torredemoncorvoinblog@gmail.com

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Pocinho

Ponte do Pocinho em dia inverniço (foto de António Botelho, 2009)
«Volto agora à aldeia e agora me recordo, ao olhar o rio, que antes havia patos no rio, murmúrio de laranjeiras nas margens verdes que se estendiam até às falésias da Lousa, pequenos barcos, conto isto à medida que vejo ou que revejo ou que sonho, já não sei, exactamente, o que vêem os meus olhos, e vejo pouco, vejo as coisas inscritas em tudo, este lugar estendido a todos os lugares do mundo. Trouxeram agora a notícia e eu não estava ainda preparado para ela, embora soubesse que mais cedo ou mais tarde isso viria a acontecer. Estava inscrito nas águas do rio que vejo através da janela. Mas fica para depois a notícia. Agora recordo os patos, os caçadores que vinham às quintas-feiras, metiam-se nos barcos brancos e avançavam pela neblina dentro, as espingardas luzidias, oleadas, limpas por dentro e por fora, coronhas brilhantes ao ombro, quando o sol rompia, se é que chegava a romper, tão bela era a imagem dos caçadores, já ninguém sabia deles, desapareciam nos caminhos de água, tinham ido procurar os patos na altura em que havia patos no meio do rio, no interior do rio, era bonito vê-los, aos patos, e, quando surgia um rasgo de ruído no céu, um caçador apontava a sua arma e ele caía, isolado no seu voo em queda, a dignidade de um pato no meio da baía rodeada de choupos que rebentavam em flor quando chegava a Primavera que aqui mora mais cedo, soava então um tiro, dois tiros mais tarde, o pato caindo com solenidade, a solenidade de um pequeno deus, molhado de sangue e de céu, era bonito vê-los, ao patos, quando ainda havia patos no meio do rio, rompiam o isolamento da aldeia porque vinham de todos os lugares, chegavam de Barca d'Alva carregados de luzes, mistérios e nevoeiro, dependuravam-se nas águas do rio entre limos à flor da corrente, espalhavam-se, mergulhavam a cabeça na água, levantavam voo, erguiam-se mais alto, para o céu, chegavam às nuvens, aos anjos, aos deuses que andavam mais em baixo, soava um tiro, era um pato que descia do céu, um brilho de olhos no meio do rio, na ilha já desaparecida, vinham de longe e de perto, os patos, tão brancos e polidos na sua penugem, hoje vêm de vez em quando, diz-se na aldeia quando vem um pato, agitam-se-me os olhos e viro-me para o rio, uma mancha branca voando e estilhaçando as colinas de amendoeiras e vinhas, poisam nos olivais à beira da água, eram bonitos os pássaros, os patos, todas as aves que invadiam o rio pela Primavera e com os choupos em flor, traziam gotas de nevoeiro dependuradas nas asas, vinham do norte, iam para o sul, mais para o sul, abeiravam-se das aldeias, brancos, brincavam, eram bonitos, os patos.»

Francisco José Viegas, Regresso por um rio. Ed. Europa-América, 1987.

eXTReMe Tracker