torredemoncorvoinblog@gmail.com

sábado, 26 de dezembro de 2009

Felgar - "Fogueira do Galo" II

Complementando a reportagem anterior do "pucareiro" Tó Manel, aqui ficam mais algumas imagens (nocturnas), de uma das "fogueiras do galo" do Felgar. Nas fotos, trata-se da fogueira do largo Santa Cruz; a outra é feita no largo da igreja. O normal era fazer-se uma só fogueira, por cada povo, mas talvez o Felgar pretenda agora compensar as terras onde já não se fazem estas fogueiras natalícias, como acontece na vila de Moncorvo, onde antigamente se acendiam na Corredoura.

As "fogueiras do galo" seriam assim denominadas porque se acendiam após a "missa do galo" (pela meia-noite do dia de nascimento de Jesus). O canto do galo teria o significado de anúncio desse Nascimento, para os cristãos o acontecimento fundador de uma nova era, prenunciada pelos Profetas. Todavia, sabemos hoje que o Cristianismo ajustou o seu calendário religioso a uma religiosidade de fundo muito mais antiga, a que chamou de pagã. Assim, no tempo do paganismo já se acenderiam fogueiras por alturas do solstício de Inverno - pretendem alguns que para "chamar o sol" em agonia, no dia da noite mais longa do ano - tal como se faziam no solstício do Verão: as fogueiras do S. João.
Estamos perante reminiscências de fogos rituais, sagrados, que tinham por função reunir as tribos num contexto de celebração, organizando o Tempo e honrando as potestades intimamente associadas à Natureza, da qual dependia o calendário agrícola. Ou seja, em última instância, estamos perante ritos que mergulham as suas raízes na noite dos tempos, quiçá no Neolítico Final/início da Idade dos Metais, quando se erigiram os primeiros monumentos neolíticos que teriam o seu expoente máximo no grande "cromelech" de Stonehenge (Inglaterra).
Por todo o Trás-os-Montes se faziam estas "fogueiras do galo", na noite de Natal, e, mandava a tradição que fossem os rapazes da aldeia (tal como os jovens guerreiros da tribo) a carregar a lenha pelos diversos cantos da freguesia, utilizando para isso carros de bois, que pediam por empréstimo, mas sem utilizarem os bois, ou seja, eram puxados pela rapaziada, num misto de sacrifício, mas também de força comunitária, aplicando-se o princípio de que "a união faz a força". No fundo estava em jogo a solidariedade e a unidade da comunidade; depois era o garbo, o treino da robustez física que se expressava noutras terras através da luta da "galhofa" (agora só pelas terras de Bragança), o alarde da capacidade de fazer uma fogueira maior do que a do povo vizinho. Os carros de bois chegavam a galgar paredes, carregados com possantes troncos de castanheiros, tal era a força bruta dos "jovens guerreiros" que para ali canalizavam as suas energias, forma de combater também o frio!
Depois era o momento da confraternização, noite dentro, tendo como mágico elixir anti-frio, além do calor da fogueira (exterior), o garrafão do vinho, para aquecer as almas (o interior). Claro que tudo isto só terá resistido à ortodoxia católica, sob o argumento de que a fogueira era para aquecer o Deus-Menino.
Sobre o Menino-Deus poderíamos associá-lo ao novo ano que nasce com o solstício do Inverno, num arco de transição que vai de 22-25 até ao dia de Reis (6 de Janeiro). Por isso, também mandava a tradição que a fogueira se aguentasse acesa até aos Reis.
Analisando as fotografias, vê-se bem que a tradição, no Felgar, ainda é o que era, se bem que os gigantescos troncos de castanheiro e outras lenhas, venham agora de atrelado puxado por tractores, e que certos desencontros de opinião tenham desembocado em duas fogueiras. Afora isso há que felicitar os felgarenses por manterem acesa a chama das nossas tradições ancestrais.
Texto e Fotos: N.Campos
(Nota: clicar sobre as fotos para as ampliar)

2 comentários:

jose albergaria disse...

O olhar do historiador, do antropólogo, do erudito fazem-nos ver, nas fogueiras actuais, as imagens impressivas do fluir do tempo e do valor que ao longo da narrativa dos homens lhes emprestámos.
Muito obrigado pela partilha das imagens/fotos do fogaréu actual e do vislumbre das outras, escondidas na história dos homens.
Abraço,
J.A.

Anónimo disse...

Bom texto, boas imagens! E que a tradição se mantenha!

Isabel

eXTReMe Tracker