quinta-feira, 15 de maio de 2008
Peredo dos Castelhanos (1)
Quando tropeçamos nas pedras do tempo nem sempre nos magoamos. A entrada de Moncorvo, vindo das Aveleiras, com o cavaleiro, em ladrilhos, a anunciar o nitrato do Chile, quase sempre me remete para a minha infância e para a casa dos meus avós na aldeia, casa que hoje não existe, demolida e transformada em mais uma nova e atípica casa de emigrantes. Era térrea e dela via as eiras onde, descalços, jogávamos a bola, entre cardos secos e algumas agudas pedras, enquanto a “trilhadeira” e os “rolheiros” de trigo não ocupavam aquele nosso espaço privilegiado da infância. Perto, havia o tronco, onde o velho Marcelino de Urros, alto, esguio, de preto vestido, mas muito dado aos copos valhó Deus, ferrava as bestas e os homens jogavam ao ferro, com um caldeiro de água fria ao lado. Eram conceituados os de Maçores neste jogo, de força e rigor. Os homens jogam também à raiola com patacos pesados e já cobertos da patina do tempo. E em Setembro ripava-se o olmo para a vianda do porco. O chilrear dos pássaros irritava o silêncio pacato e quente do crepúsculo. Éramos porventura felizes? Porventura sim porque os nossos desejos e necessidades eram muito limitados. A minha avó fazia-me a marrafa em cabelo crespo e rebelde. Tínhamos a mão afoita à pedra e sabíamos onde se escondiam os ovos das perdizes. O Ângelo Chocalho guardava, com desvelo sem fim, o pinheiro manso junto à Nossa Senhora da Glória, não fosse a canalha roubar os pinhões do patrão. O ti Ifigénio, um santo homem, levava-nos com ele a guardar as ovelhas. Mas vistos hoje os dias à distância de meio século, a miséria era muita. Corrijo, não digo miséria. Prefiro antes pobreza.
Pedro Castelhano
(Em breve os próximos capítulos)
Afonso Praça
Gostaria de escrever mais alguns textos (alguns deles já escritos, passe a redundância) sobre o Afonso Praça, ou seja, escrever sobre alguém que teve um amor sem fim por Trás-os-Montes
Carta ao Afonso Praça
Caro Afonso Emílio:
escrevo-te depois de uma longa ausência, que cada vez será mais longa a ponto de se considerar interminável. Não me tens telefonado e não te tenho telefonado porque, se porventura te encontrares em algum lado, será num lado onde não há telefones. E agora vamos às notícias: amigos teus deixaram um rasto de saudade e ternura pelos jornais, espalharam a cinza das suas lágrimas por muitas palavras que resistiram à pressão do efémero. Tenho seguido com atenção este caminho de reconhecimento e afecto. E nas suas palavras renasces, retirada a escória profana. E surges como sempre te conheci: sem inimigos declarados, incapaz de levantar a voz, não sujeito aos pecados da cólera e da inveja, bem mais tolerante em relação à gula e à luxúria.E há quem lembre os teus sofrimentos no seminário e na tropa. Mas registam com alguma surpresa que sempre mantiveste relações privilegiadas com gente da Igreja católica e da instituição militar.Com algum sentido de humor, a tua sogra disse um dia: “Imaginem com quem as minhas filhas haviam de casar—com um Praça (Afonso) e um Tropa (Alfredo)”. Conheci-te mal acabaras de sair do seminário e eras falado por todo o distrito de Bragança como o jovem que dominava o Latim qual Cícero e o Português como um padre António Vieira.Era eu então um imberbe adolescente e mal imaginávamos que mais tarde, durante anos e anos, viveríamos juntos tantas horas e tantas noites.De quando em quando atacava-nos a melancolia. A tua, mais suave e disfarçada; a minha, mais crua e descarnada.Jantávamos e almoçávamos na Casa Transmontana, às Escadinhas do Duque. Mandávamos vir as alheiras de Moncorvo e tínhamos convencido a Teresa a ter também a ementa em mirandês. Por vezes cansada, deixava-nos a chave e ficávamos até de madrugada a esmoer histórias, numa prolongada digestão de afectos, com alguma crítica, pouca, de permeio. Sabes? a Teresa está mal, vive com o Chico em Álvaro, uma aldeia da Beira Baixa, tem uma casa toda em granito, há muito abandonou o restaurante e a cidade, mas a Teresa está mal. Telefonou-me há dias e chorava de tanta solidão e doença.E que saudades tínhamos nas longas noites do Snob e outros ínvios bares, esconsos, de africanidade –tu sempre tiveste uma sedução particular pelas mulatas – do nosso Trás-os-Montes que nos foi tão padrasto, mas que amámos tanto.Tu ainda conseguiste arrumar as contas. Vendeste a casa no Felgar e fomos buscar a tua mãe a Poiares, para vir morrer junto de ti. Depois, compraste uma casa na Alentejo, na Igrejinha. Tu sempre foste o transmontano mais alentejano que conheci, até no modo como cortavas o pão, tasquinhavas o queijo e o presunto e contavas histórias, no ondular lento e melodioso da palavra, com o acento transmontano que nunca perdeste. Que o diga o Manuel da Fonseca, o teu dilecto parceiro de fins de tarde, nos tempos do República.Mesmo a cidade está muito diferente, Afonso, desde que os teus amigos não conseguiram impedir que tu partisses. Mas nós fizemos-te algum mal para partires assim? A cidade, Lisboa que tu amavas tanto, fez-te algum mal? O teu Campo Grande que tu olhavas olhando os montes e as pedras bem mais longe mas tão perto, o próprio Campo Grande já deu pela tua falta. Já nem sei como está a Feira Popular, nem sei se o restaurante Mirandela ainda existe. Fomos lá uma vez, a primeira em que a médica te obrigou a fazer dieta, porque a pele da tua cara, parecia um tambor. Sentamo-nos. Era a tua última refeição antes de entrares em dieta. “Não achas que se deixar de ser gordo, perco a graça toda?” Confessaste-me já nos últimos dias antes da partida que estavas a preparar um conjunto de cartas românticas para mulheres sós. Escritas em linguagem adaptável à condição social e cultural de cada mulher imaginada. Estou a ver o teu apego à ternura, o teu passar de mãe gorducha e lenta pelos cabelos cansados das mulheres sós.Tinhas tanta capacidade e necessidade de pensar nos outros que às vezes te esquecias de ti próprio. Vai longa a carta. Não quero que canses a vista. O teu coração está forte, como sempre. E mordo-to. Prometo-te que na próxima feira irei comprar uma corneta de barro. Se ainda houver oleiro na tua aldeia que faça cornetas de barro. Eu também quero ser o rapaz da corneta de barro. Um abraço do Rogério.
*Este texto foi publicado num opúsculo da responsabilidade da Câmara Municipal de Lisboa, em edição do Museu da República e Resistência, em homenagem a Afonso Praça.
quarta-feira, 14 de maio de 2008
Com as Mãos ...
As mãos na "partidela" da amêndoa.
Sequeiros, Torre de Moncorvo.
Itinerários - A Linha do Douro
As carruagens são poucas e obsoletas e vermelhas, num fim de Verão, numa estação de comboios, na margem direita do Douro, em Campanhã, no Porto, onde todas as viagens começam para o espaço mais sofrido de Portugal.
É sempre uma aventura interior mergulhar no xisto, lavar os olhos no Rio e sentir como a memória se fere nas escarpas ao longo de 200 quilómetros.
As montanhas trepam por nós adentro.
Há séculos que se venera e teme o Rio. Não há outro Rio para além do Douro, diz-se do Porto à raia. O sentido do sagrado permanece. A história dos naufrágios passa de boca em boca, de gerações sobre gerações, são quilómetros e alturas não mensuráveis de socalcos que mais parecem construídos pelos escravos ressuscitados das pirâmides do Egipto.
Mas não. Foram cavados e dinamitados por sísifos sem história, desprezados pelos deuses, abjurados pelos homens, foram os galegos e os transmontanos e os beirões que trabalhavam sol a sol, robustos e telúricos, por uma mão quase vazia de moedas, meia sardinha e um copo de aguardente.
Miguel Torga, o grande poeta ibérico, chamou-lhe Reino Maravilhoso, a este universo agreste aonde vamos entrar, a partir do Porto até ao Pocinho com um bilhete de comboio ainda de baraço e papel-cartão.
“Douro, rio e região, é certamente a realidade mais séria que temos. Nenhum outro caudal nosso corre em leito mais duro, encontra obstáculos mais encarniçados, peleja mais arduamente em todo o caminho; nenhuma outra nesga de terra possui mortórios tão vastos, tão estéreis e tão malditos” (Miguel Torga - Portugal).
A viagem demora quatro ronceiras horas.
A primeira paragem acontece em Valongo. Mas o tempo alterou a estação. Já não se ouvem os pregões das ‘regueifas’ (uma espécie de pão espanhol em rosca), já se não vendem as bilhas de barro com água fresca, para atravessar montanhas de xisto que refulgiam e fulminavam.
Os passageiros ainda trazem o garrafão de vinho, mas já não usam os cestos de vime, de cores vermelhas e ocre, para a merenda: salpicão, presunto, bolos de bacalhau, queijo e sardinhas fritas, das pequenas, a encherem a carruagem e a memória de intensos cheiros e aromas.
Cabe na geografia sentimental, como um espaço de repouso, como antecâmara de intermináveis vinhedos da epopeia do “fine wine”, a estação do Pinhão, coberta, como uma galeria ao ar livre, de azulejos de azul celeste, que contam ladrilhada a faina da vindima. Azulejos que se perdem no tempo, peças raras do nosso imaginário.
Os WC ainda se chamam retretes e os depósitos ferroviários são em matéria enegrecida pelo tempo e pelo fumo das velhas locomotivas movidas a carvão ou hulha, que se alongam, negras, ao abandono, como sinais de um tempo já passado, em velhos e ferrugentos carris cobertos pela erva.
Nesta viagem sentimental, neste reencontro com as raízes da terra em que fui parido, vêm-me aos lábios, como sons musicais, os nomes das quintas de que se contavam histórias na minha infância: amores realizados e desavindos, facadas, violência e morte, mas sempre miséria.
E ouço-as e vejo-as enquanto começam a surgir, nas margens do Rio, laranjais, amendoeiras, chorões, salgueiros e olivais. E os nomes em casas baixas, teimosamente serenas nas encostas dos vinhedos a tocarem o céu – a Quinta Velha, a Quinta da Vacaria, Valbom, Ventozelo, S. Luís, Pego, a Casa do Castelinho na Alegria, a Ferradosa, já com vinha nova, com plantio à UE, comunitária apenas nos fundos e nos subsídios, com compasso obrigatório.
E a memória de que aquele reino pertenceu aos ingleses. E lê-se pela montanha acima: Cockburn, Taylors, Sandeman.
E a memória repete-se, após longos anos de ausência de viagem na Linha do Douro: porque é que o comboio pára onde não há sequer uma casa, muito menos uma estação ou alguém que toque a corneta para ordenar que retome a marcha?
Estabelece-se um silêncio de plenitude na chegada à Valeira, outrora local maldito pelos seus açudes e pela sua raiva. Foi aqui, nos seus cachões, que morreu o barão de Forrester. Por trazer um cinturão cheio de libras de ouro, que lhe pesavam no seu corpo de inglês e o empurraram para o fundo. Mais à frente, no Vesúvio, foi a vez de D.Antónia, a Ferreirinha, se salvar, boiando, com as saias rufadas em balão. Ao naufrágio só ela sobreviveu. É o que ouço desde a infância. É o que hoje se continua a ouvir. Mas também D. Antónia se salvou de ter como compadre o todo poderoso duque de Saldanha que tentou arrematar casamento do seu filho com a filha da proprietária. Mas D.Antónia não foi no engodo. E quando se passou para o outro lado, aos 85 anos, além de bens em nota, moeda e ouro, no seu pecúlio constavam 24 quintas no Douro.
Do Tua parte outra linha para Mirandela. Esta placa giratória é também um espaço quase mítico na memória transmontana. Durante tempos, zona de paludismo, de calores tão intensos que, conta-se, os trabalhadores no Verão assavam as sardinhas nos carris.
Ao darmos a curva para entrarmos no Pocinho , o fim da Linha, o começo de outro mundo, a escassos quilómetros do Parque Arqueológico de Foz Coa, ensaiamos o olhar na Quinta do Monte Meão, que fecha um ciclo e onde se tem produzido o melhor e mais caro vinho português: Barca Velha, da Ferreirinha.
O Pocinho tem um ar decadente. Dali partiam duas Linhas, já extintas, para a Barca d’Alva ( a ligação com a Espanha, através de Lumbrales) e para Duas Igrejas, o sítio ferroviário mais a norte do Nordeste transmontano.
É a hora do crepúsculo no Pocinho.
É aqui o princípio e o fim da epopeia do vinho do Porto.
Em finais de Setembro, princípios de Outubro, começam as vindimas.
Rogas de transmontanos e beirões descem até à região dos socalcos. Mulheres e crianças ou homens mais fracos cortam os cachos; os mais robustos, carregam as uvas em cestos altos (60 a 70 kgs) para os carrinhas e tractores ou, directamente, para os lagares. A estas rogas juntam-se hoje, entre legais e ilegais, ucranianos, moldavos, bielo-russos. Podem nunca ter visto uma uva, mas ao fim da colheita conhecerão já, por certo, o intenso cheiro do mosto.
Bem vindos ao Reino Maravilhoso do Alto Douro e Trás-os-Montes, o único reino onde os lobos ainda uivam e as velhas de preto esperam sempre por alguém que deve estar a chegar, nem que seja aquele viajante que um dia perguntou: “Então velhinha, diga lá se não gostava de ir a Lisboa”. “A Lisboa?” “Sim, a Lisboa” “Estou farta, estou farta de Lisboa” “Mas já foi alguma vez a Lisboa?” “Tenho lá seis filhos”.
Terra de emigração, Trás-os-Montes está quase deserta de transmontanos.
Reino Maravilhoso? Só de passagem e pela janela de um comboio.
“Venham, venham ver o Rio”, diz a mãe com sotaque do Porto, para as duas crianças da cidade.
Do Pocinho a Miranda
Do Pocinho, o entreposto ferroviário onde nasceu Francisco José Viegas, figura da televisão e autor da “Morte no Estádio”, em autocarro ou automóvel de amigo partimos em direcção a Moncorvo. São 11 quilómetros, sempre a subir, e com mais de 300 curvas, entre o enjôo e árida paisagem.
Chegamos a Moncorvo e frente ao edifício da Câmara deparamos com o busto de Campos Monteiro, o escritor consagrado da terra, um médico que, fazendo a sua vida na periferia do Porto, não esqueceu as suas origens. Nos anos 20 teve algum sucesso e notariedade com “Saúde e Fraternidade”, sátira de monárquico reaccionário à República anárquica, com “Miss Esfinge”, um dramalhão camiliano, com “Ares da Minha Serra”, duas novelas que retratam, com fidelidade e alguma nostalgia, a vida de Moncorvo do princípio do século XX.
Se fizermos uma pequena paragem, para jantar que seja, podemos ir até ao restaurante das piscinas, o Dom Mendo, ou ao Artur de Carviçais, já com a encomenda feita de amêndoas cobertas e enchidos, sobretudo alheiras (galinha do campo, peças de caça, tudo amassado no pão regional, com azeite e alho silvestre), a chouriça da resistência dos cristãos-novos aos esbirros da Inquisição, como bem escreveu Manuel Mendes, o eterno conspirador com raízes em Mogadouro.
Deixámos para trás a mastodôntica igreja que levou 100 anos a construir e onde espirra, dentre granitos, um raquítica figueira que dá dois ou três figos todos os anos.
Deixamos para trás o Museu de Ferro, o único no país. No concelho, na serra do Roboredo( bosque de carvalhos numa pertinência latina), estavam e ainda estão em recato as maiores jazidas de ferro da Europa.
Ao nosso lado direito, fica a aldeia do Felgueiras, terra de Armando Martins Janeira, o embaixador que se apaixonou pelo Japão, crítico literário nas horas vagas e com interessante espólio em Cascais; terra de onde partiu o bisavô de Jorge Luís Borges, em andanças militares e outras que desaguaram na Argentina. Ao lado esquerdo, fica o Felgar, onde nasceu e calcorreou caminhos, o Afonso Praça, jornalista e autor de “O Coronel Morreu de Sentido” (noveleta satírica com assento na sua terra) e “Um Momento de Ternura e Nada Mais”, crónicas de saudade de Trás-os-Montes visto do Campo Grande (Lisboa). Homem de saberes, comeres e beberes, publicou “Receitas Afrodisíacas”, com desenhos de Francisco Simões, e, em parceria com Maria de Lurdes Modesto, publicou, na Verbo, dois volumes das “Festas e Comeres do Povo Português”.
Avançamos até tomarmos a decisão de cortar à direita para Freixo de Espada à Cinta. São sem dúvida os piores 15 quilómetros de estradas transmontanas. Mas vale a pena o sacrifício. Entramos na vila portuguesa com mais casas manuelinas e com pinturas de Grão Vasco na Igreja da Misericórdia. Se queremos comer alguma coisa, já fruto de ser terra de fronteira, podemos encaminharmo-nos para o Cinta de Ouro, com carne espanhola, fresquíssima e tenra, entradas espanholas e presunto aparentado com o pata negra.
Terra do interior, estamos em terra de marinheiros, aventureiros e missionários. Daqui houve Jorge Álvares ( com direito a estátua em Macau), companheiro de peregrinação de Fernão Mendes Pinto e o primeiro português a chegar ao Japão; daqui houve Sarmento Rodrigues, o almirante ( indo ao Turismo o leitor pode comprar uma biografia de Sarmento Rodrigues, com muitas surpresas e novidades, da autoria de Nuno de Sotto-Mayor Quaresma Mendes Ferrão); daqui houve Basílio de Sá, autor do primeiro dicionário de tetum-português, prisioneiro dos japoneses em Timor; daqui houve o padre Manuel Teixeira, considerado dos maiores sinólogos vivos.
Para fazer a digestão, nada melhor que subir ao Penedo Durão,donde avista terras de Espanha e o céu parece estar mesmo à beira da sua mão; ou então, desce até à Congida e repousa os olhos no Rio, numa serenidade semelhante à que haveria no Paraíso, não fosse a gulodice da maçã.
Meta-se de novo a caminho até Mogadouro. Entrou no planalto, viu em Castelo Branco a casa das 365 janelas e portas, já a ser recuperada após longos anos de ruína.
Entrou no reino da posta mirandesa, tem muito por onde escolher. Ou siga até Miranda e ouça o linguar estranho de uma língua (o mirandês), um dialecto do leonês, hoje falado por cerca de 15 mil pessoas e que já tem expressão escrita e literária em Francisco Niebro (Amadeu Ferreira) com os “Cebadeiros” e “L Ancanto de l Arribas de l Douro”.
A Língua mirandesa foi descoberta há mais de 100 anos pelo prof. Leite de Vasconcelos e foi aprovada como segunda língua oficial pela Assembleia da República em 1999.
Visite o Menino Jesus da Cartolinha, já bem fornecido da posta mirandesa na Gabriela das Duas Igrejas e lembre-se do padre Mourinho, o resistente dos Pauliteiros de Miranda, da gaita de foles, das danças celtas e compre uma Palaçoulo, com cabo de bucho que medra nas margens do Sabor.
Se quer chegar a tempo a Bragança pode internar-se em Espanha. É o caminho mais cómodo para a capital do distrito e durante três dias, da diáspora transmontana.
De regresso a casa pode passar por Macedo de Cavaleiros, almoçar na estalagem, comprar Vale Pradinhos e a caminho do Pocinho fazer um desvio até Vila Flor comprar o seu queijo e as Portas de D. Dinis, um vinho único. Se ainda tiver tempo, pare na Foz do Sabor e coma uns peixes do rio no Chico Barbas ou no Zé da Branca. Pode comprar vinho da Quinta da Silveira ( se ainda o houver), Fraga do Facho, Cistus ou Montes Ermos que, por certo terá bebido em Freixo. Quantos aos queijos escolha os da Cardanha ou da Quinta Branca.
O comboio já apita. Mal chegue ao Porto, visite o Nuno Canavez, de Mirandela, a cuja biblioteca tem dado muito do seu precioso espólio da palavra transmontana, caçador inveterado e avô que todos os netos gostariam de ter.
Rogério Rodrigues
Campos Monteiro
Mando estes textos que escrevi um dia sobre a obra de Campos Monteiro mais próxima de Moncorvo. Foi um pequeno trabalho a que me dei, embora não seja dos admiradores do escritor. Mas acho que vale a pena estudar melhor Campos Monteiro, sobretudo na vertente linguística. Penso que seria um trabalho muito interessante, em nome de uma certa autonomia curricular, estudar Campos Monteiro e outros autores transmontanos como João Araujo Correia, Miguel Torga, Rentes de Carvalho ( sobretudo no Montedor), A. M.Pires Cabral (ex-director da Escola Secundária de Moncorvo), António Cabral e mesmo algum Camilo, como o do Santo da Montanha cuja trama começa e acaba em Moncorvo.
Rogério Rodrigues
Moncorvo no início do século XX
Nomes, lugares e expressões
O livro de Campos Monteiro (“Ares da Minha Serra”), não sendo de grande qualidade literária, respeitando embora os cânones da época, tem, no entanto uma virtude única: dá-nos a conhecer não só o linguajar, bem como a topografia e os costumes de Moncorvo no princípio do século passado.
A descrição da amêndoa coberta, a partição da amêndoa, a pisa das uvas, a descrição da Corredoura são textos que deviam ser estudados pelos alunos de Português da Escola Secundária de Moncorvo, Dr. Ramiro Salgado. Seria benvindo professor que houvesse capaz de reflectir no porquê das alterações da arquitectura da vila, sobretudo a partir da descrição da Corredoura, e também nas especificidades linguísticas de um meio rural que se transformou num meio de serviços.
Nomes
Alguns dos nomes presentes no livro, sobretudo na primeira novela, ainda têm ressonâncias familiares no Moncorvo de hoje.
Uma das personagens mais conseguidas de Campos Monteiro é sem dúvida o Canafrecha.
Campos Monteiro dominava o diálogo com a mestria de quem muito teatro já escrevera.
Diga-se que os “Ares da minha Serra” com o “Raio Verde”, livro de poemas, são os últimos livros de Campos Monteiro, publicados em 1933, ano da sua morte.
A definição de Canafrecha: “Olá, Canafrecha! Vens p’ra o rebusco?”
O Canafrecha era “zorro”, filho de pai incógnito. Dormia “nos bancos do Castelo sob a umbela das acácias”. (Já não há acácias no Castelo).
“Era o único ratoneiro da vila--uma povoação de três mil almas que desconheciam o roubo e cujas portas se patenteiam sempre abertas, de par em par”.
Ainda a propósito do Canafrecha, Campos Monteiro lembra “ a mata do sr. Baltazar onde havia medronhos de trás da orelha” (no Roboredo).
Diz o João Caramês, o herói da novela, p’ra o Canafrecha: “Olha que podes emborrachar-te”
“--Melhor! Alguma vez hei-de fingir de rico”.
Já tinha ido à consulta do Hospital. “Disse-me o doutor Ramiro que era do coração e pôs-me a leites” . Pelo menos em 1933 havia Hospital em Moncorvo.
Ainda o saboroso linguajar do Canafrecha: dizem que “fiz o ranfa de um corte de saragoça à senhora Filomena Granzina. Mas são inzonices das más línguas (...)Surripiei na loja do Marrana uma folha de papel e um vidrinho de tinta e fui-me lá p’ra a serra, p’ra do dr. Bernardo, a escrever tudo o que tinha visto”.
Há ainda o personagem da desgraça, o Tomazinho Montenegro que encomendou duas músicas para a festa da Nossa Senhora da Esperança: “a do Peredo e a do Mogadouro”. Existe também uma D. Clemência Montenegro, de Felgueiras. E uma tal D. Clotilde Paredes, em cuja casa se partia a amêndoa e que “possuía vasto amendoais, lá para as arribas do Felgar e nas pedregosas encostas que, da Cornalheira e da Ventosa, descem a buscar o Douro”.
E encontra-se, como vinhateiro, em Moncorvo, um tal William Copperfield, cuja mulher “fora certa menina do Peredo, magríssima e quase sem sangue”. Ainda os barcos chegavam à Foz. A descrição: “Todos os dias chegavam barcos-rabelos ao Rego da Barca, com os mais diversos artigos, fabricados no Porto e no estrangeiro. Em troca, partiam as pipas de vinho generoso, os cascos de azeite, os fardos de lã, os sacos de amêndoa e de milho”.
Também outra das personagens mais vincadas da novela de Campos Monteiro, é Armoges, o usurário que foi morto por Tomazinho Montenegro e que levou à prisão de João Caramês. A descrição da personagem denota da parte do autor de Moncorvo, a leitura dos chamados naturalistas do último quartel do século XIX. Armoges “que só escogita em apedoirar dinheiro, esse birbante (...) se já não está a espernear na forca, é porque enterraram o pelourinho que havia ali na Praça (...) Avaro trampolineiro (...) o cochino(...) o somítico (...) Esse fome-laricas que passava muitas vezes sem janta, só para amealhar mais 10 tostões (...) Armoges (Hermógenes) habitava um casebre no fundo da rua dos Sapateiros”. Tinha um estabelecimento “mixto de prego e casa bancária” na Praça Municipal.
Para quem conhece Moncorvo, passados quase 70 anos sobre a publicação do livro há situações familiares, usos e linguajares que nos vêm á memória e nomes que perduraram até hoje embora em condições sociais distintas. Por exemplo, o Tomé Cantés, “pobre carpinteiro”. Escreve Campos Monteiro: “Iam levar o Tomé para o hospital e que o sr. Abílio Pires oferecera o palheiro da rua das Amoreiras para eles morarem”.
Na novela aparecem ainda outros nomes a merecerem, bem como outros de tempos sequentes, uma biografia social de uma vila que foi importante, como Moncorvo. Algumas referências:” O lagar de vinho do Júlio Gonçalves à rua da Misericórdia(...) Ao torcerem para o Prado, avistaram à porta da taberna do Cachiço”.
O Roberto Caiador, Moncorvo já na altura tinha dois polícias, o 25 e o 18, havia o António Enxamblador, o Joaquim Loureiro, o Chico de Ligares, oficial de diligências, o dr. Areosa. “A rapariga (Madalena Caixeiro) saía acompanhada pela Silvina do Ferrador”.
Ruas e bairros
Moncorvo era então uma vila essencialmente rural e administrativa. Campos Monteiro, muito embora oriundo de Moncorvo, desde a infância que se dividia entre Douro e Minho, tendo na cidade do Porto os seus interesses sociais e culturais. Alguém o classifica como o “grande escritor do burgo portuense”. De qualquer modo, no crepúsculo da vida, Campos Monteiro espalha um olhar entre o distante e o nostálgico, num disfarce de ternura, sobre as suas origens. E, além das pessoas, recorda os sítios.
A Corredoura é vista por João Caramês dos calabouços da cadeia (traseiras do tribunal ou rua do Cabo?). Pelo olhar de Caramês:” “Ali em baixo, por detrás da capela de S. Sebastião, devia ser do Manuel Tenreiro. A outra, mais para a direita, do Miguel Mesquita e a que se divisava lá ao fundo, no extremo oeste da vila, se não fosse a da ermida de S. Paulo, era concerteza a do António Cabrela”.
Também a rua do Poço merece uma descrição pormenorizada de Campos Monteiro, interessante de comparar com o seu estado actual. “A rua do Poço era uma congosta estreita e soturna, com o pavimento sempre recoberto de palha e terra solta, onde o sol penetrava pouco porque não havia casas de andar. O pardieiro da rapariga tinha a vantagem de ser o último; e do pequeno terreiro que lhe servia de quintal descortinavam-se as ladeiras da Costinha, a exígua várzea do Vale das Latas, o maciço granítico, onde raras leiras verdejavam, da serra de além-Sabor”.
Aparecem ainda mencionados a rua do Quebra-Costas, o Val da Perdiz, a curva da Barbatona, o canavial, na esquina da casa do Arco o nicho da Nossa Senhora Mãe dos Homens, o Vale do Marmeleiro, a Fraga do Facho, os cerros do Larinho, a montanha dos Estevais, a serra de Sambade.
Expressões e regionalismos
Moncorvo sempre foi muito fértil em colocar alcunhas às pessoas e a sua veia crítica, por vezes sarcástica, e um linguajar muito próprio, a par de alguma prosápia domingueira, transformam aquela vila num microcosmos social e cultural que quase apetece estudar.
Dou aqui aos leitores algumas das expressões e termos mais comuns do linguajar de Moncorvo ainda não há muitos anos, quando não se temia a massificação e a uniformização linguística, por baixo, através da televisão e da mensagem audiovisual, cada vez mais simplificada, em nome da eficácia, mas alheada de referências.
Dizem os seus contemporâneos que Campos Monteiro tinha uma memória prodigiosa. Pode-se acrescentar que não sendo o linguajar das classes mais sacrificadas da vila a sua herança cultural, social e mesmo económica, Campos Monteiro soube captar no entanto toda a riqueza que se armazenava na linguagem e na sabedoria populares. Sem pretendermos ser exaustivos, alguns exemplos dos “Ares da minha Serra”: a taleiga da merenda; meu enxalmo, molanqueiro, bardino, benairo da esfrega, meu alma de cântaro; andar na gandaia; cortelho de recos; este meco (não em sentido pejorativo, como hoje); cada mocho p’ra o seu souto; terrincando os dentes; quando se via aganada; e regressava sem um gaipo; era capaz de as empontar; um fraca-chicha, um salamurdo que mal a gente lhe aparece acrucha logo o casaco; toda arreguichada; podes ir preparando a vèdalha ( a propósito do casamento); catixa! que chambego de café; lábia tem ele, o fistor; não faz minga, sr. João; p’ra espertar o apetite; tenho andado bem assafiado por via disso; acobardei-me, com um bocado de fajeco; não me salvo se a não gomito; com estes dois que a terra há-de gualdir; acogulou a burra; deitou aparvado pela rua fora; é hoje que despejo o canastro. E vim aqui num esfregante; qualquer dia, trape: lá vai um pobre diabo p’ra o Maneta; e nem farfalha, caladinho que nem um murganho; as ruas acoguladas de neve; o aloquete; até te podia dar um pleuriz; um tanto avelhentada; estomagado a pesar seu; na gorja; soprava um larinhato frígido; que me deitaram os gadanhos; introduziram a yale na fechadura.
E mais expressões e termos poderíamos ainda buscar em Campos Monteiro. Seria muito interessante um estudo linguístico, acompanhado de um estudo sobre a realidade social de Moncorvo e de alguns valores básicos que hoje se vão perdendo, como o valor de honra que enformam as novelas de Campos Monteiro, esta espécie de hino crepuscular à vila onde nasceu, que são as novelas dos “Ares da minha Serra”.
Rogério Rodrigues
Apontamentos bio-bibliográficos
Nascido a sete de Março de 1876, Abílio Adriano Campos Monteiro faleceu aos 57 anos de idade, a 4 de Dezembro de 1933, em S. Mamede de Infesta, nos arredores do Porto, onde casou e viveu a maior parte da sua vida.
A sua infância e adolescência foram passadas em Viana do Castelo, Ponte de Lima, Ponte da Barca e Arcos de Valdevez.
A propósito deste período da vida de Campos Monteiro, recomenda-se a brochura de António Pimenta de Castro, limiano de origem, residente no Mogadouro e professor em Moncorvo, “A Fase Limiana de Campos Monteiro” (Torre de Moncorvo 2001).
Começa a escrever aos 15 anos no “Moncorvense”, mais tarde no “Jornal de Viana”, no “Pontos e Vírgulas” do Porto, no trissemanário vianense “A Vida Nova” e no “Aurora do Lima”, onde escreveu também Camilo Castelo Branco, de que Campos Monteiro era um discípulo.
Médico em 1902, antes da implantação da República foi administrador do concelho da Maia.
Católico e monárquico, “alto e magro, de feições rudes e vincadas” (Carlos de Passos), Campos Monteiro foi deputado em 1918, na câmara sidonista, “ no hemisfério da extrema-direita”, como recorda outro deputado da altura, Adelino Mendes.
Serviu como capitão-médico miliciano na reserva territorial, função de que seria demitido, por motivos políticos, já graduado em major, em 1919.
Escreveu 30 livros originais, 100 prefácios e colaborou em muitos diários e revistas.
Recolheu algum êxito editorial na altura. Os seus livros tiveram bastantes reedições e sabe-se que pelo menos três operetas suas, ainda que representadas, nunca chegaram a ser editadas: “O Segredo da Morgada”, representada no Teatro Carlos Alberto, no Porto, também em Lisboa, no Rio de Janeiro e em S. Paulo; “A Rainha da Lacónia”, representada no Teatro Sá da Bandeira no Porto (1910) e no Rio de Janeiro em 1912; “O Ramo de Perpétuas”, representado no Brasil.
Dirigiu ainda as revistas “Civilização” e “Argus”, ambas do Porto e foi um dos promotores da publicação “Maria Rita”, um semanário humorístico.
Polígrafo fecundo, cultivou com maior sucesso a crónica. Colaborou na “Época”, no “Primeiro de Janeiro” e no “Jornal de Notícias”, cujas crónicas editadas em livro, “A oito dias de visita”, tiveram na altura um assinável êxito de vendas.
O livro contudo que o tornou conhecido do grande público, num período conturbado da vida política portuguesa, foi “Saúde e Fraternidade” (1923), violenta sátira política às personalidades e governos republicanos. Em seis meses, tiraram-se sete edições. Em 1925, teve a décima, atingindo qualquer coisa como 30 mil exemplares vendidos. Em 1978, sob a chancela das Edições do Templo, com caricaturas de Amarelhe, acaba por sair outra edição baseada na sétima e décima edições.
Sobre este fenómeno escreveu Aquilino Ribeiro: “ Saúde e Fraternidade de Campos Monteiro foi, com as “Cartas de D. Carlos”, o livro que em Portugal alcançou maior êxito de livraria no primeiro quartel do século (...) Quando se fizer um estudo da literatura política destes tempos revoltosos encontrar-se-á este nome saudoso”.
Outras das suas obras tiveram algum sucesso na época, mantendo-se hoje praticamente ignoradas do público e da própria terra que o viu nascer. Sem a pretensão de sermos exaustivos, apenas a enumeração de alguns títulos mais conhecidos: “O crime de uma mulher honesta” (1913), “Versos fora de Moda” (1915), “Miss Esfinge” (1921), obra emblemática do autor, “Camilo Alcoforado” (1925), “As duas paixões de Sabino Arruda” (1929), “Ares da minha Serra” (1933) e, finalmente, o seu testamento poético, “Raio Verde, últimos versos” (1933).
Escreveu Campos Monteiro, como seu epitáfio político: “Sou monárquico e morrerei impenitente, se erro na preferência do regime (...) Com homens sérios é indiferente para o povo o governo monárquico ou o governo republicano”.
Como epitáfio poético, este dorido poema do “Raio Verde”:
Não mais, lira, não mais! Emudecida
vais imergir no plácido letargo
do perpétuo abandono;
não porque tenha “a voz enrouquecida”,
mas porque sinto perto o rio largo
“do negro esquecimento e eterno sono”.
Dorme. Descansa. Terminou a lide.
Tal como o alfanje de Harun-Al-Raschid,
ganhaste jus a repousar também.
Se era débil a mão que te tangia,
foi sempre nobre o impulso que a movia:
“serviste mal, mas só serviste o Bem”!
P. S. Parte dos elementos aqui coligidos, foram estudados e recolhidos no livro “Homenagem a Campos Monteiro”, editado em 1943 pela Livraria Tavares Martins do Porto. O seu a seu dono.
Rogério Rodrigues.
Ares da Minha Serra
A última edição (1995) de Ares da Minha Serra, porventura a obra mais conhecida de Campos Monteiro, é da responsabilidade da Câmara Municipal de Moncorvo, com uma tiragem de mil exemplares.
O livro consta de duas histórias e um apontamento, quase jornalístico, de uma viagem de barco rabelo, do Rego da Barca até ao Tua, onde se apanhava o comboio para o Porto.
A primeira história, “A tragédia de um coração simples”, bem ao ritmo camiliano, em escrita eivada de regionalismos, Campos Monteiro conta a história de um jovem moncorvense, João Caramês, cortador de lenha na serra do Roboredo e que se perdeu de amores – e pelos amores se deixou perder—por Madalena Caixeiro, sua vizinha. Tinham sido criados praticamente juntos, como irmãos.
Mas a Madalena caiu nas graças do fidalgote Tomazinho Montenegro que a seduziu.
O Bento Armoges, “um unhas de fome”, como escreve o autor, é o usurário da vila. Tem uma pequena zanga com João Caramês, durante a pisa da uva.
Nessa noite, o Bento Armoges aparece morto. São deitadas as culpas a João Caramês que é preso. Mas Canafrecha ( uma das personagens mais conseguidas da novela), um pobre diabo, sem eira nem beira, sabe quem matou o Bento Armoges. Fora o Tomazinho Montenegro.
Madalena Caixeiro diz ao João Caramês que está grávida de Tomazinho Montenegro.
João Caramês foge da cadeia por uma escassas horas, vai ter com Tomazinho Montenegro e conta-lhe que sabe quem matou o usurário. Tomazinho confessa e garante que se vai entregar no dia seguinte. João Caramês, porém, diz-lhe que se confessará culpado do homicídio, com uma condição: que case com Madalena Caixeiro. E antes do julgamento. E assim é feito.
O advogado acha que não há provas contra o João Caramês. A própria população acredita na sua inocência. Mas João Caramês não falta à palavra, considera-se culpado e é degredado para as Áfricas.
Amores alentejanos
A segunda história, “A Rebofa” ( as cheias da Vilariça), é ainda mais trágica. Trata-se de uma história de ódios velhos que não cansam entre dois abastados lavradores que, desde pequenos, tinham vivido como irmãos, até que, um pouco à aventura mais do que por necessidade, partiram para as ceifas do Alentejo. Aí, ambos se apaixonaram pela mesma mulher, também ela abastada, mas que só um amava. O ciúme destruiu os dois. E destruia-a a ela que, escorraçada pelo pai, começou a andar de terra em terra, em trabalhos do campo.
Eles regressaram a Moncorvo e puseram muros entre as casas contíguas, para que nunca se vissem um ao outro. Tornaram-se mesmo rivais na política. E nasceram-lhe um filho e uma filha que acabaram por se apaixonar, e casar com a sua maldição e viver na miséria até que, desesperados, se suicidaram na “rebofa”, deixando uma criança aos cuidados da caseira da Quinta do Chibos.
Quando souberam da tragédia, os dois velhos inimigos encontraram-se, pela primeira vez, diante do berço do neto. E abraçaram-se, com a caseira na penumbra vertida em lágrimas.
Diga-se que a caseira, que não fora reconhecida, era o antigo amor alentejano dos dois velhos.
terça-feira, 13 de maio de 2008
Vamos lá descansar um pouquito
À experiência
Vou começar a escrever neste blogue algumas das minhas experiências pessoais, relatos não lineares de certo e incerto tempo e de (sobre) pessoas da minha infância. O desafio foi-me feito pelo Nelson Rebanda, mal eu sabia que havia um blogue em que Moncorvo era uma paisagem mais real do que de ficção. Prometo, proximamente, enviar alguns textos de temática moncorvense, se assim me posso exprimir, o que não me agrada muito, tão redutor que se torna o desafio. Mas nos subterrâneos da memória, por vezes; nos armazens das lembranças, por outro, entre tanta escória, alguma pepita há-de surgir, para mal dos meus pecados e bocejo dos viciados no blogue. Mas não é sábio o que já muito sabe, mas sobretudo o que continua a aprender. Nunca serei sábio, mas não desistirei de continuar a aprender, aqui e noutros lugares.
Não estranhem que, por vezes, o pseudónimo seja um estratagema de me reencontrar e não de fugir; que o nome da minha aldeia seja um registo muito presente, entre a nostalgia e a crítica, entre ausentes e presentes, entre velhos e aqueles que já foram novos. Esperem por mim se tiverem paciência para tanto.
Rogério Rodrigues
segunda-feira, 12 de maio de 2008
A Quetobia Patorra
A quetobia patorra
A quetobia patorra,
'stá debaixo do torrão;
e a quetobia patorra, Ai!
A quetobia patorra,
'stá debaixo do torrão;
Mas Ai! Ai! Ai!
Moidinha com pancadas,
Moidinha com pancadas,
Que lhe deu o gafanhão;
Moidinha com pancadas,Ai!
Moidinha com pancadas,
Que lhe deu o gafanhão.
Mas Ai! Ai! Ai!
Lá em baixo vem a raposa,
Lá em baixo vem a raposa,
Pela rodeira do carro;
Lá em baixo vem a raposa, Ai!
Lá em baixo vem a raposa,
Pela rodeira do carro;
Mas Ai! Ai! Ai!
Traz os olhos na carcota,
Traz os olhos na carcota,
E o cu debaixo do rabo;
Traz os olhos na carcota, Ai!
Traz os olhos na carcota,
E o cu debaixo do rabo;
Mas Ai! Ai! Ai!
O lagarto é pintado,
O lagarto é pintado,
Da cabeça até ao meio;
O lagarto é pintado, Ai!
O lagarto é pintado,
Da cabeça até ao meio;
Mas Ai! Ai! Ai!
Não sei com'as mulheres pode
Não sei com'as mulheres pode
Com tanta carne no seio;
Não sei com'as mulheres pode, Ai!
Não sei com'as mulheres pode,
Com tanta carne no seio;
Mas Ai! Ai! Ai!
Música tradicional de Torre de Moncorvo, in " Algumas Cantigas do Património Cultural Transmontano" ( Colectânea e Recolha de M. Brandão) - Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro - Lisboa ( Grupo de Cantares), Lisboa, Outubro de 1987.
Cotovia : Fotografia de João P.V. Costa
Sequeiros, Moncorvo, 23-3-2008.
domingo, 11 de maio de 2008
aromas e sabores
Uma saladinha de azedas e de "merujas" a preparar o " lastro" para a perdiz no tacho
drama na Sra da Teixeira
Já tarde quase noite uma tempestade pairava no ar. O som da trovoada fazia medo.
in: "os céus de moncorvo" http://www.antoniobasaloco.org/ceusapresentaçao.htm
De todas as mil formas

Perdido no verde dos freixos e salgueiros,
Embalado no canto do papa-figos e do rouxinol
Comi amoras, molhei os pés,
Ouvi a música do rio e ribeiros.
Colhi um ramo de buxo.
Com alecrim o perfumei.
Juntei-lhe pérolas de cor,
Jóias de cheiros,
De todas as mil formas que encontrei.
E quando em minha mão já não cabia,
Coloquei-o de mansinho na corrente.
Fiquei a olhá-lo, enquanto se perdia.
Foi-se, fiquei contente.
Como posso eu querer guardar
Toda a beleza que a Primavera tem para dar?
Rio Sabor, Maio de 2008.
sábado, 10 de maio de 2008
Brinquedos e segredos
Brinquedos e segredos
Portão do cemitério
Estação do Pocinho, 2008,Maio
Arte ou vandalismo? - Neste caso voto pela Arte.
Mais juventude, mais cor, quebrando o cinzentismo de uma empresa
que há muito parece alimentar o secreto desejo de fechar esta estação...
Oxalá cativem a Juventude e o Turismo, com arte e imaginação
e encontrem novos públicos para a Sustentabilidade desta linha!
Toda a cor da Primavera numa quimera

Dedaleira (Digitalis purpurea), junto à Foz do Sabor.
Maio, 2008
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Por esse rio acima
Depois de um voo nos ares do Reboredo, um passeio ao profundo vale onde um rio espera, espera.
A paisagem é magnífica e fotografei-a no dia 8 de Maio, durante a manhã, ao som de uma sinfonia de rouxinois, rolas e papa-figos.
Pela tarde choveu bastante. É possível que os peixes retidos no seu ímpeto reprodutor, tenham oportunidade de subir o Rio, por uma última vez.
Bico da Ribeira e baixo vale da Vilariça - vem aí um novo IP-2 ??

A zona da "Ribeira", vendo-se em primeiro plano, em baixo, a confluência da ribeira da Vilariça com o Sabor. Ao fundo, o encontro deste rio com o Douro e o meandro que este descreve em redor do monte Meão.
O dedo do parapentista aponta o troço já existente do IP-2, ao lado do qual se pretende construir um outro troço paralelo, do mesmo itinerário. Uma dupla estrada seria uma irremediável agressão à paisagem, atirando o troço existente, literalmente, para o lixo (mais um futuro vazadouro de entulhos e de sucatas). Para já o Estudo de Impacto Ambiental desta obra foi "chumbado", esperando-se que haja uma alternativa melhor... Em nome do património paisagístico...
Foto captada de parapente, pelo nosso amigo Tó Andrês, em 2.06.2004, e a quem agradecemos a autorização para publicação desta imagem, assim como das anteriores.
A "Ribeira" - no prelúdio do encontro dos rios...
"Sôbolos rios que correm..." - diria Camões.
Tal como no Porto chamam "Ribeira" ao Douro, no seu curso final que precede a Foz, também aqui se chama "Ribeira" ao Sabor, depois da sua confluência com a ribeira da Vilariça e antes de desaguar no Douro.
Em primeiro plano, a meio do rio, a chamada "ilha do espanhol". Nas margens, as famosas "courelas" de hortaliças e meloais. - Em tempos idos, dos séculos XV a XIX, aqui se produziu grande quantidade de cânhamo (o linho alcanave > cannabis) para as cordas e velame das naus da carreira das Índias...
Ao fundo, a povoação da Foz do Sabor e o Douro, de onde emerge o monte Meão, no sopé do qual floresce a Quinta do Vale do Meão, a última grande obra vitivinícola de D. Antónia Adelaide Ferreira, a célebre "Ferreirinha".
Foto captada de parapente, por Tó Andrês (Clube Ares da Minha Serra), em 2.06.2004.
Torre de Moncorvo vista dos céus....
O burgo antigo assemelha-se a um polvo, de onde partem os meandros tentaculares das avenidas novas e das vias de acesso. Estava ainda em construção, o troço de ligação ao IP-2.
Foto tirada de parapente, por Tó Andrez (do Clube Ares da Minha Serra), em 2.04.2004.
























