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sábado, 4 de julho de 2009

Uma canção do Zeca Afonso

Ao ler Os Dias Loucos do PREC , de Adelino Gomes e José Pedro Castanheira, edição em parceria do Público e Expresso , encontrei, com alguma surpresa excertos de uma crónica minha de que já mal tinha memória e de que não guardo o original ou qualquer cópia, uma crónica, dizia, sobre uma tal Teresa Torga que deu origem a uma célebre canção do Zeca Afonso. Já me tinha esquecido. Deixo-vos esta surpresa, para mim próprio também surpresa, copiando o que estes dois jornalistas foram buscar nos arquivos do Diário de Lisboa. Gostaria de referir que trabalhei durante anos com o José Pedro Castanheira em O Jornal e durante alguns anos com o Adelino Gomes no Público. Aqui fica o registo que pode ser lido na página 107/8 do citado livro.

"Quarta.feira, 7 Maio 1975 'Quem se despiu na via pública, ontem, às 4 da tarde?'
(...)
"No DL, R.R. ((Rogério Rodrigues) conta a história de uma mulher " de que não se conhecia o nome" , que ontem, às quatro da tarde fazia streap-tease enquanto dançava, ao centro do cruzamento da Avenida Miguel Bombarda com a Avenida 5 de Outubro.
"Visivelmente surpreendidos, alguns espectadores da cena, invulgar em ruas de Lisboa, dirigiram-se para a mulher no intento de a proteger das vistas de quem passava e de quem parava, persuadi-la a vestir-se e abandonar o local. No meio da confusão, surge o repórter António Capela, que começa a disparar. Os populares, indignados com o que consideram 'uma baixeza moral', investem sobre ele, insultam-no, empurram-no, agridem-no e só a intervenção do proprietário da drogaria vizinha impede que não lhe partam a máquina (...)Entretanto a mulher tinha sido levada para o limiar de um prédio com porteita à porta. Já vestida, olhava apática para as pessoas que a rodeavam. Dizem-me que se chamava Maria Teresa.'Não sou Maria. Não sou Teresa. Tenho muitos nomes'.Tinha os lábios encortiçados e recusava o copo de água que lhe ofereciam".
"Quem se despiu na via pública, ontem, às 4 da tarde?", interroga-se o jornalista, que passa a contar o percurso de vida, entretanto averiguado, de uma mulher de 41 anos, divorciada, sucessivamente actriz de revista, emigrante no Brasil, cantora de fado e que agora, no intervalo de tratamento no Júlio de Matos, "mudava discos no pick-up" de uma boite de Benfica.
Usava o nome de Teresa Torga " porque há um escritor que se chama assim" e ela gostava muito de ler, conta uma vizinha. A última vez que o repórter a viu seguia ela num carro da polícia para a esquadr do Matadouro.
Zeca Afonso lê a crónica, magnífica, põe-lhe notas e voz, e imortaliza-a."

No centro da Avenida
No cruzamento da rua
Às quatro em ponto perdida
Dançava uma mulher nua

(...) Dizem que se chama Teresa
Seu nome é Teresa Torga
Muda o pick-up em Benfica
Atura a malta da borga

Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela
Agora é modelo à força
Que o diga António Capela

T'resa Torga, T'resa Torga
Vencida numa fornalha
Não há bandeira sem luta
Não há luta sem batalha.

José Afonso, Teresa Torga
in álbum "Com as minhas tamanquinhas", 1976


Adenda: Tenho pena de não ter comigo a crónica completa, mas eu raramente guardo os meus trabalhos. Por vezes, envio-os a amigos meus, com a esperança de se não perderem e como das poucas coisas que eu posso oferecer a quem tenho afecto. Espero que não me levem a mal e não julguem que este registo é para me sentia a bem comigo mesmo. Não passa de um registo. Apenas isso. Sem mais importância do que isso. Na altura desta crónica, eu era responsável no Diário de Lisboa pelo sector de Educação a cujo Ministério ia procurar notícias ( hoje são as notícias que procuram os jornalistas)... O Ministério da Educação ficava, como fica, na Cinco de Outubro. Não sei se trouxe alguma notícia do Ministério. Mas sei que fiz uma crónica. E aqui tenho o exclusivo. Era o único jornalista presente.

4 comentários:

Anónimo disse...

O quotidiano está cheio de coisas que muitos vêm mas poucos entendem.
A rua é a montra da vida. Dela fazem muitos poetas, como o Zeca Afonso fazia, fonte de inspiração.Recriando a própria vida. Não acredito nos poetas de sofá.Respeito demasiado a poesia para isso.

Daniel

Anónimo disse...

R.R. foi aqui letrista indirecto de uma canção. Sabemos, todavia, de outras letras escritas para uma grande cantora portuguesa, que infelizmente, julgamos nós, ainda não foram cantadas (porque a mesma, ao que sabemos, delas não teve conhecimento)... Talvez fosse oportuno dar a conhecer aqui esses belos poemas.
Abraço,
n.

Anónimo disse...

Eles vêem - verbo ver
Eles vêm - verbo vir

Ex-professora

Júlia Ribeiro disse...

Não fazia a mínima ideia da história por trás da "Teresa Torga" . Os excertos da crónica do Rogério dão-nos uma visão nítida do acontecido . Arrepia mesmo.

Abração
Júlia

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