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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Nove Poemas de Novembro

III

Vens descobrir o lugar dos mortos, onde recomeça
a memória. Contas o espaço e tu não tens lugar.
Acendem as velas, numa vila a morrer é negócio vivo.
Olhas e são rostos de noite sem lágrimas os que secam os troncos
dos ciprestes. O jazigo tem grades, ferrugem e duas fotografias.
Olhas o lugar que só hoje descobriste. É Novembro e Deus
não o sabe. Os vivos passeiam-se entre os mortos
com os carros à porta e os cães procurando osso velho
na terra ressequida. Porque a terra dos mortos é sempre
terra ressequida.

Não vale falar dos últimos dias,
das madrugadas acordadas em mágoa e lágrimas de cansaço.
Vens descobrir que não tens lugar entre os teus mortos.
Um dia alguém recolherá as tuas cinzas e dará nome a um limoeiro.
A fogueira apaga-se, na noite limpa e gelada, com os cães adormecidos.
E os deuses e os gregos e os normandos e demais bárbaros
todos confraternizam neste culto de mortos com requiem
cheirando a cera, com voz de mocho sugando a alma.
A morte é universal e hoje mal vivo vens descobrir o lugar
dos mortos. Não tens lugar quando a morte te habita.

2 comentários:

Daniel de Sousa disse...

Poema melancólico e umbroso. Bela reflexão sobre a morte dos lugares desabitados - o lugar dos mortos como lhes chama Rogério Rodrigues. Crua realidade de um interior desértico que celebra "num requiem cheirando a cera" a sua desaparição. Que inventa uma memória, por entre frias ruas de Novembro por onde quase só passam cães vadios.
É o eterno milagre da poesia.
Que subsiste para lá das pessoas que a fazem e se renova em cada um que a lê e com ela se emociona.

Júlia Ribeiro disse...

Eu emocionei-me. Nas "madrugadas acordadas em mágoa e lágrimas de cansaço" já me havia esquecido de respirar.
Exactamente como diz o Daniel: "É o eterno milagre da poesia".

Abraços a ambos
Júlia

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