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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Memórias

Uma reflexão outonal. Apenas

Memórias do regresso a casa

Pedro Castelhano

Passei a tarde de hoje a arrumar papéis ( o hoje é tão circunstancial que podia ser ontem ou anteontem). Sou como um camponês (acho mesmo que sou um camponês falhado), avaro em tudo o que são recordações.
E que inutilidades nós guardamos!
De ano a ano é salutar a selecção no excesso, na esperança, desesperada de tão inútil, que aqueles papéis um dia nos vão a ser úteis, quando sabemos, no fundo de nós, que nem sequer vão ser lidos.
Depois, temos poemas de que já não nos lembramos ( e todos nós enquanto jovens sonhámos ser poetas), diários tão datados que sorrimos de conceitos e de tantos julgamentos errados – quer para o bem quer para o mal – para os quais hoje dificilmente encontramos justificação. E só pelo que escrevemos temos a noção de como o tempo passou. E lembramo-nos das camisas que deixámos de usar, dos lugares que já não frequentamos, dos amigos que partiram ou de que nos despedimos, ainda hoje sem saber porquê.
O Tempo é a nossa maior ilusão.
Recolho livros, papéis e memórias neste regresso a casa. Livros que há muito não folheava e que hoje, ao follhear, falam de mim, do que então fui, nos sublinhados e nas notas, livros medidores do meu conhecimento. Trago-os comigo para casa. Alguém um dia os há-de ler, depois de uma releitura minha, nostálgica da juventude em que foram lidos pela primeira vez, mais com paixão do que reflexão. Ficam bem em estantes improvisadas. São eles a fotografia da minha juventude.
E os muitos cadernos de explosões verbais, de sentimentos de circunstância mas que eu achava profundos, da arrogância e soberba de me julgar incompreendido, como se o mundo não me merecesse, todo este trânsito de memória me reduz a um ser frágil e vulnerabilizado neste regresso a casa, como filho pródigo sem acolhimento mas com as cautelas de pescador de barco ainda ancorado.
Recolho livros para meter na mala do carro. Alguns pesam pelos anos,outros pela gratidão que lhes devo. Sem eles não seria nada. Aliás, não sei se sou alguma coisa. Lembra-me o diálogo de Sócrates, o grego, quando diz: “Só sei que nada sei”. E o outro lhe responde: “Eu nem sequer sei isso”.
Na vila, onde até as próprias ruas adormecem por falta de movimento, algum novo e rasca riquismo risca a paisagem, com o meteoro da palavra inflamada pelo euro.
Conhecemo-los no discorrer do tempo.
Ninguém lhes proporia um futuro feito de truques, malvadezas e deslealdades. A outros, ninguém, quando a juventude é tão egoísta quanto generosa, seria capaz de assinar tamanha transformação, trocado um saco de ilusões e utopias por um suculento prato de lentilhas.
E quem me diz que não tiveram razão quando se traíram a eles mesmo antes de traírem os outros?
Regresso a casa. De quando em quando regresso a casa. Recolho o livro, selecciono os papéis e revejo as palavras como a imagem de uma adolescência angustiada, como se o futuro não estivesse à beira.
Mas o Tempo é como uma miragem. Incita-nos à ilusão e provoca-nos à ruptura, estabelecidos no vazio que julgamos o princípio da plenitude.
Recolho os livros, arrumo os papéis velhos numa velha mala. Não sei quando será aberta e se os papéis poderão respirar a luz.
Sei que me sinto mais seguro com eles ao lado.



6 comentários:

N.Campos disse...

"Passei a tarde de hoje a arrumar papéis", escreveu Pedro Castelhano em post de Rogério Rodrigues. Esta frase fez-me lembrar uma entrada num dos Diários de Miguel Torga, autor de que sei que Pedro Castelhano não gosta, mas que é análoga no sentimento do transcurso do tempo através dos vestígios (escritos) que se deixam para trás. Torga escrevia qualquer coisa como isto (cito de memória, pelo que não é "ipsis verbis"): "um domingo [sim, tenho a ideia que foi a um domingo] a rasgar papéis velhos". E acrescentava: "a ganga que um poeta deixa pelo caminho!" - mas esse rasgar de papéis torguiano era um tanto egoísta (e até narcisista), pois dava como justificação que não se apropriassem os vindouros e guardassem ciosamente "tudo o que o santo tocou", ou seja, que não viessem a "santificar" os andaimes da sua construção poética, aquilo que ele reputava de fraca qualidade, ou simples apontamentos que pudessem deslustrar a obra acabada, a obra perfeita. Não me parece ter sido esta a preocupação de Pedro Castelhano e ainda bem. A sua mirada é mais a de uma retrospectiva através dos papéis, livros e memórias que ajudaram à sua própria construção como Homem. Tem a humildade da autocrítica, mas sem perder o sentido crítico, nomeadamente em relação aos trastes em que vamos tropeçando no Caminho - os dos truques, das malvadezas, das traições, ou, no mínimo, das deslealdades. Também as desilusões que sofremos fazem parte do nosso processo construtivo. É evidente que se traiem primeiro a si próprios, mas creio que nem disso têm consciência, porque isso pressuporia um grau superior de sabedoria, que manifestamente não têm. Ao contrário do que ressuma deste belo texto, que é uma reflexão prenhe de Sabedoria. Pareceu-me ouvir nele a voz murmurada de Adriano, naquele profundo monólogo com que abrem umas célebres memórias (re)construídas por Margaritte Yourcenar. Parabéns Pedro Castelhano, e obrigado ao R.R. por o ter postado.
N.

Anónimo disse...

Temos realmente um Torga extremamente preocupado com a refundição das suas obras e uma constante reescrita, como o testemunha por exemplo "A Criação do Mundo". Sabemos que também renegou muitos dos seus primeiros poemas, mas não podemos esquecer que não conseguiu "segurar" o ímpeto inicial(1943) do personagem Senhor Ventura na novela epónima "O Senhor Ventura". Vejamos o que escreve no prefácio à referida obra, em 1985, aquando da segunda edição refundida:
"Não sei com que palavras te hei-de apresentar este livro, mesmo depois da volta que levou. Escrito de uma assentada há mais de quarenta anos, na idade em que os atrevimentos são argumentos, nele deixei a nu toda a fantasia descabelada e toda a canhestrez expressiva que se tem na juventude. Mas tão embaraçado fiquei, quando na maturidade o reli, que fiz os possíveis por esquecê-lo e que fosse esquecido. Hoje, porém, nesta vertente da vida em que se olham com lucidez e benevolência os verdores da mocidade, resolvi recuperá-lo. Pacientemente, limpei-o das principais impurezas, dei um jeito aos comportamentos mais desacertados, tentei, enfim, torná-lo legível. Por ele e por mim. Por ele, porque, apesar de tudo, conta uma história portuguesmente verosímil, dado que somos os andarilhos do mundo, capazes em todo o lado do melhor e do pior; por mim, porque nenhum autor gosta de deixar no espólio criações repudiadas. (...)À hora menos esperada da razão, damos connosco a sorrir dos rigores dos nossos anteriores critérios. Foi o que me aconteceu. Acabei por descobrir que, mais do que anatematizar maceradamente certos erros, o melhor é compreendê-los na sua circunstância e tentar minorá-los. E pronto. Depois de o aceitar em consciência e de o mortificar na bigorna do ofício, assumo em parte inteira o devaneio. E até com certo enternecimento. Talvez por me sentir incapaz de o repetir..."
Ainda bem que o essencial da obra permaneceu inalterado, pois esta novela retrata o Senhor Ventura/o português como um herói da "Picaresca" torguiana. Aqui todos nos reconhecemos.
Aconselho, se a tanto me posso atrever,a leitura desta obra de Miguel Torga. Valerá a pena! E certamente também aquela do Pedro Castelhano!...

Isabel

Júlia Ribeiro disse...

É verdade: tantas inutilidades que nós guardamos. E quando se trata de papéis - como me custa desfazer-me de papéis mesmo de há 40 ou 50 anos - é algo de mim que está naquelas folhas garatujadas, amarelecidas e até amarrotadas.
Há tempos perguntei a uma afilhada, jovem professora de Inglês, se lhe interessavam algumas daquelas páginas com notas sobre como eu iria dar (já tinha dado há tantos anos) as minhas aulas de Inglês. Ali estava eu olhando para umas folhas de um certo dia de 1973...mais pilhas de dossiers na estante de tijolos, mais caixotes de papelada no chão do sótão. Não me espantou nem me incomodou a recusa, mas fiquei a pensar na justificação: é que eu usava os verbos "ensinar" e "aprender". " Madrinha, hoje , não se diz ensinar . Também se evita dizer aprender. Hoje o professor não ensina, ajuda os alunos a desenvolver capacidades. São normas superiores." Ouviste velha professora? E aprendeste? Bolas, hoje não se aprende. Hoje eu devo ter desenvolvido a capacidade de ouvir, sorrir e encaixar. Serão também normas superiores? Decidi que ainda vou ficar com os meus velhos papéis durante mais algum tempo. Não me vão ser úteis, eu sei. Mas são parte de mim.

Obrigada, Pedro Castelhano, por um texto que apaziguou a minha alma.

Abraço
Júlia

Wanda disse...

Olá!
Não há quem não tenha um baú ou até um sótão de recordações.Comigo não é diferente!Vou mais além,sendo mulher, mãe e avó, dá para imaginar o quanto de desenhinhos com confissões de amor de filhos e neta tenho quardadas.
Serão proválvelmente atiradas ao lixo assim que eu partir para sempre, mas agora são os tijolos da construção de minha vida e de minhas memórias.
Esse texto de Pedro Castelhano é lindíssimo e reflexivo.Tenho exatamente estes pensamentos e sentimentos quando vasculho meus guardados.
Muito boa postagem.
Abraço

Wanda

São Paulo-Brasil

António Sá Gué disse...

Também eu me revi nesse belo texto. Também eu, por vezes, remexo nos velhos livros, nos amarelecidos papéis, que me dão a noção do tempo que, sem me aperceber, se dissipou. Gosto de os encontrar, de os tocar, gosto de saber que estão ali, e guardo-os, continuo a guardá-los como se fossem verdadeiras pérolas. Também eu, Pedro Castelhano, sei que guardo inutilidades, mas mesmo assim, e ainda hoje o faço, continuo a guardá-los, como se não acreditasse na memória, como se eles contivessem a minha vida. Já pensei digitalizá-los.
Abraço!

Anónimo disse...

Tenho para mim que o acaso, a naftalina, a ausência de fogo posto ou de humidade exacerbada se hão-de emcarregar, no geral, de dar o abano decisivo, faltando-me, porém, saber, se o que se aproveita, no patente, é o que cai(Yung) ou que que é retido (Freud). Ou se só o latente permanece.

Carlos Sambade

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