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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Poemas e outros

As Quintas são a criação
Feita por Deus.
As Quintas são a promessa
Encarnada na Virgem.
As Quintas são o Cristo vivo
Errando, subindo aos Montes sagrados.
Sagrados e delegados a Ti…

Num esboço de pequeno poema sem data, estas eram as minhas Quintas (do Corisco) ao longe, muito longe a partir de Évora nos recuados tempos da Universidade, em finais dos anos 80.
Em poema datado de 1-5-1989, também germinado na planície do sempre saudoso Alentejo, alargo a minha reflexão e a necessidade de identidade, ou melhor, de identificação a um Trás-os-Montes que não conheço na totalidade. Tal como o Malapeira de Outros Contos da Montanha, quando deixei as fragas havia ainda muito por desbravar nessas terras. E ainda há!...

Minha Terra, Minha Gente

Terra bravia agreste
Gente vulgar e rude
Que caminha nos penhascos
Como a sombra do sol.
Terra mirrada e seca
Seiva no fundo plantada
Cola seus pés às raízes
Como o luar à noite.
Terra da viva saudade…

Continuo, pois, a falar do todo a partir do Eu e das Quintas para Trás-os-Montes. Ou como diria o meu querido ilustre transmontano e cidadão do mundo Miguel Torga, apesar de numa escala mais reduzida: “O universal é o local sem paredes”.

Projecto que lhe pairava na ideia desde os bancos da universidade, Outros Contos da Montanha, aos quais já me referi, foram sendo protelados por outros poemas de muita saudade e angústia, cujo desejo de regresso adiado se repetia no tema. Quando neste mês de Agosto passar pelos Lombinhos vai certamente ter sensações idênticas que não vale a pena aqui relembrar. Terá aí durante uns dias a recompensa do filho pródigo torna-viagem. Contudo, do alto dos Lombinhos vai o Contador de histórias recordar-lhe a cada momento que aquelas gentes que habitam o lugar não estão de férias e que precisam de um AUTOCARRO com rodas e volante que os ligue à vida. Quase todos entre a casa dos 60 e dos 100 anos, os Malapeiras, os Manéis das Vacas e os descendentes das Grabulhas precisam agora muito de ir à Vila ao doutor, à botica e as pensões nem sempre esticam!...
Deixa-vos o Contador de histórias nestas linhas um final feliz, que se espera contagiante:
“Ela morreu realmente ali. Os seus ossos descansam no alto dos Lombinhos onde a torga, a carqueja, a giesta, a esteva, o alecrim, a bela-luz e o rosmaninho lhe aromatizam a sepultura, os pinheiros lhe fornecem a sombra e a abrigam da chuva e os pássaros a entretêm com a sua cantilena. Do alto da lomba, posição estratégica que escolheu em vida, vigia os que na Granja seguem a sua utopia (reabilitar a comunidade gregária da Granja), enquanto como guardiã da fronteira da Granja com o mundo avalia friamente o transeunte.” (Isabel Mateus, in Outros Contos da Montanha)

Cândida Monte
Texto: Isabel Mateus

6 comentários:

vasdoal disse...

Isabel, obrigado pelo teu olhar, a partir dessa distante Londinium.

Júlia Ribeiro disse...

Um 'muito obrigada' ao Vasdoal por ter postado este magnífico texto da Isabel Mateus .

E... que de cheiros e sabores aquela panela nos traz! Cozinhadas nela, até as "batatas solteiras" fervilhando lentamente ao borralho, sabiam pela vida! E delícia maior se acompanhadas de salada de azedas.

Abração
Júlia

Anónimo disse...

Saúdo com a maior satisfação esta magnífica estreia da Isabel Mateus aqui no blogue!
Sobre as suas "quintas" (onde não se vive propriamente em "sete quintas" mas com todas as dificuldades de um mundo rural em extinção), sempre lhe digo que me emocionou o seu texto. Lembro-me de ir às Quintas de Nogueirinha, Corisco e de Felgueiras, com meu pai, há muitos anos, em finais dos 70. Voltei lá mais tarde (1984), a pé, atravessando a serra, com mais dois colegas, em missão antropológica, de mochilas às costas e com tenda para várias pernoitas.
Numa exposição que será inaugurada no próximo sábado no Museu do Ferro, sobre o património arqueológico e arquitectónico do concelho de T.M., poderá encontrar, num dos painéis, uma pequena alusão ao mundo das "quintas" a que pertence. Não sendo propriamente os "Avieiros" de A. Redol, os "Quinteiros" eram seres à parte, vivendo em núcleos dispersos e afastados da trdicional aldeia trasmontana, de povoamento concentrado. No entanto, como diziam os aldeãos, os quinteiros eram trabalhadores e bem "guichos" (a Isabel é a prova provada!), pois ninguém os enganava. Algumas destas quintas, por ficarem próximo de vias de comunicação, como as quintas da Macieirinha, da Estrada, do Martim Tirado, ou mesmo as das Qubradas (no concelho de Mogadouro), têm resistido ao despovoamento total. Também ainda resistem as Centeeiras, depois da estrada de ligação a Ligares. Todavia, muitas delas desertificaram-se por completo.
Espero que volte em breve ao seu alto dos Lombinhos. Boas férias!
abraço,
N.

Isabel Mateus disse...

Obrigada ao Vasdoal, à Júlia e ao N..
Os "quinteiros" sempre tiveram a vida mais dificultada pelas razões de que todos já temos conhecimento. Por outro lado, foram essas mesmas razões que os "sublimaram". Mas afinal "nenhum homem é uma ilha" e, por isso, precisamos de ser solidários...
Terei muito gosto em visitar novamente o Museu do Ferro e a sua exposição. Para além dos "humanistas" que lá trabalham. Estou muito curiosa!...
Espero que o N. volte a visitar as Quintas, a paisagem está lá! Estão todos convidados!

Espero realmente que nos encontremos em Agosto durante as férias.

Abraços,

Isabel Mateus

Anónimo disse...

Não quero deixar de saudar a Isabel Mateus pelo início da sua colaboração neste blogue.Sei que vamos poder saborear a sua magnífica prosa, cujas raízes torguianas se renovam mais além na densa folhagem da celebração do grande caudal humano da gente transmontana.
Seja bem-vinda!
Daniel

Anónimo disse...

Obrigada pelas suas palavras, Daniel.

Isabel

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