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terça-feira, 23 de junho de 2009

S. João em Torre de Moncorvo - partidas de outros tempos

Praça Francisco Meireles, cheia de vasos na manhã de S. João, nos anos 50? (foto do arquivo da Drª Júlia Ribeiro, cedidas por D. Maria José Garcia/foto Arco-Íris?)

Noutros tempos o S. João era comemorado em Torre de Moncorvo (vila), com a realização de várias cascatas em certos pontos da vila: Prado de Baixo, Largo do Poço (no bairro do Castelo), no Castelo... além das cascatas faziam-se fogueiras, onde se queimavam ervas aromáticas (bela-luz, arçãs, alecrim), sobre as quais se saltava. Assavam-se sardinhas, corria o vinho e havia bailarico, a rimar com manjerico, que era colocado atrás da orelha pelos galãs, novos ou velhos.

Mas, para além destes festejos comuns, análogos aos que se realizavam um pouco por todo o lado, havia outras costumeiras, como esta que nos contou a nossa conterrânea, a escritora Júlia Ribeiro (Biló):

"Os rapazes novos, comandados pelo Adrianinho Fernandes e pelo Tio Zé Sangra, passavam largas horas da noite de 23 para 24 de Junho a roubar vasos dos balcões e varandas e a colocá-los "artisticamente" na Praça. Aí ficavam durante os dias 24 e 25 . As pessoas iam regá-los, mas não os retiravam.
No dia 26 de Junho, as donas dos vasos, entre os risos de uns e os "rás parta a garotada" das próprias, lá levavam os vasos, sempre ajudadas por essa mesma garotada que agora se mostrava muito colaborante".

A foto que se mostra neste "post" documenta esta tradição, talvez nos idos da década de 50 ou 60 do séc. XX. Tudo isto se perdeu, assim como a das cascatas. No final dos anos 70 e anos 80 era ainda forte o baile popular do S. João no Castelo, tendo depois "descido" para a praça, onde se mantém. Hoje é noite de ir até lá comer uma sardinha e beber um copito.

Mas, porque não, em anos próximos, recuperarem-se as outras tradições S. Joaninas cá do burgo? - se agora é mais complicado roubar os vasos, pelo menos solicitar a sua exposição voluntária em redor de uma cascata no muro do castelo, creio que era exequível. Fica a ideia e bom S. João para todos!

6 comentários:

Júlia Ribeiro disse...

Das coisas mais bonitas nesta noite, há mais de 60 anos, eram as CASCATAS DE S.JOÃO e a alma delas era a Tia Maria Angelina. Para ela escrevi (em 1953, tinha eu então 15 anos) uns versos de pé quebrado e sem qualquer valor como poesia , mas com muito carinho e ternura.
Terminavam assim :
"A alegria é de todos:
uma sardinha no pão
um copo de vinho tinto
e um viva a S. João.
E outro viva a S. Pedro
que um dia nos abra o céu
Mais outro a Sto.António
que afugenta o demónio.
está rezada a oração.
Já começa o bailarico
Já há foguetes no ar:
canta o rancho das casadas
canta o rancho das viúvas
canta o rancho das solteiras orvalhadas,orvalhudas,orvalheiras
orvalhadas,orvalhudas,orvalheiras".

Para as pessoas da minha idade, porque começamos a "sentir a saudade mais perto", como diz o Sto. Fernando António Pessoa. ( Penso que os verdadeiros poetas estão muito perto dos santos ) .

Nesta noite muito especial - em que sempre verei a Tia Maria Angelina e a minha Mãe a cantarem e a dançarem de braço dado -
envio eu um abraço imenso para todos os Amigos , Blogueiros e demais Conterrâneos.

Júlia

Anónimo disse...

Amigos:
Um período de intensos deveres profissionais tem-me impedido de botar aqui a minha faladura.Mas tenho acompanhado o blogue, com a sua magnífica evocação de imagens e memórias. As fotos de basa estão magistrais de sensibilidade e muito me emocionaram. A evocação da Júlia ( com todo o carinho assim a trato) da Corredoura e agora das cascatas do S. João foram agora o meu refúgio após um dia que não recomendo a ninguém... A Corredoura foi na minha infância o paraíso imaginado, o local favorito de brincadeira e aventura, do jogo da bola e dos meus amigos, como o Carocha, que nunca mais vi. Sempre que revisito a minha infância ( e faço-o porque me torna mais forte e mais solidário com o mundo e com a memória dos meus)revejo-me na Corredoura aos pontapés numa bola ou a guerrear com os outros miúdos. Índios éramos todos - e bem no fundo ainda me sinto índio, na rebeldia, no inconformismo, na própria imperfeição, na busca de um qualquer significante para esta travessia da grande praça que é a vida. Entre um improvável castelo de imaginários mitos e uma igreja majestosa de profundos segredos que ecoam pelos seus arcanos.
Daniel

Anónimo disse...

Dois comentários soberbos! aos quais não há mais nada a acrescentar. Se, por um lado temos o complemento do S. João moncorvense de outros tempos, de Júlia Biló, por outro temos uma evocação fora de série de um outro moncorvense "fora de série"....
Obrigado a ambos! sem mais palavras.
n.

Angel disse...

Hola amigos.
Las palabras de Daniel las tengo yo para un montón de lugares.
Hay algunos de estos espacios que solo con el olor(cheiro),te hacen viajar 50 años atras.Te vienen a la memoria,juegos, viejos amigos,incluso esas raparigas,que siempre nos tenían el corazón partido y nunca nos hacían ni caso.
La enfermedad de la nostalgia,que se agraba con los años.
Un fuerte abrazo Daniel,y a todo trasosmontes.Angel

Wanda disse...

Olá
Não vivi nesses lugares nessa época(apesar de que por aqui as coisas não eram tão diferentes),
mas me parecem familiares, de tanto ouvir falar e tanto ler sobre eles.
Estive numa festa de São João na Lousa há uns doze anos atrás, e lá ainda havia cascatas , em volta delas juntavam-se um ou dois tocadores que faziam dançar o pessoal.Depois eles saiam tocando e dando voltas na aldeia e chamando o povo para dançar.
Não sei se ainda cultivam a tradição.
Também passei um São João no Porto e achei a festa majestosa, muitos fogos e um tal martelinho a bater na cabeça das pessoas e também o alho, com aquele cheiro característico o tempo todo.
Gostei muito dos versos da Júlia e dos comentários e lembranças do Daniel.
Os rituais da Igreja Católica, misturados ao folclore popular, atravessaram épocas e deixaram muitas lembranças de infância e juventude em pessoas do mundo todo.
Cada um de nós carrega secretamente uma dessas festas marcada em nossas vidas.
Abraço
Wanda
São Paulo,24 de junho de 2009

Anónimo disse...

ola a todos.

a descriçäo aqui feita, pode aplicar-se também ás aldeias, pois nestas, a celebraçöes eram em tudo idênticas. Sou bastante mais novo que esta fotografia, mas recordo que na aldeia, festejavamos os S. Joäo da mesma maneira (quando ainda havia aldeias, e näo os lares de terceira idade de hoje)
abraços
MM

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