A última edição (1995) de Ares da Minha Serra, porventura a obra mais conhecida de Campos Monteiro, é da responsabilidade da Câmara Municipal de Moncorvo, com uma tiragem de mil exemplares.
O livro consta de duas histórias e um apontamento, quase jornalístico, de uma viagem de barco rabelo, do Rego da Barca até ao Tua, onde se apanhava o comboio para o Porto.
A primeira história, “A tragédia de um coração simples”, bem ao ritmo camiliano, em escrita eivada de regionalismos, Campos Monteiro conta a história de um jovem moncorvense, João Caramês, cortador de lenha na serra do Roboredo e que se perdeu de amores – e pelos amores se deixou perder—por Madalena Caixeiro, sua vizinha. Tinham sido criados praticamente juntos, como irmãos.
Mas a Madalena caiu nas graças do fidalgote Tomazinho Montenegro que a seduziu.
O Bento Armoges, “um unhas de fome”, como escreve o autor, é o usurário da vila. Tem uma pequena zanga com João Caramês, durante a pisa da uva.
Nessa noite, o Bento Armoges aparece morto. São deitadas as culpas a João Caramês que é preso. Mas Canafrecha ( uma das personagens mais conseguidas da novela), um pobre diabo, sem eira nem beira, sabe quem matou o Bento Armoges. Fora o Tomazinho Montenegro.
Madalena Caixeiro diz ao João Caramês que está grávida de Tomazinho Montenegro.
João Caramês foge da cadeia por uma escassas horas, vai ter com Tomazinho Montenegro e conta-lhe que sabe quem matou o usurário. Tomazinho confessa e garante que se vai entregar no dia seguinte. João Caramês, porém, diz-lhe que se confessará culpado do homicídio, com uma condição: que case com Madalena Caixeiro. E antes do julgamento. E assim é feito.
O advogado acha que não há provas contra o João Caramês. A própria população acredita na sua inocência. Mas João Caramês não falta à palavra, considera-se culpado e é degredado para as Áfricas.
Amores alentejanos
A segunda história, “A Rebofa” ( as cheias da Vilariça), é ainda mais trágica. Trata-se de uma história de ódios velhos que não cansam entre dois abastados lavradores que, desde pequenos, tinham vivido como irmãos, até que, um pouco à aventura mais do que por necessidade, partiram para as ceifas do Alentejo. Aí, ambos se apaixonaram pela mesma mulher, também ela abastada, mas que só um amava. O ciúme destruiu os dois. E destruia-a a ela que, escorraçada pelo pai, começou a andar de terra em terra, em trabalhos do campo.
Eles regressaram a Moncorvo e puseram muros entre as casas contíguas, para que nunca se vissem um ao outro. Tornaram-se mesmo rivais na política. E nasceram-lhe um filho e uma filha que acabaram por se apaixonar, e casar com a sua maldição e viver na miséria até que, desesperados, se suicidaram na “rebofa”, deixando uma criança aos cuidados da caseira da Quinta do Chibos.
Quando souberam da tragédia, os dois velhos inimigos encontraram-se, pela primeira vez, diante do berço do neto. E abraçaram-se, com a caseira na penumbra vertida em lágrimas.
Diga-se que a caseira, que não fora reconhecida, era o antigo amor alentejano dos dois velhos.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Ares da Minha Serra
terça-feira, 13 de maio de 2008
Vamos lá descansar um pouquito
À experiência
Vou começar a escrever neste blogue algumas das minhas experiências pessoais, relatos não lineares de certo e incerto tempo e de (sobre) pessoas da minha infância. O desafio foi-me feito pelo Nelson Rebanda, mal eu sabia que havia um blogue em que Moncorvo era uma paisagem mais real do que de ficção. Prometo, proximamente, enviar alguns textos de temática moncorvense, se assim me posso exprimir, o que não me agrada muito, tão redutor que se torna o desafio. Mas nos subterrâneos da memória, por vezes; nos armazens das lembranças, por outro, entre tanta escória, alguma pepita há-de surgir, para mal dos meus pecados e bocejo dos viciados no blogue. Mas não é sábio o que já muito sabe, mas sobretudo o que continua a aprender. Nunca serei sábio, mas não desistirei de continuar a aprender, aqui e noutros lugares.
Não estranhem que, por vezes, o pseudónimo seja um estratagema de me reencontrar e não de fugir; que o nome da minha aldeia seja um registo muito presente, entre a nostalgia e a crítica, entre ausentes e presentes, entre velhos e aqueles que já foram novos. Esperem por mim se tiverem paciência para tanto.
Rogério Rodrigues
segunda-feira, 12 de maio de 2008
A Quetobia Patorra
A quetobia patorra
A quetobia patorra,
'stá debaixo do torrão;
e a quetobia patorra, Ai!
A quetobia patorra,
'stá debaixo do torrão;
Mas Ai! Ai! Ai!
Moidinha com pancadas,
Moidinha com pancadas,
Que lhe deu o gafanhão;
Moidinha com pancadas,Ai!
Moidinha com pancadas,
Que lhe deu o gafanhão.
Mas Ai! Ai! Ai!
Lá em baixo vem a raposa,
Lá em baixo vem a raposa,
Pela rodeira do carro;
Lá em baixo vem a raposa, Ai!
Lá em baixo vem a raposa,
Pela rodeira do carro;
Mas Ai! Ai! Ai!
Traz os olhos na carcota,
Traz os olhos na carcota,
E o cu debaixo do rabo;
Traz os olhos na carcota, Ai!
Traz os olhos na carcota,
E o cu debaixo do rabo;
Mas Ai! Ai! Ai!
O lagarto é pintado,
O lagarto é pintado,
Da cabeça até ao meio;
O lagarto é pintado, Ai!
O lagarto é pintado,
Da cabeça até ao meio;
Mas Ai! Ai! Ai!
Não sei com'as mulheres pode
Não sei com'as mulheres pode
Com tanta carne no seio;
Não sei com'as mulheres pode, Ai!
Não sei com'as mulheres pode,
Com tanta carne no seio;
Mas Ai! Ai! Ai!
Música tradicional de Torre de Moncorvo, in " Algumas Cantigas do Património Cultural Transmontano" ( Colectânea e Recolha de M. Brandão) - Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro - Lisboa ( Grupo de Cantares), Lisboa, Outubro de 1987.
Cotovia : Fotografia de João P.V. Costa
Sequeiros, Moncorvo, 23-3-2008.
domingo, 11 de maio de 2008
aromas e sabores
Uma saladinha de azedas e de "merujas" a preparar o " lastro" para a perdiz no tacho
drama na Sra da Teixeira
Já tarde quase noite uma tempestade pairava no ar. O som da trovoada fazia medo.
in: "os céus de moncorvo" http://www.antoniobasaloco.org/ceusapresentaçao.htm
De todas as mil formas

Perdido no verde dos freixos e salgueiros,
Embalado no canto do papa-figos e do rouxinol
Comi amoras, molhei os pés,
Ouvi a música do rio e ribeiros.
Colhi um ramo de buxo.
Com alecrim o perfumei.
Juntei-lhe pérolas de cor,
Jóias de cheiros,
De todas as mil formas que encontrei.
E quando em minha mão já não cabia,
Coloquei-o de mansinho na corrente.
Fiquei a olhá-lo, enquanto se perdia.
Foi-se, fiquei contente.
Como posso eu querer guardar
Toda a beleza que a Primavera tem para dar?
Rio Sabor, Maio de 2008.
sábado, 10 de maio de 2008
Brinquedos e segredos
Brinquedos e segredos
Portão do cemitério
Estação do Pocinho, 2008,Maio
Arte ou vandalismo? - Neste caso voto pela Arte.
Mais juventude, mais cor, quebrando o cinzentismo de uma empresa
que há muito parece alimentar o secreto desejo de fechar esta estação...
Oxalá cativem a Juventude e o Turismo, com arte e imaginação
e encontrem novos públicos para a Sustentabilidade desta linha!
Toda a cor da Primavera numa quimera

Dedaleira (Digitalis purpurea), junto à Foz do Sabor.
Maio, 2008
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Por esse rio acima
Depois de um voo nos ares do Reboredo, um passeio ao profundo vale onde um rio espera, espera.
A paisagem é magnífica e fotografei-a no dia 8 de Maio, durante a manhã, ao som de uma sinfonia de rouxinois, rolas e papa-figos.
Pela tarde choveu bastante. É possível que os peixes retidos no seu ímpeto reprodutor, tenham oportunidade de subir o Rio, por uma última vez.
Bico da Ribeira e baixo vale da Vilariça - vem aí um novo IP-2 ??

A zona da "Ribeira", vendo-se em primeiro plano, em baixo, a confluência da ribeira da Vilariça com o Sabor. Ao fundo, o encontro deste rio com o Douro e o meandro que este descreve em redor do monte Meão.
O dedo do parapentista aponta o troço já existente do IP-2, ao lado do qual se pretende construir um outro troço paralelo, do mesmo itinerário. Uma dupla estrada seria uma irremediável agressão à paisagem, atirando o troço existente, literalmente, para o lixo (mais um futuro vazadouro de entulhos e de sucatas). Para já o Estudo de Impacto Ambiental desta obra foi "chumbado", esperando-se que haja uma alternativa melhor... Em nome do património paisagístico...
Foto captada de parapente, pelo nosso amigo Tó Andrês, em 2.06.2004, e a quem agradecemos a autorização para publicação desta imagem, assim como das anteriores.




















