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sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Mais um conto de Júlia Biló: O ZÉ LEITINHO

Não sei se alguém em Moncorvo se lembrará ainda do Zé Leitinho, José Leite de seu nome oficial.
Magrinho, de altura mediana, pele macilenta, cabelo preto liso, risco ao meio e empastado de brilhantina para se manter fixo no seu devido lugar. Sempre vestido de fato preto, lustroso de tão coçado, pastinha preta debaixo do braço.
Creio que era funcionário menor da Câmara, talvez cobrador.
Também lhe calhava ir à Corredoura. Então aí, à roda do Zé Leitinho, juntavam-se as meninas da Corredoura que, ao tempo, eram as filhas da Sra. Camila Miranda, da Sra. Rosalina Mesquita, a Menina Alcina, jovem esposa do Sr.Todu, a Menina Gininha Galo (já não muito jovem) , as filhas da Sra. Delmina Terceira, a Menina Natalina, a Menina Idalina e ... não sei se me esqueci de mais alguma. Depois a roda alargava-se com mais algumas mulheres e , obviamente, a canalhada não podia faltar.
Nesta última faixa encontrava-me eu. Furávamos entre as pernas das pessoas (já uma pequena multidão) para chegarmos à frente e não perder pitada.

As filhas da Sra. Rosalina e da Sra. Camila pediam, suplicavam ao Zé Leitinho que lhes cantasse o “Passarinho da Ribeira”. E insistiam : “A sua voz é maravilhosa” , “Canta que nem um rouxinol” . “ Não , não canto. Por favor, não peçam mais” . “Se for preciso, peço-lhe de joelhos” . E uma mais atrevida pôs logo os joelhos em terra e, de mãos postas : “ Por favor, cante. Não nos faça sofrer mais “ .
E o Zé Leitinho atrapalhado - até o cabelo começava a fugir do seu arrumadinho lugar - queria sair dali, mas a roda apertava-se à sua volta.
Finalmente cedia em cantar “Só uma. Só uma e mais nada”. Fazia-se silêncio e o Zé Leitinho esticava o pescoço, pigarreava, olhava para o céu, fechava então os olhos e soltava a sua voz : “Passaaaarinho da Ribeira / Não seeeejas meu inimiiiiigo ... “ Aqui começava uma das Meninas a ficar sem forças, encostando-se a outra e mais outra que começava a desmaiar... e o Zé Leitinho, embebido na canção que existia na sua cabeça e não sabendo que a desafinação era completa, continuava “...Empreeeeesta-me as tuas aaaasas / Deixaaaaa-me ir voaaaaar contiiiigo...” Por esta altura, tinha de abrir os olhos , porque os “ais” das Meninas eram já muitos e os desmaios tantos que algumas iam a correr buscar água para deitar na testa das que haviam desmaiado e estavam nos braços de outras que fingiam chorar .
A aflição estampava-se na cara do Zé Leitinho que, em lágrimas verdadeiras, dizia confuso: “ Eu não queria cantar. Eu sei que a minha voz provoca este efeito nas jovens. Oh, Deus me valha! “ Lá conseguia que lhe abrissem o cerco e, tirando o lencinho branco que espreitava do pequeno bolso do casaco, fugia limpando a testa e a cara.
As Meninas em desmaio recuperavam de imediato e as lágrimas que agora lhes assomavam aos olhos eram das gargalhadas que o Zé Leitinho já não ouvia.
Eu era muito pequenita e até sentia pena do Zé Leitinho . Mas tenho de confessar que nunca ouvi voz tão desafinada. E mais, em alguém que não tinha a mais leve ideia da sua desafinação.

NOTA – Penso que o Lelo sabe outras estórias do Zé Leitinho.

Por: Júlia de Barros Guarda Ribeiro (Júlia Biló)

10 comentários:

Wanda disse...

Olá!
Que delícia é ler Júlia Biló.

A sua escrita possue uma mágica inexplicável!
Deixa no coração uma pureza de sentimentos e no cérebro um gostinho de quero mais!

Júlia foi abençoada por esse dom, e não deve privar-nos dele .Por favor, mais contos!

Anónimo disse...

Bela surpresa de férias este conto sobre o "Leitinho" que a Júlia tão bem descreve na comicidade da figura. Quase sem querer lembro-me dos filmes portugueses dos anos 30 e 40 ( muitos deles agora felizmente conservados em DVD) e da figura do Ribeirinho.Só que estas figuras da nossa terra não precisavam de representar - bastava-lhes ser eles mesmo.
Daniel

Anónimo disse...

O meu filho perguntou-me há bocado se me alembrava do Zé Leitinho. Atão não me havia de alembrar? Eu fui uma das que o atazanou. Que mal ele cantava. Mas também não era puro do miolo.

Um beijinho pra si, Julinha
Maria da Querdoira

vasdoal disse...

Parabéns pela narrativa e pela ilustração.
João

Anónimo disse...

Conte mais,conte mais, que estórias não faltam ,nem a si jeito para as narrar.
Ri-me a valer com esta do Zé Leitinho.Nao me lembro se também fazia parte da canalhada,numa das minhas andanças pela Querdoira.Apesar de morar na bila, frequentava muito os "índios".
Bote lá mais, Julinha!
Abraço da
Maria da Misericordia

Júlia Ribeiro disse...

Obrigada , Wanda , Daniel e Maria da Querdoira.
Obrigada ainda ao Vasdoal, mas fique sabendo que a ilustração é do Nelson . Também eu fiquei espantada! Este rapaz tem jeito para tudo .

Abraços
Júlia

Anónimo disse...

Estórias não faltam em Moncorvo para a Julinha contar,que também não lhe falta talento para isso.E se forem ilustradas, como esta,pelo multifacetado Nelson,o sucesso é garantido.

Parabéns e abraços para ambos.

Maria da Misericórdia

Anónimo disse...

Fui denunciado!, eheh - e quanto ao "jeito para tudo" é um óbvio exagero da Drº Júlia. A "ilustração" foi um sarrabisco tosco, numa tentativa canhestra de interpretar a cena que imaginei a partir do conto: o lingrinhas "Zé Leitinho", qual ave canora desafinada, e as meninas gozonas à volta, simulando os fanicos! - o mérito é da contadora que nos consegue fazer visualizar estas cenas de uma Corredoura de outros tempos, com um sentido de humor extraordinário. Esta, e a do burro peidorrão (o 91), são o máximo!!
abraço e parabéns!
N.

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Amiga Maria da Misericórdia:

Obrigada pelas suas palavras tão simpáticas. Tenho de passar em Moncorvo uma semanita (talvez de 14 a 19 de Setº) para recolher mais umas estórias que ainda há muitas por aí à espera de quem as conte.
Quanto às ilustrações, já sabemos onde ir buscá-las...

Abraço
Júlia

vasdoal disse...

Olá Drª Júlia. Bem me parecia que já tinha visto aquele tipo de traço em algum lado. Parabéns aos dois.

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