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domingo, 15 de novembro de 2009

Gaiteiro

descubro-te o canto entre pedras e céu
trinos e lamentos , gritos e antigos sons
que do fole revivem como guerreiras danças
em passos de pastor sobre a esteva pela alba
gaiteiro da vida que me acordas

invento-te o nome, nesta serra , neste olhar
com tambores e ferrinholas
despertas as aves que voam do rebanho
sobre o meu tempo , numa viagem distante
gaiteiro da vida que me acordas

vejo-te na festa como um rei
por entre fogueiras
celebramos contigo no fole e na palheta
o vinho novo o sonho que renasce
gaiteiro da vida que me acordas


Novembro de 2009

16 comentários:

Anónimo disse...

Nessas palavras me revejo.

Sinceramente, fantástico.

O Gaiteiro de Maçores:
FC

Daniel de Sousa disse...

Caríssimo Amigo
Não imagina como me senti feliz com o seu comentário. Foi para si e para todos os que fazem reviver esse magnífico e ancestral instrumento que fiz este poema. Estou convosco e confesso a minha grande emoção de cada vez que oiço a maravilhosa gaita-de-fole transmontana.
Abraço
daniel

N. disse...

Apreciei igualmente o poema de Daniel de Sousa, e partilho do mesmo sentimento ao escutar as melodias que saiem desse saco mágico que é a gaita de foles, instrumento pastoril e guerreiro.
A gaita de foles teve noutros tempos uma larga dispersão pela Europa rural, um mundo antigo que se pretende associar a célticas origens. Na nossa Trasmontânya foi desaparecendo até se confinar a essa espécie de "aldeia gaulesa" que é a Terra de Miranda. Adivinhem agora onde trabalha o nosso gaiteiro - o novo gaiteiro de Maçores que daqui saúdo? - Pois é, não é impunemente que se vive em Sendim (concelho de Miranda)! Quero dizer, sem que aquelas sonoridades e os ritmos do Intercéltico se entranhem no corpo.
A propósito, aqui deixo um poema de Henrique de Campos, escrito já há um bom par de anos, por essas bandas:

MIRANDO MIRANDA
Oh Miranda
tu és a nossa Irlanda
e a Escócia ambas juntas,
nesta lição sem par
de preservar a tradição
e a alma e o espírito
de um povo intemporal.

Tu és grito
de um planalto descampado,
de um chão calcinado
adonde atroa o bombo
e a caixa de guerra
faz tremer toda a terra
e arrepia a gaita de foles!

Já se terçam os paulitos
e matraqueia a dança,
bebe-se a música aos goles
parece um exército que avança!

Vai-se ver e afinal
é "apenas" um punhado de guerreiros
que em passos certeiros
celebra um velho ritual.

Terra de Miranda, estranha pátria
cheirando a restolho e a mosto
no suor de Agosto
ou no fresco Outono,
enregela o Inverno longo
e veste de verde a Primavera,
cheira a vacas no lameiro
e à "posta" no braseiro.

Estranhos são teus rostos
de pedra.

Estranho é teu trajar,
teu sentir, teu falar.

Tu és Zélia, a deusa
que esvoaça nas ruínas abissais
sobre um rio chamado Douro
e me diz que Zelas eram seus pais .

Tu és Leão ,
fragmento de reino extinto.

Tu és o Mirandum
ensanguentado e violado
e abandonado.

Tu és a gente obrigada ao êxodo
como os judeus que acolheste
noutro tempo.

Mas, acima de tudo, Miranda,
tu és baluarte a dizer:
"Existo!"

E, perante isto,
eu, ínfimo e derrotado,
só me apetece responder:
"Se assim é,
então eu também resisto!..."

H.C., Outubro de 2000 (in Povo Antigo - inédito)

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Daniel:

Lindo o seu poema e que coisa fantástica vir o gaiteiro de Maçores responder !
Comovi-me e não digo mais nada.

Um abraço amigo
Júlia

Júlia Ribeiro disse...

Bom dia, H.C.
Belo poema de resistência ! Só não entendo por que hão-de tantos poemas do Daniel, do Rogério, do H.C. intensos, fortes, gloriosos, ficar indefinidamente na gaveta. Impõe-se a sua publicação.
Achais justo estarmos a lê-los a conta-gotas? E não os ter à mão para quando quisermos reler, revisitar gentes e lugares ou simplesmente deleitarmo-nos?

Um abraço amigo
Júlia

Anónimo disse...

Concordo. Seria até bem interessante que deste Blogue resultasse uma obra conjunta, nos mais diversos géneros!

Poemas lindos, sem dúvida!

Isabel

Anónimo disse...

Olá Júlia - sei que estou em falta, pois ainda não arranjei um tempinho para ler (com olhos de ler) o seu útlimo conto cuja apresentação brevemente divulgaremos. Agradeço, em nome do H.C., a sua encomiástica apreciação que lhe transmitirei, pois ele não usa computador nem internetes. Concordo com o que diz, em relação à excelente poesia de Daniel de Sousa e do Rogério. No que toca ao H.C., sei que ele pensa que "quem não tem dinheiro, não tem vícios". Publicou do bolso dele uma vez uma coisa em edição de autor, apenas para oferecer aos amigos, pois é crença sua - e minha - que a poesia neste país não se vende, a não ser a dos tais poemas que "da lei da morte se foram libertando", ou de outros que se vão afirmando, hoje em dia, a muito custo, pela sua qualidade ou por outros factores. São os que interessam às editoras e nada mais. Acha que uma poesia focalizada nos "cús de judas" das nossas fragas interessam a alguém, a não ser a dois ou três trasmontanos mais nostálgicos, seguramente a viver longe daqui? Além disso, escrever Poesia a sério, para ser editada, é uma grande responsabilidade. De outro modo, é gastar papel e as árvores são preciosas. Assim, quando não se passa de "poeta" de nível rasteiro, deve-se ter disso noção e, na melhor das hipóteses, fazem-se umas "edições" fotocopiadas, com agrafe ao meio (mais fácil que o antigo cordel) e oferece-se aos amigos. É o meu conceito.
Quanto ao que diz a Isabel, bem, na verdade este blogue já é uma obra conjunta, precisamente nos mais diversos géneros. E, por acaso, já vai com uma "tiragem" de cerca de 54.000 exemplares, lidos ou vistos umas 140.000 vezes (ou já perto disso), ao invés dos livros que se compram e, quantas vezes, ficam por se ler! E tudo isto a título gratuito! Nenhuma edição seria tão grande e chegaria tão longe, nem seria tão barata, quer para quem produz a informação, quer para quem a consome. Acima de tudo, estamos aqui pelo prazer de uma pequena tertúlia (já intercontinetal), sem outras pretensões.
Abraço,
n.

Anónimo disse...

O Gaiteiro volta e vai partilhar aqui convosco uma história verídica e engraçada.

Maçores, encontra-se recentemente já mais próxima da sede de concelho, pela via terrestre. Mas, nem sempre foi assim. A única forma de ir a Maçores à uns anos atrás(em estrada alcatroada), que a mim bem me lembra, era então, ir em direcção ao Carvalhal, virar à direita e subir a estrada da Serra do Reboredo, atravessar a localidade de Felgueiras e mais outra serra, e chegariamos a Maçores. Ao todo, poderiamos contar que este trajecto, teria se não, mais de 18 kms, e ainda, numa estrada toda esburacada e estreita.
Actualmente, a dúzia de kms, a estrada da Açoreira, facilita-nos a vida ... é como se diz... sabe que nem ginjas. Prontos, dito isto, continuo.
Nós de Maçores, nos dias anteriores à nossa festa, lá nos preparávamos para ir buscar o gaiteiro, que é uma das figuras principais da nossa festividade. Porém, os gaiteiros mais afamados e da minha época, era o cigano de Carrazeda de Ansiães, que trazia o acordeonista (um senhor que era cego, mas que tocava acordeão ... xiça, o raio do instrumento até gemia, enfim), ou outros, lá para os lados de Mogadouro e Miranda do Douro.
Azar... lá teríamos de subir a serra, no velho Peugeot 504, pintado no tejadilho, com aquela cor verde garrafa de vinho tinto, que me faz recordar a Adega de S. João da Pesqueira, para ir buscar o Gaiteiro.
Num desse anos, lá me calhou a mim, ir a acompanhar o motorista, à Vila de Carrazeda, para trazer o gaiteiro lá para a festa. A viagem lá se fez, de forma tranquila. Chegados a Felgueiras, e aqui sim... é que a nossa história começa realmente, fazia parte da tradição, todos os anos à chegada e à partida da Festa de Maçores, o gaiteiro, teria de atravessar a aldeia de Felgueiras a tocar a gaita lá para os "txoqueiros", nome este, pelo qual, são conhecidos os dessa aldeia. Pior, pior... é que eles ainda se "agabavam" (mirandês), de que tinham o gaiteiro antes da festa do S. Martinho e mais ainda, era de borla, coisa que os naturais dessa aldeia gostam, que é serem forretas (olhai que não gastam um centimo, são poupadinhos que sei lá) - continuando - Um desses anos em que o gaiteiro atravessou Felgueiras, houve um garoto que se aproximou do instrumentista e que lhe o seguinte pedido e, claro, da forma falada, com a tipica pronuncia dos Felgueirenses:
- Oh senhor da gaita grande, venha lá a nossa casa, a dar uma gaitada à minha mãe, porque desde que morreu o meu pai, ela nunca mais viu a gaita grande...
Respondia o gaiteiro: Se calhar a tua mãe não gosta da gaita grande!!!
Entusiasmado, respondia fervorosamente o rapaz:Gosta, gosta, olhe que ela passa a vida a falar na gaita grande!!!!
Moral:
Ao que parece, o garoto lá teria a mãe acamada e não poderia ir à rua principal a observar o gaiteiro, que por sinal, ela gostaria muito de o ver, motivo então, de o miudo agitar toda aquela comitiva.

Este ano e noutros anteriores, os gaiteiros vêm a ter a Maçores, nos próprios carros. Como já não sabem destas tradições, nem tão pouco param em Felgueiras.
Como sempre, amigo que sou da farra, este ano ainda me propus a ir com os mais velhos, a atravessar a aldeia de Felgueiras a tocar a gaita... mas depois disseram-me eles: Deixa-os lá, ao menos não se ficam "agabar" (mirandês, de novo) de que sem o gaiteiro ir a Felgueiras, não seria festa, não seria nada. Concordei e em tom de galhofa, peguei na gaita e virei-me para Felgueiras e dei-lhes uma gaitada, na esperança que conseguisse lá de Maçores, alcançar Felgueiras, com a minha gaita grande.

Cumprimentos a todos e a ti (N)... Maçores, yé la mie tiêrra....
A. Filipe - O gaiteiro da Fraga da Masseira (Maçores).

Anónimo disse...

Olá Filipe! apreciei muito o teu depoimento sobre os gaiteiros que animavam a festa do S. Martinho de Maçores. Realmente já conhecia a estória do "sinhor da gaita grande" passada em Felgueiras - só que ma tinham contado com um músico da banda!! E espero que os Felgueirenses (vulgo "tchóqueiros") tenham conseguido ouvir a tua gaitada, eheh - Já agora onde foi o teu concerto? Fraga do Citoque? ou mais para perto do monte da Santa Eufémia? Fosse onde fosse, o cenário foi bem escolhido: daí se avista a magnificiência dos nossos montes agrestes...
grande abraço (e obrigado pela dedicatória, pela parte que me toca),
N.

Anónimo disse...

Como nasceu, o primeiro gaiteiro de Maçores

Sendin, Janeiro de 2009:

Colocado a exercer funções no planalto mirandês, havia já dois anos, os meus dias eram passados sempre da mesma maneira, ou seja, de segunda a sexta-feira, depois do jantar, lá nos encontrávamos os 4 amigos da onça, prontos para jogar uma suecada, para ver quem pagava a rodada, umas lérias aqui e além, umas arrenúncias, tudo envolto no ambiente pesado do fumo, pesado e incómodo e causador do catarro... enfim.
Deram-se as transferências, daqueles que estavam a trabalhar comigo e, com eles, foi-se embora o convívio da sueca, e se calhar também, o baralho das cartas mas mais certamente, o fumo do tabaco.
As noites de inverno passaram a ser então, mais frias, mais sós e tristes.
Numa das minhas frequentes idas à famosa aldeia de Palaçoulo, fui abordado pela juventude da farra, dos copos e das tainadas, que me convidaram para pertencer à Associação Lérias, para iniciar aulas de gaita-de-foles.
Depois de uns sorrisos de gozo que deixei cair das minhas feições de rosto, parei dois segundos para pensar e disse cá para comigo: “xiça e porque não? Catancho, então se os outros tocam na gaita, porque é que eu não hei-de ir também aprender... ?” - Acedi ao convite. Não haveria eu de ter qualquer dificuldade, pois tocador que sou doutras gaitas (acordeão, não fosse o caro leitor julgar-me, como que se eu fosse um tresloucado), lá me apresentei eu de capa e espada, numa das noites seguintes, pronto para a minha primeira aula de gaita de foles. Dois dedos de conversa e entregaram-me para praticar, uma flauta de bisel, tal e qual, uma que tive quando andava lá no ciclo velho em Moncorvo, porém esta, tinha a furação das típicas gaitas mirandesas. Lá me ensinaram três músicas logo naquela noite, que as toquei muito facilmente, na flauta, claro. De ímpeto e da sala ao lado, trouxeram-me uma das gaitas de foles, onde um outro grupo de alunos, já mais adiantados do que eu, se alargavam em toques, melodias e músicas mirandesas. De uma forma cuidada, trouxeram-me aquele instrumento que apenas conhecia, de quando via o gaiteiro, lá em Maçores, na nossa festa, onde o maior desafio que havia sempre nessa altura, era conseguir por a gaita a tocar, que verdade se diga, ela tocar, tocava, mas a continuidade musical, é que não existia. Prosseguindo, então eu assim que vi o instrumento a vir na minha direcção e, ao ser-me entregue com toda aquela confiança, com todo aquele à vontade, eu confesso, que mais parecia que estava a receber um bébé ao colo. Desembrulhando-a, peguei no ronco e coloquei de imediato sobre o meu ombro esquerdo e ao mesmo tempo, olhei de soslaio, a ver se eu ficava bem naquela figura, que eu começara então a dar os meu primeiros passos. Ajeitei o fole, colocando debaixo da cova do mesmo membro superior, apontei o soprete na direcção da boca e com os lábios, abracei-o e comecei a encher o saco, ao mesmo tempo, que segurava na ponteira, tal como me fora explicado. Ao fim de quatro ou cinco "afuladelas" e com o fole meio cheio, ouviu-se logo, o som pesado, grosso, grave e contínuo, do ronco. Mais duas “afuladelas” foram quanto bastou para ouvir a ponteira a tocar. Segurando-a logo e posicionando os dedos, um em cada buraco, e claro, a mão esquerda na parte superior dessa peça e a mão direita, na parte inferior, encerrei assim, todos os buracos que, cada um, corresponderia a cada nota. O fole cheio e a gaita a tocar.

Anónimo disse...

O cotovelo esquerdo apertava o fole para que não permitisse que a gaita se calasse. Entre mais um sopro e uma apertadela, saía a música descoordenada, sem ritmo, sem nada mesmo... um fracasso, pensei eu cá para comigo, até que, voltei ao ponto inicial, tapei todos os buracos fundamentais, estendi um Si Bemol prolongado e, lembrando-me daquelas musiquinhas mirandesas que tinha aprendido anteriormente, ao mesmo tempo, que com os olhos fechados, tentava-me esquecer de todos os factores que à minha volta poderiam distrair-me, pensava na letra, na música e nisto... batendo o pé direito no chão, para marcar o compasso, soltei os dedos e, a música fluiu pelos buracos da gaita, compassadamente, com ritmo, com gosto, com elegância.
A minha primeira música foi "A Saia da Carolina", tocada da forma mirandesa (o que é bastante diferente, daquela que nós estamos habituados a ouvir). Enfim... com alguns enganos ainda à mistura e alguns esquecimentos no aperto do fole de pele de cabrito cinzento, a musica mirandesa lá foi saindo naquela minha primeira noite. Depois desta música, toquei o "pingacho" e " riu-piu-piu", todas elas de origem mirandesa.
Chegara assim, sem quase ter dado conta, o fim a minha primeira aula prática de gaita-de-foles.
Devolvi a gaita ao mestre, que sorrindo, confirmou positivamente a minha habilidade e aplicação, deste aluno, não oriundo destas terras, desconhecedor deste tipo de instrumentos, logo na primeira aula e no primeiro exame, passou com distinção, revelando-se um potencial gaiteiro e difusor e discípulo deste instrumento, pelas terras do Mundo.
Nessa noite, depois das aulas de música, regressei a "Sendin" e na viagem, no interior do meu veículo, assobiava satisfeito, a musica da "Saia da Carolina", acompanhado pelo som grave, rouco e seco, da "souffage" que mesmo no máximo, deitava sobre mim, ainda aquele ar frio, mas tranquilo e bom, para aliviar a alegria de ter alcançado e conquistado, o feito inigualável em Maçores, de haver um Maçorano, que tocasse assim e já tão bem, a gaita de foles.

Nasceu assim, o primeiro gaiteiro de Maçores. (não sei se serei até, o único no concelho)

Filipe. C
“L gueiteirico de la Sîerra de Maçores
- Biba l Gueiteiro!!! – BIBA!!”

Anónimo disse...

Setembro 2009

Como renasce a paixão da Gaita-de-foles

Maçores, Setembro de 2009. O meu tio lá da França, tinha vindo a Portugal de férias e claro, “comme d´habitude les vacances” fazem-se por ocasião das vindimas, da apanha da amêndoa e da Festa de Felgueiras.
Então, quando soube que o meu tinha chegado de férias, fui lá a casa a visitá-lo. Entre abraços e cumprimentos, notícias dos filhos e dos netos, partilha de novidades de cá e de lá, o meu tio torna-me a contar um episódio já antigo que ele teve na sua vida.
Amicíssimo que é, de um emigrante lá das “tîerras de Malhadas, en Miranda de l Douro”, um certo dia, o meu tio pediu a esse tal amigo, que lhe levasse uma gaita de foles, típica daquelas terras, para a França, com a finalidade, de o meu tio ser o gaiteiro de Paris, visto que os emigrantes de Maçores, reúnem-se todos em casa dele, para festejar o S. Martinho. É verdade que têm lá quase de tudo, a faltar apenas, o gaiteiro. Julgou então o meu tio conseguir ocupar o lugar em falta e, mandou que fosse então adquirido e entregue o dito instrumento lá para ele tocar, nas ramboiadas Maçoranas.
Desta vez, o meu tio pediu-me para levar a gaita ao construtor, ao artesão daquela mesma gaita, para a afinar e ajeitar, porque, dizia o meu tio, que teria dado cabo daquele monte de paus e pano.
Ao ver o instrumento, embrulhei-o entre o fole, aconcheguei o soprete, o ronco e a ponteira e coloquei tudo no carro, em cima do banco traseiro.

Barrocal do Douro – Picote
Em casa do Sr. Ângelo Arribas, já meu amigo de à uns anos largos, gaiteiro que chegou a ser em Maçores, e isto já lá vão uns anos porreiros também, então, assim que viu lá a sua criação artesanal, reconheceu-a e questionou-me, intrigado evidentemente, acerca do propósito da minha visita e ainda para mais, com uma das suas gaitas.
Lá lhe expliquei, que aquela gaita, tinha mais de 15 anos, novidade esta, que não assustou o artesão, pois quem melhor do que ele para avaliar a idade do objecto, do que o criador dele… que é mesmo assim.
Entreguei-lha e ele, abrindo-a, constatou à primeira vista que a gaita deveria de estar boa de fole e madeira. Levou-a para dentro do seu espaço de trabalho, uma casa, toda ela dedicada ao seu ofício de construção de instrumentos de origem mirandesa. Nas paredes, estavam expostas gaitas de foles de todo o feitio e cor. Elaboradas com as madeiras locais mais comuns, como freixo, até a madeiras nacionais e raras, como o bucho, a outras de madeira estrangeira. Havia ainda, flautas pastoris, bombos e caixas de guerra, tudo à vista umas prontas, outras em construção.
O “Tiu Ângelo”, separando a ponteira do fole, retirou a palheta e “mirando-a” de contra a janela da divisão, por onde entrava o sol daquela tarde de verão, analisou a pequena peça e disse-me que tinha achado o mal da gaita.
Cirurgicamente, aquele homem, aquele artesão, descobriu na verdade, o mal daquela gaita. Abriu uma pequena caixa metálica de cigarrilhas espanholas e retirou do interior, uma palheta, afinada num Dó Maior e colocou-a no correspondente espaço, ou seja, num pequeno buraquinho, onde nele encaixa uma ponta da palheta e por onde o ar passa, antes de entrar na ponteira.
Voltou a montar o objecto e preparou-se para dar ali uma gaitada. Ronco ao ombro, fole debaixo do braço, cotovelo esquerdo dobrado, soprete nos queixos, umas “afuladelas”, tocou o ronco e a ponteira… maravilhoso… a gaita já tocava. Sabe-se lá, já ao tempo que a gaita estaria parada e, veio o sapiente construtor e deu-lhe ali o jeito que faltava.

Anónimo disse...

Preparou-se para tocar, tapando os buracos todos, entoou uma “alvorada” (melodia e toque daquelas terras). À pressa, tive tempo de sacar a máquina do bolso e registar as imagens … espectáculo. O homem, apertou com a gaita, matou saudades do instrumento que fizera e depois parou. Deixou-se de ouvir o ronco e a ponteira naquela divisão da oficina, que ensurdeceria qualquer um.
Disse-me ele: Olhe, sabe, vá dizer uma coisa ao seu tio e, diga-lhe que fui eu, que mandei, que ele faça o seguinte: “la gaita, la mulher e carro, tîenen q´andar sîmpre bîen afinados”. Percebendo a mensagem, agradeci e vim embora, com o instrumento já ajeitadinho.

Chegado a Maçores, fui direitinho a nossa casa, ao fundo da aldeia. Tirei a gaita do carro e fui-me para dentro a experimentar a gaita, para ver se não me teria esquecido das lições de inverno.
Mais uma vez, ronco ao ombro, fole debaixo do braço, soprete na boca, ponteira na mão, encho o fole e começo a tocar as melodias aprendidas em Janeiro. Não satisfeito, já que não me faltava o vagar, decidi “ampeçar” a tocar as musicas de Maçores, tais como “Era o Vinho” e “ Manuel Duarte”, melodias que saíram assim, num instante e tal como manda a tradição.
Após ver que de facto estava ainda nos eixos, fui lá a casa do meu tio a proceder à entrega do instrumento. Encontrei-o então junto ao portão de casa. Depois de o cumprimentar, disse-lhe que já ali trazia a encomenda afinadinha e pronta a tocar. Transmiti-lhe fielmente, o recado que me mandara o artesão e uma gargalhada nossa, pastou e alimentou o período de tempo, em que retirei a gaita e lha passei para a mão. O meu tio, ciente que estava do meu passado com a minha aprendizagem de gaitas mirandesas, pediu-me que ali mesmo na rua, desse uma gaitada. Mais uma vez, executei os procedimentos de início de actuação e fiz soar na rua larga da FontaPereira, o característico som da gaita.
“Oh Aida, oh minha filha”, constitui uma das músicas, que se consideram desde à muito tempo esquecidas em Maçores. Ameaçada e esquecida, por não haver quem ensinasse os gaiteiros novos que vinham vindo, associado ao facto de os velhos se irem esquecendo também. Felizmente, considero-me ainda um arquivo vivo, dessa música. Buraquinhos da gaita encerrados e começo a tocar essa musica na rua. Bem… o resultado foi que as pessoas que ouviram, vieram todas à rua para ouvir o gaiteiro. O gaiteiro que tocou a melodia mais esquecida do reportório local e que, com isso, os fez recordar de como é bom ouvir o gaiteiro.
“Ai Adeus, oh Manuel Duarte!”, foi a música que se seguiu e serviu para mostrar que gaiteiro, já temos em Maçores. O Camarada Comunista de Maçores, no seu passo lento, descia a Rua onde estava o gaiteiro a tocar e onde, junto aos portões das vivendas, estavam as famílias curiosas, então ele, no seu tom de fala arrastada, semelhante a uma cana rachada, disse:”- Venha o S. Martinho, que já temos Gaiteiro, carvalho”.
Actualmente, deve andar uma gaita de foles e um Maçorano, a tocar lá para as terras dos ” Champs Elysées”.

No dia seguinte, telefonei logo ao meu amigo de oficio e grande artesão, se não o maior e mais bem conceituado, Célio Pires, “fazedor” de gaitas de foles mirandesas, e mais, o diabo a quatro, acho que não deve haver nada que o Célio não faça, e, ao telefone, disse-lhe para que me construísse a minha gaita de foles.
“- Célio, quero que me faças a minha gaita-de-foles, e que seja assim: Madeira de bucho (por ser uma madeira transmontana muito rara, é de cor amarelada, como o ouro e como o sol, afinada em Si Bemol, tal como é afinada a típica gaita mirandesa), e que seja

Anónimo disse...

forrada a pano preto (porque, embora eu como gaiteiro seja uma pessoa alegre, a minha alma estará sempre de luto).
Que a gaita nunca se cale em Maçores, que toque até sempre, sempre que sejamos Maçoranos.

Filipe. C
“L gueiteirico de la Sîerra de Maçores
- Biba l Gueiteiro!!! – BIBA!!”

Anónimo disse...

Grande Filipe! - acho que o teu precioso depoimento sobre o "nascimento" do Gaiteiro de Maçores bem poderia ter sido apresentado como "post". Em todo o caso já fica escrito para o inserires na capa de um futuro CD, quando o resolveres editar, com esse reportório maçorano antigo! Já agora esclarece-me se esse repertório antigo de que falas, em Maçores, era também tocado com gaita de foles? (ou era com outros instrumentos e, neste caso, quais?)
Gostei da tua evocação do tio Ângelo Arribas que conheci há talvez mais de 10 anos numa barraca de artesanato na Senhora do Caminho e, depois, a tocar creio que no primeiro Intercéltico de Sendim (ou foi num dos primeiros) já com a sua neta Anita Arribas Pires em caixa de guerra. Já depois disso conheci o neto, mais novo, e que também já andava a aprender a tocar gaita de foles. E eu atirei-lhe: "ena pá, ainda vais ser um Evia" (nome do grande gaiteiro asturiano); ao que ele me respondeu: "Nãã... o Evia toca já gaita electrónica, e isso não tem nada a ver! eu quero é tocar a nossa gaita, como as do meu avô" - Achei extraordinária esta saída de um miúdo de cerca de 10 anos, tão orgulhoso da sua cultura e das suas raízes. Temi que isto tudo estivesse condenado a desaparecer, mas estes jovens, tal como a malta dos Galandum Galandaina, o Henrique Fernandes (neto de outro grande gaiteiro, creio que de Urrós), o Célio Pires, etc., etc. deram-me a garantia de que a gaita mirandesa não morreria. E lembro-me bem do lema desse primeiro Intercéltico (obra do Mário Correia, com apoio da malta local da Mirai qu'Alforjas e outros): "Nin mais uã fiêsta sin gaitas!" (ainda guardo o auto-colante)
Tenho também um CD do Célio Pires - o dos "molinos de l brosque" e sei que é um grande gaiteiro e construtor de gaitas, tal como o tiu Ângelo, cuja oficina, no bairro da barragem do Picote visitei há anos, com mais dois amigos, a fim de comprarmos uma gaita como prenda para um terceiro, a quem quisemos fazer uma surpresa. Trata-se de uma amigo larinhato que ainda aprendeu a tocar umas melodias, apesar de se queixar do fôlego que o instrumento exige. Se calhar está na hora de descobrir outros gaiteiros aqui do concelho e organizarmos por aqui um concerto. Por que não no Verão, quando vier esse teu tio das Franças?
Resta saber se, no passado, houve por aqui outros tocadores de gaitas de foles, embora disso tenha bastantes dúvidas, pois é um instrumento bastante primitivo e só subsistiu em comunidades pastoris mais conservadoras e arreigadas a tradições mais arcaizantes, onde nem a Igreja, imbuída de uma missão "civilizadora", conseguiu erradicar costumes que considerava algo pagãos - já agora informo que houve algumas pastorais dos bispos de Bragança, creio que do séc. XVIII, contra a entrada das gaitas de foles nos recintos sagrados!...
Bem, não me alongo mais, só me restando saudar a coragem e a dedicação do nosso gueiteiro de Maçores, que assim estende mais para Sul a influência da nação mirandesa, desses descendentes da remota Ordo Zoelarum.
abraço e continua, Filipe!
N.

Daniel de Sousa disse...

Um verdadeiro portento este texto do Filipe ( permita-me que o trate assim)! Cheio de veracidade e sobretudo demonstrando uma grande paixão por este maravilhoso instrumento que é a gaita-de-foles mirandesa. Por mim, que sempre me emocionei com o seu som e com o seu significado, só me resta fazer votos de que nunca se cale pela serra transmontana e pelo mundo.
Aqui vai um abraço ... e
BIBA L GUEITEIRO !!!BIBA!!
Daniel

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