torredemoncorvoinblog@gmail.com

sexta-feira, 26 de junho de 2009

PROSEMA

As palavras são correntes de lava e lágrimas e no lodo purificam-se em percursos matinais. Trocam de dores como trocamos de deuses. E no primeiro rosto da noite desaparecem guardiãs e vigilantes das Trevas.

Ainda não cheguei donde parti sem partir. A terra é feita de pedras das neblinas da memória desta cinza que amolece de um tempo de fogo e fúria.

Os rostos perdem-se na miopia dos anos mal vistos, na soturna passagem de testemunho de nada testemunhar do cavalo sangrando à beira do abismo como força e peso que promete asas para o voo de encontro à Luz.

Dirão os vindouros que esta não foi a minha terra, o lamento, o canto, o muro onde mijávamos em nome da saudade do futuro a faia que não secámos os vidros das janelas que não partimos e a tristeza de partir quando o redemoinho das feiticeiras nos convidava para a viagem mais longa que nos era dado sonhar.

(Noite, seca-me os olhos para que as lágrimas não inventem regatos nas rugas da face.
Noite, gota a gota ensina o orvalho a seduzir a manhã. Escondidas nas grutas do tempo permite que as flores tenham cheiro e no sussurro consentido aos deuses que as sílabas sibilem, balas à procura de um corpo livre que as aceite).


Regresso à terra de onde nunca cheguei a partir. De bornal vazio bato à porta e ninguém responde. A casa deserta e na varanda agridem cardos mal tratados.


A Vila é vilã de visita à culpa e ao seu punir.
Mas que violino se ouve ao longe que me abraço ridículo e jovem e áspero ao Manquinho de Açoreira?
Que deuses e lobos me consomem e devoram no respirar silêncios da serra muda?
Ai Manquinho! Ai Manquinho! Pego-te ao colo antes da chegada dos lobos, a ti, o violino da minha infância, a melodia sem fim para o meu ouvido surdo.

Apostila: Dizem que é de rabeca o teu tocar. Mas para mim continua a ser violino. E branco.

4 comentários:

Anónimo disse...

Caro Rogério, mas que toada tão merencória e de nostalgia ferida, mais consentânea com tempos outoniços, quando ora inda é Verão.
- “Dirão os vindouros que esta não foi a minha terra” – esta é, foi e será a sua terra, no sentido mais profundo, e até no da expressão de se “ir à terra”, como dizia o outro.
- “o lamento, o canto, o muro onde mijávamos em nome da saudade do futuro a faia que não secámos..” – a faia (que me parece que era um olmo), de facto secou, sabe-se lá se não foi por demorada infiltração lenta dessa concentração urinária das vossas infâncias… a faia/olmo secou (ou cortaram-na?), de facto desapareceu; mas o muro continua lá e não houve urinas que lhe corroessem a pedra, nem mesmo com o meu contributo, muitos anos depois. Foi rebocado, continua de topo arredondado, e recomenda-se, agora com um parquinho infantil ao lado, onde outros miúdos perpeturarão o ritual;
- “Regresso à terra de onde nunca cheguei a partir. De bornal vazio bato à porta e ninguém responde” - sabemos que nunca se parte de vez das nossas Ítacas (mesmo longe a transportamos); e pode ter a certeza de que, ainda que ninguém responda (o que não é de todo verdade), há sempre um Argus que o reconhecerá à distância, ainda que solte o último uivo e morra de seguida.
- Quanto ao Manquinho da Açoreira, quiçá um dos últimos abencerragens desse mundo antigo, passou simplesmente, como todos passaremos, como passam as folhas mortas das árvores pelos Outonos de todos os anos, em acordes dolentes de violinos ou de rabecas…. É a inexorável lei da vida e o mínimo que podemos fazer é resgatá-los do Olvido, como sei que também faz…
Abraço,
n.

Júlia Ribeiro disse...

Depois do poema do Daniel, o prosema do Rogério - mais poema do que prosa. Que mais poderíamos desejar?
Por um lado, mais cheios de luz e sol, pelo outro mais cheios daquele humano desassossego que nos faz buscar, interrogar, sofrer, sentir ! É isso, sentir, porque nos revisitam rostos, sons, cheiros ..., porque respiramos,
porque estamos vivos e o dessassossego vive connosco, mas também o som do violino.

Daniel e Rogério: Para quando a publicação dos vossos poemas? Creio que está a tornar-se urgente.

Um abraço que leva a ambos o meu bem hajais.
Júlia

Wanda disse...

Olá!

Rogério, muito profundo esse "Prosema", tem a mistura de uma vida com muitas vidas, conseguindo fazer de lembranças.... sonhos e de fantasmas....saudades!
O Manquinho de Açoreira é só um símbolo que ficou no tempo!
Saudades é a presença de quem partiu!
Abraço
Wanda
São paulo, 26 de junho de 2009

Anónimo disse...

O manquinho da Açoreira, se não me engano, estava aleijado das duas pernas, não se tinha de pé, movimentando-se com ajuda de uns suportes, em pau de olmo, que enfiava nas mãos.
A rebeca é, para todos os efeitos, um elemento da família dos violino, simplifica(n)do. Nas mãos de virtuosos, faz maravilhas. Julgo que Vitorno Nemésio lhe dava um jeito.

Quem não é, por vezes, tentado a ver «as flores do mal» por entre aquilo que redundou, queiramos ou não, numa certa desertificação? Com efeito, há melhores casas, mas menos habitadas por gente e mais por figuras espetrais, vivas ao longe, mais perturbadoras do que as efectivamente mortas; há melhores estradas, rodeadas, porém, de campos abandonados, sendo até necessário semear de propósito para a caça, bem como colocar bebedouros com o mesmo fim; há mais escolarização, mas menos uso, genérico e específico, do que se aprende; a cultura, essa, porém, permanece incólume, não morrerá, por certo, enquanto alguém der sinal que se dispõe a estabelecer miradas, perspectivar pontos de vista com zelo, ritmo e padrão, num esforço - que não o é, vendo melhor - de aperfeiçoamento que o mundo sempre impõe.
Há estremeções que nos asaltam e que, com lucidez, nos obrigam a fazer a pergunta a nós mesmos: o que me prende aqui? A casa «no chão»? Os utensílios oxidados?
Os de antanho cegos, surdos ou mudos, até devido à idade, como nós, em certo sentido? O fazer a cama da eternidade subjectiva, que vale porque é visada, ainda que não adrede?
O melhor é a saúde. Ela é um bom termómetro, um bom barómetro e até um bom higrómetro. É a melhor das estaçãos. Por conta e medida, sem calculismo, seremos, na vida, mais leves à terra que, no geral, nos sustenta. Muita conversa cansa. Muito silêncio simula as profundezas da tragédia antiga. A justa medida está hoje simplificada pelos novos media - eu leio media, plural de medium, e não midia, como muitos na nossa tv - e nada sei de latim.
Que cada um se esforce por ser o singular de media, sem bruxarias com sal e outros artefactos na encruzilhadas, como vi aos meus seis anos e voltei a ver, a nove mil quilómetros de distância, aos cinquenta e seis. Fiquei com a ideia da repetição natural enquanto ingrediente da actividade, nas artes, nas letras nas ciências em geral - o problema está sempre em saber o que é para ficar e o que é para deitar fora. Não sei se à macieira custa que lhe arranquem a maçã verde, mas, caindo de per si, segue o seu caminho. Não sei se ao condutor a quem um determinado veiculo automóvel serviu durante 25 anos custa abatê-lo pelos mil e tal euros que o Estado português oferece, sem ao menos o fotografar e lhe dizer, na hora do reboque final: adeus pá, serviste-me com valentia. Não sei se temos de nos abraçar às novas árvores e à novas praças e, como quer Trindade Coelho, marcar, aí cada partida (ou então como certos animais, com fluidos que só alguns podem como que perscrutar, detectar).
Em certo sentido, o 25 de Abril nunca existiu - esta frase é perigosa mas não é vazia de conteúdo. Evidentemente que não deve ser pronunciada em Abril, em Portugal - mas pode sê-lo em Junho, de Santo António, de São João e de São Pedro.
Viva o Verão em Trás-os-Montes.

Carlos Sambade

eXTReMe Tracker