
"Saúde e Fraternidade de Campos Monteiro foi, com as 'Cartas de D. Carlos', o livro que em Portugal alcançou maior êxito de livraria no primeiro quartel do século. Porquê? Havia nele chiste às razas, caricatura da boa - e boa caricatura significa observação justa e mordaz, uma visão bufa da vida política [bem, aqui o Medina Carreira subscreveria], tudo na fluente e amena prosa do autor. Mas além destes elementos, tão bem conjugados, de triunfo, havia o cansaço do que estava. Aquela sátira correspondia à ânsia de justiça de muitos, ao rancor de uns tantos, e à insatisfação geral. O fundo do português é insatisfeito, embora corra de ilusão para ilusão. Viessem outros deuses. Vieram? Se fizessemos o inventário das provecias de Campos Monteiro, certo que não teve à vista o seu cumprimento, encontraríamos pano para novas e não menos facetas lucubrações. Em sociologia tudo é previsto. Não há leis. O futuro ordena-se como um jogo de disparates. Assim teceu Campos Monteiro aquela sua tão brincada, faceciosa e demoníaca sátira. Quando se fizer um estudo da literatura política destes tempos revoltos encontrar-se-á este nome saudoso. É o mais relevante que tem saído da pena portuguesa sem causar sangue, nem roixas, nem gangrenas, como era condão da pena de José Agostinho de Macedo, flame, estoque, estadulho, tudo junto. - Lisboa, 1935. AQUILINO RIBEIRO", in: Homenagem a Campos Monteiro - Miscelânea de Estudos em honra do escriptor e do cidadão, 1876-1933, ed. Livraria Tavares Martins, Porto, 1943.
Não sei o que será mais notável: se o livro de Campos Monteiro, ou este comentário de mestre Aquilino; Aquilino, o bombista, o compincha dos regicidas, o radical republicano, naturalmente de Esquerda, presta aqui homenagem ao conservador, ao monárquico e ao "reaça"; que lição de Tolerância, a demonstrar que, acima de todas as divergências ou até clivagens políticas, há uma humanidade que nos une, e que conta mais um adversário coerente, do que um "correligionário" vira-casacas (ou "adesivo", como então se dizia)! É claro que é também um desiludido que escreve, "a posteriori", alguém a quem o tempo e a distância relativamente a certas coisas, se encarregaram de conferir uma visão desapaixonada do mundo e da política mundana: "viessem outros deuses. Vieram?", "não há leis. o futuro ordena-se como um jogo de disparates"... Hoje já conhecemos o que, a esse tempo, ainda era Porvir. E podemos dar razão a Aquilino; talvez o escrito do nosso C. Monteiro seja um caleidoscópio grandioso em que juntam estilhaços coloridos da história contemporânea do séc. XX, organizados (como num caleidoscópio) pelo olhar de um "vidente" conservador, perplexo, desiludido, mas, simultaneamente, provocador e "em reacção" às ilusões caseiras do momento e a outras, mais globais, que se esboçavam no horizonte. O "Futuro" é, de facto, um jogo de disparates e não há sínteses ou "fins da história" que lhes resistam. E assim, conforme os tempos, as modas, as lutas, as circunstâncias, também cambiam as fórmulas com que se terminam os escritos oficiosos (que não este):
"Saúde e Fraternidade" e "A bem da Nação" passaram... fiquemo-nos então
"Com os melhores cumprimentos",
n.

Anónimo disse...

Aqui num intervalozinho deu para ler os comentários, em especial o do Nelson. Não tenho a certeza se não será superior, em análise , estilo e ironia, ao do Aquilino...
Quanto ao livro , se o Nelson não o encontrar deixe que eu com todo o gosto lho enviarei - primeira edição , o tal do meu primo .
Abraços
Daniel

n. disse...

Caríssimo Daniel,
Muito lhe agradeço a imerecida generosidade da apreciação do meu comentário sobre este assunto. Já que o que escrevinhei apressadamente(com algumas gralhas, a que chamo já não "lapsus calami", como diriam os latinos, mas antes "lapsus teclae", numa preferível expressão "aggiornata"), não passando de umas simples "bocas" que não chegam aos pés da fina análise e prosa cristalina do escritor de primeira água que é o Aquilino.
Desde já lhe agradeço também o "Saúde e Fraternidade", a ver se é desta que leio o tal "best-seller" daqueles conturbados tempos.
Grande abraço,
N.

Anónimo disse...

Sempre com o devido respeito por opinião contrária, a minha leitura do Saúde e Fraternidade de C.M.,curiosidade atiçada pelas refª. do Abade Baçal e do Mestre Aquilino,deixou-me, à altura, dividido sentimentalmente.
Por um lado, considerei as 1ª. 200 págs.sobre a republica radical muito bem escritas até por o autor ser protogonista que "viveu" essa epoca e que nos revela o que foi tal republica, ou melhor, esta " balburdia sanguinolenta " - Eça dixit -.
Por outro lado, achei a 2ª parte das restantes págs., a da republica social, muito pobre, muito confusa e muito fraca.
Gostei, isso sim, do "Ares da minha serra " que amigo felgarense há boas dezenas de anos me indicou e emprestou para o ler. Se calhar terá sido a refª. ao brasileiro Matias, onde C.M. ficciona um ilustre felgarense, que me fez recordar este livro como imprescindivel à biblioteca de qualquer moncorvense, sem embargo dos 3 contos estarem super bem escritos e que deveriam ser de leitura obrigatória no secundário aos Profs. e alunos naturais .
Obra menor já considero o "Camilo Alcoforado " e a " Miss esfinge " por ser uma historieta de leitura bem para as horas de ócio das moças e donas de casa casadoiras, uma especie ou tipo do Corin Tellado de então.

Pucareiro

Júlia Ribeiro disse...

Tal como ao Daniel, também me aconteceu ler "Saúde e Fraternidade" por insistência de meu pai, monárquico convicto. Tinha então 16 anos, pois andava em Bragança, no 6º ano. Não sabia (não sabíamos) rigorosamente nada da 1ª República, a não ser a data da implantação, por ser feriado e porque o meu pai punha uma bandeira azul e branca à varanda.
Estava esta menina a ler "Saúde e Fraternidade" numa aula de Organização Política, o professor topou, tirou-me o livro, mas sorriu e disse : "Amanhã falo-vos da 1ª República". Era o prof. Fins do Lago, homem de esquerda, que fora parar a Bragança castigado por razões políticas. (E não foi o único).
Pois no dia seguinte falou da 1ª República e no final da aula entregou-me o livro com 3 folhas dactilografadas lá dentro: breves resumos sobre: Machado dos Santos, Afonso Costa, António José de Almeida ... e algo que eu desconhecia por completo : "a noite sangrenta". Daí para a frente já não consegui achar graça nenhuma a "Saúde e Fraternidade" e estava mortinha que as férias chegassem para dizer a meu pai que aquilo era tudo uma palhaçada.
Mais de 15 ou 20 anos volvidos, revisitei o livro. Então apercebi-me que a urdidura estava muito bem concebida : o vidente e o que vai acontecer de Agosto de 1924 a Novº de 26. E a sátira já me pareceu adequada e bem contundente. Há situações hilariantes, como a já referida pelo Rogério, com o Júlio Dantas (que "até cheira mal dos pés, PUM!") a dar início ao seu novo romance "A Sereníssima Casa de Bragança"... Mas cá no fundo, ficou-me a mágoa daquela tirada no final do penúltimo capítulo: "... da grande mentira social que é a Liberdade, irmã gémea da Tirania".
Prefiro o Campos Monteiro dos "Ares da minha Serra",(do Canafrecha e do Caramês), do canto ao Roboredo , aos montes , aos dois rios, às árvores , às gentes simples do campo, à vila em que nasceu.

Leiria, 18.03.09
Júlia

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