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sexta-feira, 26 de junho de 2009

ROTEIRO DA CORREDOURA ENTRE 1944/45 ATÉ 1959/60 - 5

Feira de vestuário e panos, na Corredoura, junto à capela, nos anos 70 (foto de Leonel Brito)

Para a esquerda destes palheiros, num caminho estreito para o Carrascal, ficava a casa dos Majores: no rés-do-chão dormia o rebanho das ovelhas e no 1º andar viviam as pessoas. Para a direita dos mesmos palheiros, no largo já referido, ficava a casa dos Noventas. Ao canto, também à direita, era a casa onde morava a Sra. Aninhas dos Cerejais que, se bem me lembro, só bebia chás e comia sopinhas de leite e morreu de cancro do estômago. Para esse mesmo largo davam as costas do forno da Sra. Camila Miranda, que foi o que “andou” até mais tarde. A forneira era a Tia Maria Panda.

Vamos até à esquina e temos a bica do povo. (Que eu me lembre, só 4 ou 5 casas tinham água canalizada: os Mirandas, os Mesquitas, o Sr. Todú, a Menina Gininha Galo e a D. Aida). A seguir à bica era a porta do forno. Pegada ao forno ficava a casa em que vivi com a minha mãe e a minha avó desde os meus dois anos até aos oito. A casa pertencia aos Mirandas: na loja ficavam os seus bois e no 1º andar vivíamos nós. Depois, paredes meias com a nossa casa, morava a tia Cândida Patuleia com o marido e os filhos. A seguir era a casa do Tio Alberto Manco, padrasto do Nésio. Pegada a esta ficava a casa da Tia Beatriz Vilela, mãe da Virgínia, que foi minha colega no Colégio. Seguia-se a da Tia Maria Fusa que tinha uma família numerosa. A virar já para o Carrascal, morava a Tia Emília Mascarenhas, que tinha uma mão com os dedos encolhidos, por se “ter picado numa silva-macha, quando era pequena”. Nos baixos viviam a Tia Maria Casca Grossa e os porcos.
(Continua)

Por: Júlia de Barros G. Ribeiro (Júlia Biló)

3 comentários:

Anónimo disse...

Só tínhamos uma bica, era verdade. E quando no verão faltava a água , porque na vila havia senhoras a regar os seus jardins, e a refrescar os séus terraços, ficávamos horas na bicha à espera que aquele gruchinho de água enchesse o cântaro. Fartas de esperar, havia mulheres que metiam pés a caminho e iam à Fonte Carvalho. Água boa, fresquinha. Mas era longe e cansava muito vir para cima de cântaro cheio à cabeça. Este era um dos muitos trabalhos só de mulheres. Homens? Tá queto. Só se tivessem um burro ou um macho. Caso contrário a burra era a mulher.
Julinha, estas coisas também são para dizer ou não?

Uma das Marias da Cordoira.

Anónimo disse...

Boa companhia para si ,Júlia.
H.E.j.

O velho, o rapaz e o burro por Sophia de Mello breyner Andersen


Um velho, um rapaz e um burro na estrada.
Em fila indiana os três caminhavam.
Passou uma velha e pôs-se a troçar:
-O burro vai leve e sem se cansar!
O velho então pra não ser mais troçado,
Resolve no burro ir ele montado.
Chegou uma moça e pôs-se a dizer:
-Ai, coisa feia! Que triste que é ver!
O velho no burro, enquanto o rapaz,
Pequeno e cansado, a pé vai atrás!
O velho desceu e o filho montou.
Mas logo na estrada alguém gritou:
-Bem se vê que o mundo está transtornado!
O pai vai a pé e o filho montado!
O velho parou, pensou e depois
Em cima do burro montaram os dois.
Assim pela estrada seguiram os três:
Mas ouvem ralhar pela quarta vez:
Um rapaz já grande e um velho casmurro.
São cargas de mais no lombo de um burro!
Então o velhote seu filho fitou
E com tais palavras, sério, falou:
Aprende, rapaz, a não te importar,
Se a boca do mundo de ti murmurar.

Julia Ribeiro disse...

Cara Maria da Corredoura:

Claro que essas coisas não só podem, como também devem ser ditas. E escritas com todas as letras. Na verdade , ainda hoje, os direitos das mulheres e os dos homens só são iguais no papel. Ora, há mais de sessenta anos as coisas eram mesmo más: era frequente ver mulheres todas marcadas pelas pancadas que apanhavam dos maridos. E isto era tão habitual que era aceite como o pão nosso de cada dia. Só se estranhava quando alguma mulher resolvia bater no homem também. Aí, sim, a mulher era criticada.
Felizmente, alguma coisa vai mudando para melhor.

Um abraço,
Júlia Ribeiro

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