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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

HISTÓRIAS POLÍTICAS


A Senhora Dona Ponte do Pocinho



Foi em 15 de Novembro de 1903 que, em cerimónia solene, se procedeu ao lançamento da primeira pedra na obra de construção da Ponte do Pocinho sobre o rio Douro.


Para os leitores menos familiarizados com a geografia e a história do Nordeste Trasmontano, digamos que esta foi, sem dúvida, a obra mais sonhada durante muitos séculos. A este respeito bastará referir um documento do rei D. Fernando que, em meio das guerras com Castela, dizia mais ou menos isto:


- É mais importante o domínio sobre a Barca do Pocinho e o Castelo de Moncorvo do que sobre as praças e castelos de Chaves, Bragança, Vimioso, Miranda, Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta… É que se perdermos estas praças, podemos novamente passar o rio Douro e reconquistá-las. Se perdermos o domínio sobre a Barca do Pocinho, ainda que aquelas praças todas estejam do nosso lado, acabaremos por perdê-las, mais cedo ou mais tarde, uma vez que as não podemos socorrer nem ajudar quando forem atacadas pelos nossos inimigos. E isto – acrescenta o mesmo documento – porque o porto é o mais chão e seguro que existe em todo o percurso do Douro, desde a cidade do Porto até à cidade fronteiriça de Miranda.


A provar a justeza desta estratégia político-militar, aí estão as crónicas sobre as muitas batalhas que, ao longo dos séculos, em todas as guerras, se desenrolaram no lugar do Pocinho. É que este era o ponto central das comunicações do Nordeste Transmontano para as Beiras e o sul do País.


Do ponto de vista da actividade económica e das viagens, acontecia o mesmo. Pela Barca do Pocinho passavam o rio Douro não apenas os homens, mas também os animais e as mercadorias. Existem fotografias mostrando a Barca carregada com cavalos, ovelhas, caixotes de toda a natureza.


Imaginem, pois, o que significava construir ali uma ponte que substituía o barco e a pesada portagem que se pagava, abrindo uma ligação rodo-ferroviária entre a Beira e o Nordeste Trasmontano.


Não admira, assim, que, naquele dia 15 de Novembro de 1903, acorressem a Torre de Moncorvo e ao Pocinho importantes delegações chefiadas pelas mais ilustres personalidades vindas de todos os cantos no Nordeste. Os de Miranda, Vimioso e Mogadouro vieram no dia anterior e trouxeram à frente, a banda de música de Carviçais. A delegação de Macedo de Cavaleiros chegou também de véspera e era chefiada pelo dr. Alberto Charula. Os de Carrazeda trouxeram a sua banda de música. E, para além das filarmónicas de Carviçais e Carrazeda, apresentaram-se ainda as de Moncorvo, Foz Côa e de Infantaria 6, do Porto.


Escusado será dizer que, nesse dia, os dois partidos políticos do rotativismo (Lazarões e Penicheiros) enterraram o machado de guerra e, nos discursos, houve elogios mútuos dizendo-se que “os progressistas iniciaram os projectos e os regeneradores iniciaram as obras”. A responsabilidade da construção da ponte foi da Companhia Industrial Portuguesa que já tinha construído outras estruturas semelhantes sobre o Douro e seus afluentes.


Roma e Pavia não se fizeram num dia e… passados quatro meses, lá estavam já os penicheiros de Moncorvo a publicar este irónico artigo no seu jornal:


- Recebemos ultimamente uma carta da Srª D. Ponte do Pocinho que em Novembro último partiu para a China, em viagem de recreio, pormenorizando-nos a sua feliz viagem e agradecendo as amabilidades que aqui lhe dirigimos por ocasião da partida. Espera demorar-se alguns dias em Pequim, ir visitar o José de Azevedo para lhe provar a sua utilidade naquele País e pedir-lhe que não deixe estragar a unha do dedo polegar, distinção muito apreciada naquele império. Tenciona visitar todo o Oriente e apresentar as suas felicitações ao governo de Tóquio, oferecer-lhe os seus serviços, etc., etc. Estamos a ver que é capaz de ainda ir substituir o almirante Togo!


Naturalmente que os lazarões davam a resposta no seu semanário local e naturalmente que os penicheiros voltavam à carga, meses depois, em vésperas de mais uma campanha eleitoral. Faziam-no, porém, com humor e isto é muito salutar nestas coisas da política. Vejam outra crónica referente ao assunto:


- Um telegrama recebido há dias nesta vila, transmitido pela agência Veritates, deu-nos a lamentável notícia de ter perecido no combate de Kumilatuff, a Srª D. Ponte do Pocinho, comandante em chefe da 9ª divisão japonesa que, conforme havíamos noticiado, foi-lhe entregue o comando desta divisão pelo governo de Tóquio. Por enquanto, há falta de pormenores, mas é de supor que o triste acontecimento fosse devido a uma granada. A notícia, como é de prever, espalhou-se pela vila com grande rapidez, sendo a consternação geral pela simpática heroína. O Grazina velho cofiou os dedos pelas barbas e murmurou: - São coisas de Moncorvo! O Candoso trinca o bigode e fica indeciso, com grande estupefacção. O Margarido, meio incrédulo, pede informações ao seu amigo Sousa Cavalheiro. O Artur Certa pergunta se já há informações mais exactas. O sr. Monteiro, secretário, bate três pancadas com a bengala no solo e estabelece comparações com um caso na azinhaga da sua aldeia. E o Boaventura Pinheiro e o Braz Saraiva, sem dizerem nada, parecem sentir não a poder fotografar, o que acreditaria muito o seu athelier. Consta-nos que o dr. Areosa já escreveu aos herdeiros a pedir-lhes procuração, a fim de tratar do processo gratuitamente, sem atender ao sr. Questâncio, o melhor advogado da actualidade. No Canto do Inferno há grande pânico e a matraca suspendeu-se em sinal de luto Adeus, ponte; que a história te seja grata!


António Júlio Andrade

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