Em seguida, o trabalho de Júlia Biló acerca do “Dicionário de Transmontanismos” incentivou-me a uma repetida leitura do respectivo conto. Ao longo do corpo do texto não são só as palavras transmontanas que tocam o leitor do “Reino Maravilhoso” ou qualquer outro, é também a sua disposição na frase, a sintaxe que, apesar de familiar e de “sair da boca do povo”, soa tão bem e tudo diz. Frases lúcidas, expressivas e belas, muito belas: “ – Umas quartãs que me tiveram mondada!”; “ – Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!”; “ – Tanto é que tirava da frauta as cantigas que ela lhe tinha ensinado.” Quer seja o narrador, quer sejam as personagens, das “palavras de pedir pão” se compõe a prosa que só lembra poesia!...
A cena que se segue resulta desta súmula, da qual não se despega o subjectivismo do narrador. Por isso, o idílio dos dois pastorinhos, o Gonçalo e a Rosária, é de indescritível beleza por essa simplicidade e pela pureza de sentimentos. A infância em plena liberdade e responsabilidade atingem ali o seu clímax e quase que nos atreveríamos a acrescentar que a ausência de mácula lhe advém da inteireza do solo:
“Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado dentro e toca a merendar; o que era de um era de outro: ele ainda trazia azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo apontou para a cabana que ficava ali perto, e propôs que se deitassem: estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora.
Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de todo a noite, e formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul indefinido do céu.
- E os lobos? – perguntou a Rosária com medo.
- Não há perigo – tranquilizou-a o Gonçalo. – Isso é lá com os cães. “ (“Idílio Rústico”, in Antologias Universais - Conto)
Boa leitura de “Os Meus Amores”, de Trindade Coelho!
Texto: Isabel Mateus
Fotografia: João Costa








2 comentários:
Fez bem a Isabel em trazer aqui Trindade Coelho. Quanto mais não fosse pela inspiradora clareza da sua escrita d' Os Meus Amores, mundo rústico e singelo apenas na aparência. Que sim profundamente genuíno no(s) seu(s) amor(es) pela ruralidade que bem conhecia e do seu profundo respeito pelas origens, mágico nos Amorinhos, idílico em Idílio Rústico, dramático e telúrgico em Abyssus Abissum ou Última Dádiva.
Revejo-me muito nele, neste tempo contorcido de grandes vazios. Como me revejo em Torga quando diz "É por profunda necessidade cultural que eu peregrino esta pátria".
Daniel
Olá , Isabel:
Sabe que um dos meus livros de cabeceira é precisamente "Os meus Amores" de Trindade Coelho? Considero os seus contos dos melhores que têm sido escritos por esse mundo fora.
E a fotografia do João Costa cai ali como ouro sobre azul.
Abraços
Júlia
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