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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Linha do Sabor - 6

Regresso à Linha do Sabor, com trecho de um conto do pucareiro Afonso Praça e fotografias, cedidas da sua colecção, de Abílio Dengucho.
Aguardamos, com muito interesse, mais fotos do Abílio. E textos!
E, como se diz em Carviçais, apita, Abilio!









Flores amarelas para o comboio

Do Pocinho a Duas Igrejas é um longo estirão (105 qui­lómetros, segundo contas oficiais) que o pobre comboio ofe­gante da linha do Sabor parecia estender ainda mais, nos seus solavancos de velho cansado que teimava em resistir contra o tempo impiedoso.
Até Moncorvo — menos de uma dezena de quilómetros, sempre a subir — dava a sensação de que lhe saíam das entra­nhas os últimos restos dos pulmões gastos, embrulhados em fumo negro, sufocante. Mas o comboio avançava imponente apesar de tudo, trôpego e pesadão, sempre muito pouca-terra, pouca-terra, atravessando as terras que se estendem do vale do Douro ao planalto mirandês.
Muita gente achava graça, pensava que comboios assim só antigamente ou nos museus e nos filmes americanos, sobre­tudo aqueles que já tinham corrido mundo e davam prosápia de viajantes achavam que aquilo era o máximo, digno de ser preservado como uma anta ou uma pintura rupestre. Pois bem: aquele comboio era mesmo de antigamente, contavam por lá que foi recebido à pedrada como se fosse obra do diabo, há quem diga que a linha ficou quilómetros afastada de algumas povoações em consequência das hostilidades feitas aos engenheiros que a traçaram, recebidos com manifestações de varapau e foices roçadoiras, talvez com a ameaça de uma escopeta de carregar pela boca mais asada para caçar lebres ou perdizes no Reboredo ou em Vale de Ladrões. Mas isto são vozes do povo, transmitidas de pais a filhos, vá lá agora saber-se até que ponto correspondem à verdade.

In “Um Momento de Ternura e Nada Mais”, de Afonso Praça.



7 comentários:

Júlia Ribeiro disse...

Não resisti mais e vim à saleta da Internet para ver o que se passa no nosso Blog. (É que estou com filhos e netos em Manzaneda, Estacion de Montaña - com neve até dizer chega. Mas hoje já chuviscou e amanhã já estarei em casa) . Amanhã vou fazer os meus comments, pelo menos desde a "Encomendação das Almas". A Corredoura também tem uma palavra a dizer.
Agora quero só desejar
boa Pascoela - com boa empada e boa pinga na Senhora da Teixeira - a todos os blogueiros e deixar aqui uns versinhos (ainda os sei de cor) que os raparigos da Querdoira entoavam em coro quando o comboio , cansado, se via lá na curva da Ventosa:

Gente levo, gente trago,
Gente deixo no caminho.
Gente trago, gente levo,
Gente deixo no caminho.
UH! Uh!
Uh! Uh!

Tanta curva,tanto monte,tanta serra
Pouca terra,pouca terra,pouca terra
Taf,Taf! Taf,taf!! Taf,taf!!!

Gente levo, gente trago, etc...

Estou cansado,tão cansado, cansadinho!
Mais um pouco,só um pouco, um poucochinho
Taf,taf! Taf,taf!! Taf,taf!!!


Gente trago, gente levo, etc...

Tanta sede,tanto monte,tanta serra!
Pouca terra,pouca terra,pouca terra.
Uh ! U!

Gente levo, gente trago ....
Uh !

Que cansado,tão cansado,cansadinho!
Pára um pouco,só um pouco,um poucochinho !
Taf,taf! Taf,taf! Taf,taf...

Júlia Ribeiro

Anónimo disse...

A Linha do Sabor é, para nós, moncorvenses, um caso pendente, um processo ainda não resolvido.
Destruíram a linha sem respeito pelos seus utilizadores e ,mais grave ainda, abandonaram-na. Sem rei nem roque, a linha foi , e continua a ser, pilhada, destruída. A estação de Freixo é o retrato vivo do abandono e desprezo que o poder central tem por Trás os Montes.
A estação está em ruínas em pleno Vale de Ladrões ( nome ideal para uma presidência aberta ,ou para um vídeo promocional ,do último CD dos Chutos).
As fotografias são Imagens /documento de Moncorvo, anos 40/50.A estação ,a passagem de nível, a rua com a velha calçada ,a lama, os burros, a gente com roupas “estranhas”,o fumo do comboio... Retirar do purgatório das águas furtadas /sótãos estas almas /fotos e colocá-las no blogue/éden, faz de nós gente feliz com lágrimas.
Ao Abílio Dengucho, um obrigado muito especial, por disponibilizar os seus arquivos ,esperando que muito em breve tenha uma participação mais directa com textos ,estórias ,fotos e tudo o que achar por bem divulgar.
Vejam os outros cinco posts(da Linha do Sabor) e os seus comentários para terem uma leitura mais sentida .
Postem mais fotos, textos ,contos de Natal e outras estórias da Linha, assim como uma recolha de textos dos nossos escritores ,como tem sucedido ao longo desta viagem virtual pela Linha do Sabor. Rentes de Carvalho, Sá Gué e agora Afonso Praça .Mais escritores a (re)descobrir no Descoberta de Torre De Moncorvo.
“Queremos ouvir apitar o comboio. Apita, Abílio!",como escreve Sá Gué.
Um Braganção

Júlia Ribeiro disse...

BLOGUEIROS : Nelson, Rogério, Leonel, Daniel, Aníbal, Vasdoal, Angel, Xo-oX, Horácio Espalha Jr.,Wanda, Lélia, Maria da Misericórdia, A. Areosa, José Albergaria, Pucareiro, Abílio Dengucho, Delfim, Paulo Patuleia, Braganção e todos os outros que passam por este espaço de partilha e o enriquecem com os seus posts e comentários : estamos todos de PARABÉNS : reparei agora que já ultrapassámos as 25.000 visitas!

CHHH!!!!PUM!! À SAÚDE !!

Um abração enorme
Júlia

Anónimo disse...

Visita obrigatória.Pare ,escute e olhe e vejam o que fizeram.

http://victortrains.fotopic.net/c592873_1.html

um fraganautico

Anónimo disse...

A história da linha do Sabor é a crónica de uma morte anunciada. Ela reflecte os diversos ciclos de vida por que passou toda a região, desde os tempos primordiais da ligação do Pocinho ao planalto mirandês quando quase não havia estradas e o comboio era o eixo vital,até ao mítico ciclo do ferro e finalmente à era dos IPs e das ligações ferroviárias de média e alta velocidade.
Só que o tempo sentimental é diferente do tempo real - e aquilo que poderá ser uma coisa inevitável à luz da evolução dos tempos é filtrado pelo nosso olhar afectivo como uma quase criminosa destruição da memória.
Eu próprio me referencio,enquanto moncorvense , nesse mágico circuito do combóio do Sabor .
Daí a mágoa que também sinto pela destruição de linhas e estações , que a ciclovia não substitui ( embora aplauda a ideia).
Os nossos filhos e netos provavelmente acharão este tipo de discurso nostálgico uma divagação proustiana. Mas não faz mal. Eles encontrarão , espero bem , as suas próprias "linhas do Sabor".
Daniel

Baiqueeuespero disse...

Eu espero a muito prometida recuperação da Estação de Carviçais, para a Linha do Sabor ter lá um cantinho, com fotos, e algum espólio que ainda por aí anda.
A minha veia ferroviária faz com que tem "rebuscar" tudo sobre a Linha do Sabor. Irei brevemente a Lousado ao museu onde está a ultima Automotora( ME 7) que circulou na Linha do Sabor.

António Sá Gué disse...

"..."

As berlindas eram bangalós ambulantes. Duas varandas amaneiradas à frente e atrás, com janelas airosas de guilhotina invertida (a abrir, quando desce, e a fechar, quando sobe), e de ponta a ponta. Como nos rebanhos existe sempre uma ovelha preta, que imediatamente se distingue das outras, também o comboio tinha uma carruagem diferente. Nada de verde-tropa e tectos pretos como as outras. Não! Eram riscas brancas e vermelhas, a lembrar uma papoila em campo de trigo. Arredondada e garrida, ostentava ufanamente a palavra CORREIO e gostava de se posicionar logo atrás da máquina, como se sustentasse aspirações a guieira.
Se não era guieira, podia muito bem ser considerada primeira. Era ela que guardava e trazia os ventos, nem sempre auspiciosos, de além-dos-montes. Já trouxe ventos de guerra, ventos de fome e de racionamento; ventos de liberdade trouxe há meia dúzia de anos atrás. Agora, trazia a sua própria extinção. Era o seu suicídio, vingado pela sua própria lentidão, de não ter acompanhado os tempos. Os jornais nessa manhã escreviam ostensivamente: CP FECHA LINHA DO SABOR.

"..."

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