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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Emigração e "pulsão de evasão"

Emigrantes do Felgar em Espanha - foto de autor desconhecido - Arquivo Particular/direitos reservados.


No seguimento dos "post's" anteriores, achámos oportuno apresentar aqui esta foto de dois emigrantes do Felgar, por terras de Espanha (Oviedo), por volta de 1967 ou 1968, onde trabalhavam na construção de estradas.
Ao mesmo tempo que compatriotas seus trabalhavam nas "rutes", em França, António Barreiros e Cândido Alberto Paredes (pai de Agripino Paredes, que gentilmente nos cedeu esta foto), andavam nas "carreteras". Outros ainda, do Felgar e Moncorvo, por essas mesmas terras asturianas e leonesas, trabalhavam nas minas de carvão. Tudo para conseguirem o seu sustento e respectivas famílias, e uma melhoria das condições de vida que o rincão natal não lhes propiciava. Este é um tema amplamente referido na reportagem de Assis Pacheco e Leonel Brito, publicada no República (Março de 1974) e agora reeditada no livro Torre de Moncorvo, Março de 1974 a 2009, mencionado em "post" anterior.
Se, por um lado, temos uma "viagem" ou uma "peregrinação" de personagens de excepção (diplomatas de carreira ou outros mais ilustrados), com uma certa motivação espiritual, fome de descoberta ou de encontro com o Outro, numa espécie de "pulsão de evasão" que os fez buscar o Desconhecido (o mundo exterior), temos, também, estes "soldados da fortuna" que partiam, movidos por uma fome bem mais real, em direcção a um outro tipo de desconhecido: a incerteza do que iam encontrar, mas com a certeza de que nada poderia ser pior do que aquilo que conheciam. E, baseados no diz-que-disse e no exemplo do vizinho do lado, partiam em busca de uma espécie de el-dorado feito de muito trabalho, canseiras, decerto humilhações. O Outro destes Peregrinos tanto poderia ser um patrão bom, como um explorador de circunstância, depois de alguns passadores salafrários de permeio.
Em todo o caso, como já por aqui dissémos, a montanha e as terras inóspitas parece que são propiciadoras às Partidas (com ou sem regresso, temporário ou definitivo). Seja por motivos de fome, de melhoria de condições, de valorização pessoal e profissional, ou apenas "porque sim", como se assinalou na reportagem de 1984 de Rogério Rodrigues (in O Jornal, vencedora do prémio da Associação 25 de Abril) editada no livro referido, sub-título "O importante é partir". Aqui se conta a estória de uma jovem de 21 anos, a frequentar o 12º ano, leitora da Crónica Feminina e da revista Maria, àvida de sair do apertado meio em que vivia - da aldeia para a vila, onde estava a estudar, aspirando depois daqui sair para o mundo exterior, com o qual sonhava: "adorava sair daqui, para outro sítio que não conhecesse. Gostava de ir para o Porto (...). Sair. Apenas sair. (...) Sonho? sair para a cidade".
Mais adiante, agora no mesmo livro, outro subtítulo: "Ei-los que partem". Texto ilustrado com as antigas camionetas da carreira para Paris, na Praça de Moncorvo, com alguém a carregar as malas de cartão no tejadilho. "Levam as malas, pedaços de terra, seja em géneros, seja em saudade. São dos que nunca saem, mesmo quando regressam. Pacientes, esperam pelo autocarro na Praça, o centro do Poder, que os ridiculariza, mas que tanto necessita deles" (referência ao tempo das remessas dos emigrantes, e ao tratamento pouco simpático de "avéques" com que se mimoseavam os emigrantes de França).

E de partida em partida, assim se explica a desertificação destas nossas terras...

4 comentários:

Anónimo disse...

INCERTEZA

Talvez o Outro
seja bom patrão,
Talvez não sejam
maus escravos,
Talvez queiram
dar uma boa imagem,
do orgulho pelo que fazem,
Talvez tenham vontade
de partilhar o parco manjar,
Talvez pensem
na cara de felicidade
da filha, do filho,
da mulher,
do pai e da mãe,
quando receberem,
no soto da Maria,
aquele retrato
e, SÓ por isso, sorriam!

Lembro-me que há lá por casa retratos tirados na Vila para mandar para as Franças à procura de um pai choroso. É com este sorriso que se vence a fitar o mundo, seja em que situação for. Estes também são transmontanos e Ilustres Peregrinos, de certeza!

Isabel Mateus disse...

Peço desculpa por me ter esquecido de assinar a mensagem que enviei.

Isabel Mateus

Daniel de Sousa disse...

A emigração do países europeus meridionais, como Portugal,Itália e Espanha e ainda da Turquia, para o continente americano é um facto conhecido do pós-guerra. O filme América América de Elia Kazan ( um dos ícones da minha juventude) retrata magistralmente esta pulsão de mudança, determinada pela fome e miséria que grassava então na Europa.
Por seu lado a emigração portuguesa para a Europa nos anos 60 e 70, primeiro para a França, depois para a Alemanha, Suiça e Luxemburgo, muitas vezes de forma clandestina, na procura de formas de subsistência familiar é um facto específico que resulta das condições de precaridade de trabalho e de carência social que o regime salazarista tinha infligido à sociedade. Foi pois o resultado de décadas de opressão, de desprezo pela realidade social de nepotismo e de violência cívica. O fenómeno das malas de cartão não foi mais do que uma pequena manifestação dos muitos exílios que a ditadura determinou. Exílios que não foram apenas exigência da fome, mas também e muitas vezes exigência da liberdade. Exílios de insubmissão, de revolta, de denúncia. Exilios de dignidade e de resistência.
Esta e muitas outras fotografias, pungentes na sua simplicidade, na sua veracidade, são hoje sobretudo uma memória e uma acusação. Um libelo contra a injustiça social.

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Amigos:

Como diz o Daniel não houve só exílios forçados pela fome: houve exílios dentro do próprio país, "exílios de dignidade e resistência". A expulsão da escola em que se trabalhava, só porque se teve a ousadia de casar com alguém marcado pela pide; a detenção em quartel do oficial miliciano, que teve a ousadia de recusar ir para uma guerra injusta matar / ser morto.
A angústia, a dor , o medo . Sim , o medo de chegar ao limite de aceitar a submissão, que era isso que o regime exigia de nós.
Éramos os peregrinos dentro da própria alma.
Perdoai o desabafo.

Um abraço grande
Júlia.

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