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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A "SANTA" INQUISIÇÃO EM MONCORVO - II



Continuação do texto NA RUA DOS SAPATEIROS EM 1599, da autoria de António Júlio de Andrade e Maria Fernanda Guimarães.


Por lapso, não foi mencionado o nome da co-autora no primeiro texto .As minhas desculpas.


Leonel Brito



UM TUMULTO EM TORRE DE MONCORVO


NA RUA DOS SAPATEIROS EM 1599



"Não sabemos quem saiu deste episódio a cantar vitória. Mas sabemos que, em simultâneo, Diogo Monteiro apresentou perante o vigário geral, representante do arcebispo de Braga, uma denúncia em forma acusando-o de práticas judaicas, como fossem: guardar o sábado por dia santificado, deixar os candeeiros acesos na noite de sexta-feira, comer carne na Quaresma e em outros dias proibidos pela igreja, jurar “pelas tripas de Deus e dos santos”, mostrar desprezo pelos ritos católicos, etc. E juntamente apresentou uma relação de 15 pessoas que podiam testemunhar tudo isso, escolhidas entre pessoas cristãs-velhas que, em algum tempo e de qualquer modo tivessem entrada na casa dos Isidros, em geral antigas criadas e serviçais.


Algumas das testemunhas foram logo recusadas pelo vigário geral pois se confessaram inimigas declaradas de Manuel Isidro. Outras disseram que não sabiam de nada mas, ainda assim, foram recolhidos depoimentos que lhe pareceram suficientes para incriminar Manuel Isidro por judaizante e pedir a sua prisão, bem como a de sua mulher Alda Cardoso, a sogra Maria Vaz, o irmão Vasco Pires, a meia-irmã Francisca de Sousa e a mãe desta Jerónima Fernandes. Dos autos constava ainda que já os avós e outros parentes de Manuel Isidro tinham sido presos e penitenciados pelo Santo Ofício.


O sumário foi enviado para o arcebispo de Braga e a carta que o acompanhava, assinada pelo vigário Gregório Rebelo de Abreu é, só por si, um documento de enorme interesse para o estudo das relações entre as comunidades cristã-nova e cristã-velha de Torre de Moncorvo naquela época. Com efeito, escrevia o vigário que a gente da nação andava nesta terra tão “favorecida” que todos lhe tinham medo ou eram por eles subornados, tornando-se quase impossível arranjar quem fosse a um tribunal depor contra eles. E, além de ameaçarem e corromperem as testemunhas e impedirem a execução da justiça, os cristãos-novos até traziam subjugados alguns dos cristãos-velhos mais nobres e prestigiados da terra, pois lhe abonavam o dinheiro e deles dependiam em termos financeiros.


Por entender que as culpas respeitavam a matérias da fé, próprias da alçada do Santo Ofício, o arcebispo de Braga remeteu os autos para o tribunal de Coimbra, “serradoa e selados”, em 19 de Agosto de 1600.


Entretanto, Manuel Rodrigues Isidro não ficou à espera, logo apresentando no mesmo tribunal um “dossier” onde mostrava que tudo não passava de uma “conjuração” que tinham montado contra ele, contando nomeadamente os episódios atrás narrados e provando a inimizade dos seus detractores com os despachos obtidos na Corte de Madrid. E indicou mais de duas dezenas de testemunhas, entre elas sobressaindo o homem de mais nobreza e prestígio em Torre de Moncorvo (o dr. António Madureira, que foi o deputado às Cortes que elegeram Filipe II para rei de Portugal) e homens do tribunal da Relação do Porto.

Queixava-se também que o vigário geral recebera a denúncia de Diogo Monteiro e fizera os autos de inquirição das testemunhas, mas a ele o não quis ouvir.

Escrevia, finalmente, que as testemunhas arroladas contra ele não mereciam crédito, apresentando-as assim:

Ana Rodrigues é “mulher miserável, alcoviteira e do mundo e como tal já esteve presa”.

Isabel Rodrigues, sua irmã é “mulher muito pobre, miserável e rota e esfarrapada (…) e é público e notório que, por qualquer coisa que lhe dêem, dirá o que não sabe”

Maria, “mulher que morou com a Rabita” é solteira e “vagabunda de seu corpo” e também já esteve presa e degredada por ser alcoviteira e “depois de testemunhar pediu perdão a ele suplicante diante de algumas pessoas” que ele nomeou, em prova.

Isabel Vaz é outra que “por dar alcouce e alcovitar e ser devassa do seu corpo, está presa”.

O mesmo se diga da filha do Capadinho, “devassa de seu corpo e mundana grande” que era companheira de Ana Rodrigues e por ela foi induzida a dar falso testemunho.

Filipa Álvares, forneira, era manceba de Lucas de Castro, um dos seus inimigos.

A lista vai a meio mas o retrato feito por Manuel Isidro acerca dos que contra ele foram depor continua igual até ao fim e o único homem arrolado como testemunha vivia no Felgar, era alcunhado de “malas carnes” e “não possui nada nem tem bens alguns de seu e foi induzido a testemunhar contra ele” por ser seu inimigo declarado pois já em tempos Manuel Isidro ripara da espada e o mataria se o não tivessem impedido.

O processo não tem qualquer procedimento ou despacho do tribunal de Coimbra, depreendendo nós que os Inquisidores não encontraram nele matéria para prender Manuel Rodrigues Isidro. Contudo, 20 anos depois, mercê de uma única denúncia, por “crime” bem menos grave e com base em um único depoimento, o mesmo viria a ser preso por aquele tribunal que lhe instaurou um outro processo (nº 448) e, de forma igualmente estranha o libertaria sem qualquer pena, ao cabo de 5 anos!"


Nota dos autores – A história de Manuel Rodrigues Isidro e seus familiares na Inquisição, ao longo de mais de 200 anos e várias gerações, foi estudada pelos autores e esperam seja brevemente publicada.


FONTE – IANTT, Inquisição de Coimbra, processo nº 5151.


Maria Fernanda Guimarães e António Júlio Andrade

1 comentário:

Anónimo disse...

Texto de leitura muito agradável, como sempre!
Esperemos que os autores consigam publicar o livro, que tanto interesse tem para Moncorvo e para todos!

Isabel

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