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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Recolha de rochas

Esta colheita de cogumelos fez-me recordar uma outra, mas de pedaços de rochas para colocarmos num determinado tabuleiro e depois aprendermos a classificar.

Foi o Dr. Ramiro quem ordenou a recolha, porque a turma era "bem mandadinha", miúdos e miúdas não só da vila, mas de uma dúzia de aldeias em redor, muito aplicados, atiladinhos, etc. etc.

O Dr. Ramiro gostava mesmo da turma e queria que fizéssemos um brilharete no dia em que o Sr. Inspector vinha inspeccionar o Colégio.

No Domingo que se seguiu, na vila e em muitas aldeias, só se via a miudagem de martelo na mão, à cata de encontrar uma pedra fora do vulgar. Eu e mais duas colegas andámos pelas rochas recém-cortadas do que viria a ser o campo da bola de S. Paulo. Tinham uns veios oblíquos com umas cores ocre, vermelho, castanho que achámos uma beleza.

Os cachopos das aldeias todos trouxeram o seu pedaço de rocha. Só um rapaz se esqueceu completamente. Prometeu trazer no dia seguinte.

Então colocámos as pedras no dito tabuleiro, em cima de um papel em que havíamos escrito o nosso nome, o local onde a pedra fora encontrada, a data, e em seguida tínhamos de observar muito bem, cheirar, riscar com a unha, raspar, etc. etc.

Na aula seguinte, o aluno-cabeça-no-ar voltou a esquecer-se . O Dr. Ramiro, muito zangado, ameaçou que o não deixava entrar se não trouxesse o diabo da pedra. Nós todos, debruçados sobre os calhaus, bem cheirávamos, raspávamos, até provávamos para começar a classificar , mas só com a ajuda do professor é que íamos acertando. Repetimos várias vezes e já sabíamos a cantilena de cor e salteada. Podia vir o Sr. Inspector.

E na aula pré-concertada lá estava ele. Entrámos, mas o aluno-cabeça-de-alho-chocho que, mais uma vez se esquecera da pedra, nem se atreveu a entrar. Deu meia volta a correr, regressou uns instantes depois com um paralelipípedo nas mãos que depositou em cima da secretária.

O Dr. Ramiro perdeu a fala de tão furioso que ficou ! Pegou no paralelipípedo, dirigiu-se à janela e zás , atirou-o à rua. O estrondo que fez foi enorme. Uma coisa estranha, de meter medo ! A miudagem estava em pânico, o inspector e o Dr. Ramiro espreitaram ... O pedregulho tinha caído no tejadilho do carro do Sr.Inspector.

E quereis saber quem era o aluno-cabeça-no-ar? Quem havia de ser ? O Urgel Guerra.

Uma jóia de moço que já não está entre nós. Mas ainda ríamos à gargalhada quando, em Mogadouro, recordávamos esse episódio.

5 comentários:

Anónimo disse...

Notável a forma como a Drª. Júlia conta esta história. Apetece mesmo passar o episódio para banda desenhada, tal é a maneira como conseguimos visualizar toda a situação, especialmente o ar de espanto e danação do inspector e do Dr. Ramiro, a espreitarem pela janela do colégio, e os alunos todos a rirem-se, pelo menos para dentro de si próprios (que para fora acho que era arriscado).
Ainda conheci o Sr. Urgel, que me pareceu uma excelente pessoa. Ah, e ele tinha razão: o paralelo da rua também era material geológico - granito. O professor poderia ter utilizado isso como demonstração da utilidade/utilização de elementos geológicos no nosso dia a dia... Teria evitado a bronca com o carro do inspector! - É no que dão as Fúrias.
Quanto à Drª. Júlia, se o mundo perdeu uma promissora geóloga (apesar dos esforços do Dr. Ramiro), ganhou uma excelente professora e escritora, com uma capacidade extraordinária para contar histórias como esta (para além da do burro 91, etc). Conte mais, conte!, como dizem os miúdos.
Com abraço,
N.

Anónimo disse...

E eu também digo como o Dr.Nelson: conte mais, Julinha, conte. Se por vezes se chora, outras vezes também faz bem rir.

Um beijinho da
Maria da Querdoira

Anónimo disse...

Eu era amigo do Urgel. Ótimo rapaz. Mas tinha dessas distrações realmente. Já nos rimos eu e a minha irmã com esta cena. A Fernanda lembra-se bem do tejadilho do carro do sr. inspector ficar desgraçado.
Eu invejo a tua memória e gosto muito das tuas memórias.
O teu pai também era um grande contador de histórias.
Ora conta lá mais uma Júlinha Barros ora conta que isso faz-nos rebiver bons tempos ainda sem grandes problemas, a não ser os que nos dava o Dr. Ramiro.

Os velhos amigos e companheiros do colégio

Mário e Fernanda

Wanda disse...

Olá!

Muito bom ler o que a Júlia escreve.
Dá-nos a sensação que estamos fazendo parte da cena.Soa muito familiar, íntimo!Isso é o que identifica um bom escritor!Quando ele consegue carregar-nos para dentro do cenário da leitura.
Já que os alunos obviamente não puderam rir na ocasião do acontecido, vamos nós rir agora!
Abraço

Wanda
São Paulo-Brasil

Júlia Ribeiro disse...

Obrigada, Amigos blogueiros. Fico feliz se à face vos assomou um sorriso e ainda mais feliz se deram uma boa gargalhada.
Vou ausentar-me por uma semana.

Até lá, um abração.
Júlia

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