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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Estórias de burros: O 91 - um conto de Júlia Biló

Evocando os velhos tempos da Corredoura (ou Cordoira, ou Querdoira), outrora uma espécie de aldeia satélite da vila, aqui fica um conto (inédito) da nossa distinta colaboradora Júlia de Barros Guarda Ribeiro (para os moncorvenses Júlia Biló), a propósito de um jerico muito guitcho, que teve o tio Noventa:

Que os burros – que são teimosos, mas não são burros – tenham direito às suas histórias, ninguém põe em dúvida. Mas o desta estória tem direito redobrado, pois era um burro muito especial.

O Tio Noventa apareceu um dia com um burrico todo catita: vivaço (o burro), olhos marotos, orelhas sempre em movimento que nem radares, o rabo mais parecia um pêndulo doido desafiando as leis da isocronia dos ditos.

Era pela tardinha, já no final da feira dos 23. Namorara o burrico desde que o vira pela manhã. Passou duas , três vezes, apreçou não só o que lhe enchia o olho mas mais três ou quatro, desdenhou, pôs defeitos .... Mas o cigano topou-o logo.

O tio Noventa voltou de tarde, quase ao desfazer da feira e ficou de longe a apreciar os vai-véns do burrico. Já não estava preso pela corda: viu-o a espolinhar-se na terra debaixo das faias no Canefechal, viu-o a beber água no chafariz ao fundo da capela de S. Sebastião, viu-o brincar como um garoto, escoicinhando a torto e a direito, gozando o sol e zurrando de alegria e de liberdade .
O Tio Noventa sorria. O cigano observava. “Se julgas que o vais levar mais barato agora no fim da feira, estás bem enganado. Estás caídinho d´amores pelo burro”.
O Tio Noventa dizia com os seus botões: “O diacho do burro é mesmo fadista. Vale bem mais os 30 mil réis do que os outros. Mas juro que só o levo se partirmos os 30 marrecos ao meio.”

Feira de gado na Corredoura, anos 40? Capela de S. Sebastião, ao fundo, à esquerda. O Canafechal era do lado esquerdo, onde agora se encontram o ginásio e a clínica.

O cigano, lentamente, começou a aparelhar a mula e a atrelá-la à carroça. Depois preparou a mortalha, tirou a bolsa tabaqueira do bolso do colete, pôs a pitada de tabaco na mortalha, enrolou-a com a arte que a prática dá, passou a língua pela beirinha do papel de seda, colou-a com um levíssimo movimento dos polegares e levou o cigarro à boca. Voltou a tirá-lo e gritou para o Tio Noventa:
- Eh, homem, ou quer ou não quer . Mas não é de longe que se faz o negócio.
- Só se fecharmos a conta como eu disse.
– Nem como você disse nem como eu disse. O que agora se decidir é que é.
- Então partimos os 30 ao meio .
- Feito. Leve o burro. Não vai arrepender-se.
- Oxalá que não. Ele é pigarço como a minha mulher. Teimosa que nem uma burra.
E o tio Noventa e o cigano riram às gargalhadas.

Foi assim que o Fadista passou a fazer parte dos animais com que a canalhada brincava na Querdoira, pois andavam todos à solta pelo largo, terreiro e ruelas: garotos, cães e gatos, porcos, perus e patos, galos e pitas e os burricos enquanto pequenos. A garotada brincava com eles todos naquele terriço. Empedrado? Isso era coisa da Vila. Ali, naquela terra que até dava para desenhar, demarcava-se com riscos a nossa propriedade e não havia zaragatas, porque o território era grande. Zaragatas, só com os da Vila. Até os animais nos conheciam e faziam barreira do nosso lado.

Mas voltemos ao Fadista. Foi este o nome que o Tio Noventa pôs ao burrico, mas ele tratava- o como se fora mais um filho e os garotos começaram a chamar-lhe 91. E foi o nome que pegou. O 91 era mesmo brincalhão. No auge da brincadeira, fincava as mãos na terra, baixava a cabeça e escoicinhava. A canalhada, que já lhe conhecia a manha, desatava a gritar : “Fujam, que o 91 vai começar aos pinotes”. E faziam uma enorme roda, todos à gargalhada, assistindo àquela dança maluca, que era depois seguida de um zurrar de felicidade que só visto. Após o baile e o concerto vinha a exibição final: levantava o beiço superior, mostrava os dentes num riso de prazer imenso e desatava num arraial de peidos que os miúdos marcavam a compasso, dizendo em coro: “Um para o dono; dois para a mulher do dono; três para a Adelina Chavé (que nunca nos dava nada no Dia de Todos os Santos); quatro para a Grila (a criada da Sra. Adelina Chavé que não nos deixava ir aos figos na Rua da Fonte) , quatro para.... ” e iam nomeando as pessoas contra as quais tinham um pedregulho nos socos.

O 91 gostava de todos os garotos, excepto de mim. Eu tinha um desgosto enorme, mas ele não gostava de mim e pronto.
Parece que tal se devia ao facto de a minha avó não me deixar sair de junto dela porque, como já não andava, todas as tardes era trazida para o soalheiro, onde ficava 3 ou 4 horas sentada, até a minha mãe vir do trabalho.
Ora, quando o 91 se aproximava, a minha avó ameaçava-o com a bengala. Ele parava, baixava a cabeça e espinoteava. A minha avó ameaçava-o novamente e ele, de olhos zangados (eu sabia quando ele tinha os olhos zangados), ia embora às arrecuas, a acenar com a cabeça, como quem diz: “Um dia cá te apanho...”

Era Primavera e havia dias de sol quente. A minha mãe comprou-me na feira um chapéu de palha com fitas vermelhas e cerejas bordadas a fios de lã nas abas. Era o chapéu mais lindo que eu já alguma vez tinha visto. E o mais lindo da minha vida de criança de 4 anos.
Estava eu a brincar junto da minha avó, ela dormitava e, como não se via sinal do 91, devo ter-me afastado um pouco. Não o vi, nem ele fez barulho. Só senti que o chapéu me voava da cabeça. Olhei para trás e fiquei paralizada de susto e de desgosto: o 91, levantava o beiço superior e, com riso escarninho, mastigava o meu chapéu de palha. Eu via o chapéu ir desaparecendo, já só restavam as fitas vermelhas que lhe pendiam da boca e que ele, com um lento e irritante revirar de língua, engoliu. Ficámos a olhar um para o outro: ele cheio de gozo, até me piscou o olho e eu, de certo a imagem da tristeza, comecei então a chorar.

Acordou a minha avó, vieram as vizinhas, o 91 afastou-se com todos os vagares e, de longe, deu início ao seu famoso espectáculo.
Leiria , Dezº de 2006
Júlia Guarda Ribeiro (Biló)
Autoria das Fotos que ilustram o texto: 1 - Burros, de N.Campos, 2009 (Arquivo particular); 2 - Feira de gado na Corredoura, de autor desconhecido (Arquivo do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo).

32 comentários:

Anónimo disse...

Querida Amiga Júlia
Leio esta deliciosa "estória" no meu gabinete entre um doente que operei agora e outro que vou operar a seguir.
Não encontrei melhor para a minha paz de espírito !
Tem tudo o que é preciso para tornar o nosso dia melhor: argúcia singela, beleza , um final inesperado e um tempo descritivo magnífico , como só a Júlia sabe.
Obrigado por esta pausa!
Daniel

Marco Deus disse...

Delicioso o conto da Sr.ª Júlia. Exterioriza todo o sentimento do ser e sentir de quem ama incondicionalmente a sua terra (tenho que "arranjar" urgentemente uma cópia desse seu livro). Gostei particularmente da descrição da Corredoura, eu mesmo morei durante muitos anos na Corredoura, numa casa que ainda hoje existe e pode ser vista inclusive na fotografia da "Feira de Gado". Embora a minha geração seja mais recente, recordo ainda a Corredoura não dos paralelos, mas sim da terra batida e "calhaus", lembro também um belíssimo chafariz existente ao lado da actual Clínica (que com as estruturações recentes, levou um sumisso daqueles que ninguém percebe). Tenho presentes comigo muitas recordações e amigos desses tempos de ingenuidade, carregados daquela doce sensação de ser criança. Agora já não se descrevem os da "Corredoira" como os "Índios", devido à referida "rivalidade" entre a Corredoura e a Vila, realmente existia uma ideia incutida de separação entre Vila e Corredoura, lembro-me ainda de ouvir expressões do tipo: "O Manel foi à Vila", um paradoxo no mínimo curioso. Hoje esse sentimento de "independência" já não existe, e a Corredoura é agora uma das ruas mais movimentadas da Vila e está perfeitamente integrada na restante urbe. Mais uma vez obrigado Júlia por me proporcionar este breve mas lindo regresso ao passado.

Anónimo disse...

Obrigada,Julinha, pela boa gargalhada que me fez dar.
Ainda me lembro do 91.

Conceição

Anónimo disse...

Mais contos da CORDOIRA! Venham eles. E contados pela nossa Júlia Biló. Um espanto! e, para mim, uma barrigada de riso.
Obrigado
Um Cordoirense

Anónimo disse...

Olá, Júlia Biló:
Obrigada por mais esta estória. Ri como se estivesse a ver o 91.
Mas há aqui um engano : depois do quarto peido para a Grila ( e muito bem dedicado) virá o quinto.. ou eu não contei bem.
Não sou da Corredoura, mas ia lá muitas vezes, porque a minha avó vivia lá. Conheci bem a sua mãe, uma mulher d´armas.
Um grande abraço.

vasdoal disse...

Cara Júlia, uma delícia este 91. Se ele ainda fosse vivo, certamente não chegaria para as encomendas na véspera de eleições!

JCosta

Anónimo disse...

Cara Dra Júlia Biló:

Júlia Biló, com a sabedoria que, creio eu, só a experiência e a reflexão permitem atingir, e atingir com uma aparente simplicidade, levou-me aos primeiros anos da minha meninice e juventude, em aldeia transmontana em fim de linha, que o Sabor impunha (e que hoje continua a impor): primeiro, enquanto estudante da escola dita primária e, depois, enquanto passava férias, estudando já noutras paragens.
Agradeço-lhe a recordação desses tempos e a lembrança de expressões que o tempo vai comendo no seu caminhar, quase sem disso me aperceber.
De burros, ou de burricos, confesso que sempre tive um certo receio, em especial porque constatava que os pinotes, e outras coisas, eram inesperados. Curiosamente, em jeito de brincadeira do 91, devo referir que tenho hoje mais receio de outros que desses nesse tempo...
Finalmente, o conto fez-me vir ao pensamento uma ideia de que só muito mais tarde dela tive verdadeira consciência e importância: o valor simbólico do “rachar” de preços, no “negociar” frente a frente, olhos nos olhos, chegando finalmente a uma síntese de posições antagónicas! Só por isto lhe ficaria muito grato.

J. Rodrigues Dias

Wanda disse...

Olá!

Tudo o que Júlia escreve é realmente uma delícia de se ler!
Ela nos envolve com seus contos e deixa-nos sempre um gostinho de quero mais.
Sou sem dúvida uma privilegiada em ter a oportunidade de ler seus livros e ficar embriagada pelas suas estórias.
Estou repassando para meus familiares e amigos , os livros que já li e espero proporcionar-lhes momentos de fantasia vindos desde a Corredoura para a realidade dura da cidade de São Paulo !
Não é difícil notar que Júlia tem orgulho do que viveu , do que aprendeu,do que ensinou e do que é!
E consegue passar tudo isso aos seus leitores , fazendo com que procuremos ao nosso redor e na nossa vida, experiências tão fantástica como as que lemos em suas estórias.
Parabéns Biló!(acho um charme esse codinome )
Abraço
Wanda

P.S.Não quero entristecer este momento,mas como todos foram muito atenciosos em relação ao meu pai, vou deixar esta nota falando do falecimento dele na semana que passou.Com a ajuda de todos deste blog, pessoas que nem conheço, consegui superar uma fase dolorosa de minha vida
Só meu coração pode saber o quanto está partido,mas superando com fé, e retornando as minhas atividades e ao prazer de comentar neste Blog.


São Paulo,11 de maio de 2009

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Amigos:

Ainda bem que o 91 vos fez rir. Era essa a intenção.
Agradeço a todos as vossas palavras amigas. Também agradeço ao "Anónimo" que me chamou a atenção para um lapso de contagem ... No original está certo, mas lá dizia o outro: "gralhas são corvos" . E são mesmo.
Para todos um abração.

Para a querida Wanda , um abraço especial em que vai a minha amizade .
E creia que sinto muito profundamente a sua perda.
Um abraço grande

Júlia

Anónimo disse...

Quando disse que as aldeias estavam vivas e na vila só a Júlia existia e era da "Coirredoira"...
Até o 91 me diz que é assim!
Hoje ,a corredoura é a nossa cidade uuniversitária ,com as escolas Ramiro Salgado e Júlio Máximo de Oliveira Pimentel (Visconde de Villa Maior),a escola da vida, nos bancos da capela ,no largo ,ruas e canelhas.A Júlia? A Júlia ,amigos, é o nosso Fernão Lopes.
Lelia Rebordina

Anónimo disse...

....Sá Gué, Victor Rocha, Isabel Mateus, uma rebofa de talento e memórias. Dizem os tontos, que as aldeias estão a morrer…
Da vila nada. A Júlia é cordoura, no sangue, na coragem ,na verdade do lavrador da vilariça.
E não sou a 92.
L.R.

Anónimo disse...

Sobre a "arte do negociar" de que fala Rodrigues Dias, talvez porque o tio Noventa tivesse regressado em fim de feira e já estivesse determinado a comprar o burro, não figura na estória de Júlia Biló um personagem central destes negócios: era precisamente o "rachador" - tipos que se especializavam em mediar os interesses do comprador e do vendedor. O que lucrava era, normamlmente, umas boas copázias de vinho, já na taberna, onde o vendedor (acho que era o vendedor) no fim, pagava o "alboroque" (esta é uma palavra medieval hoje perdida, embora me pareça que existe um bar, em Figueira de Castelo Rodrigo, com esta designação). Ando atrás desta palava há anos, e sei que se usava até terras de Mogadouro. Quem souber onde mais se usava, aqui fica o pedido de informação. Desde já o meu Obrigado, com abraço a todos, em especial um grande abraço de solidariedade para a Wanda (muita força, querida Amiga!)
N.

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Amiga Lelia Rebordina:

Agradeço as suas amáveis palavras.
Temos de nos encontrar e dar um grande abraço.
Estarei em Moncorvo no dia 6 de Junho (encontro dos antigos alunos e AMIGOS do ex-Colégio Campos Monteiro).
Seria formidável se pudéssemos juntar Sá Gué, Isabel Mateus, Victor Rocha, Daniel, Lelo, Nelson, Rogério, Aníbal ... e TODOS os AMIGOS do BLOG.
Sei que já há um encontro marcado para 16 ou 17 de Maio, mas eu não posso ir. Tenho imensa pena.
Porém, o dia 6 de Junho também dá: quem não foi aluno do Colégio vai com os amigos. A Associação comtempla isso mesmo e eu teria o maior prazer em levar os meus Amigos. Sá Gué, valeu? Lélia, vamos daí. Isabel, Victor e os outros... Que dizeis à proposta?
Abraços
Júlia

Anónimo disse...

Júlia,

Acabei de ler o conto do 91. E que posso dizer? Gostei imenso, é dizer pouco, muito pouco...
Também eu ainda me lembro de trepar a umas árvores em frente à Escola Primária Velha. Foi um velho hábito que adquiri nas minhas Quintas, onde era completamente livre como o 91. Gostei de ver a foto da feira do gado. Linda!

Infelizmente, não poderei acompanhar-vos em nenhuma das actividades que terão lugar proximamente. Penso que só voltarei a Portugal em Agosto. Mas estarei aí uns dias e gostaria imenso de encontrá-los a todos.

Abraços,

Isabel Mateus

Anónimo disse...

Blogueros!A Júlia tem razão.Dia 6 é a data mais concensual para um encontro.De Lisboa a Moncorvo ainda são 500 Km e a idade ou trbalho não perdoam.
Aníbal,blogueiro mestre ,ao trbalho s.f.f.
TODOS à FRAGAS!

Anónimo disse...

Outra estória de um burro:
…. Todos sabem o que foi para a Europa o anno de 1815. Foi a queda do primeiro imperio francez, foi o baquear de um gigante, foi a inauguração da paz depois de um quarto de seculo, gastado em sanguinosas agitações. Napoleão cahiu. As nações, ainda mal cobradas do terror d'aquelle nome celebraram entre jubilos e execrações o exilio do que reputavam o Attila moderno. Bonaparte fóra a personificaçao epica da revolução e a aguia no fulgor temeroso dos raios, que despedira em cem batalhas, alargára para a humanidade os horisontes da civilisação. Mas a idéa desapparece sempre por baixo do arnez do soldado. Os povos não viram no heroe de Marengo e Auster- litz o apostolo armado da revolução, o nivelador dos thronos, o fundador da egualdade democratica. Viram o homem, que lhes algemára os pulsos, que lhes pisára sacrilego o territorio santo da patria, que lhes talára as suas messes com o tropear dos seus esquadrões, e que recrutára na sua familia ou nos campos de batalha os successores das dynastias immemoriaes. O povo vê o facto, mas não vê a idéa; sente, não julga ; e deixa aos pensadores desprenderem-se dos accidentes e dos episodios da historia para buscarem nos seus mil factós, na apparencia contra- dictorios, a lei providencial da civilisacão.
É bem de suppor que a plebe, e mesmo a ordem equestre de Moncorvo não fosse tão versada na philosophia da historia e tão lida em Herder, em Vico, em Hegel, ou mesmo em Eichhorn, que houvesse de esquecer os maus tratos de Soult ou de Masse- naa para ver apenas no imperador um syllogismo historico. Tomavam-no como um tyranno, como o offensor da patria, como aquelle, que se attrevéra a fazer do velho e glorioso Portugal uma provincia obscura do imperio francez. É assim que se explica es,ta especie de triumpho burtesco, em que o populacho de Moncorvo saiu a terreiro com o decaido conquistador, figurado em um manequim de palha, cavalgando irrisoriamente um jumento a que iam seguindo e apodando com descomposta vozeria, emquanto os sinos da parochia se associavam com os seus repiques á vingança popular e os foguetes festejavam nos ares a humilhação do antigo dominador.
Latino Coelho.
Agora comprendi porque o meu avô tinha um burro com o nome de Junot.
Lelia Rebordina

Anónimo disse...

alboroque.

(Quizá del ár. hisp. *alborók, y este del ár. clás. ‘arbūn).
1. m. Agasajo que hacen el comprador, el vendedor, o ambos, a quienes intervienen en una venta.

2. m. Regalo o convite que se hace para recompensar un servicio o por cualquier motivo de alegría.

Real Academia Española © Todos los derechos reservados

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Nelson:
Nunca mais ouvira a palavra "alborque" desde que a minha avó faleceu. Ela é que a usava (assim, em contracção de alboroque) no sentido de negócio pouco claro. Dizia ela: "Aquele alborqueiro fez p´raí umas trampolinices, fecharam o alborque com uns copos e já está".
Nunca mais tais termos me tinham passado pela cabeça.
Acho muito interessante relembrarmos aqui coisas caídas no olvido.
Júlia

Anónimo disse...

Caro Nelson:

Lembro-me dessa palavra “alboroque”, ou algo muito, muito semelhante, ser usada no contexto de uma comemoração de um negócio que agradava a ambas as partes, através de um (ou muitos) copo(s) de vinho. Lembro-me disso era eu pequeno (continuo “pequeno”...), na minha aldeia (Talhas, Macedo, que o rio Sabor separa de terras de Vimioso e de Mogadouro).
De acordo com uma pequena pesquisa agora feita, a palavra poderia ser “albóroque”, com origem em “albaruk” (refeição que se oferece ao celebrar-se um contrato) ou, em alternativa, “alborque”, com origem em “al-boroq” (copo de vinho ou refeição que se oferece ao celebrar-se um contrato qualquer, para além de negócio escuro, trapalhada, de que resultaria, nesta acepção, “alborqueiro”).


Cara Wanda:

Tal como o seu Pai, também a minha Mãe partiu, ficando, há relativamente pouco tempo. Partilho consigo, e com os outros Amigos, o seguinte pequeno texto que, então, escrevi:


Reconhecimento

Triste,
Olhei-te com ternura
Uma, duas, muitas vezes,
Fixando-te o quieto rosto
E as mãos sobre o materno peito,
Lágrimas incontidas por vezes,
Chorando, triste,
Triste!

Senti em ti tranquilidade
Neste teu adormecimento;
Senti em mim profundidade
Neste meu reconhecimento.

Senti que é mais forte
Este amor que a morte!


2009-03-07


J. Rodrigues Dias

Anónimo disse...

Caro J. Rodrigues Dias, antes de mais, deixe-me felicitá-lo pelo comovente poema à sua falecida mãe que, como por cá dizemos, Deus tem e mantenha em perpétuo descanso até à nossa Hora.
Quanto ao "alboroque", isto é como as cerejas (e já posso colocar mais um pontinho no mapa da geografia da palavra). Obrigado também pelo seu contributo. Sobre o que nos diz, e também a Drª Júlia, podem ocorrer as duas variantes da palavra, e em português, sem precisarmos de recorrer ao Dicionário da Academia Espanhola (embora muito agradeçamos a achega do amigo anónimo - será Ángel?): é que o Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora (tenho aqui a 8ª edição, de 1998), consagra as duas variantes: "Alboroque", s. m., refeição que se dá quando se fecha um negócio; alborque (do ár. alborôk, "comes e bebes"); e "Alborque", s.m., permutação. E ainda o verbo "Alborcar", v.tr., entregar ou receber por alborque (de Alborque+ar). - Será que "emborcar" (empinar uns copos - por boca abaixo) resulta desta família de palavras, com referência à parte da celebração copofónica? Em todo o caso, como se vê do dicionário da Porto-Editora, a ideia de "permuta" (ou, por consequência, de "negócio"), também está presente. Acho fenomenal esta "arqueologia das palavras" que, no caso vertente, remete para uma costumeira bem antiga, quiçá do período árabe, em que, pelo menos teoricamente, a comemoração de negócios não deveria ser com vinho, mas, naturalmente, consagrando o tal de ágape e algum chá (nunca se sabe se não de parreira, pois os mouros da península nisso parece que não eram muito ortodoxos...).

Bem, e por falar em ágapes e "chá de parreira", e porque aqui já se falou também do assunto, uma vez que estamos muito em cima do tal dia 16-17 de Maio sem se ter chegado a definir em concreto a Comemoração do 1º Centenário do Blogue, deixo aqui mais uma sugestão, depois de me ter informado sobre o programa para o dia 6 de Junho (Exposição sobre o Colégio Campos Monteiro e Encontro dos Antigos Alunos e Amigos):
Moção: 1) Tendo em consideração a lonjura em que se encontram muitos dos nossos visitantes e colaboradores, os quais, alguns, teriam de se deslocar cá à nobre villa da Torre, por duas vezes num curto lapso de tempo (para estarem no convívio do blogue e no convívio do Colégio); 2) Atendendo a que, segundo apurámos junto da Srª Presidente da Direcção da referida Associação dos Antigos Alunos e Amigos do Colégio C.M. no dia 6, à noite, há uma espécie de "programa livre"; 3) Visto que a iniciativa da Associação do Colégio é de cariz cultural (já tendo sido divulgada aqui pelo nosso blogue) e que pode ser potenciada se tiver mais alguns visitantes, naturalmente interessados neste "escavar de memórias" (que também tem sido mister do Blogue), havendo todo o interesse na conjunção de interesses;
Propõe-se (se não houver obstáculos por parte de ninguém): que os colaboradores, visitantes e amigos do blogue "À Descoberta de T.M." possam vir à exposição do
Colégio (no Centro de Memória) e, à noite, se reunam para um jantar comemorativo do tal 1º aniversário, fazendo-se então um ponto de situação sobre esta "caminhada". - Aqui fica o assunto posto à consideração da "Mesa".
Abraço,
n.

Júlia Ribeiro disse...

O Nelson só tem ideias brilhantes. Aquela cabeça está sempre a "arqueolojar" : escava daqui, revira de acolá, fundamenta a sua teoria e, levada esta à prática, dá sempre no 20!
Por mim, aceito a sugestão com palmas e aclamação. Ou, em democracia, uma pessoa sozinha não pode deitar os foguetes e apanhar as canas?

Um grande abraço, Nelson.

Júlia

Júlia Ribeiro disse...

J.Ribeiro Dias em "Reconhecimento":

As suas palavras, tão sentidas, comoveram-me.

Um abraço,
Júlia

António Sá Gué disse...

Desculpem só agora responder a essa possibilidade de os amigos dos amigos do Colégio Campos Monteiro poderem estar presentes no dito encontro, mas só agora li atentamente todos os comentários.
Em princípio não estarei presente, já que nesse período, se tudo correr como o planeado, estarei a peregrinar de bicilcleta ao longo do chamado "caminho francês", em direcção a Santiago de Compostela, iniciando esse percurso a partir de S. Jean Pied-de-Port.
É com pena minha, mas é um projecto que tenho há muito tempo.

Abraço!

Wanda disse...

Olá!
Nelson, que boa idéia,um jantar de confraternização, petiscando aquele queijo de ovelhas da Serra da Estrela e saboreando o bacalhau assado com batatas a murro!
Eu aqui só imaginando!Morrendo de inveja!
Tomara que tudo dê certo e que se divirtam muito!


J.Rodrigues Dias,descreveu em poucas palavras mas com muita arte e sentimentos, exatamente o que nos vai ao coração no momento da despedida definitiva(?).
Também eu quiz deixar registrada minha perda e no dia após a morte de meu pai,passei para o papel o que me vinha ao coração:


Adeus!

As flores, a varanda, o chapéu, o sorriso.....
Os meigos olhos castanhos e face enrugada......
As tardes de leitura e os pensamentos soltos......
Tudo isto eu perdi nesta triste madrugada!
Sempre em minha lembrança te vejo contente .
Saudades é a presença de quem está ausente.
Meu pai !Amigo,homem de poucas palavras,
Todas escritas na minha memória para sempre!
...................


Abraços

Wanda

São Paulo,13 de maio de 2009

Anónimo disse...

Dois raparigos da bila (um, do Cabo; outra, da Misericórdia) felicitam a menina Julinha da Cordoira ,pela graciosa estória do Fadista/91 e agradecer-lhe os momentos divertidos que lhes proporcionou a sua leitura.
Abraços. E mande mais.
Lelo e Dete

Anónimo disse...

Hola amigos del lado de allá.(Del Duero-Douro).Claro.
Wanda un fuerte abrazo,lo primero,a los creyentes como a Pandora siempre les queda la esperanza,a una en la caja o ánfora, y a otros en el corazón.Ánimo.
Vaya entrada la de los burros,el juego que está dando.No hay animal que sea despreciable.
Y que envidia de descoberta,sigo opinando que tiene una colaboración de auténtico lujo.En España creerme ,no hay nada con ese nivel.
Informar cuando el próximo encuentro, que me presento,(dado que Masueco está muy lejos),con un presunto,vulgo jamón,soporte y faca y hasta que me duela el brazo de tanto cortar.
Un fuerte abrazo a todos,que aunque os sigo todos los días,hace tiempo que no os comentaba nada.Angel

Júlia Ribeiro disse...

Aos dois raparigos da Bila - do Cabo e da Misericórdia - , à Wanda e ao Angel um grande abraço;
ao J.Rodrigues Dias as minhas desculpas por lhe ter trocado o nome .

Abração
Júlia

Anónimo disse...

A Rádio Nacional de Espanha ,canal 1,transmite aos Sábados e Domingos um espantoso programa cultural "No es un dia cualquier" da autoria de Pepa Fernandez, com uma secção dedicada às “palavras moribundas” .Começa assim :Há quanto tempo não ouve esta palavra...?Recebe mais de 200 chamadas com comentários.
Copiando o que é bem feito :há quanto tempo não ouve a palavra pirralho?
Um B.

Anónimo disse...

Caríssimos Conterrâneos,
confesso que dá gozo ver a animação que para aqui vai (depois de um tempito em que o blogue esteve algo "choco"). É como nos cafés, às vezes ele há momentos mortos, depois vai surgindo uma certa clientela, a coisa anima, e ouve-se um vozeario do caraças. E tudo começou pela estória de um burro! saltou para as palavras, reencontraram-se e reconfortaram-se amigos(as) de suas perdas recentes, ouviram-se excertos de uma história verídica passada em Moncorvo de há quase 200anos, metendo Napoleão e e burro Junot (dava para se fazer uma representação, com o realizador L.B. a filmar...) e, depois dessa citação, referindo Herder, Vico e Hegel, até castellano aqui se ouviu, prometendo divinais jamons/presuntos (que vinho temos cá nós, do bô!). Claro que deve ser um exagero de Amigo o nosso Ángel dizer que não há uma tasca/bodega assim em Espanha, mas pronto, nós vamos fazer por acreditar nele, esperando-o cá também no dia 6/06, com uma representação/embaixada de tierras de Castilla-León.
E para rematar esse intercâmbio com nuestros hermanos, até encontrámos aqui alguém que sintoniza RNE/cadena 1, com interessantes programas. Sobre esse jogo de palavras, parece-me boa ideia. Na verdade, há muito tempo que não oiço essa do "pirralho", nem lhe sei da origem, embora não me pareça regionalismo, mas sim uma palavra mais generalizada. Será que deriva de Pirro, aquele general da Grécia antiga que acabou prisioneiro da vitória?? Não me parece, mas... (próximo do "pirralho" ainda há o "fedelho", que também já pouco se ouve; em todo o caso, prefiro o "raparigo" transmontanês, como algo mais genuíno, mais nosso, e ainda mais em desuso, desde que os tais raparigos cresceram e foram para as urbes, passando a ser "papás" e a ter "crianças"...).
Bem, mais uma vez, está molhada a sopa. Abraço a todos,
n.

Anónimo disse...

Ei, Julia Biló,
Quantos anos vive um burro? Eu tenho mais de 50 , e às vezes sou bem burro, mas não me lembro do 91.
Mas que a estória é porreirassa, lá isso é.

António N.

Júlia Ribeiro disse...

Olá, António N.

A letra N. , por acaso, não é de Noventa? O António N. é da família do Tio Noventa velho? E não se lembra do 91? Não admira: eu tenho mais 20 anos que o meu Amigo.

Não sei exactamente quanto tempo vive um burro, mas se a vida lhe correr bem, talvez uns 25 anos ou mais...
Não foi o caso do 91. Eu já contei a morte do burrico na crónica "Ciclone" no livro: "De Olvido e de Silêncio" (pág.141). Pois o pobre do 91, tão folião que ele era, morreu ainda "crianço" no dito ciclone. Não teve tempo de se abrigar, encolheu-se no cantinho da Tia Maria Panda e foi aí que apanhou em cheio com uma chaminé na cabeça. Caiu redondinho e nunca mais brincou com a canalhada.
Apesar de me ter comido o chapéu, tive pena dele. Conto isso na dita crónica.
E agora toda a gente vai ter pena do burrico. Mas não tenham. O 91 foi um felizardo: nunca chegou a ter cabeçada, nem cabresto, nem albarda, nem cilha, nem atafais, nem carregou alforjes, nem puxou carroça... Divertiu-se enquanto viveu.

Um abraço
Júlia

Anónimo disse...

Vê-se bem que a nossa Julinha é toda da Querdoira: já repararam que, para além de contar bem estórias muito nossas, até sabe tudo da «vestimenta» dum burro?
Olhem que há muitos que depois de serem senhores doutores até fingem que esqueceram essas coisas , porque têm vergonha dos avós terem andado à geira na Ribeira ou por onde calhava.

Obrigada, Bilozinha,
Conceição

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