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sexta-feira, 24 de julho de 2009

Tuna Popular Lousense

(continuação do “post” sobre o Intercéltico de Sendim)


Mas quem são estes músicos e como surgiram?
Como eles próprios se apresentam, são um grupo de amigos da freguesia da Lousa, residindo alguns no concelho de Torre de Moncorvo e outros bem longe daqui (como por ex. em Sintra), o que os faz percorrer longas distâncias para ensaiarem e tocarem. Tendo alguns já tocado juntos na sua juventude (é preciso que se note que são “jovens” hoje com idades superiores a 60 anos), resolveram, em dado momento, rememorar os seus bons velhos tempos, e, por volta de 1988-89, três elementos do grupo começaram de novo a tocar em conjunto. A estes associaram-se outros três elementos de outros grupo (entretanto dissolvido) e passaram a seis membros, aos quais se juntou um sétimo, tocador de viola. É preciso dizer que todos os instrumentos eram cordofones a que se juntou um tocador de ferrinhos, entretanto falecido e substituído por outro. Tocavam em ambientes familiares, como festas de aniversários. A sua primeira actuação pública parece ter ocorrido em 2001. E, a partir daqui, começaram a actuar em festas de Lares de Idosos, por todo o concelho de Torre de Moncorvo. Em 2007 estiveram na inauguração dos jardins da biblioteca municipal de Torre de Moncorvo, a convite da Câmara, e assim sucessivamente.
No repertório da tuna popular da Lousa (estes músicos tiveram alguma dificuldade em acertar com a sua própria designação porque não se consideram bem uma Tuna, que habitualmente tem mais elementos), constam melodias tradicionais da região Duriense, e há outras que foram inspiradas no repertório das bandas de música, inclusive militares (um dos membros participou na banda militar de Infantaria nº1 e na Banda da Carris, de Lisboa). Todavia, alguns são temas bastante antigos, talvez criados no século XIX. Parece que um padre da Lousa também terá composto alguns temas. Ou seja, quer pela temática, quer pelo instrumental, podemos situar este género musical entre o popular e o erudito, lembrando um pouco a riqueza da música popular da Europa central (Baviera, Àustria) muito influenciada (ou seria o contrário?) pela música de salão. Assim se explica a grande música vienense… Hoje, infelizmente, as tunas populares que tiveram grande sucesso no passado, também se encontram à beira da extinção. Este é o único grupo de que temos conhecimento no Douro Superior (se exceptuarmos os Fiarresgas de Foz-Côa, mais de tipo “rancho”). Por isso merecem todo o nosso carinho e apoio, para que não esmoreçam.
Para que conste, aqui ficam registados os seus nomes e respectivo instrumento:
Armando Cesário Moutinho – Bandolim baixo;
José Joaquim Pestana – Viola portuguesa;
Modesto Augusto Moutinho – Violino;
Orlando Espírito Santo Félix – Bandolim requinta;
Reinaldo Reto Queijo – Ferrinhos;
Samuel Santos Barbosa de Sousa – Bandola;
Serafim Sebastião Sousa – Viola portuguesa;
Vasco Espírito Santo – Guitarra portuguesa.
Alguns temas: À beira do Tejo; A Evarista; Os Marinheiros; Saudade; Machucho; Cancelão; Eterna; Valsa da Meia-noite. Segundo informação constante de um apontamento elaborado pelo Sr. Orlando Félix, “soube-se há pouco tempo que a Marcha dos Marinheiros” faz parte do Hino da Cidade de S. Paulo, Brasil”. O Sr. Samuel Sousa, noutro escrito para a história da tuna escreveu também que “esta era uma marcha brasileira que fazia parte do reportório da 1ª. banda musical da Lousa”. Ou seja, estas melodias são o que verdadeiramente hoje se pode chamar de “worldmusic” – sons que viajam, de cá para lá do mar, regressam, mesclam-se, passam para bandas e de bandas para tunas, do erudito para o popular e talvez vice-versa, criando paisagens sonoras cujas raízes estarão num fundo cultural difuso que é o da Europa rural, a do cheiro ao restolho, aqui com a Festa meridional, a sardinha e o copo de vinho, porque não durante as vindimas?, e noutras latitudes, sem vinho, com o cereal fermentado ou destilado, inspirações libadas em outros mágicos licores de célticas origens, todavia era a mesma Festa, o Som que escorre das diversas culturas, venha ele de concertinas, acordeóns, trikitixas, gaitas de foles, ou todo o género de cordofones, tudo nos une nesta diversidade, perdida que foi a celebração dos ritos das colheitas, ficando, no entanto, a reunião das tribos da Música.
Até Sendim. - Compareça para ouvir e apludir os representantes da nossa terra: os músicos da Tuna Popular Lousense!

Texto e fotos do autor do post - Em cima: grupo musical conhecido por tuna popular da Lousa, no momento das gravações, no auditório do Museu do Ferro em T. de Moncorvo; em baixo, outro momento das gravações, com o etnomusicólogo Mário Correia e sua equipa.

7 comentários:

Wanda disse...

Olá!
Gostaria de ver clip ou ouvir a Tuna tocando.
Quanto ao Hino da Marinha Brasileira, talvez já o tenham ouvido, veja clip do YouTube

http://www.youtube.com/watch?v=aISWgtl7kAM&feature=related

Música é sempre bem-vinda, e é bom preservar músicas de raiz.

Abraços
Wanda
São Paulo, 24 de julho de 2009

n. disse...

Olá Wanda! Obrigado pelo seu comentário e pelo envio do Hino da Marinha Brasileira (realmente "dá ares" ao tal tema da tuna lousense, mas teria de os ouvir melhor). Claro que as músicas marciais influenciaram o reportório antigo destes grupos populares.
Realmente tenho gravado um trecho da actuação da referida tuna popular lousense (note-se que as tunas populares não têm nada a ver com as tunas estudantis), mas admito aqui publicamente que os meus conhecimentos informáticos não chegam para postar aqui o dito clip, que é muito pesado. Além disso teria de pedir autorização prévia aos membros do referido grupo musical. Logo que o webmaster venha por cá de férias (e eu tenha autorização dos músicos), prometo que tentarei postar aqui um trecho das suas músicas. Para o pessoal que está por aqui por perto, recomendo que assistam à actuação ao vivo em Sendim, no próximo dia 1 de Agosto.
Abraço a todos,
N.

vasdoal disse...

Teria imenso prazer em estar presente nesse festival, mas, como o calendário não me permite, fica um enorme abraço a todos os músicos e organizadores. O "postador" também está de parabéns pela divulgação desta iniciativa.

Wanda disse...

Olá !
Agradeço N.!
Quero aqui descrever um trechinho do livro "Contos dos Montes Ermos", de António Sá Gué, que se refere a Tuna Lousense.
A banda........"...por aqui não há quem a bata , nem a da Lousa,diziam-no com altanaria saudável."

É então a Tuna da Lousa servindo como comparativo maior, ao que considerava na estória ,a melhor banda.

Quero aproveitar o espaço para comentar que estou realmente emocionada com a leitura dos livros de António de Sá Gué e da Drª Júlia Ribeiro.
Recomendo a todos que nasceram, viveram, vivem ,ou amam a região transmontana.
Cada trecho é uma viagem aos lugares, costumes e as recordações da gente desse lugar.
Sinto-me privilegiada pela oportunidade de ter tido acesso a essa rica literatura.
Abraços.

Wanda

São Paulo,25 de julho de 2009

Anónimo disse...

Ao Vasdoal: que pena não poderes ir ao festival, onde não faltam os célticos bardos! e bjeca embarda!
À Wanda: mal possa, não fica esquecido o "clip". - Quanto ao texto do Sá Gué ele está a falar da banda de Carviçais (que ainda hoje continua pujante), comparando-a com a da Lousa (que, de facto, à época, deveria estar na berra). Só que este grupo de tocadores a que me refiro no post (que podemos situar no universo das tunas) não tem que ver com a banda. São coisas diferentes. Numa banda predominam os instrumentos de sopro e as percussões; na tuna destacam-se os cordofones. É claro que os reportórios poderiam "migrar" de bandas para tunas (ou vice-versa), mas isso é outra coisa. De onde se depreende que na Lousa havia a banda e houve tunas (estas foram desaparecendo, tendo-se reconstituído com este grupo, há poucos anos). Gostávamos que a malta nova aprendesse com estes homens, de forma a não deixar morrer a tradição, mas eles queixam-se por a juventude não se interessar por isso. Infelizmente na Lousa quase já não há juventude, mas como a maioria deste músicos vive na vila, poderia ser uma ideia o tentar-se fomentar essa aprendizagem. Por isso falei no caso do trabalho do M. Correia em Sendim/terras de Miranda: é que a música das gaitas de foles também estava quase à beira do fim e agora está bastante pujante, com novos e já bons tocadores. Querer é poder! (só tenho pena não ter tempo nem jeito para a música, mas não faltará malta nova por aí interessada, apesar da dificuldade de aprendizagem de certos instrumentos como o violino, os banjos, bandolins, bandolas...). Fica o repto.
n.

Wanda disse...

Olá
n.,Agradeço o esclarecimento.
Aqui no Brasil não usamos o termo Tuna.
Talvez porque não tenhamos nenhum conjunto instrumental do genêro.
Aqui temos a Estudantina, Conjunto de Cordas(folclórico e popular), Bandas, Fanfarras e Conjuntos Folcloricos.
Achei interessante e com certeza, se eu estivesse ai por perto não perderia de jeito nenhum essa apresentação.
Bom divertimento
Abraço
Wanda
São Paulo, 25 de julho de 2009

Anónimo disse...

Olá Wanda, de novo! Relativamente aos tipos de formações musicais que enumerou, penso que a nossa "tuna" se identifica mais com o que vocês designam por "conjuntos de cordas". Aqui também temos as "tunas académicas" que devem ser o mesmo que as vossas "estudantinas". Pode haver denominações diferentes, mas como boa parte das raízes culturais/musicais do Brasil foram de Portugal (exceptuando o contributo africano e ameríndio) é natural que haja essas identificações.
Obrigado também pelas suas informações e estou certo de que se estivesse cá iria ver esta actuação dos seus "conterrâneos" que são na quase totalidade naturais das terras da Lousa que tanto ama!
n.

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