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terça-feira, 17 de novembro de 2009

SERMÃO DO BOM LADRÃO

Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este género de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: juratur enim ut esurientem impleat animam. O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao Inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera (...) Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. - Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: - Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. - Ditosa Grécia, que tinha tal pregador!
Padre António Vieira - Sermão do Bom Ladrão, 1655

2 comentários:

Anónimo disse...

Este é, de facto, um "recorte cirúrgico"! Só a "enciclopédia R.R." conseguiria localizar este escrito tão antigo (séc. XVII) e quási premonitório. Sabíamos que o P. António Vieira era um visionário, mas aqui é também quase um vidente, dotes de que se pretendeu investir sobretudo nos últimos anos de vida (para desespero da Inquisição), com a sua famosa História do Futuro. No geral aqui não precisava de ser grande adivinho, pois o tema é transversal a todas as épocas; mas, no particular, referente à tal "tropa" que o Diógenes viu (ou que ele viu por interposta pessoa de Diógenes), a coincidência das palavras escolhidas com o acontecido é notável! Vieira, um perfeito Bandarra.
N.

Júlia Ribeiro disse...

Olá, Rogério e Nelson:

Texto bem escolhido e totalmente adequado aos tempos que correm.
Obviamente , em todos os tempos houve ladrões grandes e pequenos. O que nos falta? Justiça séria e isenta. Vozes que bem alto gritem a sua indignação.
Tantos, tantos, sem ideais nem coluna vertebral, rastejam perante o poder e daí que só os peixinhos miúdos sejam apanhados na rede da justiça. O que é, digamo-lo claramente, um absurdo, sendo as malhas dessa rede tão largas que deixam escapar tubarões.
E depois , depois ... ora, a memória é curta : outros corruptos virão que farão esquecer os anteriores que não foram nem julgados nem punidos . Quo usque tandem...?

Ainda bem que o Rogério nos trouxe aqui o grande Vieira.
Obrigada
Júlia

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