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terça-feira, 21 de julho de 2009

Poemas e outros II

A fotografia postada recentemente por Vasdoal, na qual retrata o pastor como um andarilho à volta da terra e à frente das ovelhas, levou-me a pensar no conto de Trindade Coelho “Idílio Rústico”, extraído da obra “Os Meus Amores” (1891) e inserido na colectânea Antologias Universais dedicada ao conto. “Idílio Rústico” figura ao lado de “Abyssus Abyssum” (conto do mesmo autor e incluído na mesma obra), no volume Os Melhores Contos Portugueses – Primeira Série (1971, 7ª edição), com Selecção, prefácio e notas de Guilherme de Castilho. Em Prefácio da 1ª Edição refere-se Castilho nos seguintes termos aos autores seleccionados para esta antologia: “O presente volume engloba os contistas portugueses do século XIX e alguns do século XX, e destes só os autores mortos de mais real interesse”(p. 10).
Em seguida, o trabalho de Júlia Biló acerca do “Dicionário de Transmontanismos” incentivou-me a uma repetida leitura do respectivo conto. Ao longo do corpo do texto não são só as palavras transmontanas que tocam o leitor do “Reino Maravilhoso” ou qualquer outro, é também a sua disposição na frase, a sintaxe que, apesar de familiar e de “sair da boca do povo”, soa tão bem e tudo diz. Frases lúcidas, expressivas e belas, muito belas: “ – Umas quartãs que me tiveram mondada!”; “ – Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!”; “ – Tanto é que tirava da frauta as cantigas que ela lhe tinha ensinado.” Quer seja o narrador, quer sejam as personagens, das “palavras de pedir pão” se compõe a prosa que só lembra poesia!...
A cena que se segue resulta desta súmula, da qual não se despega o subjectivismo do narrador. Por isso, o idílio dos dois pastorinhos, o Gonçalo e a Rosária, é de indescritível beleza por essa simplicidade e pela pureza de sentimentos. A infância em plena liberdade e responsabilidade atingem ali o seu clímax e quase que nos atreveríamos a acrescentar que a ausência de mácula lhe advém da inteireza do solo:

“Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado dentro e toca a merendar; o que era de um era de outro: ele ainda trazia azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo apontou para a cabana que ficava ali perto, e propôs que se deitassem: estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora.
Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de todo a noite, e formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul indefinido do céu.
- E os lobos? – perguntou a Rosária com medo.
- Não há perigo – tranquilizou-a o Gonçalo. – Isso é lá com os cães. “ (“Idílio Rústico”, in Antologias Universais - Conto)

Foi o colmo que lhes tranquilizou os sentidos, como quando Miguel Torga também o avistou a partir do seu roteiro literário “Portugal” na transição do Gerês para Trás-os-Montes. Continuemos nós também a valorizar os nossos ilustres, pois neste conto encontramos uma bela história para fazer adormecer tranquilamente nossos filhos. Sem que também esqueçamos de os elucidar acerca das brincadeiras tão salutares que estas páginas enumeram: tocar frauta, fazer bilros “torneados”, contos de moiras, o jogo do fito, da bilharda, a pocinha…

Boa leitura de “Os Meus Amores”, de Trindade Coelho!

Texto: Isabel Mateus
Fotografia: João Costa

2 comentários:

Anónimo disse...

Fez bem a Isabel em trazer aqui Trindade Coelho. Quanto mais não fosse pela inspiradora clareza da sua escrita d' Os Meus Amores, mundo rústico e singelo apenas na aparência. Que sim profundamente genuíno no(s) seu(s) amor(es) pela ruralidade que bem conhecia e do seu profundo respeito pelas origens, mágico nos Amorinhos, idílico em Idílio Rústico, dramático e telúrgico em Abyssus Abissum ou Última Dádiva.
Revejo-me muito nele, neste tempo contorcido de grandes vazios. Como me revejo em Torga quando diz "É por profunda necessidade cultural que eu peregrino esta pátria".
Daniel

Júlia Ribeiro disse...

Olá , Isabel:
Sabe que um dos meus livros de cabeceira é precisamente "Os meus Amores" de Trindade Coelho? Considero os seus contos dos melhores que têm sido escritos por esse mundo fora.
E a fotografia do João Costa cai ali como ouro sobre azul.

Abraços
Júlia

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