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quinta-feira, 25 de junho de 2009

ROTEIRO DA CORREDOURA ENTRE 1944/45 ATÉ 1959/60 - 4

Pessoas da Corredoura, na zona do "terreiro"? nos anos 70 (foto de Leonel Brito)

Num cubículo da casa atrás referida vivia a Maria Manquinha, com o marido e 3 filhos. Por baixo, o porquinho. A seguir, sempre à esquerda, ao fundo de uma estreitíssima quelha, ficava um forno tratado pela Tia Marquinhas Marialva. Vinha então uma casa com rés-de-chão e 1º andar (pertencente à Sra. Adelina Chavé), com varanda e janelas, pintada de cor de rosa, onde morava a Dona Aida, irmã do Dr. Ramiro Salgado, casada com o Sr. Antoninho, portanto cunhado do Dr. Ramiro e secretário do Colégio. Pegada a esta ficava a casa da Tia Maria Trovões onde vivia com filhas e netos. Por baixo , os burros e porcos. Na casa seguinte morava a irmã, a Tia Cacilda Trovões, mãe do Abel carteiro. Depois era o cabanal, um espaço com um telheiro onde se albergavam ora ciganos, ora os amoladores de tesouras e os caldeireiros que, de tempos a tempos, vinham até à vila. Pegada ao cabanal, mas ao nível do 1º andar, morava a Tia Lucília Florista. Mais tarde, após a morte da Tia Lucília Florista, morou lá um guarda republicano com a mulher e um filho da minha idade e que malhava em todos nós. Se, por um acaso, estava a perder a refrega, vinha a mãe ao balcão e gritava-lhe: “Arreia, Zeca, que o teu pai é guarda” .
Estávamos no coração da Corredoura.

A seguir à casa do dito guarda, vinha uma outra, de pedra, com rés.de-chão e 1º andar, bem construída e de dimensões razoáveis, onde vivia a Sra. Lucinda, uma das famílias dos Vitelas, lavradores já razoavelmente abastados. Depois seguia-se uma casa de 1º andar (na loja estavam os bois dos Vitelas), normalmente alugada a estudantes do Colégio. (Mais tarde, esta casa foi habitada pela Tia Idalina do Campo). Pegada a esta ficava a casa do Tio Caetano e da Tia Lucinda Gamboa, que gostava muito de mim porque, quando ia ajudar a minha mãe a fazer as alheiras, eu lhe dava um golinho de vinho às escondidas de toda a gente. Em frente destas três casas ficava um pequeno largo , onde existiam dois palheiros que, no tempo da apanha da azeitona serviam para albergar os ranchos das mulheres e homens que vinham das aldeias, a maior parte dos quais vinha (pela pronúncia que ainda guardo no ouvido) de Felgueiras. Apesar do cansaço, aí havia música – realejo e bombo - e bailarico até às tantas.
(Continua)

Por: Júlia de Barros Ribeiro ("Biló")

3 comentários:

Wanda disse...

Olá!
Júlia, para quem leu "Contos ao Luar de Agosto" e não conhece a Corredoura assim pormenorizada, agora consegue ampliar a imaginação, juntando as estórias com a descrição e as fotos.
Estás a fazer um trabalho jornalistico que levaria anos em pesquisa para quem quisesse levantar a história.
Ótimo!
Parabéns!
Beijos
Wanda
São Paulo,25 de junho de 2009

Anónimo disse...

Ainda por aqui se diz :< arreia, Zeca > , mas eu não sabia a origem do dito.

T.T.

Anónimo disse...

As pessoas são a alma dos lugares. A fisionomia dos espaços só está completa com aqueles que os habitam. Notável que ainda hoje aí haja, nesse largo do Terreiro (o coração da Corredoura, no dizer da autora), vestígios antroponímicos das antigas famílias. Se aí já não há Gamboas (família muito antiga e afidalgada), que eu saiba, há ainda descendentes de "Trovões" (seria corruptela de Trevões, povoação duriense, de onde viria alguém a instalar-se por cá?) e "Vitelas" (conhecida alcunha de uma família também antiga da Corredoura, certamente por serem criadores de vitelas, que eram a força de trabalho das terras da Vilariça). E não escapava ao diversificado microcosmos corredourense, uma irmã de um senhor doutor (Ramiro S., o homem do colégio). Formidável este mosaico humano que aqui nos deixa a Drª Júlia de Barros Ribeiro, "Biló" de seu nome tribal. Só uma corredourense poderia descrever tão minuciosamente as gentes e os recantos deste bairro-aldeia, onde ainda hoje se pergunta: "- vais à vila?" (de onde se prova que a Corredoura não é vila!).
n.

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