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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Ninho de histórias

Parabéns, Isabel, por este ninho de histórias.

9 comentários:

Anónimo disse...

Bela fotografia! Capta bem a "atitude" do pardal: bicho ladino, ladrão, no conceito popular, que se ia às graduras e se mistura(va) com as galinhas na capoeira, para lhes roubar a ração. E de pouco valiam os espantalhos! Sendo muito prolíferos (estes não correm riscos de extinção, dada a sua extraordinária adaptabilidade, até no meio urbano), noutras eras, para se combater a praga dos pardais as autoridades pagavam a quem os matasse. As cabeças eram enfiadas num cordel e eram apresentadas aos funcionários do município que pagavam por cabeça. Não resultou, pois ainda continuam por aí muitos, se bem que já não haja searas nem de trigo nem de centeio, já que nunca nos constou que comessem milho, apesar de se dizer, quando éramos chavalos e se jogava muito ao bilhar, nos cafés e salões de jogos da vila: "o primeiro milho é para os pardais" (dizia, despeitado, o que primeiro perdia). Até havia uma locução em latim macarrónico, que alguém inventou algures: "Primum milium pro pardalorum est"!
N.

Anónimo disse...

Bela fotografia!... Hoje, seria difícil apanhar os pardais nos trigais ou em cima dos rilheiros, mas estão também belíssimos numa eira moderna e demasiado limpa. Parabéns pela imagem e mais uma vez pela "Flora de Brincadeiras". Temos que combinar para a Páscoa uma apresentação conjunta de "O Trigo dos Pardais" e desses brinquedos maravilhosos! Afinal são a prova de que ainda tudo é possível, assim a criatividade o queira!

Um abraço e obrigada pelo post. Que belo comentário!...

Isabel

N.Campos disse...

Não deixa de ser curioso como a nossa colega Isabel, ainda que na longínqua e brumosa England, aplique os arcaicos vocábulos do nosso trasmontanês - é assim mesmo! mas como nem todos, hoje em dia, nem mesmo em Trás-os-montes, saberão o que quer dizer "rilheiro", tentarei "traduzir": eram os grossos fachuqueiros (feixes grossos) de palha ainda com o grão (trigo ou centeio) que ficavam no campo,normalmente colocados na vertical uns de encosto aos outros, depois de se ceifar (manualmente, com as foices), à espera de de carrejarem (ou no carro de bois, ou no dorso de burros ou mulas). Lembro-me do vocábulo e desta actividade no termo de Mazouco, mas não sabia que assim se dizia no termo das quintas de Felgueiras. Já agora, uma vez transportados para a eira, estes feixes creio que eram abertos (pois vinham apertados com um "vencelho"/"bencelho") e amontoados na "meda" (que noutros lugares, creio que mais a Norte, no termo de Mogadouro, tinha o nome de "parva". Depois, com uma forquilha, eram lançados para a malhadeira/trilhadeira (máquinas que malhavam e trilhavam a palha, separando o grão da palha trilhada). Estas máquinas, muito em uso nos anos 60 e inícios de 70, seriam progressivamente substituídas pelas máquinas ceifeiras, que ceifavam, embalavam logo os fardos da palha, e retinham o grão num depósito, ao mesmo tempo que se deslocavam pela seara nessa operação de segada mecânica. Como é evidente, estas máquinas só podiam andar (e andam ainda) em terrenos planos. Ora o ciclo do cereal, como muitas outras coisas, praticamente acabou já há cerca de 20 anos, aqui pelas nossas terras - por isso nos admirámos de ter visto uma máquina dessas ainda em laboração, numa seara do vale da Vilariça no Verão passado. Com o fim das segadas tradicionais os vocábulos vão desaparecendo também, ficando como uma espécie de palavras arcaicas, só do conhecimentos dos etnólogos e arqueolinguistas (não sei se já existe este ramo da linguística, mas não sei como lhe chamar). Por isso é bem que os escritores do "terrunho", os telúricos, os contuinuem a utilizar, mas, por todas as razões que se sabem, devem incluir um glossário no final das obras, ou sugerir bibliografia para consulta. - Estou a lembrar-m, por exemplo, de um Dicionário do falar de Trás-os-Montes e Alto Douro, de autoria de Víctor Barros, meu antigo colega na Escola Secundáruia de Moncorvo, onde ambos fomos alunos do Mestre Padre Rebelo, um entusiasta do estudo dos regionalismos e que nos iniciou nestas coisas.

Ainda sobre os pardais, e porque estas coisas de algum modo se relacionam (é tudo etnografia), ocorreu-me agora um provérbio da minha avó (das terras de Mogadouro), sobre a progressão dos dias - dizia ela que "dos Santos ao Natal, o dia é como um salto de pardal" (dias muito curtos); mas, "do Natal a Janeiro, salto de um cordeiro" - quer-se dizer: os dias já passavam a ser um bocadinho maiores. E é verdade, senão consultem o Seringador, ou o Borda d'Água, onde vêm sempre as horas do amanhecer e do anoitecer. Aliás, estes almanaques centenários eram de aquisição obrigatória pelos nossos lavradores, na feira de início do ano, para saberem às quantas andavam com as luas, as sementeiras, e etc..
Peço desculpa à Isabel por este longo "post scriptum", mas é aonde nos levam as palavras!
E, já 'gora, boas entradas!
N.

vasdoal disse...

Isabel e Nelson,obrigado pelas vossas palavras.
Esta imagem dos passaritos foi tirada, vejam só, em Cabo Verde, na Ilha do Sal,no verão passado,a pensar n'O trigo dos pardais.São pardalecos crioulos, mas têm sangue luso - pousam em todas as eiras do mundo.
Em relação à proposta da Isabel - apresentação conjunta d'O trigo dos pardais e dos brinquedos de "Flora de Brincadeiras", é com todo o prazer que aceito a proposta.
Para já, um Bom ano de 2010.
João

António Sá Gué disse...

Vou, provavelmente, meter a foice em seara alheia. Vem mesmo a propósito. :-)
Uma pequena achega: em Carviçais utilizava-se o termo fachoqueiro, com um sentido diferente daquele que o Nelson descreve. Para um carviçaleiro, um fachoqueiro, era um pequeno molhe de palha, bem atado, por pequenos vencelhos, ao qual se pegava fogo numa das extremidades, e como ardia lentamente servia para iluminar durante a noite. Era, ao fim e ao cabo, uma tocha. Aliás, um facho, tem também o significado de archote, e a etimologia deve ser essa. O fachoqueiro era também utilizado na matança do porco.
O mesmo em relação ao termo "parva", cheguei a ouvir utilizar esse termo como sendo uma refeição, pequena refeição. Aliás,era a refeição que os segadores faziam a meio da manhã. O dia começava muitos cedo, e pelas 10 horas da manhã, quando o Abílio apitava era tempo de fazer a parva. De facto,"parvum", em latim, significa pequena quantidade, ninharia daí, provavelmente, o significado ter essa origem.
E já agora, e porque não há duas sem três, um rilheiro tinha esse significado, só que era constituído pelos molhos e não por fachoqueiros, já que esse termo tinha outra significado como disse no primeiro parágrafo. De uma forma mais simples pode dizer-se que na mêda a disposição dos molhos ( faxas [ou fachas?], de palha,) era cónica, no rilheiro a configuração era cúbica.
Abraços
P.S. Em Carviçais era assim.

N.Campos disse...

Viva António!
Obrigado pela "foiçada" e não há problema, que a seara não é alheia, pois é de nós todos.
No que toca ao "fachoqueiro" certamente tens razão, pois eu é que adaptei, por analogia, esse termo aos "molhos". Realmente agora me lembro que era este o nome que se dava aos feixes da palha (ainda com o grão) que ficavam na seara. O "fachoqueiro" parece-me que não tinha tanta palha (e sem grão), servindo, de facto, para chamuscar o reco na matança.
Quanto à "parva", com o significado de refeição da segada, confesso que desconhecia. E tem lógica, por contraposição à refeição principal (que seria o "jantar", hoje almoço, já que o "almoço" era, nesses tempos, o pequeno-almoço). Com o significado de "meda" creio que a ouvi, há uns largos anos, em Bruçó (a "aldeia vermelha" da "guerra do combóio", em 1979).
No que toca aos "rilheiros", pois nesse caso compostos pelos "molhos", tenho uma vaga ideia de os ver na vertical, pelas terras de Mazouco e Vilarinho dos Galegos (as minhas referências da adolescência). Mas a memória às vezes atraiçoa-nos, pelo que não posso afirmar a pés juntos que era assim, pois é de admitir que possa ter visto fotografias em alguma publicação. Todavia prometo que vou tirar isso a limpo.
O "Centro de Memória" é isto: lugar de remeximento das nossas recordações e partilha de informações. "Para memória futura", como escreveu o António Manuel sobre o Sabor.
N.

N.Campos disse...

Post Scriptum - no comentº. anterior, utilizei indistintamente a palavra "palha" com grão e sem grão. Mais um erro meu, evidentemente, pois a palha é sempre sem grão; quando ainda com o grão, é espiga, embora esta, "strictu senso", seja apenas a parte superior da planta, onde se forma o grão.
A propósito, aqui fica um adágio trasmontano: "Bem grande é o Marão, e não dá palha nem grão"
N.

Júlia Ribeiro disse...

Muito interessante a vossa conversa
sobre os nossos regionalismos. Posso entrar na seara? Mas deixei a seitoira para trás.
Por estes lados do Pinhal d'El-Rei também se diz meda com referência à caruma. Mas a forma mais ou menos cónica das medas (para protecção contra a chuva) é dos nossos sítios e naturalmente de outros lugares.
Rilheiro creio que é como diz o Sá Gué e os rilheiros ficavam ficavam sempre perto dos rodados dos carros de bois, pois assim era mais fácil o transporte para a eira.
Mas já ouvi a palavra rilheiro a um velho pescador de S. Pedro de Muel, referindo-se a uma corrente forte do mar "O rillheiro d'auga não vai deixar passar o barco".

E , em tempo de chamuscar o reco , acendem-se uns fachoqueiros. (Ainda se faz assim?).
As memórias vêm ao de cimo e as saudades apertam.

Amigos, gostei imenso da conversa.
Até à próxima.

E, "last but not least" não quero ir embora sem apoiar a proposta da Isabel: seria uma apresentação lindíssima "O Trigo dos Pardais" com os fantásticos brinquedos da "Flora de Brincadeira" do Vasdoal.
Façam isso e eu farei os possíveis por estar presente.

Abraços
Júlia

Anónimo disse...

Afinal parece que a Drª. Júlia não deixou a "seitoira" para trás, pois continua a saber segar e bem. Quanto aos fachoqueiros para chamuscar o reco, pois ainda se acendem mais por via da tradição (quem consegue arranjar a palha), mas outros há que já usam um maçarico a gaz. Diz que é mais depressa. Enfim, modernices!
Quanto à ideia da apresentação do livro dos pardais/Isabel + Brincadeiras com a Flora/Vasdoal, também acho uma boa ideia. Deve-se é propôr com a devida antecedência aos serviços culturais do município, quer por causa do espaço, quer para figurar na Agenda Cultural. Fica a dica.
Abraço,
N.

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