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quinta-feira, 26 de junho de 2008

Torre de Moncorvo

Rua Visconde de Vila Maior, Torre de Moncorvo.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Foz do Sabor

Encontro entre o Sabor e o Douro.
Na Foz do Sabor, aldeia do concelho de Torre de Moncorvo, podemos encontrar uma praia fluvial, que tem muita afluência na época balnear.
É um excelente sítio de lazer.


Verdes são os campos ...

... mas cada um vê com seu olhar.
Porta, na Rua da Misericórdia. Torre de Moncorvo.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Vende-se


Janela, na Rua do Castelo, em Torre de Moncorvo.

O mundo de Trás-da-Serra

A serra a que nos reportamos é, obviamente, a do Roboredo. Pelo que a designação de "trás-da-serra" ou "aldeias de trás-da-serra" para denominar Açoreira, Maçores, Urros e Peredo, terá sido aposta pelos da banda Norte da serra, os da vila, a altaneira Torre de Moncorvo, sede da fiscalidade, das justiças e dos poderes municipais.


Talvez Felgueiras escapasse à designação, por ficar no meio da serra, situada no meio de um U topográfico, para cujo lado aberto corria (e corre) a ribeira de Santa Marinha, afluente da ribeira de Mós, que vai desaguar ao Douro, lá para as bandas de Barca de Alva.
Numa breve digressão de fim-de-semana, subimos a esse braço de serra que separa os termos de Felgueiras e Maçores, e que se denomina de Citoque (será uma denominação popular para o marco geodésico que aí se encontra, ou o lugar já teria esse nome?).

Daí espreitámos a ribeira de Santa Marinha, para ver se a Fraga do Arco ainda estava no mesmo sítio. E estava.
Retomando o percurso, por Maçores, com rumo a Urros, aí se passou um excelente fim-de-tarde, vendo o regresso dos gados e o belo conjunto dos palheiros, culminando a jornada numa amena esplanada...

Vista geral do mundo de Trás-da-Serra, a partir do alto do Citoque, com Maçores ao fundo da encosta, em primeiro plano.
Vertente Sul da Serra do Roboredo e Carvalhosa (antigas minas de ferro da Ferrominas), vista do alto do Citoque.

Fraga do Arco (freguesia de Maçores), um capricho da natureza que a Geologia poderá explicar, numa vertente sobre a ribeira de Santa Marinha - é um monumento geológico que deverá ser classificado e protegido.
Vista actual de Urros, a antiga Orrios do foral doado pelo senhor rei D. Afonso Henriques, no ano de 1182...
Serão casas "castrejas"? Não, são os célebres palheiros de Urros! belíssimos... e parecem aí estar desde os tempos do senhor D. Afonso Henriques.

Urros, ainda. O regresso do gado, ao fim de tarde, é sempre um momento bucólico que me faz lembrar um célebre quadro de Silva Porto (existente no Museu Soares dos Reis, no Porto)

Não fossem as casas novas, ao fundo, e poderia ser uma imagem captada a bordo da cápsula do tempo, muitos séculos atrás... Terá sido a abundância de gados que ajudou a fomentar a tecelagem de Urros, noutros tempos, que hoje os teares silenciaram-se de vez...

"Canhonas" (ovelhas) e "borreguinhos" na côrte. Aqui ainda se sentem os cheiros medievais...

sábado, 21 de junho de 2008

Dedaleira - Digitalis purpurea

Dedaleira - Digitalis purpurea, na Serra do Reboredo (24-05-2008)

sexta-feira, 20 de junho de 2008

guardiões do temp(l)o

Mesmo que me mostre viril
hei-de ficar bem senil.
Lá se vai a minha vista!

Daqui avisto o Sabor
e mui projectos em redor.
Igreja Matriz de Torre de Moncorvo.

Igreja de Torre de Moncorvo

Para que o tema não arrefeça, fica mais uma fotografia da Igreja de Torre de Moncorvo.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Os berrões

Museu Nacional de Arqueologia - Lisboa
" Exposição - Religiões da Lusitânia"

Já que as alheiras estão por perto, aqui estão alguns berrões (4) referidos nas " Religiões da Lusitânia", por J. Leite de Vasconcelos, encontrados nas Cabanas - Torre de Moncorvo.

lareira tradicional - santuário dos apetites

santíssima trindade.

O deus das saborosas cousas.

pão, ovo, canela, açúcar... pecados!

Ai a coalhada, um branco sabor celestial!

Trufas de Moncorvo - aperitivo para os deuses descerem à terra!

Fica-se cá c'uma telheira ( alheira vizinha da telha), com estas auréolas divinais !

Todas as fotografias foram obtidas em terras de Moncorvo, com diferentes câmaras fotográficas. Uma delas não resistiu, como é natural, e deu-lhe o pifo!

Junqueira - Alminhas

Alminhas, na Junqueira (24-05-2008).

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Igreja de Torre de Moncorvo

Forografia do interior da Igreja de Torre de Moncorvo.

terça-feira, 17 de junho de 2008

E pintar com quantas cores o vento tem


...
Tu dás valor apenas às pessoas
Que acham como tu sem se opor
Mas segue as pegadas de um estranho
E terás mil surpresas de esplendor
Já ouviste um lobo uivando no luar azul
Ou porque ri um lince com desdém
Sabes vir cantar com as cores da montanha
E pintar com quantas cores o vento tem
E pintar com quantas cores o vento tem
Vem descobrir os trilhos da floresta
Provar a doce amora e o seu sabor
Rolar no meio de tanta riqueza
E não querer indagar o seu valor
...
Canção do filme da Disney, Pocahontas.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Ainda sobre a Vila Velha de Santa Cruz da Vilariça




Poema de Henrique de Campos (1990), sobre fotos de Nelson Campos.

Caminho Antigo e Ponte do Sabor

".........................olhando ao longe a estrada

que vinha de Moncorvo, em íngreme calçada,
entestar com a ponte..."

Ilustrando estes versos de Campos Monteiro, aqui fica uma fotografia dos anos 50, onde se vê ainda a casa dos cantoneiros da J.A.E.. (do lado direito) e uma outra, em xisto, que segundo a tradição foi estalagem dos almocreves. Ambas as construções foram demolidas pouco antes da construção do troço do IP-2 entre o Pocinho e esta ponte, no final dos anos 80. A partir da casa dos cantoneiros e subindo a encosta, vê-se ainda o antigo caminho medieval, em uso até aos anos 30 do séc. XX, e a que fizemos menção no "post" anterior.

Fotografia dos anos 50 do séc.XX. Autor Engº Gabriel Monteiro de Barros (Arquivo PARM/MFRM)

Para melhor se compararem as diferenças, aqui fica outra fotografia (2006), antes das obras actuais (ver fotos de Aníbal Gonçalves, no "post" de 14.06.2008):


Ponte do Sabor, vista do mesmo ângulo da anterior. Foto de Rui Leonardo, 2006

Ainda uma vista do mesmo lado, durante uma cheia. Foto de N.Campos, 25.11.2006

O alardo da Vilariça

"... e este foi o mais formoso alardo
que até ali em Portugal fôra visto.
Fernão Lopes - "Chronica de D. João I"

N'essa primaveril manhã de Pentecoste,
d'el-rei D. João Primeiro a fatigada hoste
acampara no plaino à beira do Sabor.
Temendo uma surpresa, el rei mandara pôr
esculcas na colina, olhando ao longe a estrada
que vinha de Moncorvo, em íngreme calçada,
entestar com a ponte. A rude soldadesca,
dos álamos à sombra apetitosa e fresca,
descansava da marcha abrupta da montanha.
............................................................................ (continua)

- Campos Monteiro, Musa irónica, Porto, 1924 (2ª ed.)


Este excerto de um poema do escritor moncorvense Campos Monteiro (ver "posts" anteriores, de autoria de Rogério Rodrigues) baseia-se num episódio relatado pelo cronista Fernão Lopes, que foi o encontro das hostes de D. João, Mestre de Avis, e de D. Nuno Àlvares Pereira, algures nos campos da Vilariça (em Maio de 1386), já depois da batalha de Aljubarrota, a qual se deu, como é sabido, a 14 de Agosto de 1385. Aqui se realizou, no dizer do cronista, "o mais fermoso alardo" que até então se vira em Portugal.

Um "alardo" era um exercício de tropas em parada, de infantaria e de cavalaria, tendo reunido, neste caso (e segundo Fernão Lopes) cerca 4.500 lanças. Deveria ter sido, de facto, um espectáculo formidável, com as cores dos pendões, das aljubas, os loudéis, e o reluzir das armaduras, dos elmos e das pontas das lanças, brilhando ao sol... Como é óbvio este "espectáculo" tinha também o seu quê de propagandístico, procurando afirmar uma nova realeza e uma nova dinastia (a de Avis).


Vista do vale da Vilariça (à direita) a partir do miradouro de S. Gregório. À esquerda, o morro da Vila Velha/Santa Cruz da Vilariça

Não sabemos o exacto local do alardo, mas não seria de admirar que fosse nas imediações de Santa Cruz da Vilariça, que nessa altura já era uma povoação fantasma. Em todo o caso, imaginamos que se deve ter povoado pelo menos por esse dia, tal como os montes em redor, com as gentes de Torre de Mencorvo e de Vila Frol (que tinham tomado o partido do Mestre de Avis), assim como de todas as aldeias cercanas, para assistirem, do alto, a um tão grande e belo (e bélico) acontecimento!... Além disso, nos pontos altos, certamente que se postaram "esculcas" (sentinelas de atalaia), como imaginou Campos Monteiro. Onde a imaginação do escritor falha é no pormenor da ponte, que não é credível que já existisse, pois é do século XVI.

De Torre de Moncorvo à ponte do Sabor vinha ter, de facto, um caminho antigo, seguramente medieval, utilizado até aos princípios do séc. XX (antiga Estrada Real), que atalhava para o rio depois do "Sobreiro da Meia Légua". Aqui havia ainda um atalho, conhecido por Atalho das P..., o que não deixa de ser curioso como tão longe se postavam no seu "ofício" as mulheres mundanas, pois é local muito afastado, quer de Santa Cruz da Vilariça, quer de Torre de Moncorvo. Ou o topónimo/designativo, terá tido outra origem/sentido?

No início dos anos 80 do séc. XX, na parte terminal do caminho, da margem esquerda antes da ponte, havia ainda um troço de calçada, destruído pelo IP-2. O mesmo IP-2 que se prepara agora para desfigurar o lado Poente do cabeço da Vila Velha e sabe-se lá mais o quê... (esperemos que do mal, o menos).

sábado, 14 de junho de 2008

Entre a ponte do Sabor e as ruinas da Vila Velha


O desafio de partir À Descoberta do concelho de Torre de Moncorvo, não tem nada de difícil, só é necessário partir. Desta vez escolhi dois motivos bastante próximos: a Ponte do Sabor e as ruínas da Vila Velha de Santa Cruz.
A tarde não estava muito convidativa. Quem vive ou já viveu em Moncorvo, sabe o que significa fazer calor, nestas paragens! Talvez por isso, o Rio Sabor já era frequentado por um número considerável de pessoas, a pescar, a brincar na água, ou mesmo a apanhar sol, que apesar de encoberto, cada vez que se mostrava, “queimava” a pele.

Parei o carro mesmo junto à ponte do Sabor, na EN325. Esta foi intervencionada recentemente, ao nível dos pilares, do tabuleiro, da pavimentação e dos passadiços marginais, estando agora com um aspecto impecável. A ponte mostrava já o peso da idade, apresentando mesmo algum risco ao trânsito. O seu futuro é incerto. Não “encaixa” no traçado do IP2, e, com a tão badalada Barragem do Sabor, corre o risco de ficar submersa. Na estrada, entre a ponte e a Quinta da Portela está marcada nas rochas, a cal, a cota 139 metros. Terá essa marcação algum significado? A ter, a água chegaria muito perto das casas da Quinta da Portela!

Desci ao rio a jusante da ponte. Um casal de aves de rapina fazia um gracioso bailado e enormes peixes debatiam-se nas águas pouco profundas sobre um banco de areia ali próximo. Penso que a época da desova já passou!
Disparei algumas fotografias em direcção à ponte. A sapata dos pilares foi reforçada e todas a juntas estão tapadas. Os sete arcos de volta redonda são desiguais. Há olhais rectangulares sobre cada um dos fechos dos arcos. Os passeios apoiam-se numa cachorrada, como a que existe em algumas igrejas! As guardas são de ferro, novas. As antigas foram substituídas na última interverção. A ponte foi construída na idade média, mas foi alterada no Séc. XIX. O seu aspecto a montante e a jusante, é bastante semelhante, à excepção dos contrafortes do arco central que apresentam reforços, a montante.

Na erva verde da margem do rio encontrei as primeiras flores de fel-da-terra (Centaurium umbellatum), com o seu rosa característico, que encontraria em quantidade no alto do cabeço.
A subida até às muralhas da antiga vila de Santa Cruz da Vilariça, Vila Velha de Santa Cruz da Vilariça ou Derruida, foi penosa. Caí na asneira de ir de calções. Além dos danos causados nas pernas, cheguei ao fim do passeio com quase meio quilo de sementes espetadas nas sapatilhas e nas meias, de cada pé! Apesar de a pujança de Maio e Abril já ter passado, ainda há muitas plantas em flor e rapidamente me esqueci das dificuldades, para começar a desfrutar do passeio. Encontrei muitas borboletas, abelhas, aranhas e toda a qualidade de bicharada. Também o cuco fazia ouvir o seu canto lá para os lados das Cabanas. O perdigão procurava parceira num monte próximo. À medida que ia subindo, ia-se alargando o horizonte e compreendi porque razão o homem aqui se fixou, desde o Séc. XII.

Não foi a primeira vez que visitei estas ruínas, já aqui tinha estado em 1992. Sempre gostei de passear nestas montanhas! Tinha prazer em fotografar os lírios em flor, que aqui abundam. Curiosamente encontrei frutos com sementes de lírio (Iris germanica), estava convencido que apenas se reproduziam por caules (rizomas)!
As ruínas da vila, que além das designações que já disse contou ainda com a de Vila Rica, Mesquita, Roncal e São Mamede, estão situadas num cabeço com 245 metros de altitude, entre a Ribeira da Vilariça e o Rio Sabor. Estranhamente poderá ter sido esta proximidade a tanta humidade que ditou a sua morte, contrariamente à lenda do ataque de formigas, que já tantas vezes ouvi contar.
No início do séc XIII Vila de Santa Cruz da Vilariça, recebeu, de D. Sancho II, uma carta foral que lhe concedia importantes isenções a regalias fiscais e penais. A mudança da população para Torre de Moncorvo deve ter-se dado no final desse século, sendo possível que os dois povoados tenham coexistido.

A localidade tinha muita importância, era sede de concelho na Idade Média, abrangendo parte dos actuais concelhos de Alfândega da Fé, Carrazeda de Ansiães, Vila Flor e Torre de Moncorvo.
Percorri toda a plataforma antes de me dirigir ao ponto mais alto, ao centro. A muralha ainda está bastante preservada, tem vários metros de altura nalguns locais, sendo ainda intransponível. Há pontos em que se distingue mais de uma muralha. A poente são bem visíveis os restos de dois torreões, circulares, que deviam ladear a única entrada. Em vários pontos distinguem-se restos de paredes de casas e de caminhos.

Por fim, dirigi-me ao ponto mais elevado das ruínas. Aqui existem sepulturas escavadas nas rochas, junto do local onde se pensa ter sido a igreja. Ainda se distinguem algumas paredes e encontrei blocos de granito rusticamente aparelhados. Todas as muralhas e paredes interiores são construídas em xisto, por isso chama a atenção a existência de granito neste ponto. Também há argamassa presa a algumas pedras, não sei se se trata de cimento. É um sinal mais do que evidente da existência de uma construção até uma data bem recente. Não me admirava que depois da vila ter sido abandonada, aqui se tenha mantido a igreja, ou uma capela, durante vários séculos.

Já por diversas vezes aqui foram feitas escavações. É uma pena não haver um estudo mais aprofundado deste local. Imaginei-me a participar nas escavações, deve ser muito interessante esse tipo de trabalho. O local está em completo abandono. Cresce mato por todo o lado e, mesmo para aqueles que se interessem em o visitar, não é uma tarefa fácil. Pior do que subir ao local, que pode ser feito por um caminho partindo da Quinta da Portela, é a circulação em volta e no interior das muralhas. Nalguns lugares é mesmo impossível circular.
Do alto do cabeço tem-se uma vista ímpar sobre o vale. Procurei um lanço de muralha mais segura e instalei-me para saborear o final de tarde. Não pude deixar de sorrir com a velocidade com que os veículos circulam ao longo do vale! O som do acelerador a fundo perturba a calma do morro. Que feliz me sinto por poder desfrutar destes momentos de paz!
O sol foi-se encolhendo. A luz subiu pelo Reboredo acima com a mesma calma com que as águas do Sabor se diluíam no Douro, lá ao fundo, na Foz. Os insectos pareciam agitados, tentando aproveitar os últimos raios de sol. Também eu queria aproveitar todos os momentos. Liguei o flash e “persegui-os”, até nos momentos mais íntimos.

Quando só já havia silêncio em redor, desci a encosta, de novo em direcção à Ponte do Sabor.
Não me arrependi das escolhas que fiz para este passeio. Dividi-me entre a ponte e a vila, entre a água e a montanha, entre a história e a suposição, entre a beleza das pequenas formas de vida e a imensidão de um vale que nos surpreende e encanta, sempre que paramos para o olhar.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Contos de Rodapé

Urtiga

A caça ainda une os companheiros no banco da praça. Agora que as pernas estão mais perras do que uma culatra enferrujada, o grupo vai-se arrastando até ao centro da vila, para que a língua recorde as chumbadas, pelos cabeços e carrascais. Era um orgulho trazer um cinturão suspenso de animais.
Como um burro teimoso, Aníbal era o último a unir-se ao grupo:
- Ainda estou meio empanturrado! O coelho bravo do almoço estava uma maravilha! A minha mulher tem cá um dedo para o compor...
- Pois é ! – ladraram os outros – Há cães que têm sorte! Nós ficamo-nos por um caldito, uma sardinha assada e é um pau!
O outro ensaboava a barriga, como que a fazer inveja aos elementos restantes da associação do gatilho. Depois de um café, entornaram a conversa para o passado, altura em que as perdizes, nas ladeiras do Douro, acompanhavam, a passo, o comboio. Agora, nem uma coisa nem outra. Talvez as malandrecas tivessem apanhado a carruagem de primeira classe e adeus! Os porcos bravos ainda galgam pelas serras, embora lhes façam muitas esperas. A morte de um destes, por uma arma de dois canos, fora da lei, foi aperitivo para o paleio do outro dia. Como de costume, Aníbal era o último a arrastar a cadeira para a mesa dos gatilheiros. O palito do almoço ainda bailava entre os dentes, à espera de ser manchado pelo café:
- Ainda trago aqui um restito de javali encalacrado nos dentes. Parece um fio de estopa.
- E queixa-se, tio Aníbal! Nunca se lembram de nós. Nem, ao menos, uns coiratos para amostra! Se me dessem uns rijõezitos, até era capaz de ir buscar força para escavar coelhos no meio das fragas! – resmungava Chico.
- Por falar nisso, lembro-me de uma cadela que, em três tiros, me trazia quatro coelhos! – lampejou António. Porcos nunca apanhei, mas não me importava de provar agora um naco de um berrão assadinho na brasa.
- Quem tem amigos não morre de desejos! – palitou estas palavras o atrasado do costume.
O dia de feira misturava as farturas com as bacias de plástico, os caldeiros de lata, os chás das maleitas e a confusão no Banco. Com tudo isto, Aníbal acabou por chegar ainda mais atrasado. Entretanto os comparsas resolveram tirar a limpo aqueles almoços com carne do monte e já tão raros. Benigno, empregado da farmácia, poderia arranjar um remédio. Havia lá uma gaveta com uma mixórdia qualquer capaz de pôr cá fora tudo o que o gabarolas tinha comido!
- Aí vem ele! Amanhã faremos a prova dos nove! Saberemos a cor do porco assado em mentiras! – empolgava-se António.
- Ó rapaziada, esta confusão da feira fez demorar o almoço. A mulher foi comprar umas coisas... Mas ainda bem, porque lhe trouxeram uma lebre que ainda me vem a saltar na barriga.
- Ai tio Aníbal, tem de beber já um bagacito para ver se a bicha adormece e lhe deixa tomar o café em paz! – insistiu Benigno, para expulsar aquelas aldrabices. Sem qualquer um se aperceber, amigou-se de uma saquita de açúcar intacta e caminhou para a farmácia. Com cuidado, substituiu o que era doce por algo mais azedo, com a mesma cor, e fechou o invólucro, escondendo aquela pólvora branca.
A praça General Claudino estava à espera da nova peta e escutou mais uma vez o palito a tagarelar:
- Já estou enjoado de tanto coelho bravo!
- Tome então o cafezinho para desenjoar! – respondeu Benigno, escostando à chávena o açúcar de farmácia.
O gole da mistela puxou rápido o enjoo. As tripas pareciam querer sair todas ao mesmo tempo, levando o palito de rastos. Num jacto, a calçada ficou pintada de berças e essências de urtigas.
- Ó tio Aníbal, está-me cá a parecer que andou a ruminar o pasto dos animais!

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Cardanha


Relógio de sol na igreja matriz da Cardanha.
07-06-2008

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Festa de Santa Leocádia II - Procissão

Em resposta ao nosso colaborador e amigo A.Basaloco (ver post de 6.06.2008, sobre a festa de Santo Cristo), então aqui vai uma prova de que, ao menos na festa de Santa Leocádia, a Tradição ainda é o que era:








2008.06.10 - Fotos de autoria de Luís Lopes (Arquivo Fotográfico da Junta de Freguesia de Torre de Moncorvo)

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