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domingo, 1 de novembro de 2009

Cemitério de Moncorvo em dia de finados

Portão da entrada principal do cemitério de Torre de Moncorvo, ladeada por velhos ciprestes
«O Dia dos Fiéis Defuntos, Dia dos Mortos ou Dia de Finados é celebrado pela Igreja Católica no dia 2 de Novembro, logo a seguir ao dia de Todos-os-Santos.
Desde o século II, alguns cristãos rezavam pelos falecidos, visitando os túmulos dos mártires para rezar pelos que morreram. No século V, a Igreja dedicava um dia do ano para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém lembrava. Também o abade de Cluny, santo Odilon, em 998 pedia aos monges que orassem pelos mortos. Desde o século XI os Papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) obrigam a comunidade a dedicar um dia aos mortos. No século XIII esse dia anual passa a ser comemorado em 2 de novembro, porque 1 de novembro é a Festa de Todos os Santos. A doutrina católica evoca algumas passagens bíblicas para fundamentar sua posição (cf. Tobias 12,12; 1,18-20; Mt 12,32 e II Macabeus 12,43-46), e se apóia em uma prática de quase dois mil anos.» - Fonte: Wikipédia.
Um belo monumento dedicado à memória de uma jovem moncorvense, por seu padrinho Alexandre Ferreira de Carvalho, em Janeiro de 1880

Outrora os enterramentos faziam-se no interior das igrejas e nos adros das mesmas. Esta prática, em Portugal (e, consequentemente, em Torre de Moncorvo) vinha desde a Idade Média. Com a implantação do Estado Liberal, motivações ideológicas e sanitárias levaram à constituição de locais próprios para os enterramentos dos cadáveres humanos: os cemitérios. Em Portugal, isso vinha sendo tentado desde 1835, culminando num decreto do governo cabralista de 28.09.1844, o qual viria a gerar, em regiões mais conservadoras, como o Entre-Douro-e-Minho, múltiplas resistências por parte da população. Ficou célebre o episódio da revolta da Maria da Fonte, que, para além de causas mais profundas, teve como rastilho uma situação de uma tentativa de enterramento numa igreja (em Fonte Arcada), o qual foi impedido pelas autoridades.
Plataforma inferior do cemitério de Torre de Moncorvo, sombreada por cupressos

Como forma de amenizar esta resistência popular e atenuar o impacto psicológico de enterramentos que não fossem em igrejas, procuraram-se lugares que fossem já tradicionalmente "campos santos", ou seja, que fossem assinalados por alguma capela ou igreja antiga, isto quando não era possível constituir-se o cemitério mesmo ao lado da igreja, como se vê em muitas da aldeias do nosso concelho e concelhos vizinhos.
No caso da vila de Torre de Moncorvo, o novo cemitério acabaria por se fazer no local da capela de Santo Cristo (antiga igreja de Santiago), a qual viria a ser sacrificada já nos finais do séc. XIX por um alargamento do dito cemitério, para o lado nascente. O belo portão da entrada, em ferro forjado e fundido, ostenta a data de 1869, mas a determinação para os enterramentos se realizarem neste espaço deve ser anterior.
Capa do Regulamento do Cemitério Municipal de T. de Moncorvo, 1880

Em todo o caso, só em 1886 é que foi impresso, na Imprensa Académica de Coimbra, o Regulamento do cemitério municipal de Moncorvo, aprovado em sessão de Câmara de 10 de Abril de 1886, sendo assinado por Augusto Duarte Areosa, António Marcelino Durão, Joaquim António da Silva, Marcolino Márcio Ferreira Margarido, Manuel Joaquim Diniz Pontes. O dito regulamento foi posteriormente aprovado em sessão da comissão executiva realizada em Bragança, a 20 de Agosto do mesmo ano, com assinaturas de José António Pereira de Almeida e José Henriques Pinheiro. Este último era natural de Moncorvo, sendo professor no liceu de Bragança e arqueólogo notável.
Lê-se na abertura deste Regulamento do Cemitério Municipal de Torre de Moncorvo, no capítulo I, artº 1º: "O cemitério de Moncorvo, situado ao S. Christo, é destinado especialmente para os enterramentos dos finados nas freguesias da villa". No entanto, em parágrafo único dizia-se ainda que "Nelle poderão também ser enterrados os cadaveres de pessoas fallecidas noutras freguesias do concelho onde não haja cemitério". Quanto ao pessoal, especifica o artº. 2º: "O pessoal do cemiterio compõe-se de um capellão, um administrador, um guarda, um coveiro e dos trabalhadores que a Camara julgar necessarios". O artº. 3º. diz que "O capellão e o administrador estão immediatamente subordinados á inspecção do vereador de respectivo pelouro, e o pessoal restante á do administrador". Os capítulos seguintes (II a V) refere-se às atribuições e obrigações do pessoal; o capº. VI é sobre as Inumações, o VII sobre os jazigos, o VIII sobre as exumações, terminando com Disposições Gerais, no capº. IX, e ainda uma tabela de vencimentos dos empregados, dos emolumentos da capela, valores de inumações e de exumações.
Custava, nesses tempos, um enterramento em jazigo municipal de depósito perpétuo, a elevada quantia de 50$000 (5o mil réis); se fosse por 2 anos, eram 10$000 (dez mil réis), e até 3 meses, 1$500 (mil e quinhentos), sendo de estranhar que houvesse inumações apenas por 3 meses, que leva a crer que as solicitações, em termos de espaço, seriam muitas. Estes valores eram iguais para jazigos particulares. Já as sepulturas razas eram mais baratas: "sepultura raza para finado maior de 7 anos, sem caixão: 500 réis; idem, com caixão: 800 réis; (...) sepultura raza para menor de 7 anos, sem caixão: 200 réis; idem, idem, com caixão: 400 rs. (...) Vala geral para maior de 7 anos: 300 rs.; idem, para menor de 7 anos: 100 rs." - Tinham sepultura gratuita, conforme o artº. 13, os finados nos hospitais e os que ali tivessem tratamento gratuito; os finados nas misericórdias, asilos e cadeias, quando nas guias que os acompanhassem se declarasse a sua pobreza; do mesmo beneficiavam os finados no domicílio, desde que acompanhados de atestado de pobreza, passado pelo respectivo pároco ou pelo sub-delegado de saúde".
O Regulamento tem ainda outras curiosidades, como a de não se poderem plantar, dentro do cemitério, quaisquer árvores de fruto ou outro vegetal que pudesse servir de alimento, ou ainda quanto ao impedimento de entrada de cães e outros animais.
È um documento que vale a pena ler, nesta ocasião, em que a tradição nos obriga à visita dos nossos entes queridos já falecidos.
Como dizia há dias, em programa radiofónico, a Drª. Clara Saraiva, profª. da Univ. Nova de Lisboa, e especialista nesta temática das atitutes e representações humanas quanto à morte, nos tempos que correm e na civilização ocidental, a Morte tornou-se um tabu e uma "coisa feia", algo de que desviamos a cara, de que evitamos falar, ou que procuramos "enfeitar" (como na tradição recente norte-americana). No entanto, ao lermos a magistral obra de Phillipe Ariès, O Homem perante a Morte (ed. Europa-América), vemos que nem sempre foi assim. Na Idade Média as pessoas frequentavam alegremente os locais de enterramento, junto das igrejas, aí fazendo festas e feiras, comendo e até dançando, junto dos seus mortos. Coisas que não nos passariam hoje pela cabeça, mas nada perderíamos se visitássemos com mais regularidade estes espaços, sobretudo para termos a noção da nossa finitude, e de como nada vale sermos tão ambiciosos e desrespeitadores do nosso semelhante. Tudo acaba ali.

8 comentários:

Daniel de Sousa disse...

Olhamos um pouco mais além -e o que vemos? Os ciclos eternos. O nascer e o pôr do sol. A lua. As marés. Os equinócios e os solstícios.A colheita e a sementeira. O apogeu e a finitude. A vida e a morte.Renovamos o corpo, mero organismo, em pó de estrelas. Que das estrelas provém. Choremos os mortos, hoje. Aceitemos a imensidão, amanhã.

Anónimo disse...

O dia dos finados é para mim, não um dia triste, mas um dia tristissimo.
Quem já perdeu um ente querido sabe e entende bem o que eu quero dizer.

Contudo, gostei muito da reflexão do N.R. a que já nos habituou com a sua habitual sabedoria.

Permita-me uma pequena achega :

No Felgar, minha ditosa terra, os enterramentos começaram a fazer-se no seu cemitério em Julho de 1836, tempos bem anteriores á revolta da Maria da Fonte. Por aqui se vê que o Felgar, neste campo ( e até noutros ) se atreveu a pedir meças a muitas outras aldeias, vilas e até cidades... que só começaram a fazer enterramentos nos cemitérios muitos anos depois e alguns até só no séc. XX.
Era, enfim, mais um traço distintivo e revelador da identidade própria da nossa terra e das suas gentes.

Agora, os tempos mudaram e passamos a ver a terra servilmente dobrada, envergonhada e agachada, como que a pedir desculpa por ser um estorvo ou um apêndice face aos designios dos n/ mandantes e ao progresso prometido...

Aja quem nos acuda!

Denso

Wanda disse...

Olá!

Nossa, Daniel! Que lindas palavras!

Aqui o povo aproveita o feriado para viajar e também para ir ao cemitério cuidar dos túmulos.
No maior cemitério da América do Sul, o Cemitério de Vila Formosa, são esperadas hoje , um milhão de pessoas para visitar os túmulos.
Além desse cemitério temos mais dezenove, só na cidade de São Paulo, no estado todo, nem calculo quantos são.
Não é a toa que gosto de lugares calmos e tranquilos como Moncorvo.
Por causa da quantidade de gente e da quantidade de misturas de raças, São Paulo tem o apelido de "Paulicéia Desvairada" , o que lhe cai muito bem!

Eu já fui ontem, no fim da tarde, levar flores para meus antepassados.
O cemitério onde eles estão enterrados é igual a um jardim, não existem túmulos, apenas o gramado e uma placa de bronze com o nome da família.
Quando são depositadas as flores em redor da placa, tudo fica parecendo um enorme jardim florido, de mais ou menos um quilometro quadrado.
Existem muitos bancos e bicas dágua.Esse cemitério fica localizado perto de uma reserva florestal, na zona norte de São Paulo.Não tem aspecto fúnebre, dá a impressão que nossos mortos estão na paz de um paraíso.


Abraço


Wanda

São Paulo-Brasil

Júlia Ribeiro disse...

De facto, Wanda, as palavras, os pensamentos, os sentimentos que o Daniel exprime fazem-nos reflectir profundamente.
Também fui visitar os meus grandes ausentes. Muitas flores , muita tristeza. E a chuva não ajudou nada.
Lembrei-me do culto dos mortos no México: também muitas flores, porém também cantos e danças, e muita comida e bebida, para que os mortos se sintam bem, ao regressarem nesse dia a casa e ao verem a mesa posta...é um dia de festa e não de luto e tristeza.

Recolhi um canto alusivo ao dia, quando passei por Oaxaca:

“Entrai, almas abençoadas,
Passai meu pai, minha mãe,
tios e tias
Avós e Avôs
Servi-vos do pouco que vos oferecemos
Mas que vos é dado de todo o coração
Aqui está a vossa casa, aqui estão as vossas coisas
Bebei vosso pulquezinho
Descansai: aí está a cama,
aí estão as cadeiras.”

Um grande abraço para todos
Júlia

Anónimo disse...

Parabéns ao N. por mais este texto.
Pessoalmente não gosto desta época do ano. Num dia 4 de um Novembro longínquo morreu a minha mãe-avó.Pegou-me ao colo para me guardar em sua casa com menos de um ano de idade e ela já a rondar os seus 70 anos. Passei muitos anos da minha infância e juventude a temer esse dia. Eu dizia sempre que quando ela moresse eu também morreria e que, juntas, partiríamos na mesma urna para essa Viagem. Ela partiu e eu fiquei muito só. Hoje, carrego-a comigo para onde quer que vá. Não está no cemitério onde foi enterrada, viajamos juntas de mãos dadas.

Perdoem-me o desabafo, mas a morte só à distânia do tempo começa a ter um gosto menos amargo. Aos 21 anos ele era assim:

Dia 4 é dia triste
para mim
em minha lembrança.
Não te quero dia 4,
foge da minha lembrança!
Dia 4 amargurado
que tudo me sepultaste
deixa-me apenas a esperança
de um dia meu olhar
(em terras ou céus)
esse rosto poder mirar.

Isabel

Anónimo disse...

Caros Amigos,
como disse logo ao início o Daniel, o devir cíclico e a finitude é a marca de tudo na Existência e no Existente, tomando como existente tudo o que os nossos pobres sentidos humanos percepcionam, interiorizam, conceptualizam e sentem. O que nos revolta, na nossa ânsia de Infinito, de Eterno, de Perenidade. Desde a noite dos tempos, a ânsia do Homem foi contrariar esta fatalidade da Natureza e/ou da Criação, sonhando, imaginando, criando a noção do Além, de um Outro Mundo, ou de uma Outra Dimensão, eventualmente de outras reencarnações, a metempsicose dos antigos Gregos. E desde os primeiros enterramentos, já com flores a acompanhar e o ocre vermelho propiciatório, realizados pelos homens de Neanderthal há mais de 50.000 anos, aos enterramentos em decúbito dos neolíticos, associados depois a monumentos megalíticos (os primeiros grandes jazigos do Ocidente), às pirâmides e às múmias do Egipto, etc., etc., que grande tem sido a luta do Homem contra a ideia e a realidade da morte... Nisso assentou o poder das religiões, e felizes aqueles que acreditam, porque podem suportar melhor e com vantagem em relação aos outros, o fardo da dor da perda, a Saudade e o vazio que o ente querido deixa após si, tanto maior quanto mais querido. Parece que o mundo se desmorona nesse dia!... como te compreendo caro Denso, como percebo o que a Isabel quis dizer. Mas vejam como outras culturas, como a mexicana, aqui referida pela Júlia, procuram exorcizar o fardo das dores da morte. Nas sociedades africanas, quando se morria de velho, fazia-se a festa ritual: matava-se o boi, e todos os descendentes e elementos da tribo festejavam o óbito, tocando os batuques toda a noite, dançando e cantando. Não é essa, efectivamente, a nossa tradição judaico-cristã que procurou acentuar ainda mais o que, já de si, é pesaroso. É certo que nos ofereceu o Além, com a promessa ridente de um Paraíso onde todos nós (os bons) nos encontraremos, num Reencontro final, onde reinará a Felicidade. Para nosso gáudio, também criou um Inferno, para onde imaginamos que a Justiça divina atirará com todos os patifórios que povoam a face da Terra, apesar destes não saberem, e continuarem a infernizar-nos a vida cá embaixo. E, curiosamente, estes parece que são os que duram mais, para acentuar ainda mais a imperfeição da Criação, fazendo-nos ver que compensa ser-se malvado. Em que ficamos?
N.

[Por limitação do nº. de carateres imposto pelo sistema, o resto desta reflexão passa para o comentário seguinte]

Anónimo disse...

[contiuação da reflexão anterior]:

Pois bem, como dizia há dias a investigadora citada no "post" (Profª. Clara Saraiva), da Idade Média ao Renascimento havia montes de manuais que ajudavam a preparar as pessoas para a Morte - claro, que a via salvífica, nesses tempos, se fazia pela religião. Progressivamente matámos Deus, o que nos deixou mais vazios nesse plano. Hoje teria de haver uma preparação "psicológica", quer em relação à nossa própria morte, quer à dos nossos mais próximos (o Psicólogo e, para os mais ricos, o Psicanalista, são os sucedâneos do Padre de antigamente). Só que não há. O exorcismo da ideia faz-se pelo não se falar "no assunto". O "assunto" tornou-se tabu, como dantes era o sexo. A morte, hoje, é um tema pornográfico, ao invés do sexo, que passou a ser ensinado e explicado nas escolas, com honras de disciplina curricular... E a morrer, quem nos ensina? a conviver com a ideia da única coisa que temos como certa em toda a vida, que nos ensina? a aceitar a partida dos nossos entes queridos, quem nos ensina? - Bem, se não há necessidade de se ensinar tal coisa, e se cada um deve procurar a sua própria saída em função de si mesmo relativamente à porta de saída, também não vemos como se imponham tais explicações relativamente à porta de entrada...
Serão tudo coisas da Humanidade e da Natureza: a Dor como contraponto da Alegria e do Prazer, a Noite "versus" Dia, o Frio "versus" Calor, etc., etc., e nada nos adianta rebelarmo-nos contra este estado de coisas, que, de outro modo, nos pode levar à loucura. Como se já não fosse loucura suficiente - aos nossos olhos leigos - a lógica do Universo! - E, neste particular, já os medievais (sobretudo da Baixa Idade Média) aí tinham chegado, com as suas Ars Morientes, as suas "naves dos loucos", com a pintura de Hieronimus Bosch, o que culminaria até na denúncia feita Elogio da Loucura, por um certo Desiderius Erasmus Roteredanus...
N.

j. albergaria disse...

Este Nelson dá-nos volta àcabeça.
Coloca-nos "brutas" questões, as essenciais, as que deveriam merecer, pelos menos, todos os nossos dias, uma hora de interpelação.
Mas andamos distraidos com as questões de lana caprina, do Benfica e do paulo Bento e, zás, lá nos tornamos banais, cinzentos.
Mas, sem menosprezo por ninguém, acho que o nosso poeta maior, do falecido séc. XX, o Pessoa resolveu a questão da morte, e cito-o:

"A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho."

Saudações e bons tempos outoniços para todos, que também podem bem ser agradáveis, assim o queiramos nós.
José Albergaria

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