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sexta-feira, 26 de junho de 2009

Meninos da Corredoura

Meninos da Corredoura

o tempo era então só nosso e escoava-se nas manhãs
com luz e grandes espaços
ouviam-se vozes na sombra sob os plátanos
de verdes e generosas folhas que anunciavam o verão em cada ano
e tombavam depois na agonia outonal sem
cessar redizendo o eterno
o tempo era imaculado gritante limpo infinito
corríamos de sandálias e calções rotos na poeira
num mundo só nosso
inexplicado e simples sem mistérios sem mágoas sem mentiras
também temível como a serra dos medos que ao fundo ocultava um segredo

sorvíamos o ar no peito
os nossos olhos brilhavam com fulgor e diziam do sol a redonda luz

depois o tempo guardou os sonhos depois o silêncio depois o frio
por fim sobreveio um inquieto torpor
e alguns dos meninos cujas vozes eu ainda lembro já não vejo

ou talvez sejam apenas vozes já muito distantes
como estrelas

Junho de 2009

5 comentários:

Anónimo disse...

Grande poema, bela estreia Daniel!
Talvez estes meninos da Corredoura também se juntassem à volta da fogueira (pelo menos da do S. João, ou da do Galo), e aí aprendessem coisas de sonho e de verdade; talvez naquela escola primária aprendessem continhas engraçadas de somar (somando também algumas verdascadas aconselhadas pela pedagogia da época); e, decerto,nesses tempos, embora não soubessem quanto custava a liberdade, não deixariam de sonhar com as Estrelas, e talvez até dissessem que as estrelas eram do povo...
Parabéns ao autor do poema, e desculpe-me esta glosa, com a voz do Paulo de Carvalho na cabeça...
n.

Anónimo disse...

Também eu fui uma menina da Corredoura e do Carrascal! Este texto fez-me recuar no tempo, logo pela manhã.Recordo as brincadeiras,algumas caras, mas muitos sonhos envoltos em poeiradas...Que saudades da minha corredoura...

Anónimo disse...

Estas palavras do Daniel são luminosas e belas. Como a luz das memórias que evoca.
Provavelmente muitas das estrelas que avistamos já não estão no firmamento. Mas a sua luz persiste e continua a chegar até nós numa longa viagem. E com essa luz vê-se melhor o caminho!

Fica a vontade de ler mais palavras inspiradas.
Venham elas!
Abraço.

A. Manuel

júlia Ribeiro disse...

Daniel: o seu magnífico poema também a mim disse muito. Não dávamos pelo espaço aberto, porque fazia parte de nós; o tempo só existia, qando a fome apertava e, à noite, depois de conferir que as estrelas estavam lá todas, nos seus devidos lugares, era o sono quem vencia. As correrias, os jogos inventados , os cheiros, as vozes...
Obrigada , Daniel, por estes momentos de partilha e de deslumbre.

Um abraço
Júlia

Wanda disse...

Olá!
Lindo poema!
Vejo que todos que viveram esse tempo compartilham da mesma nostalgia.
Todo mundo sempre sente saudades do lugar onde viveu a infância e a juventude, porque certamente essa é a melhor época de nossas vidas pois na infância tudo é aprendizado e liberdade e na juventude tudo é desafio e ousadia!
É pena eu não ter lembranças para contar da Corredoura, mas imagino que com a grande quantidade de emigrantes portugueses que viviam no meu bairro as tradições não eram tão diferentes do que leio no depoimento das pessoas.
Abraço
Wanda
São Paulo, 26 de junho de 2009

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