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domingo, 19 de julho de 2009

Felgar - Pagadores de Promessas

Festa de Nª Sª do Amparo - Felgar

Domingo, 24 de Agosto de 1958.






Na praça, em frente à igreja matriz, aguarda-se a saída da procissão.

Descalço, com um saco de trigo de quatro ou cinco alqueires aos ombros, o pagador prepara-se para uma longa e lenta caminhada de mais de duas horas que só terminará quando o trigo for entregue na Casa dos Milagres, já no Santuário.

Durante o percurso fará duas breves pousas para descansar e aguentará estoicamente o esforço, movido por algo maior que ele: a crença.


Os mordomos usavam uma braçadeira que os identificava. Reparem no lado esquerdo da imagem.

4 comentários:

Anónimo disse...

Que bela imagem esta que A. Manuel nos ofereceu aqui!
Há aqui uma força, não só física, mas sobretudo interior, deste homem descalço que aguarda o momento de se encontrar com a promessa dele, ou dele por alguém. Algo já não bem humano, mas quase ritual.
Dava um belo conto!
Daniel

Anónimo disse...

É uma imagem impressiva!
"Ópio do povo" ou não, não podemos deixar de sentir um profundo respeito por estes homens, carregando um duplo fardo - o do seu trabalho de semeadura, de lavra, de ceifa, de renúncia ao quinhão que bom jeito daria à sua fome ou dos seus, acrescido ainda do sacrifício supremo final, o esforço de carregar a dádiva, qual cruz!, num percurso quiçá maior do que o do Gógota, pelas ruas pedregosas da aldeia... Nenhuma Divindade, a existir e se fosse justa, poderia ficar indiferente ao esforço deste Homem. Que milagre esperaria receber? que Graça teria já recebido? (seria uma esperança, ou um agradecimento?). No fim da rota estaria a felicidade de se encontrar com a Senhora (do Amparo), na verdade a Deusa milenar que desde os tempos neolíticos zela pela produtividade das comunidades camponesas. Este Homem simples, descalço no seu fato de festa, não podia saber que estava a repetir um gesto ancestral. E que a sua força/esforço era também uma afirmação da virilidade sustentada desde os tempos dos fálicos menires. É toda esta densidade antropológica, a atmosfera que paira no ar no momento da procissão (e lembro precisamente a da Senhora do Amparo, cujo culto é recente mas que brota de um mesmo imaginário difuso por toda a Trasmontânya, como por toda a antiga Europa rural), que me perturba e me suscita um enorme respeito, mesmo quando a observo da berma da via, sobre a augueira, que conduz ao Prado. E vem-me sempre à cabeça aquele quadro de Malhoa, "os pagadores de promessas", se bem que hoje já ninguém carregue com os sacos de pão (cereal) às costas, ou à cabeça (como as mulheres que ainda vi). Hoje, na era das informáticas e nos tempos que correm, se a fé fosse ainda a mesma, talvez víssemos alguns crentes com computadores à cabeça, pedindo à virgem para lhes conservar o emprego...
Mas acho que hoje em dia o pessoal está tão descrente, que já não crê em "milagres"...
N.

Júlia Ribeiro disse...

A fé, seja ela num Deus, num santo, numa ideologia, num trabalho a executar, numa missão a cumprir , até numa doença a vencer, é um motor poderosíssimo. Poderá não se vencer a doença, não se cumprir a missão, não se levar a termo o tal trabalho, ver a ideologia fracassar, ver que o santo tinha pés de barro como os homens , não se atingir a longínqua divindade, mas o caminho percorrido deu esperança, deu força, deu vida.

Um forte abraço para todos, crentes e não crentes,
Júlia

Anónimo disse...

A este tipo de promessa ainda assisti uns 3/5 anos em meados de oitenta qd. um senhor de Meirinhos alombava com igual saco de trigo na procissão à N.S.A.

Era duro.

Lamentavelmente nunca fotografei o dito. Pensava que seria imagem que ficaria no limbo do tempo.

Ainda bem que agora, passados todos estes anos, vejo uma foto espectacular de um cumprimento de uma promessa ou obtenção de uma graça nos idos de 1958 semelhante à que eu vi e idealizava.

Sobre as promessas ou pedidos à intercessão da N.S.A. muito haveria para dizer, logo desde a 1ª festa à N.S.A. em 17/09/1893 quando até parou de chover para que a 1ª procissão se realizasse, até ao cumprimento das promessas pungentes dos soldados aquando das lutas coloniais, ou dos emigrantes...

Toda a gente se recorda destas manifestações de fé.

O meu muito obrigado ao postador de tal memória.

Cps.

C.S.

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