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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

"Cultural Dream" (1997)

Na esteira do "post" anterior (texto de Rogério Rodrigues, com fotos de Leonel Brito), ocorreu-me ir às gavetas do fundo e acabei por desenterrar um velho poema de Henrique de Campos, de 1997. Trata-se de um escrito datado, produzido num momento em que se contestava a criação de algumas zonas de peões no centro histórico cá da vila, bem como o fim do estacionamento automóvel na antiga “praça das regateiras”. Mas acabou por ser, ao mesmo tempo, um verdadeiro manifesto cultural. Ainda se discutia então a reposição do chafariz filipino na Praça Francisco Meireles (que viria a ocorrer em 1999); o Arquivo Municipal estava em perspectiva mas ainda não havia sido inaugurado; as esplanadas na praça General Claudino eram uma mera sugestão, pois não havia cafés nesse largo; a Orquestra do Norte talvez já se tivesse estreado na igreja matriz, mas o órgão barroco permanecia mudo (tal como ainda hoje, embora se perspective para breve a sua compostura). Ao cabo de 12 anos, a “crítica corrosiva” a estas coisas das “pedrinhas” também se parece ter esbatido, apesar de alguns beliscões da rapaziada à nossa igreja, creio que mais resultantes de efeitos etílicos do que de actos conscientes ou relacionados de uma clara atitude anti-património.
Por isto, pode-se considerar que este poema de H.C. se encontra em grande medida ultrapassado (e ainda bem!), sendo uma espécie de “check-list” que se foi completando. O que não se conseguiu sem algum esforço, sobretudo no plano da transformação das mentalidades. Se houve mérito das instituições nesta consecução, também não se pode esquecer a atitude pedagógica e de consciencialização junto das pessoas menos receptivas a estas coisas, desenvolvida por alguns (poucos) carolas que, através da sua opinião, contribuíram para que se concretizassem coisas que em 1997 eram ainda utopia. A cidadania também é isto.

Grupo de pintores compondo uma tela, na praça General Claudino, num dia de feriado municipal (2008)
Aqui fica então o velho poema:

CULTURAL DREAM
Tal como Luther King
também eu tive um sonho.
E sonhei que a minha terra
era uma espécie de Atenas cultural
povoada por cidadãos letrados e instruídos,
amigos das artes e do património;

sonhei que na minha terra
me havia cruzado com F. Pessoa
e bebido copos com o A. Aleixo;

sonhei que na minha terra,
à sombra de uma grande e secular igreja
havia feiras de artesanato e de iguarias
fazendo jus a uma antiga tradição medieval
exarada num velho pergaminho
guardado religiosamente no Arquivo Municipal;

sonhei também aí esplanadas à italiana
com pintores e cavaletes
e julguei estar em Florença;
fotógrafos com máquinas “de caixote”,
e julguei-me no Quais d’Orsai;
com o sol e granito num largo quadrado
com muitas vozes e sem automóveis
quis-me na plaza mayor de uma qualquer cidade
da meseta espanhola!

Sonhei que a minha terra
havia sido promovida a Cidade Cultural,
com direito a grandes cartazes pelo mundo fora,
por causa dos seus encantos e das suas gentes
e que cada cidadão, embevecido,
contava a cada forasteiro a sua História gloriosa,
e lhe falava do antigo castelo destruído
que aos seus olhos existia ainda
e da imponente catedral onde se ouvia,
diariamente, uma música barroca de fundo,
e nos dias festivos, concertos de órgão majestosos,
e o Rei dos Floristas, trajado a rigor,
oferecia rosas-púrpura à esquina de uma rua
que, por acaso, também se chamava das Flores.

Sonhei que jorrava um chafariz recuperado, na praça,
e os meus concidadãos, cultos e orgulhosos
de pertencerem à mais bela terra do mundo,
não eram críticos corrosivos deste cenário,
mas sim os seus principais defensores;
não eram pseudo-filósofos de café,
maldizentes e provocadores,
recalcitrando frustrações,
para serem notados e chamar atenções,
- eram, antes, interessados e construtivos.

Sonhei que, depois deste arrazoado,
não houvesse quem dissesse: “mais um poeta!”,
em termos irónicos e depreciativos.

Sonhei ainda que a escola da minha terra
ganhava prémios mundiais
a promover as coisas culturais
e a ajudar a crescer uma multidão de meninos
que nunca viriam a ser velhos… do Restelo!

Sim, eu tive um sonho hoje,
olhando o mundo em frente
do alto de uma montanha de ferro.
e esse Sonho era a certeza
de que o futuro é nosso.
e que a Utopia,
mesmo irrealizada,
mesmo amputada, castrada…
essa, nunca morrerá!

Henrique de Campos, 24.VI.1997
(public. in Mensageiro de Bragança, 25.06.1999)

13 comentários:

Daniel de Sousa disse...

O Nelson já há tempo me havia falado deste Cultural Dream e havia prometido (re)publicá-lo,tirando-o duma injusta arca de esquecimento e porventura de algum cansaço. É notável. Naturalmente um sonho,um ou vários projectos, inconformismo, visão, carinho, alguma revolta, um pouco de ironia-mas sobretudo um indesmentível amor pela sua (nossa) terra e por aquilo que a individualiza e mais a define. As suas gentes, a sua força indefectível, o seu destino, a sua genuinidade.Que tentamos passar de geração em geração. Algo como o tesouro familiar que apenas respeitosamente olhamos sem tocar nem muito menos delapidar. Porque amamos todos estas fragas, estes montes, estas pedras, estes rios submersos que nos percorrem a todos desde a infância e nos conduzirão até ao fim.
Bem haja Nelson!
Daniel

vasdoal disse...

E não é que,por vezes, sementes dos nossos sonhos acabam por germinar!
Um abraço sonhador,
João

Júlia Ribeiro disse...

Não sei dizer, nem ponho sequer a hipótese de dizer, qual dos dois me sensibilizou mais: se o poema do Nelson, se o comentário do Daniel.
O sonho do Henrique de Campos poderá ser hoje uma Utopia e, como tal, ninguém poderá dizer que um dia não se realizará. Porque "estas fragas, estes montes, estes rios submersos" , estas casas, caminhos, pedras, olmos e cedros estão em nós e têm a força da gravidade.

Abraços a ambos por este momento de cristal e um abraço também para o João,
Júlia

Anónimo disse...

caríssimos Amigos,
Em nome do H. de Campos, muito agradeço os vossos comentários, que encaminharei para o autor do poema - só a introdução é que é minha, o resto é dele! Quanto ao que disse a Drª Júlia, se ler atentamente, verá que muitos aspectos estão já ultrapassados, pois o que era utopia, à data, foi sendo realidade, felizmente. Só falta mesmo um Constantin, Roi des Floristes, à esquina da Rua das Flores (ou na que tem o respectivo nome), com o seu livro debaixo do braço e um molho de rosas iguais às naturais, fazendo uma vénia às chusmas de turistas que hão-de vir. - Fica a dica para os Alma de Ferro arranjarem os adereços e um actor a condizer com o dito cujo nosso Constantino (e, já agora, porque não uma adaptação da sua biografia ao teatro? - repto à autora da biografia). Mais uma ideia que hoje não nos parece nada utópica, ainda no quadro deste "Cultural Dream".
n.

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Nelson:

Quando acabei de fazer comentários e voltei ao início do Blog, nem vi a introdução: só vi do título do poema para baixo e os comentários do Daniel e do Vasdoal. Despassarada como de costume. Desculpe lá...
Um abraço e até Sábado.

Júlia

Jorge Afecto disse...

Lembro-me das emoções sentidas, após uma das muitas reuniões de trabalho, o H.Campos, saca do manuscrito e brindou-nos com a leitura do sonho que tinha tido na noite anterior.
Foi um reacender da chama, pois as dificuldades e contestações eram muitas e o ânimo estava bastante em baixo!
Valeu a pena. Obrigado H.Campos.
Jorge

Anónimo disse...

Olá, Nelson. A Obra notável que o Nelson está a construir, a que fiz referência naquele comentário tardio, é aqui profunda e sentidamente expressa pelo Dr. Daniel de Sousa. Boas palavras. O poema do Henrique de Campos, se hoje está "fora do tempo", não perdeu por isso a sua essência, aquilo que o faz ser (ou ficar, ou estar) para além do tempo. Vá lá, convença este seu amigo poeta a reunir mais um "rio" de poemas e a pô-los em livro. A Pássaro de Fogo edita. Boa?
Um abraço a todos,
Paula Mateus

Anónimo disse...

Caro Jorge, é verdade! Lembro-me de o Henrique me contar esse episódio. Andava o pessoal bastante "stressado" com a implementação do ProDouro. Acho que até o Engº Zé Aires (então Presidente em funções) e a Arqtª. Ana (que tão massacrada foi nessa altura), quiseram uma cópia do dito poema. "Bons tempos"! - Para já não falar naquela noitada de trabalho a orçamentar a candidatura à AIBT-Côa, afora o acompanhamento de outras mais, lançamentos de obras, autos de medição e burocracias de empreitadas, que quase me tornaram engenheiro, economista, contabilista, etc.. Coisas que ninguém imagina nos dias em que as obras são inauguradas! Agradeço-te o que aprendi contigo e também com a Arqtª. Ana, e, mais recentemente, com a Engª. Marina e demais pessoal do ex-gabinete do Centro Histórico (actual divisão de Património). Apesar das normais discussões e ou até divergências pontuais, no que respeita aos conceitos de intervenção/preservação ("é da discussão que nasce a Luz", diz-se), acho que a colaboração tem sido profícua em função de um objectivo primordial que é o melhoramento da imagem do centro histórico da vila e a promoção cultural do concelho. Muito falta ainda fazer, é certo, mas compreendemos que Roma e Pavia não se fizeram num dia, havendo que aproveitar com urgência essa última oportunidade que se chama QREN.
n.

Anónimo disse...

Caro Nelson,é precisamente aí que "estamos" focalizados.
"Juntos" conseguiremos colocar mais cerejas no bolo!
O "camboio" está em movimento, e "nós", estamos a ajudar a contruir a linha? será?
Até que o sonho se torne realidade, muito trabalho virá (ainda não dá para descansar...)!

Jorge

Anónimo disse...

Como só posteriormente vi aqui publicado o comentário da Drª. Paula Mateus, só agora lhe agradeço, corrigindo a parte da "obra notável". Se bem leu o que entretanto escrevi, o que se tem feito é trabalho de um colectivo de pessoas, cada qual na sua esfera, no seu papel. Sou um filho da escola dos Annales e, como tal, fui algo marcado pela obra de Lucien Febvre. O mesmo que destacava o papel das massas na História, devendo esta ser apenas a ciência dos homens no tempo. Por isso não é a árvore que constitui a floresta, mas sim a floresta que é composta por árvores. Na sociedade, todos os contributos são essenciais, desde que todos trabalhem num dado sentido e deiam o seu contributo. Quem sabe o nome dos construtores das pirâmides? (pois, só se conhece o do faraó que mandou construir algumas delas). Mas se não existissem as massas anónimas de técnicos e escravos construtores, ninguém saberia, provavelmente, o nome do faraó. Cada qual fez o seu papel, até o faraó, ao ordenar a construção. Todavia, o que contou (e o que conta ainda hoje) é o facto em si: a pirâmide-obra-colectiva, produto e marca de uma civilização (ainda que assente em "energia de escravo").
Agradeço-lhe ainda o oferecimento, em nome do H.C., para a edição dos seus escritos. Tentarei convencê-lo, o que não é fácil.
E muitas felicidades para o seu projecto editorial "Pássaro de Fogo" - que é também uma espécie de "cultural dream" - bem digno dos acordes sinfónicos de Igor Stravinsky.
Grande abraço,
n.

Anónimo disse...

Bem, falava eu em pirâmides, antes de ver o novo comentº. do Jorge - que preferiu a metáfora do combóio e da linha, talvez mais ajustada porque mais próxima de nós - estou a lembrar-me do anunciado troço do Pocinho à Barca d'Alva. Mas, como o S. Tomé, espero ver para crer!
Quanto a essa do "juntos", fez-me lembrar qualquer coisa... (mas o regulamento interno do blogue e a conjuntura impedem-me de a comentar) - Como diria o J.S. ao F.L.: "seu maroto!..."
n.

Anónimo disse...

Obrigada, Nelson, pelos votos de felicidades para a Pássaro de Fogo, o meu "cultural dream", sim, que se vai realizando pouco a pouco, como o poema do Henrique de Campos. É óbvio que a concretização de um sonho nem sempre depende só de nós nem da nossa vontade, já que na sociedade, como refere, qualquer Obra é fruto de um colectivo. No entanto, não me parece que a expressão que usei – "Obra notável" – careça de correcção: além da Obra colectiva, há a individual, ou as Obras individuais, que precisamente distinguem os indivíduos. É essa, a sua individual, que aqui reconheço.
Um abraço,
Paula

Anónimo disse...

Viva Paula! então mais uma vez o meu Obrigado (pela parte q me toca, ainda que contrariado). Como saberá, há duas correntes historiográficas distintas (entre muitas), sendo uma delas ´mais de matriz anglo-saxónica, que tende a valorizar o papel do "indivíduo activo", o sujeito enquanto agente transformador da História, e outra, derivada da "escola" dos Annales, que valoriza antes as massas anónimas, a sociedade no seu conjunto, de que o indivíduo é apenas uma peça e um fautor. Mesmo os "interventivos", mais não são do que molas da sociedade e é o terreno de que brotam as ideias ou acções do indivíduo (veja a obra clássica de L. Febvre, Martinho Lutero, um destino). Inscrevendo-me neste horizonte teórico, considero-me naturalmente apenas mais um grão de areia no meio da duna. Gom grande abraço,
N.

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