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domingo, 5 de abril de 2009

Haverá uma Literatura Transmontana? (2)

O Rogério, no seu excelente post de 28 de Março, intitulado “Haverá uma Literatura Transmontana?”, entre vários nomes de grande importância para a cultura, referiu três de incontestada relevância: Raul Rego, Paulo Quintela e Abade Baçal, destacando o seu extraordinário labor e, sobre eles, terminou com as seguintes palavras “...estas três figuras honram a cultura portuguesa, como transmontanos”. Palavras justíssimas e mais que merecidas.
Tive a honra e, neste caso, também o proveito de ter sido aluna de Paulo Quintela de finais de 1955 a 1961. Foram mais de 5 anos de convivência diária, se às aulas acrescentarmos o TEUC (Teatro dos Estudantes de Coimbra) de que Paulo Quintela, com um grupo de estudantes, foi fundador em 1938.
A literatura alemã, nos longínquos anos 50 era quase totalmente, senão totalmente, desconhecida em Portugal. Paulo Quintela traz até nós génios, grandes lutadores, grandes solitários, resistentes, perseguidos: Goethe, Hölderlin, Rilke, Nietzsche, Brecht, só para citar os seus preferidos. Mas, para mim, era no teatro medieval inglês que se via o grande Mestre: conduzia-nos ao cenário vivo, víamo-nos no meio dos verdadeiros actores, ouvíamo-los falar... Era algo tão espantoso que não arranjo palavras para o expressar.
Isto é apenas uma nota, em jeito de introdução, ao que quero dizer-vos. Chegou-me às mãos no início da semana um livro “Homenagem a Paulo Quintela no Centenário do seu Nascimento”. Trata-se de um conjunto de comunicações, poemas e depoimentos sobre a personalidade e a obra do eminente professor, tradutor, poeta e lutador que foi Paulo Quintela. O livro é editado e publicado pela FLUC (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) e traz a data de 2008, embora a homenagem tivesse tido lugar em Março de 2006. (Na verdade, Paulo Quintela nasceu em Bragança em 24 de Dezembro de 1905. Porém, nestas lides de organizar homenagens, recolher textos e documentos, proceder à edição e publicação, passam, por vezes, largos meses.) Mas o livro aqui está e valeu bem a pena a espera.
De entre as várias comunicações destacarei apenas duas, uma porque nos dá a ideia deste grande vulto da cultura portuguesa, a outra porque foca directamente o homem transmontano.
Dele diz o Presidente do Conselho Directivo da FLUC, Prof. Lúcio Cunha:

“Um dos mais brilhantes vultos da nossa Faculdade, Paulo Quintela, Professor, investigador, poeta, tradutor, homem de teatro, resistente e lutador pela liberdade, foi, porventura, um dos mais completos, produtivos e prestigiados Mestres desta Escola”.(Obra cit. p.20 ).

Por sua vez, António de Sousa Ribeiro diz na sua intervenção:

“Paulo Quintela não detinha apenas a firmeza das convicções, mas também a coragem de as assumir publicamente. [...] e o orgulho com que sempre cultivou a lembrança das suas origens humildes. ‘Não passo de um pobre homem de Bragança, filho de um pedreiro e de uma padeira e neto de um almocreve’“. (Obra cit. p.60).

E termino deixando aqui um poema de Paulo Quintela onde o homem transmontano se revela por inteiro:

Ar não-condicionado

Ar que eu respire há-de ser
-Quente ou frio, não faz mal
–Ar livre. Quero morrer
Respirando ao natural.

Ar do mar ou ar da serra,
Ar de jardim ou de praça,
Ar que nenhum muro encerra
-Livre, que o dá Deus de graça.

Digo:
-Não me condicionem
O ar da respiração!
E mais:
-Não me solucionem
O que não tem solução!

Nem me queiram ajudar
Com oxigénio em balões.
Já disse:
-Quero acabar
Com ar livre nos pulmões.

E em vida não me racionem
Água, vinho, ar livre e pão.
Ar livre! Não condicionem
Minha livre condição.

Abram portas e janelas
Quando estiver pra morrer
Quero ver árvores, estrelas,
E depois apodrecer.

Que quem nasceu como eu
Entre montes de ar lavado
Vai pro Inferno ou pro Céu
-Mas sem ar condicionado.

(Poema inédito de Paulo Quintela)

Leiria, 5 de Abril de 2009-04-05
Júlia Ribeiro

6 comentários:

Wanda disse...

Olá !Gostei do poema.
Os versos muito bem compostos.
Bem apropriado para a minha terra.
Aqui não há lugar público que se vá que não tenha o tal ar condicionado, que é terrível para a saúde, pois na maioria das vezes trazem muita sujeira nos filtros , e que causa doenças respiratórias.
Julia, aproveito o espaço para agradecer publicamente os livros que me enviastes e dizer que estou adorando cada pedacinho da leitura, as vezes até volto a reler um bocadinho atrás para o livro não acabar logo.
Não sou uma critica literária, mas posso dizer o meu parecer á sua escrita segundo a minha sensibilidade.
As histórias prendem a atenção da gente pois é muito comunicativa, carregada de imaginação e de uma qualidade excelente, podendo agradar desde um adolescente até o mais exigente leitor.
Sinto-me agraciada por ter a oportunidade de ler os teus livros.
Com meu paizinho muito doentinho, fico perto dele a ler nos momentos em que ele dorme.
Uma abençoada semana !
Abraço a todos do Blog

Wanda

São Paulo,5 de abril de 2009

Anónimo disse...

Jùlia , estas não passaram pela censura do Dr. Ramiro, mas eram ditas por nós nos corredores e pátio do colégio:
I
"Atenção ,muita atenção
Vai-se realizar um leilão
E o bigode da dona Pera
Vai dar um dinheirão.
II
Chova a cântaros,chova a potes
Mas ponham fora da aula de ciencias
A chata Lucília Lopes.

Os textos não abonam a favor da veia poética moncorvense, mas dizem muito do seu sentido de humor.
H.E.j.

Anónimo disse...

E a antologia dos poetas de Moncorvo ?Ficou no tinteiro!?

Marquinhas dos Remédios

Dia seis ,no almoço do colégio, é uma boa altura para recolha de assinaturas para a placa de homenagem à Mestra .
Lélia Rebordina

Júlia Ribeiro disse...

Lélia:

Tem carradas de razão. A Antologia não pode ficar para as calendas...
Fez bem em lembrar.
Quanto à Mestra , continua a ter toda a razão.

Um abração
Júlia

Julia Ribeiro disse...

Resposta à Wanda -
Caríssima: Ainda bem que estás a gostar das estorinhas que vou escrevinhando. Boas melhoras para o teu Pai.

Outras respostas -
Há no nosso blog uma série de perguntas e/ou algumas sugestões a que vou tentar responder:
- a 12 de Março, H.J.e : sugere "uma estátua à Mestra na rua que lhe deu o nome" .
- a 23 de Março, L.R. diz " Na impossibilidade de uma estátua, pelo menos uma placa evocativa da Mestra...um pequeno texto evocativo". Oferece-se como voluntária, chama outros voluntários e apela à Câmara...

- Ainda a 23 de Março, M.M. diz " Também frequentei o 'jardim de infância' da Sra. Marquinhas dos Remédios, vota pela placa evocativa e é "outra voluntária".

- a 22 de Março, Paulo Patuleia refere "essa casa... recentemente restaurada ..." a que irá pôr o nome de Marquinhas dos Remédios.

Penso que não precisaremos de muito mais para concretizar a ideia.

Temos os nossos poetas: um deles, sem dúvida, escreverá dois versos e... outros VOLUNTÁRIOS aparecerão.

É que a nossa Mestra, não sabendo nada de teorias pedagógicas, sabia aplicar a verdadeira PEDAGOGIA: paciência, amor, trabalho, brincadeira e castigo quando necessário.

Mais uma voluntária: eu.
Ficam abertas as inscrições.


Outra resposta:
- A 10 de Março, Anónimo pergunta (a propósito da festa de despedida do 5º Ano em 1953, que não chegou a realizar-se): "Júlia, conte lá, o que se passou?"
Foi o seguinte: O Dr. Ramiro, com cara de caso, chamou 3 ou 4 alunos desse ano ao seu gabinete. Éramos: o Urgel Guerra, a Lili, o Moutinho e eu. E disse-nos que devíamos retirar da versalhada as falas maledicentes sobre a professora de História. O Urgel, honra lhe seja feita, foi o primeiro a recusar. "Ou tudo ou nada". Nós concordámos com ele. E o Dr.Ramiro rematou: "Então é nada". Acompanhou-nos à sala de aula e disse: "Não irá haver récita, porque a doença de minha mulher me obriga a ausentar-me por uns tempos." O que também era verdade e foi essa a razão que circulou. Já lá vão quase 60 anos!!

Mais uma resposta:
A 21 de Março Lelia Rebordina escreve: "Mais estórias da Corridora. Júlia, é verdade, e o mapa?"
Olá, Lelia: como vê as estórias vêm a talho de foice... Quanto ao roteiro da Querdoira, esse está quase feito, mas com lacunas que gostaria de colmatar em 6/7 de Junho, quando for a Moncorvo para o encontro com ex-alunos do Colégio Campos Monteiro.

Olá, Nelson: a 17 de Março, a propósito do verbo em latim "edere" falou da sua possível relação com o alemão "essen" . Estes dois verbos significam realmente "comer" e têm em comum a sua origem indo-europeia. (Curt Beyer, "Leipziger Romanistischen Studien" explica o caso.) Boa malha, Nelson. Acertou.
E "comer" vem de uma forma mais tardia ou mais regional do Latim "comedere" que só se conservou na
Hispânia.
"Manducar" do Latim "manducare", por estranho que pareça, entrou por via culta.

Creio que respondi aos amigos blogueiros que me tinham posto ou sugerido uma questão.

A todos um enorme abraço.
Júlia

Júlia Ribeiro disse...

Peço desculpa aos amigos blogueiros por o meu (longo) comentário ter saído em duplicado. Azelhices de principiante.
Alguém sabe apagar a duplicação?

Vou estar ausente de amanhã até ao Domingo de Pascoela e num recanto de Espanha onde não terei acesso à Internet.

Boa Páscoa para todos.

Abraços
Júlia

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