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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Lembrando a mãe do Praça

Um dia, o Praça, Afonso Emílio para os amigos, perguntou-me: "Queres vir comigo buscar a minha mãe a Poiares?" E assim partimos os dois até Poiares para buscar a senhora Elisa. Ainda a viagem era muito longa e cansativa e tanto eu como o Afonso sabíamos que para a sra. Elisa era a despedida definitiva do Trás-os-Montes, de Poiares e do Felgar onde vivera quase sempre e muito cedo ficara viúva.
O Afonso abandonara a casa do Campo Grande, nº 9 (muitas das crónicas de Um Momento de Ternura e Nada Mais, ainda são um olhar nostálgico a partir do Campo Grande) e comprara um apartamento espaçoso perto do Hospital de Santa Maria, ao lado do Gemini, por preço convidativo, pois com os ares ainda quentes do PREC, a venda de casas entrara em queda. Tinha lugar para a sua mãe. A sra Elisa vivia os últimos dias transmontanos em Poiares, em casa de uns primos. Carregámos o carro, um Renault 12, com muita tralha, tarecos e muitas colchas, da bagageira ao tejadilho. A sra Elisa, de olho azul (que o Afonso não tinha, mas os netos herdaram) já sofria de alguma falta de vista, no tecer do tempo que ia longo. E demorámos muitas e muitas horas até chegarmos a Lisboa onde viveu até ao fim dos seus dias e foi sepultada no cemitério do Lumiar.
Um dia, o Afonso foi passear com a mãe pela Avenida da Liberdade. E ela olhou para uma estátua. E o Afonso perguntou-lhe se sabia quem era. "Não sei---respondeu-- mas parece-me cego". A estátua era a do António Feliciano de Casdtilho, um poeta cego. O melhor elogio que poderia ter feito ao escultor.
Um dia, recebemos um telefonema do Afonso. A mãe estava de cama. A minha mulher (que é médica) observou-a. "Afonso, a tua mãe tem a respiração de um passarinho".
E morreu, serenamente, na cama, no silêncio da noite.
Durante uns tempos, viveu também na casa do Afonso, a sua sogra, natural de Múrias. Foi a mulher mais bisbilhoteira que conheci na minha vida. O seu perguntar faria corar de vergonha qualquer profissional de interrogatórios, por muito experiente que fosse. Mas houve um dia em que lhe achei muita piada. Dizia ela, em voz de tons muito agudos: "Veja lá com quem as minhas filhas casaram: a Olga com um Tropa (Alfredo, realizador de cinema) e Natália com um Praça (o nosso Afonso)".
Durante anos e anos eu e o Afonso convivemos todos os dias. Partilhámos segredos, histórias e noites que aqui e em qualquer outro lugar não devem ser relatados.
Um dia, estava muito gordo, a sua pele de tão esticada parecia a pele de um tambor. E a minha mulher obrigou-o a fazer dieta. Chama-me e diz-me: "Antes de começar a dieta vamos almoçar ao Mirandela". O Mirandela era o restaurante de um transmontano na Feira Popular. Comemos bem e o Afonso na sua filosofia de bonacheirão, com a tolerância que nunca o abandonou até ao fim dos seus dias, não resistiu a dizer: "Não achas que se eu emagrecer, perco a graça toda?"
Estive com ele até aos últimos dias. A minha mulher detectou-lhe um cancro. Ainda conseguiu que os drs. Hélder Coelho e Joshua Ruah o operassem. Mas já era muito tarde. Apesar de algumas indignidades (raríssimas, é certo) de que foi alvo, houve um comovente momento de solidariedade: o Duarte Lima ofereceu-lhe o dinheiro de que precisasse para ser tratado no estrangeiro. Não era necessário. Mas ficou o gesto. Nobre.
E no início de Maio despedi-me definitivamente dele (não, estou a mentir, ainda não me despedi).
A Assembleia da República aprovou, por unanimidade, um voto de pesar pela sua morte. Para que conste, nesta dor de anos.

1 comentário:

Anónimo disse...

Mais do que a circunstância vale a pessoa e sempre ela determinará a circunstância, ao contrário do que dizia Unamuno. Assim é pois quando se evoca alguém que como Afonso Praça teve o seu percurso de vida aqui referido pelo Rogério Rodrigues -um percurso que ninguém melhor do que o próprio Rogério poderá testemunhar mas que foi seguramente de grande entrega , generosidade e coerência. Cujo reconhecimento nunca será demais fazer numa época em que esses valores parece que pouco ou nada valem .
Do Afonso Praça quero aqui destacar o que ele transmitiu na mensagem aquando da homenagem que o municipio de Moncorvo justificadamente lhe prestou e que o define como homem e como cidadão:
" Nenhum homem existe isolado,nenhuma vida se constroi no vazio".
Que fiquem pois as suas palavras.
Daniel

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