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terça-feira, 20 de maio de 2008

Morreu o Manel DJ

Não resisti a publicar este texto, que já saiu na altura da morte deste meu amigo no Jornal de Notícias ( edição de Lisboa,na rubrica Passeio Público), como uma homenagem a muitas das figuras de Moncorvo que vão desaparecendo. O texto é conhecido de algumas pessoas, mas gostaria que fosse conhecido por muitas mais, em nome do Manel que foi um homem notável. Gostaria também que para esta galeria de ausentes escrevessem outras pessoas. Por exemplo o Gil do Peredo merecia bem uma prosa e um lamento. Aqui fica a sugestão ou o desafio se quiserem.

Morreu o Manel

Mal cheguei à terra, o olhar cheio de urzes e estevas floridas, de maias e giestas pujantes e flocos de sabugueiro, a primeira notícia que me deram soou a raios, trovões e águas turvas na memória: "Sabes?, o Manel morreu".
Não ouvi o dobrar dos sinos do alto da torre por este meu amigo, um quasimodo franzino, com um curto respirar de pássaro.
"De que morreu?"
A resposta é vaga, não sabem por inteiro.
"Talvez dos pulmões". O corpo deformado, a corcunda, iam-no asfixiando aos bocadinhos. É o que se diz sem nenhum rigor científico, apenas com alguma fatalidade poética.
Há muitos anos entrei, já a noite ia longa, num bar, o primeiro que abrira na terra. Chamava-se o Noitibó.
A um canto, numa espécie de aquário de vidro, um dj frágil, como um peixe triste, ia servindo música. Com o seu olhar, como que entendia as necessidades de momento de cada cliente. Era sábio na sua administração.
Conheci então o Manel.
Nas noites seguintes quando o bar fechava e no cheiro intenso a fumo flutuava uma suave melancolia, eu, o patrão e o Manel tomávamos a última bebida.
Num gesto de ternura escondida, colocava o último lp, expressamente para mim, da Maria Bethânia a cantar, num álbum de parceria com Caetano Veloso, o "Leãozinho", o "Meu primeiro amor" e o "Adeus, meu tempo de chorar".
Saíamos para a madrugada, havia silêncio na rua íngreme, da Cal se chama, e só muito ao longe se ouvia o ladrar de algum cão.
Era um tempo sereno e medido.
O Manel não conheceu a paixão e eram ignorados os seus subterrâneos de afecto.
Mas um sonho houve que o acompanhou durante longos anos: cursar engenharia.
Depois de muitas e inúmeras noites de dj num aquário de sons, num bar de rua estreita, conseguiu matricular-se em engenharia.
Terminava este ano o curso.
Faltavam poucos meses para realizar o sonho, o único que tinha de seu, além da casa herdada dos pais.
Era a família que lhe custeava os estudos.
Só agora soube que o Manel, o meu amigo quasimodo franzino, se chamava Manuel Mota e já tinha 43 anos.
Nunca o vi sem gravata e duas mangas. Receava o vento e algum resfriado.
O funeral passou ao lado do jardim. Mas no jardim já não havia amoras negras.
Ontem à noite regressei ao Noitibó. O aquário já desapareceu. Estava o patrão, completamente sozinho. A um canto do balcão, velhos lp's amontoados. Comecei a procurar a Maria Bethânia. O patrão pôs o álbum no gira-discos e serviu três bebidas, para nós e para o ausente.
A lágrima furtiva não se percebeu na penumbra do bar.
Porra, o Manel morreu.

Rogério Rodrigues.

domingo, 18 de maio de 2008

18 de Maio - Dia Mundial dos Museus

Hoje, dia 18 de Maio, é o Dia Mundial dos Museus. Aproveite para fazer uma visita ao Museu do Ferro & da Região de Moncorvo.
Inauguração de exposição sobre "Trabalhos do Museu, 2002-2008" (às 15 horas).
Neste dia a entrada é gratuita.

Sentinelas


Sentinelas que me olhais
Do alto dessa igreja
Revestidas de silêncios
- De que crimes me acusais?
Há séculos que aqui estais,
E eu ainda agora cheguei!
Já vos olhei ao sol pôr,
Recortei-vos contra o céu,
Com o ouro me ceguei.
Não sei ...
Será que é olhar de amor
E a sentinela sou eu?

sábado, 17 de maio de 2008

a alma da terra


"Torre de Moncorvo onde o ferro é a alma da terra"... mas o granito também brilha.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Campos Monteiro

Desculpem a insistência no Campos Monteiro, mas com este pequeno texto, de aditamento, relativo à homenagem que lhe foi prestada em Moncorvo, parece-me que dou mais alguns elementos pouco conhecidos para quem um dia queira fazer algum trabalho sobre este escritor transmontano.
Rogério Rodrigues


Notícia do Primeiro de Janeiro

Moncorvo homenageia Campos Monteiro

Dez anos após a sua morte, em 1943, Carlos de Passos, amigo de Campos Monteiro prepara e edita uma “Homenagem a Campos Monteiro. Miscelânea de estudos em honra do escritor e do cidadão--1876-1933”. O livro com uma tiragem apenas de 500 exemplares é editado pela Livraria Tavares Martins, Porto, 1943.
Além de vários depoimentos, constantes do livro, na generalidade de escritores e jornalistas de direita e extrema-direita, homens do Estado Novo e monárquicos, o in memoriam trás a notícia do Primeiro de Janeiro dando conta da homenagem que lhe foi prestada em Moncorvo, a 21 de Janeiro de 1934, um mês e meio, sensivelmente, após a sua morte em S. Mamede de Infesta.
Pelo seu interesse, aqui a publicamos na íntegra, com a devida actualização ortográfica:

“MONCORVO, 22 - Na sala de Leitura do Dr. Campos Monteiro, do Club Recreativo Moncorvense, efectuou-se ontem uma sessão solene de homenagem à memória daquele grande escritor, sendo nesse acto descerrada a fotografia daquele conterrâneo ilustre. Assistência numerosa, onde se encontravam as individualidades de maior categoria social desta vila.
Presidiu à sessão o sr. Dr. José de Abreu, digno notário desta comarca e presidente da assembleia geral, secretariado pelos srs. Julião Serra e Alfredo de Sousa, membros da direcção do mesmo Club.
O sr. Presidente abriu a sessão e no seu discurso, que foi cheio de frases eloquentes, focou com brilho admirável a grande figura que foi Campos Monteiro.
Falou em seguida o representante da Direcção Sr. Julião Serra que em palavras singelas pôs em relevo algumas da obras do grande mestre.
Fala depois um novo que promete --o Sr. Telmo da Fonseca --, que num discurso brilhante, cheio de beleza e frases arrebatadoras, enaltece o grande valor moral e intelectual de Campos Monteiro, pedindo no final um minuto de silêncio como homenagem à memória daquela figura que tanto enriqueceu as letras pátrias.
Fala a seguir o Snr. Alcino Alves, digno Inspector da Companhia de Ferro, que num esplêndido discurso pôs em relevo o poeta ilustre que foi Campos Monteiro, além de prosador incomparável e médico distinto.
O retrato, obra admirável da Fotografia Medina, dessa cidade, estava coberto com a bandeira da Municipalidade de Moncorvo, sendo descoberto pela interessante filhinha do membro da Direcção, Sr. Adriano Fernandes e sobrinha do homenageado, Maria Adelaide da Silva Fernandes.
Na biblioteca, em princípio, há 400 volumes, encontrando-se ali representados os maiores escritores, tanto nacionais como estrangeiros, a qual vai ser enriquecida brevemente, com a obra do saudoso morto.
Campos Monteiro que tanto amava a terra em que nasceu, merece uma homenagem mais alta e grandiosa. O nome numa rua, é pouco. Uma lápide na casa onde soltou os primeiros vagidos ainda não é o bastante.
Campos Monteiro, essa distinta figura da literatura portuguesa, merece uma homenagem maior, muito maior, e que mostre às gerações vindouras esse grande vulto que enriqueceu as letras pátrias, foi o orgulho da terra que lhe serviu de berço.
Nota -- Essa homenagem maior está em vias de realização, pois brevemente na sua terra natal se inaugurará o justo monumento comemorativo da nobre figura intelectual que foi o Dr. Campos Monteiro. A iniciativa e a realização do mesmo devem-se a uma comissão de bairristas, formada pelos Exmos Srs: Engenheiro Guilherme de Castro Leandro, Dr. António Joaquim Marrana, Alferes António Augusto Serra, Amadeu Ferreira d’Andrade, Claudino d’Oliveira Pereira e António José Martins”.

Era esta a notícia do “Primeiro de Janeiro”, provavelmente de um correspondente local. Em 1939, da autoria de Sousa Caldas, foi erguida a escultura de Campos Monteiro frente à Câmara Municipal.

o ferro... e a alma


Digitalis purpurea

A abelhinha da ASAE, a ver se o mel é puro.

Açoreira, Torre de Moncorvo.

Cravo-romano


Cravo-romano (Armeria pseudarmeria), fotografado junto ao rio Sabor.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Zoom à Teixeira





Frescos no exterior.
Capela da Nª Sª da Teixeira , Sequeiros
Torre de Moncorvo, Março de 2005.

Peredo dos Castelhanos (1)

Quando tropeçamos nas pedras do tempo nem sempre nos magoamos. A entrada de Moncorvo, vindo das Aveleiras, com o cavaleiro, em ladrilhos, a anunciar o nitrato do Chile, quase sempre me remete para a minha infância e para a casa dos meus avós na aldeia, casa que hoje não existe, demolida e transformada em mais uma nova e atípica casa de emigrantes. Era térrea e dela via as eiras onde, descalços, jogávamos a bola, entre cardos secos e algumas agudas pedras, enquanto a “trilhadeira” e os “rolheiros” de trigo não ocupavam aquele nosso espaço privilegiado da infância. Perto, havia o tronco, onde o velho Marcelino de Urros, alto, esguio, de preto vestido, mas muito dado aos copos valhó Deus, ferrava as bestas e os homens jogavam ao ferro, com um caldeiro de água fria ao lado. Eram conceituados os de Maçores neste jogo, de força e rigor. Os homens jogam também à raiola com patacos pesados e já cobertos da patina do tempo. E em Setembro ripava-se o olmo para a vianda do porco. O chilrear dos pássaros irritava o silêncio pacato e quente do crepúsculo. Éramos porventura felizes? Porventura sim porque os nossos desejos e necessidades eram muito limitados. A minha avó fazia-me a marrafa em cabelo crespo e rebelde. Tínhamos a mão afoita à pedra e sabíamos onde se escondiam os ovos das perdizes. O Ângelo Chocalho guardava, com desvelo sem fim, o pinheiro manso junto à Nossa Senhora da Glória, não fosse a canalha roubar os pinhões do patrão. O ti Ifigénio, um santo homem, levava-nos com ele a guardar as ovelhas. Mas vistos hoje os dias à distância de meio século, a miséria era muita. Corrijo, não digo miséria. Prefiro antes pobreza.

Pedro Castelhano

(Em breve os próximos capítulos)

Afonso Praça

Gostaria de escrever mais alguns textos (alguns deles já escritos, passe a redundância) sobre o Afonso Praça, ou seja, escrever sobre alguém que teve um amor sem fim por Trás-os-Montes

Carta ao Afonso Praça
Caro Afonso Emílio:
escrevo-te depois de uma longa ausência, que cada vez será mais longa a ponto de se considerar interminável. Não me tens telefonado e não te tenho telefonado porque, se porventura te encontrares em algum lado, será num lado onde não há telefones. E agora vamos às notícias: amigos teus deixaram um rasto de saudade e ternura pelos jornais, espalharam a cinza das suas lágrimas por muitas palavras que resistiram à pressão do efémero. Tenho seguido com atenção este caminho de reconhecimento e afecto. E nas suas palavras renasces, retirada a escória profana. E surges como sempre te conheci: sem inimigos declarados, incapaz de levantar a voz, não sujeito aos pecados da cólera e da inveja, bem mais tolerante em relação à gula e à luxúria.E há quem lembre os teus sofrimentos no seminário e na tropa. Mas registam com alguma surpresa que sempre mantiveste relações privilegiadas com gente da Igreja católica e da instituição militar.Com algum sentido de humor, a tua sogra disse um dia: “Imaginem com quem as minhas filhas haviam de casar—com um Praça (Afonso) e um Tropa (Alfredo)”. Conheci-te mal acabaras de sair do seminário e eras falado por todo o distrito de Bragança como o jovem que dominava o Latim qual Cícero e o Português como um padre António Vieira.Era eu então um imberbe adolescente e mal imaginávamos que mais tarde, durante anos e anos, viveríamos juntos tantas horas e tantas noites.De quando em quando atacava-nos a melancolia. A tua, mais suave e disfarçada; a minha, mais crua e descarnada.Jantávamos e almoçávamos na Casa Transmontana, às Escadinhas do Duque. Mandávamos vir as alheiras de Moncorvo e tínhamos convencido a Teresa a ter também a ementa em mirandês. Por vezes cansada, deixava-nos a chave e ficávamos até de madrugada a esmoer histórias, numa prolongada digestão de afectos, com alguma crítica, pouca, de permeio. Sabes? a Teresa está mal, vive com o Chico em Álvaro, uma aldeia da Beira Baixa, tem uma casa toda em granito, há muito abandonou o restaurante e a cidade, mas a Teresa está mal. Telefonou-me há dias e chorava de tanta solidão e doença.E que saudades tínhamos nas longas noites do Snob e outros ínvios bares, esconsos, de africanidade –tu sempre tiveste uma sedução particular pelas mulatas – do nosso Trás-os-Montes que nos foi tão padrasto, mas que amámos tanto.Tu ainda conseguiste arrumar as contas. Vendeste a casa no Felgar e fomos buscar a tua mãe a Poiares, para vir morrer junto de ti. Depois, compraste uma casa na Alentejo, na Igrejinha. Tu sempre foste o transmontano mais alentejano que conheci, até no modo como cortavas o pão, tasquinhavas o queijo e o presunto e contavas histórias, no ondular lento e melodioso da palavra, com o acento transmontano que nunca perdeste. Que o diga o Manuel da Fonseca, o teu dilecto parceiro de fins de tarde, nos tempos do República.Mesmo a cidade está muito diferente, Afonso, desde que os teus amigos não conseguiram impedir que tu partisses. Mas nós fizemos-te algum mal para partires assim? A cidade, Lisboa que tu amavas tanto, fez-te algum mal? O teu Campo Grande que tu olhavas olhando os montes e as pedras bem mais longe mas tão perto, o próprio Campo Grande já deu pela tua falta. Já nem sei como está a Feira Popular, nem sei se o restaurante Mirandela ainda existe. Fomos lá uma vez, a primeira em que a médica te obrigou a fazer dieta, porque a pele da tua cara, parecia um tambor. Sentamo-nos. Era a tua última refeição antes de entrares em dieta. “Não achas que se deixar de ser gordo, perco a graça toda?” Confessaste-me já nos últimos dias antes da partida que estavas a preparar um conjunto de cartas românticas para mulheres sós. Escritas em linguagem adaptável à condição social e cultural de cada mulher imaginada. Estou a ver o teu apego à ternura, o teu passar de mãe gorducha e lenta pelos cabelos cansados das mulheres sós.Tinhas tanta capacidade e necessidade de pensar nos outros que às vezes te esquecias de ti próprio. Vai longa a carta. Não quero que canses a vista. O teu coração está forte, como sempre. E mordo-to. Prometo-te que na próxima feira irei comprar uma corneta de barro. Se ainda houver oleiro na tua aldeia que faça cornetas de barro. Eu também quero ser o rapaz da corneta de barro. Um abraço do Rogério.

*Este texto foi publicado num opúsculo da responsabilidade da Câmara Municipal de Lisboa, em edição do Museu da República e Resistência, em homenagem a Afonso Praça.

Mon-COR-vo


Torre de Moncorvo, Rua das Flores.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

do outro lado do tempo

Até quando esta porta de Mós estará voltada para nós.
Esta(Mós) à espera!

Mós , Torre de Moncorvo

Com as Mãos ...

As mãos na "partidela" da amêndoa.
Sequeiros, Torre de Moncorvo.


Enxerto de amendoeira, através do processo de "anel". Assim se vão ainda mantendo algumas espécies tradicionais.
Sequeiros, Torre de Moncorvo.

Preparação do queijo de ovelha. Apesar da folha de flandres e do plástico terem subtituído a madeira, na bacia, nos aros e na francela, o gesto continua ancestral, de preferência vindo de umas mãos frias.
Sequeiros, Torre de Moncorvo.

Itinerários - A Linha do Douro

As carruagens são poucas e obsoletas e vermelhas, num fim de Verão, numa estação de comboios, na margem direita do Douro, em Campanhã, no Porto, onde todas as viagens começam para o espaço mais sofrido de Portugal.
É sempre uma aventura interior mergulhar no xisto, lavar os olhos no Rio e sentir como a memória se fere nas escarpas ao longo de 200 quilómetros.
As montanhas trepam por nós adentro.
Há séculos que se venera e teme o Rio. Não há outro Rio para além do Douro, diz-se do Porto à raia. O sentido do sagrado permanece. A história dos naufrágios passa de boca em boca, de gerações sobre gerações, são quilómetros e alturas não mensuráveis de socalcos que mais parecem construídos pelos escravos ressuscitados das pirâmides do Egipto.
Mas não. Foram cavados e dinamitados por sísifos sem história, desprezados pelos deuses, abjurados pelos homens, foram os galegos e os transmontanos e os beirões que trabalhavam sol a sol, robustos e telúricos, por uma mão quase vazia de moedas, meia sardinha e um copo de aguardente.
Miguel Torga, o grande poeta ibérico, chamou-lhe Reino Maravilhoso, a este universo agreste aonde vamos entrar, a partir do Porto até ao Pocinho com um bilhete de comboio ainda de baraço e papel-cartão.
“Douro, rio e região, é certamente a realidade mais séria que temos. Nenhum outro caudal nosso corre em leito mais duro, encontra obstáculos mais encarniçados, peleja mais arduamente em todo o caminho; nenhuma outra nesga de terra possui mortórios tão vastos, tão estéreis e tão malditos” (Miguel Torga - Portugal).
A viagem demora quatro ronceiras horas.
A primeira paragem acontece em Valongo. Mas o tempo alterou a estação. Já não se ouvem os pregões das ‘regueifas’ (uma espécie de pão espanhol em rosca), já se não vendem as bilhas de barro com água fresca, para atravessar montanhas de xisto que refulgiam e fulminavam.
Os passageiros ainda trazem o garrafão de vinho, mas já não usam os cestos de vime, de cores vermelhas e ocre, para a merenda: salpicão, presunto, bolos de bacalhau, queijo e sardinhas fritas, das pequenas, a encherem a carruagem e a memória de intensos cheiros e aromas.
Cabe na geografia sentimental, como um espaço de repouso, como antecâmara de intermináveis vinhedos da epopeia do “fine wine”, a estação do Pinhão, coberta, como uma galeria ao ar livre, de azulejos de azul celeste, que contam ladrilhada a faina da vindima. Azulejos que se perdem no tempo, peças raras do nosso imaginário.
Os WC ainda se chamam retretes e os depósitos ferroviários são em matéria enegrecida pelo tempo e pelo fumo das velhas locomotivas movidas a carvão ou hulha, que se alongam, negras, ao abandono, como sinais de um tempo já passado, em velhos e ferrugentos carris cobertos pela erva.
Nesta viagem sentimental, neste reencontro com as raízes da terra em que fui parido, vêm-me aos lábios, como sons musicais, os nomes das quintas de que se contavam histórias na minha infância: amores realizados e desavindos, facadas, violência e morte, mas sempre miséria.
E ouço-as e vejo-as enquanto começam a surgir, nas margens do Rio, laranjais, amendoeiras, chorões, salgueiros e olivais. E os nomes em casas baixas, teimosamente serenas nas encostas dos vinhedos a tocarem o céu – a Quinta Velha, a Quinta da Vacaria, Valbom, Ventozelo, S. Luís, Pego, a Casa do Castelinho na Alegria, a Ferradosa, já com vinha nova, com plantio à UE, comunitária apenas nos fundos e nos subsídios, com compasso obrigatório.
E a memória de que aquele reino pertenceu aos ingleses. E lê-se pela montanha acima: Cockburn, Taylors, Sandeman.
E a memória repete-se, após longos anos de ausência de viagem na Linha do Douro: porque é que o comboio pára onde não há sequer uma casa, muito menos uma estação ou alguém que toque a corneta para ordenar que retome a marcha?
Estabelece-se um silêncio de plenitude na chegada à Valeira, outrora local maldito pelos seus açudes e pela sua raiva. Foi aqui, nos seus cachões, que morreu o barão de Forrester. Por trazer um cinturão cheio de libras de ouro, que lhe pesavam no seu corpo de inglês e o empurraram para o fundo. Mais à frente, no Vesúvio, foi a vez de D.Antónia, a Ferreirinha, se salvar, boiando, com as saias rufadas em balão. Ao naufrágio só ela sobreviveu. É o que ouço desde a infância. É o que hoje se continua a ouvir. Mas também D. Antónia se salvou de ter como compadre o todo poderoso duque de Saldanha que tentou arrematar casamento do seu filho com a filha da proprietária. Mas D.Antónia não foi no engodo. E quando se passou para o outro lado, aos 85 anos, além de bens em nota, moeda e ouro, no seu pecúlio constavam 24 quintas no Douro.
Do Tua parte outra linha para Mirandela. Esta placa giratória é também um espaço quase mítico na memória transmontana. Durante tempos, zona de paludismo, de calores tão intensos que, conta-se, os trabalhadores no Verão assavam as sardinhas nos carris.
Ao darmos a curva para entrarmos no Pocinho , o fim da Linha, o começo de outro mundo, a escassos quilómetros do Parque Arqueológico de Foz Coa, ensaiamos o olhar na Quinta do Monte Meão, que fecha um ciclo e onde se tem produzido o melhor e mais caro vinho português: Barca Velha, da Ferreirinha.
O Pocinho tem um ar decadente. Dali partiam duas Linhas, já extintas, para a Barca d’Alva ( a ligação com a Espanha, através de Lumbrales) e para Duas Igrejas, o sítio ferroviário mais a norte do Nordeste transmontano.
É a hora do crepúsculo no Pocinho.
É aqui o princípio e o fim da epopeia do vinho do Porto.
Em finais de Setembro, princípios de Outubro, começam as vindimas.
Rogas de transmontanos e beirões descem até à região dos socalcos. Mulheres e crianças ou homens mais fracos cortam os cachos; os mais robustos, carregam as uvas em cestos altos (60 a 70 kgs) para os carrinhas e tractores ou, directamente, para os lagares. A estas rogas juntam-se hoje, entre legais e ilegais, ucranianos, moldavos, bielo-russos. Podem nunca ter visto uma uva, mas ao fim da colheita conhecerão já, por certo, o intenso cheiro do mosto.
Bem vindos ao Reino Maravilhoso do Alto Douro e Trás-os-Montes, o único reino onde os lobos ainda uivam e as velhas de preto esperam sempre por alguém que deve estar a chegar, nem que seja aquele viajante que um dia perguntou: “Então velhinha, diga lá se não gostava de ir a Lisboa”. “A Lisboa?” “Sim, a Lisboa” “Estou farta, estou farta de Lisboa” “Mas já foi alguma vez a Lisboa?” “Tenho lá seis filhos”.
Terra de emigração, Trás-os-Montes está quase deserta de transmontanos.
Reino Maravilhoso? Só de passagem e pela janela de um comboio.
“Venham, venham ver o Rio”, diz a mãe com sotaque do Porto, para as duas crianças da cidade.

Do Pocinho a Miranda

Do Pocinho, o entreposto ferroviário onde nasceu Francisco José Viegas, figura da televisão e autor da “Morte no Estádio”, em autocarro ou automóvel de amigo partimos em direcção a Moncorvo. São 11 quilómetros, sempre a subir, e com mais de 300 curvas, entre o enjôo e árida paisagem.
Chegamos a Moncorvo e frente ao edifício da Câmara deparamos com o busto de Campos Monteiro, o escritor consagrado da terra, um médico que, fazendo a sua vida na periferia do Porto, não esqueceu as suas origens. Nos anos 20 teve algum sucesso e notariedade com “Saúde e Fraternidade”, sátira de monárquico reaccionário à República anárquica, com “Miss Esfinge”, um dramalhão camiliano, com “Ares da Minha Serra”, duas novelas que retratam, com fidelidade e alguma nostalgia, a vida de Moncorvo do princípio do século XX.
Se fizermos uma pequena paragem, para jantar que seja, podemos ir até ao restaurante das piscinas, o Dom Mendo, ou ao Artur de Carviçais, já com a encomenda feita de amêndoas cobertas e enchidos, sobretudo alheiras (galinha do campo, peças de caça, tudo amassado no pão regional, com azeite e alho silvestre), a chouriça da resistência dos cristãos-novos aos esbirros da Inquisição, como bem escreveu Manuel Mendes, o eterno conspirador com raízes em Mogadouro.
Deixámos para trás a mastodôntica igreja que levou 100 anos a construir e onde espirra, dentre granitos, um raquítica figueira que dá dois ou três figos todos os anos.
Deixamos para trás o Museu de Ferro, o único no país. No concelho, na serra do Roboredo( bosque de carvalhos numa pertinência latina), estavam e ainda estão em recato as maiores jazidas de ferro da Europa.
Ao nosso lado direito, fica a aldeia do Felgueiras, terra de Armando Martins Janeira, o embaixador que se apaixonou pelo Japão, crítico literário nas horas vagas e com interessante espólio em Cascais; terra de onde partiu o bisavô de Jorge Luís Borges, em andanças militares e outras que desaguaram na Argentina. Ao lado esquerdo, fica o Felgar, onde nasceu e calcorreou caminhos, o Afonso Praça, jornalista e autor de “O Coronel Morreu de Sentido” (noveleta satírica com assento na sua terra) e “Um Momento de Ternura e Nada Mais”, crónicas de saudade de Trás-os-Montes visto do Campo Grande (Lisboa). Homem de saberes, comeres e beberes, publicou “Receitas Afrodisíacas”, com desenhos de Francisco Simões, e, em parceria com Maria de Lurdes Modesto, publicou, na Verbo, dois volumes das “Festas e Comeres do Povo Português”.
Avançamos até tomarmos a decisão de cortar à direita para Freixo de Espada à Cinta. São sem dúvida os piores 15 quilómetros de estradas transmontanas. Mas vale a pena o sacrifício. Entramos na vila portuguesa com mais casas manuelinas e com pinturas de Grão Vasco na Igreja da Misericórdia. Se queremos comer alguma coisa, já fruto de ser terra de fronteira, podemos encaminharmo-nos para o Cinta de Ouro, com carne espanhola, fresquíssima e tenra, entradas espanholas e presunto aparentado com o pata negra.
Terra do interior, estamos em terra de marinheiros, aventureiros e missionários. Daqui houve Jorge Álvares ( com direito a estátua em Macau), companheiro de peregrinação de Fernão Mendes Pinto e o primeiro português a chegar ao Japão; daqui houve Sarmento Rodrigues, o almirante ( indo ao Turismo o leitor pode comprar uma biografia de Sarmento Rodrigues, com muitas surpresas e novidades, da autoria de Nuno de Sotto-Mayor Quaresma Mendes Ferrão); daqui houve Basílio de Sá, autor do primeiro dicionário de tetum-português, prisioneiro dos japoneses em Timor; daqui houve o padre Manuel Teixeira, considerado dos maiores sinólogos vivos.
Para fazer a digestão, nada melhor que subir ao Penedo Durão,donde avista terras de Espanha e o céu parece estar mesmo à beira da sua mão; ou então, desce até à Congida e repousa os olhos no Rio, numa serenidade semelhante à que haveria no Paraíso, não fosse a gulodice da maçã.
Meta-se de novo a caminho até Mogadouro. Entrou no planalto, viu em Castelo Branco a casa das 365 janelas e portas, já a ser recuperada após longos anos de ruína.
Entrou no reino da posta mirandesa, tem muito por onde escolher. Ou siga até Miranda e ouça o linguar estranho de uma língua (o mirandês), um dialecto do leonês, hoje falado por cerca de 15 mil pessoas e que já tem expressão escrita e literária em Francisco Niebro (Amadeu Ferreira) com os “Cebadeiros” e “L Ancanto de l Arribas de l Douro”.
A Língua mirandesa foi descoberta há mais de 100 anos pelo prof. Leite de Vasconcelos e foi aprovada como segunda língua oficial pela Assembleia da República em 1999.
Visite o Menino Jesus da Cartolinha, já bem fornecido da posta mirandesa na Gabriela das Duas Igrejas e lembre-se do padre Mourinho, o resistente dos Pauliteiros de Miranda, da gaita de foles, das danças celtas e compre uma Palaçoulo, com cabo de bucho que medra nas margens do Sabor.
Se quer chegar a tempo a Bragança pode internar-se em Espanha. É o caminho mais cómodo para a capital do distrito e durante três dias, da diáspora transmontana.
De regresso a casa pode passar por Macedo de Cavaleiros, almoçar na estalagem, comprar Vale Pradinhos e a caminho do Pocinho fazer um desvio até Vila Flor comprar o seu queijo e as Portas de D. Dinis, um vinho único. Se ainda tiver tempo, pare na Foz do Sabor e coma uns peixes do rio no Chico Barbas ou no Zé da Branca. Pode comprar vinho da Quinta da Silveira ( se ainda o houver), Fraga do Facho, Cistus ou Montes Ermos que, por certo terá bebido em Freixo. Quantos aos queijos escolha os da Cardanha ou da Quinta Branca.
O comboio já apita. Mal chegue ao Porto, visite o Nuno Canavez, de Mirandela, a cuja biblioteca tem dado muito do seu precioso espólio da palavra transmontana, caçador inveterado e avô que todos os netos gostariam de ter.

Rogério Rodrigues

Campos Monteiro

Mando estes textos que escrevi um dia sobre a obra de Campos Monteiro mais próxima de Moncorvo. Foi um pequeno trabalho a que me dei, embora não seja dos admiradores do escritor. Mas acho que vale a pena estudar melhor Campos Monteiro, sobretudo na vertente linguística. Penso que seria um trabalho muito interessante, em nome de uma certa autonomia curricular, estudar Campos Monteiro e outros autores transmontanos como João Araujo Correia, Miguel Torga, Rentes de Carvalho ( sobretudo no Montedor), A. M.Pires Cabral (ex-director da Escola Secundária de Moncorvo), António Cabral e mesmo algum Camilo, como o do Santo da Montanha cuja trama começa e acaba em Moncorvo.
Rogério Rodrigues

Moncorvo no início do século XX

Nomes, lugares e expressões

O livro de Campos Monteiro (“Ares da Minha Serra”), não sendo de grande qualidade literária, respeitando embora os cânones da época, tem, no entanto uma virtude única: dá-nos a conhecer não só o linguajar, bem como a topografia e os costumes de Moncorvo no princípio do século passado.
A descrição da amêndoa coberta, a partição da amêndoa, a pisa das uvas, a descrição da Corredoura são textos que deviam ser estudados pelos alunos de Português da Escola Secundária de Moncorvo, Dr. Ramiro Salgado. Seria benvindo professor que houvesse capaz de reflectir no porquê das alterações da arquitectura da vila, sobretudo a partir da descrição da Corredoura, e também nas especificidades linguísticas de um meio rural que se transformou num meio de serviços.

Nomes

Alguns dos nomes presentes no livro, sobretudo na primeira novela, ainda têm ressonâncias familiares no Moncorvo de hoje.
Uma das personagens mais conseguidas de Campos Monteiro é sem dúvida o Canafrecha.
Campos Monteiro dominava o diálogo com a mestria de quem muito teatro já escrevera.
Diga-se que os “Ares da minha Serra” com o “Raio Verde”, livro de poemas, são os últimos livros de Campos Monteiro, publicados em 1933, ano da sua morte.
A definição de Canafrecha: “Olá, Canafrecha! Vens p’ra o rebusco?”
O Canafrecha era “zorro”, filho de pai incógnito. Dormia “nos bancos do Castelo sob a umbela das acácias”. (Já não há acácias no Castelo).
“Era o único ratoneiro da vila--uma povoação de três mil almas que desconheciam o roubo e cujas portas se patenteiam sempre abertas, de par em par”.
Ainda a propósito do Canafrecha, Campos Monteiro lembra “ a mata do sr. Baltazar onde havia medronhos de trás da orelha” (no Roboredo).
Diz o João Caramês, o herói da novela, p’ra o Canafrecha: “Olha que podes emborrachar-te”
“--Melhor! Alguma vez hei-de fingir de rico”.
Já tinha ido à consulta do Hospital. “Disse-me o doutor Ramiro que era do coração e pôs-me a leites” . Pelo menos em 1933 havia Hospital em Moncorvo.
Ainda o saboroso linguajar do Canafrecha: dizem que “fiz o ranfa de um corte de saragoça à senhora Filomena Granzina. Mas são inzonices das más línguas (...)Surripiei na loja do Marrana uma folha de papel e um vidrinho de tinta e fui-me lá p’ra a serra, p’ra do dr. Bernardo, a escrever tudo o que tinha visto”.
Há ainda o personagem da desgraça, o Tomazinho Montenegro que encomendou duas músicas para a festa da Nossa Senhora da Esperança: “a do Peredo e a do Mogadouro”. Existe também uma D. Clemência Montenegro, de Felgueiras. E uma tal D. Clotilde Paredes, em cuja casa se partia a amêndoa e que “possuía vasto amendoais, lá para as arribas do Felgar e nas pedregosas encostas que, da Cornalheira e da Ventosa, descem a buscar o Douro”.
E encontra-se, como vinhateiro, em Moncorvo, um tal William Copperfield, cuja mulher “fora certa menina do Peredo, magríssima e quase sem sangue”. Ainda os barcos chegavam à Foz. A descrição: “Todos os dias chegavam barcos-rabelos ao Rego da Barca, com os mais diversos artigos, fabricados no Porto e no estrangeiro. Em troca, partiam as pipas de vinho generoso, os cascos de azeite, os fardos de lã, os sacos de amêndoa e de milho”.
Também outra das personagens mais vincadas da novela de Campos Monteiro, é Armoges, o usurário que foi morto por Tomazinho Montenegro e que levou à prisão de João Caramês. A descrição da personagem denota da parte do autor de Moncorvo, a leitura dos chamados naturalistas do último quartel do século XIX. Armoges “que só escogita em apedoirar dinheiro, esse birbante (...) se já não está a espernear na forca, é porque enterraram o pelourinho que havia ali na Praça (...) Avaro trampolineiro (...) o cochino(...) o somítico (...) Esse fome-laricas que passava muitas vezes sem janta, só para amealhar mais 10 tostões (...) Armoges (Hermógenes) habitava um casebre no fundo da rua dos Sapateiros”. Tinha um estabelecimento “mixto de prego e casa bancária” na Praça Municipal.
Para quem conhece Moncorvo, passados quase 70 anos sobre a publicação do livro há situações familiares, usos e linguajares que nos vêm á memória e nomes que perduraram até hoje embora em condições sociais distintas. Por exemplo, o Tomé Cantés, “pobre carpinteiro”. Escreve Campos Monteiro: “Iam levar o Tomé para o hospital e que o sr. Abílio Pires oferecera o palheiro da rua das Amoreiras para eles morarem”.
Na novela aparecem ainda outros nomes a merecerem, bem como outros de tempos sequentes, uma biografia social de uma vila que foi importante, como Moncorvo. Algumas referências:” O lagar de vinho do Júlio Gonçalves à rua da Misericórdia(...) Ao torcerem para o Prado, avistaram à porta da taberna do Cachiço”.
O Roberto Caiador, Moncorvo já na altura tinha dois polícias, o 25 e o 18, havia o António Enxamblador, o Joaquim Loureiro, o Chico de Ligares, oficial de diligências, o dr. Areosa. “A rapariga (Madalena Caixeiro) saía acompanhada pela Silvina do Ferrador”.

Ruas e bairros

Moncorvo era então uma vila essencialmente rural e administrativa. Campos Monteiro, muito embora oriundo de Moncorvo, desde a infância que se dividia entre Douro e Minho, tendo na cidade do Porto os seus interesses sociais e culturais. Alguém o classifica como o “grande escritor do burgo portuense”. De qualquer modo, no crepúsculo da vida, Campos Monteiro espalha um olhar entre o distante e o nostálgico, num disfarce de ternura, sobre as suas origens. E, além das pessoas, recorda os sítios.
A Corredoura é vista por João Caramês dos calabouços da cadeia (traseiras do tribunal ou rua do Cabo?). Pelo olhar de Caramês:” “Ali em baixo, por detrás da capela de S. Sebastião, devia ser do Manuel Tenreiro. A outra, mais para a direita, do Miguel Mesquita e a que se divisava lá ao fundo, no extremo oeste da vila, se não fosse a da ermida de S. Paulo, era concerteza a do António Cabrela”.
Também a rua do Poço merece uma descrição pormenorizada de Campos Monteiro, interessante de comparar com o seu estado actual. “A rua do Poço era uma congosta estreita e soturna, com o pavimento sempre recoberto de palha e terra solta, onde o sol penetrava pouco porque não havia casas de andar. O pardieiro da rapariga tinha a vantagem de ser o último; e do pequeno terreiro que lhe servia de quintal descortinavam-se as ladeiras da Costinha, a exígua várzea do Vale das Latas, o maciço granítico, onde raras leiras verdejavam, da serra de além-Sabor”.
Aparecem ainda mencionados a rua do Quebra-Costas, o Val da Perdiz, a curva da Barbatona, o canavial, na esquina da casa do Arco o nicho da Nossa Senhora Mãe dos Homens, o Vale do Marmeleiro, a Fraga do Facho, os cerros do Larinho, a montanha dos Estevais, a serra de Sambade.

Expressões e regionalismos

Moncorvo sempre foi muito fértil em colocar alcunhas às pessoas e a sua veia crítica, por vezes sarcástica, e um linguajar muito próprio, a par de alguma prosápia domingueira, transformam aquela vila num microcosmos social e cultural que quase apetece estudar.
Dou aqui aos leitores algumas das expressões e termos mais comuns do linguajar de Moncorvo ainda não há muitos anos, quando não se temia a massificação e a uniformização linguística, por baixo, através da televisão e da mensagem audiovisual, cada vez mais simplificada, em nome da eficácia, mas alheada de referências.
Dizem os seus contemporâneos que Campos Monteiro tinha uma memória prodigiosa. Pode-se acrescentar que não sendo o linguajar das classes mais sacrificadas da vila a sua herança cultural, social e mesmo económica, Campos Monteiro soube captar no entanto toda a riqueza que se armazenava na linguagem e na sabedoria populares. Sem pretendermos ser exaustivos, alguns exemplos dos “Ares da minha Serra”: a taleiga da merenda; meu enxalmo, molanqueiro, bardino, benairo da esfrega, meu alma de cântaro; andar na gandaia; cortelho de recos; este meco (não em sentido pejorativo, como hoje); cada mocho p’ra o seu souto; terrincando os dentes; quando se via aganada; e regressava sem um gaipo; era capaz de as empontar; um fraca-chicha, um salamurdo que mal a gente lhe aparece acrucha logo o casaco; toda arreguichada; podes ir preparando a vèdalha ( a propósito do casamento); catixa! que chambego de café; lábia tem ele, o fistor; não faz minga, sr. João; p’ra espertar o apetite; tenho andado bem assafiado por via disso; acobardei-me, com um bocado de fajeco; não me salvo se a não gomito; com estes dois que a terra há-de gualdir; acogulou a burra; deitou aparvado pela rua fora; é hoje que despejo o canastro. E vim aqui num esfregante; qualquer dia, trape: lá vai um pobre diabo p’ra o Maneta; e nem farfalha, caladinho que nem um murganho; as ruas acoguladas de neve; o aloquete; até te podia dar um pleuriz; um tanto avelhentada; estomagado a pesar seu; na gorja; soprava um larinhato frígido; que me deitaram os gadanhos; introduziram a yale na fechadura.
E mais expressões e termos poderíamos ainda buscar em Campos Monteiro. Seria muito interessante um estudo linguístico, acompanhado de um estudo sobre a realidade social de Moncorvo e de alguns valores básicos que hoje se vão perdendo, como o valor de honra que enformam as novelas de Campos Monteiro, esta espécie de hino crepuscular à vila onde nasceu, que são as novelas dos “Ares da minha Serra”.

Rogério Rodrigues

Apontamentos bio-bibliográficos

Nascido a sete de Março de 1876, Abílio Adriano Campos Monteiro faleceu aos 57 anos de idade, a 4 de Dezembro de 1933, em S. Mamede de Infesta, nos arredores do Porto, onde casou e viveu a maior parte da sua vida.
A sua infância e adolescência foram passadas em Viana do Castelo, Ponte de Lima, Ponte da Barca e Arcos de Valdevez.
A propósito deste período da vida de Campos Monteiro, recomenda-se a brochura de António Pimenta de Castro, limiano de origem, residente no Mogadouro e professor em Moncorvo, “A Fase Limiana de Campos Monteiro” (Torre de Moncorvo 2001).
Começa a escrever aos 15 anos no “Moncorvense”, mais tarde no “Jornal de Viana”, no “Pontos e Vírgulas” do Porto, no trissemanário vianense “A Vida Nova” e no “Aurora do Lima”, onde escreveu também Camilo Castelo Branco, de que Campos Monteiro era um discípulo.
Médico em 1902, antes da implantação da República foi administrador do concelho da Maia.
Católico e monárquico, “alto e magro, de feições rudes e vincadas” (Carlos de Passos), Campos Monteiro foi deputado em 1918, na câmara sidonista, “ no hemisfério da extrema-direita”, como recorda outro deputado da altura, Adelino Mendes.
Serviu como capitão-médico miliciano na reserva territorial, função de que seria demitido, por motivos políticos, já graduado em major, em 1919.
Escreveu 30 livros originais, 100 prefácios e colaborou em muitos diários e revistas.
Recolheu algum êxito editorial na altura. Os seus livros tiveram bastantes reedições e sabe-se que pelo menos três operetas suas, ainda que representadas, nunca chegaram a ser editadas: “O Segredo da Morgada”, representada no Teatro Carlos Alberto, no Porto, também em Lisboa, no Rio de Janeiro e em S. Paulo; “A Rainha da Lacónia”, representada no Teatro Sá da Bandeira no Porto (1910) e no Rio de Janeiro em 1912; “O Ramo de Perpétuas”, representado no Brasil.
Dirigiu ainda as revistas “Civilização” e “Argus”, ambas do Porto e foi um dos promotores da publicação “Maria Rita”, um semanário humorístico.
Polígrafo fecundo, cultivou com maior sucesso a crónica. Colaborou na “Época”, no “Primeiro de Janeiro” e no “Jornal de Notícias”, cujas crónicas editadas em livro, “A oito dias de visita”, tiveram na altura um assinável êxito de vendas.
O livro contudo que o tornou conhecido do grande público, num período conturbado da vida política portuguesa, foi “Saúde e Fraternidade” (1923), violenta sátira política às personalidades e governos republicanos. Em seis meses, tiraram-se sete edições. Em 1925, teve a décima, atingindo qualquer coisa como 30 mil exemplares vendidos. Em 1978, sob a chancela das Edições do Templo, com caricaturas de Amarelhe, acaba por sair outra edição baseada na sétima e décima edições.
Sobre este fenómeno escreveu Aquilino Ribeiro: “ Saúde e Fraternidade de Campos Monteiro foi, com as “Cartas de D. Carlos”, o livro que em Portugal alcançou maior êxito de livraria no primeiro quartel do século (...) Quando se fizer um estudo da literatura política destes tempos revoltosos encontrar-se-á este nome saudoso”.
Outras das suas obras tiveram algum sucesso na época, mantendo-se hoje praticamente ignoradas do público e da própria terra que o viu nascer. Sem a pretensão de sermos exaustivos, apenas a enumeração de alguns títulos mais conhecidos: “O crime de uma mulher honesta” (1913), “Versos fora de Moda” (1915), “Miss Esfinge” (1921), obra emblemática do autor, “Camilo Alcoforado” (1925), “As duas paixões de Sabino Arruda” (1929), “Ares da minha Serra” (1933) e, finalmente, o seu testamento poético, “Raio Verde, últimos versos” (1933).
Escreveu Campos Monteiro, como seu epitáfio político: “Sou monárquico e morrerei impenitente, se erro na preferência do regime (...) Com homens sérios é indiferente para o povo o governo monárquico ou o governo republicano”.
Como epitáfio poético, este dorido poema do “Raio Verde”:

Não mais, lira, não mais! Emudecida
vais imergir no plácido letargo
do perpétuo abandono;
não porque tenha “a voz enrouquecida”,
mas porque sinto perto o rio largo
“do negro esquecimento e eterno sono”.


Dorme. Descansa. Terminou a lide.
Tal como o alfanje de Harun-Al-Raschid,
ganhaste jus a repousar também.
Se era débil a mão que te tangia,
foi sempre nobre o impulso que a movia:
“serviste mal, mas só serviste o Bem”!

P. S. Parte dos elementos aqui coligidos, foram estudados e recolhidos no livro “Homenagem a Campos Monteiro”, editado em 1943 pela Livraria Tavares Martins do Porto. O seu a seu dono.

Rogério Rodrigues.

Ares da Minha Serra

A última edição (1995) de Ares da Minha Serra, porventura a obra mais conhecida de Campos Monteiro, é da responsabilidade da Câmara Municipal de Moncorvo, com uma tiragem de mil exemplares.
O livro consta de duas histórias e um apontamento, quase jornalístico, de uma viagem de barco rabelo, do Rego da Barca até ao Tua, onde se apanhava o comboio para o Porto.
A primeira história, “A tragédia de um coração simples”, bem ao ritmo camiliano, em escrita eivada de regionalismos, Campos Monteiro conta a história de um jovem moncorvense, João Caramês, cortador de lenha na serra do Roboredo e que se perdeu de amores – e pelos amores se deixou perder—por Madalena Caixeiro, sua vizinha. Tinham sido criados praticamente juntos, como irmãos.
Mas a Madalena caiu nas graças do fidalgote Tomazinho Montenegro que a seduziu.
O Bento Armoges, “um unhas de fome”, como escreve o autor, é o usurário da vila. Tem uma pequena zanga com João Caramês, durante a pisa da uva.
Nessa noite, o Bento Armoges aparece morto. São deitadas as culpas a João Caramês que é preso. Mas Canafrecha ( uma das personagens mais conseguidas da novela), um pobre diabo, sem eira nem beira, sabe quem matou o Bento Armoges. Fora o Tomazinho Montenegro.
Madalena Caixeiro diz ao João Caramês que está grávida de Tomazinho Montenegro.
João Caramês foge da cadeia por uma escassas horas, vai ter com Tomazinho Montenegro e conta-lhe que sabe quem matou o usurário. Tomazinho confessa e garante que se vai entregar no dia seguinte. João Caramês, porém, diz-lhe que se confessará culpado do homicídio, com uma condição: que case com Madalena Caixeiro. E antes do julgamento. E assim é feito.
O advogado acha que não há provas contra o João Caramês. A própria população acredita na sua inocência. Mas João Caramês não falta à palavra, considera-se culpado e é degredado para as Áfricas.

Amores alentejanos
A segunda história, “A Rebofa” ( as cheias da Vilariça), é ainda mais trágica. Trata-se de uma história de ódios velhos que não cansam entre dois abastados lavradores que, desde pequenos, tinham vivido como irmãos, até que, um pouco à aventura mais do que por necessidade, partiram para as ceifas do Alentejo. Aí, ambos se apaixonaram pela mesma mulher, também ela abastada, mas que só um amava. O ciúme destruiu os dois. E destruia-a a ela que, escorraçada pelo pai, começou a andar de terra em terra, em trabalhos do campo.
Eles regressaram a Moncorvo e puseram muros entre as casas contíguas, para que nunca se vissem um ao outro. Tornaram-se mesmo rivais na política. E nasceram-lhe um filho e uma filha que acabaram por se apaixonar, e casar com a sua maldição e viver na miséria até que, desesperados, se suicidaram na “rebofa”, deixando uma criança aos cuidados da caseira da Quinta do Chibos.
Quando souberam da tragédia, os dois velhos inimigos encontraram-se, pela primeira vez, diante do berço do neto. E abraçaram-se, com a caseira na penumbra vertida em lágrimas.
Diga-se que a caseira, que não fora reconhecida, era o antigo amor alentejano dos dois velhos.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Vamos lá descansar um pouquito

Os Pés da Flor
Cadeira em espigas de setaria verticillata.
Fonte: " Flora de Brincadeiras" de João P. V.Costa
Utilização: Mobília indispensável para quem dorme a conversar.


Setaria Verticillata
Local: jardins do Museu do Ferro
e da Região de Moncorvo.

Mais brincadeiras em: http://florabrin.blogspot.com/

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