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terça-feira, 3 de junho de 2008

Cornalheira (Pistacia terebinthus)


Uma estrela de quatro pontas.
Ribeira, próximo do Douro, Moncorvo.
Abril de 2007

Nossa Senhora de Fátima


Esta imagem de Nossa Senhora de Fátima, no Castedo, está situada num rochedo junto ao parque infantil, no lugar conhecido como paragem. Perto deste parque, fica o Bairro Novo (antiga Rua do Curvato).
(01-06-2008)

domingo, 1 de junho de 2008

Vigiando o vale

No Dia da Criança, tentei tirar os meus dois rebentos da frente dos ecrãs que os (nos) escravizam. O passeio foi longo, mas um dos momentos mais entusiasmantes foi quando fizemos uma incursão, monte a dentro, junto a Cabeça de Mouro. A paisagem que se avistava era magnifica e não resisti a tentar captar toda a imensidão numa só fotografia. A tarefa foi árdua, eis o resultado.

Asphodelus ramosus

Com a sua haste depois de seca, faziam as flechas para os arcos, nas brincadeiras de infância ( Açoreira - Torre de Moncorvo).
Fotografada em 13-4-2006, Torre de Moncorvo.

Pauta e flauta

Sequeiros - Torre de Moncorvo, 24-3-2008.

Flora de Brincadeiras

Os botões da tasneirinha ( Senecio vulgaris L.), com as suas cores verde e amarela, prestavam-se para fazer espargos com ovos. ( Torre de Moncorvo).

Esta pequena flor de Jasione Montana representava um queijinho nas brincadeiras e passatempos infantis, sobre culinária ( Torre de Moncorvo / Freixo de Espada à Cinta).

Fotografia registada em Sequeiros - Torre de Moncorvo.


A canafrecha (Tapsia Villosa) era utilizada na construção de brinquedos, tal como o arado que a foto anterior representa ( contruído por António Dias, octogenário).

Fotografias registadas em Sequeiros - Torre de Moncorvo, em 14 de Janeiro de 2006.

sábado, 31 de maio de 2008

Madressilva - Lonicera implexa


Madressilva - Lonicera implexa (?), na Serra do Reboredo (24-05-2008).

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Postigo

Pormenor numa porta, na Rua da Misericórdia, em Torre de Moncorvo.

terça-feira, 27 de maio de 2008

O antigo combustível


Mesmo fardado, há que enfardar, porque o tractor fica cada vez mais caro...
Fotografado em Sequeiros- Torre de Moncorvo

Flora " maldita"

Xanthium spinosum
Planta espinhosa, comum em locais húmidos e quentes. As suas sementes são uma praga que se prende ao pêlo dos animais.
Fotografada junto à Fonte de Canelas - Açoreira - Torre de Moncorvo.


Cebola albarrã; cebola almarrã; cebola chilra (Uirginia maritima).
Planta muito comum nas ladeiras, entre fragas, mas em terra fértil. Outrora fora colhida para ajudar à economia familiar, à semelhança do sumagre e do cornelho ( fungo do centeio mais evidente nas colheitas de centeio na Serra do Reboredo). Esta cebola era aberta e posta a secar, durante muito tempo. Posteriormente era vendida. Essa procura dever-se-ia com certeza a propriedades medicinais. O seu líquido, apesar de "corrosivo", era utilizado no tratamento dos ferimentos sofridos pelos burros ou machos nas lavras.

Segundo um testemunho, esta cebola fora utilizada para curar uma picada que um "alacrário" fizera a uma besta, em Freixo de Espada à Cinta.

(Fotografadas em Sequeiros - Torre de Moncorvo).

Maleiteira (Euphorbia characis)

Esta planta apresenta um líquido leitoso que, de certa forma, afasta de si pessoas e animais. Aconselha-se a lavar bem as mãos , caso se mexa na planta.
Fotografada em Sequeiros - Açoreira - Torre de Moncorvo.

Cardo amarelo ( nome científico? e popular?). Os seus picos poderão ser agressivos, mas não lhe conheço outra" maldição". Poderá fazer companhia à popoila amarela.
(Fotografado em Sequeiros- Torre de Moncorvo)

Unha Gata ( Ononis spinosa)

Planta rasteira e espinhosa temida pelos trabalhadores do campo. Chegam a dizer que os seus espinhos são tão terríveis que crescem dentro da carne ( local da informação: Sequeiros - Torre de Moncorvo, onde foi registada esta fotografia).

Trovisco ( Daphne gnidium)

Planta arbustiva utilizada em métodos de pesca furtiva, através da utilização de um engodo preparado com as suas raizes .
(Fotografia tirada em Sequeiros- Torre de Moncorvo)

À espera que alguém entre



Na Rua do Castelo
, em Torre de Moncorvo.

domingo, 25 de maio de 2008

Lampaça







(Echium Vulgare)

À semelhança de outras plantas,
as crianças, brincavam com estas plantas
arrancando a flor para lhes" chupar o mel".

Torre de Moncorvo.

papoila Amarela



É preciso estar atento...

para as descobrir.

visite: http://www.antoniobasaloco.org/user.htm

Contos de rodapé

Uma vez que a edição de "Contos de Rodapé" de João P. V. Costa está esgotada, pedi autorização ao autor para publicar aqui alguns dos textos que, de alguma forma, possam fazer referência a Moncorvo. Com a utorização obtida, passaremos a contar com mais esta temática, embora, tal como garantiu o autor, possam ocorrer alguns retoques no texto e imagem originais. Mas também poderão surgir alguns inéditos...




Verbasco

Passaram os ciganos por Açoreira e, por engano, levariam de arrasto os arreios de um macho e uma charrua de ferro. Fosse lá como fosse, sumiram as alfaias necessárias à labuta diária de Jaquim Manel e de Manel Jaquim, irmãos de um ventre, que teimavam em não deixar entrar os tractores no seu prédio. É que a força e o mau jeito das máquinas arrebunham oliveiras e amendoeiras, chegando mesmo a assassiná-las! Sem esta ferramenta, ficava a lavra por fazer, enquanto as ervas iam comendo as árvores.
Simão vigiava o rebanho por ali e viu realmente passar a caravana dos ciganos. Mal soube do desaparecimento dos objectos dos vizinhos, correu a informá-los dos suspeitos que àquela hora já estariam acampados perto da Meda. Os homens que acabavam de arrear da jeira largaram o cabanal e carregaram a fundo no sentido do acampamento. Pelo caminho, a raiva era tão forte que não sentiam os pés de sola natural, apesar de muitos atalhos serem a galgar paredes e espinheiros.
Já perto das tendas, enquanto as rondavam, foram interceptados pelo chefe que lhes pediu a razão de tanta espreitadela.
- Queríamos ver se tinham por aqui umas coisas para vender!
- E que coisas, meus senhores ?
- Uma charrua boa para lavrar, como nos disseram por aí!
- Não temos nada disso e podem ver à vossa vontade!
Com o anoitecer, a fome e o frio começaram a roer a roupa colada às costelas e o pescoço desconfiado de Jaquim Manel ia vendo cada vez menos o acampamento deixado há um bom naco de tempo.
Juliana vivia sozinha num casebre, desde que o marido tinha partido. Nessa noite, veio cá fora apanhar uma roupa esquecida no arame. Teve a impressão de ver mais duas sombras do que as que tinha estendido a secar, ao meio dia e um arrepio de sincelo percorreu-lhe a espinha até ao cabelo mais branco.
- Boa noite, minha senhora. Não se assuste connosco! Já vimos de muito longe, sempre a pé e gostaríamos que nos deixasse dormir por aí num canto. Pensávamos que os ciganos nos tinham roubado umas ferramentas, mas afinal os desgraçados não têm nada e nós nada temos!- disse Manel Jaquim a tiritar de frio, ao mesmo tempo que o nariz se ia reduzindo a uns pingos a quem o braço cortava a trajectória.
- Como me parecem ser boas pessoas, entrem cá e cheguem-se às brasas porque o frio ainda vos tempera de uma vez por todas! Também devem vir com fome?
- Se nos desse uma buchita para a barriga deixar de roncar!..
- Eu tenho ali um pedacito de peixe de molho...Se quiserem uma punheta de bacalhau...
- Ficamos muito agradecidos !
Os setenta e nove anos de Juliana limaram-lhe a maior parte dos dentes e deram aos dedos das mãos uma espécie de ferrugem, assim o bacalhau era desfiado com as mós e com as gengivas. Jaquim Manel ficou agoniado e desmontou uma desculpa para não comer o bacalhau. Ficou-se por um bocado de pão. A dona do casebre também lhes arrumou um enxergão de palha e uns cobertores, num canto da cozinha.
O pedaço de pão de Jaquim não durou para calar o estômago e por isso levantou-se durante a noite para fazer um rebusco completo. Não podia acender a candeia, por isso teve de contar só com a luz dos olhos. E foram estes que viram tremeluzir alguma coisa numa fresta da parede xistosa. Embicou para lá o nariz e engoliu um troço de toucinho semi-oculto por um rasgo de folha de couve. Serviu, ao menos, para calar o rato que parecia sair pela garganta.
De manhã, já a senhora os fazia levantar com uma canecada de café e ia perguntando se tinham passado bem a noite. A resposta foi a de um agradecimento enorme. Repararam então que, de repente, a senhora se sentiu um pouco entristecida.
- A senhora parece triste ? Não é por irmos embora ?!
- Não, não. É que eu já não tinha mais barbasco para pôr nas minhas almorródias e arranjei um pouco de toucinho que estava guardado ali na parede. Agora estou muito sentida com os senhores, porque ele desapareceu.
A agonia de Quim Manel parecia descolar-se de dentro das tripas e regar todo o caminho até casa.
Os arreios e a charrua nunca mais foram vistos e a carne de toucinho era interdita no prato de Jaquim.

Gala Crista


Os pós de Maio eram sempre um ataque aos olhos claros de Angélica. O remédio andava num bolso do avental, na carteira feita lenço da mão. Com um nó se guardavam as sementes de gala crista que eram a vassoura daquele olhar. Com outra ponta do lenço colavam-se as moedas que iriam comprar o pão.
Na véspera do dia de feira, a freima foi enorme em arranjar a carga para o burro. Toda aquela lenha das Quintas até Freixo seria mais uma bicada para alimentar o ninho. Porque o seu António herdara aquela doença, na primeira grande guerra, em África, era ela, agora, que mais lutava. E, pelo longo caminho até à vila, com as passadas de cor, fazia o rol das trocas que aquela carga lhe iria dar. Ia recordando os tempos em que o António, pelo trilho de Mazouco, contrabandeava com o outro lado do rio. A lenha, nessa altura, escondia a farinha espalmada no lombo do burro, não fosse o olho de algum guarda dilatar o tempo da fome.
Lá estava a Torre e a Matriz. Já faltava pouco para aliviar o animal daquele ganha-pão. O local de descarga foi mesmo ali ao lado de uma feirante que calcetava o chão com os barros cozidos. Angélica atou o burro e, depois de esfriar o bolso de moedas pelo despacho da mercadoria, foi dar uma espreitadela pela feira. Havia ali muita coisa que apeteceria levar para casa, mas o dinheiro pesava sempre menos que as gotas de suor. Comprazia-se, assim, em deixar que toda a feira lhe ferisse o azul do olhar.
Junto de uma banca com sacas, o cobre da lenha acabara por se desfazer em farinha. Desta forma, ficaria a semana preenchida com o pão.
De repente, a feira parecia estar entornada. Um remoinho de braços e berros alastravam à volta do burro. Ora nem mais! O animal acabara de fisgar uma parceira e resolvera pôr a conversa em dia. Afinal nem só aqueles que os levavam à rédea tinham na feira um dia de encontros, como de um Domingo se tratasse. Esticou a ânsia e levou pela frente púcaros, bilhas, alguidares e todo o resto da artilharia de barro que o impedia de chegar à aparição daquele pêlo. Foi o cabo dos trabalhos! Angélica nem queria acreditar, mas a dona dos barros não se ficou pelos berros. Queria tudo pago!
Aquilo que o burro desperdiçou em pão arregalava, agora, os olhitos das crianças. Nunca tinham visto tanto caco para brincar. A penúria dos mais velhos partiu-se em fartura para os mais novos.
Ao deitar, Angélica desfez um dos nós do lenço da mão e retirou duas sementes de gala crista. Colocou-as, depois, nos olhos, para que aquela poeira da má sorte fosse expulsa durante a noite e permitisse um dia seguinte mais azul.
AZEDA

O carro de praça já está à porta e ainda é preciso colher uma mão cheia de azedas para meter no tapar o ar de plástico. Os chouriços de ossos, os de mel e amêndoa há muito que estão enroupados dentro da mala. As alheiras para lá caminham, talvez a rechear um qualquer par de meias de lã de ovelha.
No aeroporto, dá-se algum aos funcionários já conhecidos para que estes extintores da saudade possam entrar numa casa portuguesa no Canadá. Durante o voo, Adelaida parece levar um novelo na garganta de tão preocupada com a separação dos bocados da terra que lá vão noutro local do avião, mas o sono chama-a por umas horas.
De repente, o estômago subiu-lhe aos lábios numa velocidade incontrolável e foi então que ficou a conhecer a utilidade daquele saquito que tinha no banco. A turbulência do avião transitou logo para uma preocupação angustiante. Se as alheiras tivessem saltado do aparelho? Seria um caso sério o embate de um enchido destes na cabeça de um possível presidente do país sobrevoado nessa altura. Não havendo qualquer indisposição diplomática, poderia o turismo rural agradecer a sua expansão internacional, caso o produto levasse consigo o certificado de qualidade e proveniência.
Calíbio! Tudo não passou de um susto. Segundo uma voz que rebentava do tecto do avião, tinha sido um poço de ar o responsável por toda aquela saraivada de solavancos e abanicos. Com esta explicação, a mulher segredava ao tecido do banco uma outra descoberta:
- Se há poços de ar que soltam o vento, também os deve haver de água que destapam a chuva...e, em tapando essa mina, muita enxurrada acabará lá em baixo!
Com estas considerações, o avião até se despachava mais, só para se livrar do passageiro que dialogava com o banco. Daqui a pouco estaria na posse dos comandos do aparelho...
Estava, finalmente, a chegar a viagem ao seu extremo. Não tinha graça nenhuma andar tanto tempo suspensa no ar! Por um postigo do avião já se via muita gente no aeroporto. De certeza absoluta que estavam à espera!
Depois do enorme pássaro já estar pousado há uma boa meia hora, aparece Adelaida, pintada de uma alegria azeda.
- Ó mãe, que é que lhe fizeram para demorar aí dentro tanto tempo?
- Oh! Valha-me Santo António! Vamos mas é imbora!...
Fez-se serão para arrumar as malas, pôr a conversa em dia sobre a terra e contar os segredos da viagem. No fim do relambório todo saiu o mais azedo:
- Quando ia buscar a trouxa, ouvi um aparelho a apitar. Disseram que era o detonador de metais e que a mala tinha qualquer coisa. Abriram-ma e desfizeram-me uma alheirinha toda. Era aquela mesma que tinha o focinho do reco caseiro, ainda com o arganel.
- Ó mãe, tem cada uma que nem duas!
As outras que não tinham estômago de lata escaparam ao detector, mas também não passaram desse dia, tal como as azedas que as acompanharam.
Afinal, o recheio de um bom produto é o próprio rótulo de qualidade.


in Contos de Rodapé, 2001

1 dia passado em Moncorvo

No dia 24 de Maio foi dia de - À Descoberta - no concelho de Torre de Moncorvo. A desculpa foi a sessão de Birdwatching, organizada pelo Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, mas, o meu passeio, começou antes e prolongou-se até ao final da tarde, quando os últimos raios de sol se infiltraram nas encostas da Vilariça.
Tinha esperança que o dia não trouxesse chuva, a fim de permitir a realização das actividades previstas. Ao início da manhã havia muitas nuvens, mas os raios de sol iluminavam a Junqueira que parece atraí-los. Encostada entre o vale e as fragas, parece atrair a luz que a torna visível mesmo de longas distâncias, como quando vou à aldeia abandonada do Gavião, em Vila Flor.
Não me demorei muito, às 10 horas estava a chegar ao Museu do Ferro onde iria decorrer o encontro ornitológico. Já se montava no pequeno jardim que existe nas costas do museu, uma rede para apanhar aves.

Para ser sincero, e apesar da ornitologia ser uma das minhas paixões desde sempre, não costumo frequentar encontros deste género. Às vezes é por dificuldade em conciliar interesses, outras vezes é porque exige despesas que não estou disposto a suportar. Para quem estiver interessado neste tipo de actividades, a Associação Aldeia, costuma organizar, na região, encontros sobre este tema.
A sessão foi orientada pelo Eng. Afonso Calheiros e Meneses. Com o apoio de uma apresentação electrónica mostrou as principais espécies de aves agrupando-as por habitats. O grupo de pessoas presentes, muito heterogéneo em idades, mostrou grande interesse e interveio sem grandes formalismos.
A localização do sala não podia ser melhor, porque, à medida que os slides iam passando, chegavam até nós os melodiosos cantos de estorninhos (Sturnus vulgaris) e de rouxinóis (Luscinia megarhynchos), que desafiavam em riqueza tónica e melódica todas as espécies de aves que povoam os quintais em redor de Moncorvo.
Seguiu-se depois uma amostra do material usado na anilhagem de aves, feita pelo sr. Joaquim Norberto dos Santos, que foi mesmo levada à prática, com a anilhagem de um chamariz ou milheiro (Serinus serinus), que entretanto ficou preso na rede colocada. Foi grande o entusiasmo nesse momento.
O almoço foi no restaurante O Lagar. Escolhi este restaurante porque é um ambiente familiar para mim, onde sempre gostei de comer e onde sou muito bem atendido. Acompanharam-me no almoço alguns familiares e amigos, de Moncorvo. Eu pedi entrecosto, que como neste restaurante há mais de uma década, e não me arrependi. Acabei por deixar esquecidas as batatas fritas e servi-me de arroz de feijão, da travessa destinada a outra pessoa. Adorei o almoço.
Para facilitar a digestão e enquanto não chegava a hora para o passeio pedestre pela Serra do Reboredo, fiz uma visita à igreja, acompanhando os meus familiares que nunca ali tinham estado.

Caiu uma boa bátega de água, mas não foi suficiente para demover os afoitos observadores de aves, que, sem medo, partiram serra acima. Com o Eng. Afonso na parte da flora e fauna, e o Dr. Nelson Rebanda na geologia e história, cedo se percebeu que não ia ser um simples passeio de observação de aves.
Não vou descrever em pormenor o que se passou, porque, em contacto com a natureza, todos os sentidos são estimulados. É difícil descrever os sons, as cores, os odores, a euforia ou a fadiga.
O percurso seguiu pelo limite inferior da Mata Nacional do Reboredo, passando pela capela da Senhora da Conceição em direcção à Quinta do Mendes. Cortámos à esquerda em direcção à Quinta Diogo Vaz e descemos depois à estrada N220 perto do convento, no Larinho. Apanhámos depois a Ecopista junto à Quinta da Água, de regresso a Torre de Moncorvo. Percorremos aproximadamente 8 quilómetros.

Já em Torre de Moncorvo, e depois do grupo se ter separado, aproveitei ainda para fazer algumas fotografias pela vila. A chuva que nos atormentou quase o dia todo, deu lugar a um céu com boas abertas de uma luz quente num céu azul.
De regresso a casa, ainda me senti tentado a uma rápida passagem na Foz do Sabor a admirar a calma das águas a invadirem o Rio Douro, num cenário magnífico.
Foi um dia em cheio: deslumbrantes paisagens; aves de rara beleza com cantos mais doces que os melões da Vilariça; uma almoço memorável; uma mistura de estações com oscilações constantes entre a Primavera e o Inverno; uma igreja omnipresente, de que de certeza voltaremos a falar. E, para temperar tudo isto, a companhia de amigos que partilham o mesmo gosto e respeito pela natureza quer sejam aves, plantas ou rios.

O mapa do percurso pedestre pode ser visto aqui.
Mais reportagem no Blog do PARM.

sábado, 24 de maio de 2008

X Encontro Internacional de Teatro, de Torre de Moncorvo


Vai realizar-se, entre 25 de Maio e 2 de Junho a X edição do Encontro Internacional de Teatro de Torre de Moncorvo como habitualmente uma realização conjunta da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo e Teatro em Movimento.

De salientar a importância do evento, que tem surgido ininterruptamente ao longo da última década.
Estarão como parceiros, nesta décima edição, o FITEI e A ANTA (Associação Nacional de Teatro Amador).
Para esta edição vai ser lançado um catálogo sobre os 10 anos de existência do Festival que conta, este ano com presenças portuguesas de Tomar, Amadora e Coimbra, além da própria companhia organizadora que apresentará três espectáculos em estreia, dois deles com elementos provenientes das duas acções de formação desenvolvidas ao longo do ano anterior.

A nível internacional teremos companhias de teatro da Austrália, Espanha (2) e Brasil. Paralelamente haverá recitais de poesia e a apresentação de Estado de Excepção o vídeo comemorativo dos 50 anos do Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC).

PROGRAMA:
Dia 25.05.2008 (Domingo):

16;00h - actuação do Grupo Folclórico do Agrupamento de Escolas de V. N. de Foz Côa, na Praça Francisco Meireles;
21;30h – O Senhor Ibrahim e as flores do Corão, realização de Produções Margarida F. Silva (Coimbra), no Celeiro;
23;00h – Recital de Poesia Teatro, por Leandro Vale, no Auditório do Museu do Ferro;

Dia 26.05.2008 (Segunda-feira):
21;30h – La fiesta del Anerno, por NMS (Alicante, Espanha), no Largo da Corredoura.

Dia 27.05.2008 (Terça-feira):
18;00h – A Debulha, por Teatro em Movimento (Leitura teatralizada do conto de Florêncio terra, integrada nos 150 anos do autor), no Celeiro;
21;30h – Anjos e Demónios, por Pandora (Brasil), no Celeiro;

Dia 28.05.2008 (Quarta-feira):
16;00h – Citac, (Coimbra) – Estado de Excepção (Vídeo) – Documento histórico dos 50 anos do Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, na Biblioteca Municipal;
21;30h – Nut Teatro, por Psicose (Galiza), no Celeiro;

Dia 29.05.2008 (Quinta-feira):
21;30h – Meridith Kitchen, por Disappeaning Acts (Austrália),

Dia 30.05.2008 (sexta-feira) – Dia Mundial da Criança
10;00h – Artonus, (Tomar), Danças com Mozart, na Escola Visconde Vila Maior;
21;30h – Artonus, (Tomar), O Jardim dos Sortilégios, no Largo da Corredoura;

Dia 31.05.2008 (Sábado):
21;30h – Passagem de Nível, por Fatos de fogo, no Celeiro;

Dia 01.06.2008 (Domingo):
21;30h – Uma Alma Gémea, por Teatro em Movimento, no Celeiro

Dia 02.06.2008 (segunda-feira):
21;30h – O Clown que não sabia fazer rir, por Teatro em Movimento, no Celeiro.

Aqui vem a janta

Primeiro, uma sopinha de legumes, feita à lareira (fogueira com toros de amendoeira e cascas de amêndoa tradicional), em pote de ferro.


Depois, umas moelinhas, também feitinhas à lareira, embaladas no pote de ferro.




Finalmente, este "brasume" lembrando que " Em Maio, comem-se as moelas ao borralho".

Bom apetite!

Sequeiros, Torre de Moncorvo

Não sei quando

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Em louvor do dr. Ramiro

Era apenas por dr. Ramiro que conhecíamos o dr. Ramiro Salgado. Era um modo de manifestarmos respeito, mas sobretudo afecto.
O meu irmão mais velho tinha sido um aluno do dr. Ramiro, um grande aluno, marrão e de altas notas. E um dia surgi eu qual ovelha ranhosa, rebelde, libertário, indisciplinado, em suma, mau aluno. Dizem as más línguas – que as há sempre em todo o lado e em grau maior – que eu tinha um razoável coeficiente de inteligência, mas tão desaproveitado! Não sei o que a vida veio provar, se o meu QI, se o seu desaproveitamento.
Mas o dr. Ramiro simpatizou comigo. Hoje fala-se muito em empatia, conceito que, na altura, só funcionava entre os iniciados ou nos que adormecem com Homero à cabeceira.
Quando entrei no Colégio Campos Monteiro éramos todos rústicos a que a vida concedeu ou condicionou, de bom ou mau grado, caminhos distintos.
O dr. Ramiro era um homem de afectos e respirava sensualidade. Estava-lhe na massa do sangue. Era um apreciador de mulheres.
Tinha eu então por colegas de turma o Simão do Larinho, um barra em Matemática, o António Grande de Felgueiras que já na altura tinha barba enquanto em nós a penugem penava em fortalecer, o Adérito Camelo, de Açoreira, discreto, silencioso, sorrateiro, olhar de caçador furtivo para fêmea passante, o Humberto Pires Dias ( e leia-se Pirés no seu sotaque ligarês) que punha gravata sempre que o dinheiro se lhe acabava, o Eduardo Reis, o Jorge Calijão, cunhado do sr. Braga, vindo de Macedo e que usava sempre dois pentes, um esmero de elegância, e tantos outros de que a memória se vai fatigando. Reincido: fui sempre um mau aluno. Acabei por ser expulso, para mágoa do dr. Ramiro, por um empurrão que dei ao dr. Sobrinho, então presidente da Câmara e professor de Português. Era um professor medíocre, por muito que isto custe dizer de alguém que já faleceu e de cujos filhos ( sobretudo do Zé) sou amigo. O dr. Sobrinho tinha por hábito esbofetear com o seu anel de curso de Filologia Românica, os alunos. Eu não permiti. Agredi-o com alguma violência, mas vivia na revolta, na procura e na inquietação interior, estados que nunca mais me abandonaram ao longo da vida, apaziguado que estou com os outros, mas em guerra constante comigo mesmo.
Moncorvo era então uma sociedade fechada, entre a pesporrência e o caciquismo. O café do Basílio era um espaço metafórico da “luta de classes”. No reservado, chamado a ONU, juntavam-se os que se consideravam senhores da terra e alguns serventuários que julgavam os eflúvios da ONU lhes concederiam um maior estatuto social.
Honra lhe seja feita, que o dr. Ramiro não respeitava nem frequentava estes conciliábulos de sabedoria galinácea. Na ONU jogava-se às cartas por vinho verde rasca.
No centro do café reunia-se a alma, a verdadeira alma de Moncorvo. Jogava-se dominó, bilhar e damas. Nas damas brilhava imbatível o Álvaro Reis, tendo como adversários temíveis o Álvaro Mateus e o Manuel Relojoeiro ( não lhe sei outro nome, mas na altura era a única expressão de convívio social que se lhe conhecia). No dominó brilhava o Chico do Porto, também um exímio bilharista, o Preto de Freixo de Espada à Cinta, o Abel da Venatória, o Renato. O tenente de Urros, viciado no dominó, mas com pouco jeito, era o bombo da festa. Chegava a perder grades de cerveja, enquanto os clientes desesperavam que os levasse para Urros.
Mas regressemos ao Colégio e ao dr. Ramiro.

Fazia parte do nosso imaginário – e ainda hoje não sei se há verdade ou lenda no episódio – o confronto entre o dr. Ramiro e o dr Sobrinho. No auge da discussão, o dr. Sobrinho terá gritado, na sua voz apiflautada: “Olhe que eu tenho nervos”. E então dr. Ramiro, erguendo-se, encostou-lhe a sólida barriga, levantou os braços, cerrou as mãos em punho e, com voz de gigante, clamou: “E eu tenho nervos e força”.
Nunca mais pude esquecer esta cena que, real ou hipotética, entrara no nosso caderno de lembranças, numa elevação do dr. Ramiro que era generalizada entre os alunos.
Por vezes, em pleno Inverno, obrigava-nos a levantar cedo (uma vez entrou mesmo no meu quarto e destapou-me) para uma sessão de ginástica, antes de começarem as aulas; por outras, acompanhado do César Espanhol, contínuo, ia-nos buscar ao Jardim onde ouvíamos música da juke box ( a malhadeira como nós lhe chamávamos na nossa ruralidade mal assumida) do Norberto Moreira, em vez de estarmos nas aulas.
Passou então pelo Colégio, a dra. Túlia, de Alfândega da Fé, professora de Inglês, com um ténue buço a sugerir mulher grega. A dra.Túlia também fazia parte dos nossos sonhos eróticos de adolescente. Tinha um olhar triste. Não sei se a vida lho cativou.
Vivíamos no rame-rame de uma sociedade fechada, sem comunicação, poucos sonhos, mas alguma solidariedade.
Quando o devaneio e a sedução passavam as marcas, ainda que fossem manifestações canhestras de que qualquer Casanova urbano se envergonharia, entrava o dr. Ramiro na sala de aulas e, entre o raspanete e uma certa compreensão e olhar cúmplice, perguntava, para não obter resposta: “Julgais que isto é alguma Ilha dos Amores?”

Um dia, eu decidi fugir à guerra colonial. O dr. Ramiro foi das poucas pessoas a quem o revelei. Não comentou. Apenas escreveu uma carta de recomendação para o seu colega de Faculdade no Porto, o professor Emídio Guerreiro, que estava exilado em França.
(Creio valer a pena abrir aqui um pequeno parêntesis, como um regato da memória paralelo à turbulência da narrativa. O professor Emídio Guerreiro foi preso pela polícia política ---creio que ainda então se chamava PVDE, no Aljube, donde fugiu de uma forma algo rocambolesca. Chegou a Espanha ( Galiza) no auge da Guerra Civil. Esteve para ser fuzilado pelas tropas franquistas. Com a ajuda do consulado inglês, ligado à Maçonaria, conseguiu chegar a Gibraltar, donde rumou para França. Entretanto, rebentara a guerra com a Alemanha. Entrou para a Resistência e no maquis chegou a capitão. Hélio se chamava. Conquistou a cidade de Montauban. Herói da Resistência francesa, ficou com a dupla nacionalidade, foi condecorado por De Gaulle e dava aulas de Matemática num liceu de Paris.
Entreguei-lhe a carta e fui encaminhado para um Centro de Refugiados Políticos. Mas isso é outra história que não vem para o caso. Já muito, mas muito mais tarde comecei a conviver com o prof. Emídio Guerreiro. Estive, em Guimarães, na celebração dos seus 105 anos. Morreria uns meses depois).

Ia, de Paris, escrevendo poemas sobre poemas, com nítidas influências do Paul Élaurd e de Aragon, bem como de Brecht cujos oito volumes de obra completa lera na Biblioteca de Montreuil, que enviava ao meu amigo Paulo Salgado. Ainda então não sabia que o sussurro é por vezes mais estridente que o grito. Poemas menores, datados, mas de aprendizagem.
Um dia regressei clandestino a Portugal. Contactei o Paulo que informou o pai. O dr. Ramiro disse para me irem buscar à Guarda. Foram o Ramiro e o Paulo. Creio que num mini do Ramiro, já não estou bem certo. Era o último dia do ano. Fui directamente para o Colégio Campos Monteiro. Onde celebramos o fim de ano. Fui dormir a casa e, ainda antes de amanhecer, parti numa carreira para seis meses de clandestinidade, repartidos pela Guarda, Tortosendo, Coimbra e Lisboa.

Contas de outro rosário. Regularizada a minha vida, não normalizada, que sempre fui renitente em relação a normas e normalização, um dia encontramo-nos eu e o dr. Ramiro, professores-colegas na Escola Secundária de Moncorvo. Senti-me muito mal. O dr. Ramiro estava triste, o fulgor que sempre vira nos seus olhos, feito de paixão e futuro, estava baço. Os amigos eram menos. Quase me lembrava o soneto de Camilo. Tomávamos quase todos os dias café ( eu creio que o dr. Ramiro, nescafé) no Martinho, quase em frente à igreja. E um dia propôs-me como mote “ o rio que transborda as margens”, com umas ressonâncias brechetianas que não me eram estranhas. Glosei o mote e entreguei-lhe o poema. Não sei se ele ainda existe.
Um ano depois de ele morrer, já eu padecia das desumanidades de Lisboa, a família pediu-me que lhe fizesse o elogio fúnebre numa romagem ao cemitério do Larinho. Amigos não havia muitos. Mas eu estava lá. Não fiquei com o texto que entreguei à família, não sei se ao Paulo se ao Ramiro.
Eu sei que “recompensa mal o Mestre quem se contenta em ser discípulo” ( F. Nietszche). Mas o dr. Ramiro que me perdoe porque ainda não consegui recompensá-lo.

RR

Varandas II

Varandas, na Rua Manuel Seixas, Torre de Moncorvo.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Morreu o Manel DJ

Não resisti a publicar este texto, que já saiu na altura da morte deste meu amigo no Jornal de Notícias ( edição de Lisboa,na rubrica Passeio Público), como uma homenagem a muitas das figuras de Moncorvo que vão desaparecendo. O texto é conhecido de algumas pessoas, mas gostaria que fosse conhecido por muitas mais, em nome do Manel que foi um homem notável. Gostaria também que para esta galeria de ausentes escrevessem outras pessoas. Por exemplo o Gil do Peredo merecia bem uma prosa e um lamento. Aqui fica a sugestão ou o desafio se quiserem.

Morreu o Manel

Mal cheguei à terra, o olhar cheio de urzes e estevas floridas, de maias e giestas pujantes e flocos de sabugueiro, a primeira notícia que me deram soou a raios, trovões e águas turvas na memória: "Sabes?, o Manel morreu".
Não ouvi o dobrar dos sinos do alto da torre por este meu amigo, um quasimodo franzino, com um curto respirar de pássaro.
"De que morreu?"
A resposta é vaga, não sabem por inteiro.
"Talvez dos pulmões". O corpo deformado, a corcunda, iam-no asfixiando aos bocadinhos. É o que se diz sem nenhum rigor científico, apenas com alguma fatalidade poética.
Há muitos anos entrei, já a noite ia longa, num bar, o primeiro que abrira na terra. Chamava-se o Noitibó.
A um canto, numa espécie de aquário de vidro, um dj frágil, como um peixe triste, ia servindo música. Com o seu olhar, como que entendia as necessidades de momento de cada cliente. Era sábio na sua administração.
Conheci então o Manel.
Nas noites seguintes quando o bar fechava e no cheiro intenso a fumo flutuava uma suave melancolia, eu, o patrão e o Manel tomávamos a última bebida.
Num gesto de ternura escondida, colocava o último lp, expressamente para mim, da Maria Bethânia a cantar, num álbum de parceria com Caetano Veloso, o "Leãozinho", o "Meu primeiro amor" e o "Adeus, meu tempo de chorar".
Saíamos para a madrugada, havia silêncio na rua íngreme, da Cal se chama, e só muito ao longe se ouvia o ladrar de algum cão.
Era um tempo sereno e medido.
O Manel não conheceu a paixão e eram ignorados os seus subterrâneos de afecto.
Mas um sonho houve que o acompanhou durante longos anos: cursar engenharia.
Depois de muitas e inúmeras noites de dj num aquário de sons, num bar de rua estreita, conseguiu matricular-se em engenharia.
Terminava este ano o curso.
Faltavam poucos meses para realizar o sonho, o único que tinha de seu, além da casa herdada dos pais.
Era a família que lhe custeava os estudos.
Só agora soube que o Manel, o meu amigo quasimodo franzino, se chamava Manuel Mota e já tinha 43 anos.
Nunca o vi sem gravata e duas mangas. Receava o vento e algum resfriado.
O funeral passou ao lado do jardim. Mas no jardim já não havia amoras negras.
Ontem à noite regressei ao Noitibó. O aquário já desapareceu. Estava o patrão, completamente sozinho. A um canto do balcão, velhos lp's amontoados. Comecei a procurar a Maria Bethânia. O patrão pôs o álbum no gira-discos e serviu três bebidas, para nós e para o ausente.
A lágrima furtiva não se percebeu na penumbra do bar.
Porra, o Manel morreu.

Rogério Rodrigues.

domingo, 18 de maio de 2008

18 de Maio - Dia Mundial dos Museus

Hoje, dia 18 de Maio, é o Dia Mundial dos Museus. Aproveite para fazer uma visita ao Museu do Ferro & da Região de Moncorvo.
Inauguração de exposição sobre "Trabalhos do Museu, 2002-2008" (às 15 horas).
Neste dia a entrada é gratuita.

Sentinelas


Sentinelas que me olhais
Do alto dessa igreja
Revestidas de silêncios
- De que crimes me acusais?
Há séculos que aqui estais,
E eu ainda agora cheguei!
Já vos olhei ao sol pôr,
Recortei-vos contra o céu,
Com o ouro me ceguei.
Não sei ...
Será que é olhar de amor
E a sentinela sou eu?

sábado, 17 de maio de 2008

a alma da terra


"Torre de Moncorvo onde o ferro é a alma da terra"... mas o granito também brilha.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Campos Monteiro

Desculpem a insistência no Campos Monteiro, mas com este pequeno texto, de aditamento, relativo à homenagem que lhe foi prestada em Moncorvo, parece-me que dou mais alguns elementos pouco conhecidos para quem um dia queira fazer algum trabalho sobre este escritor transmontano.
Rogério Rodrigues


Notícia do Primeiro de Janeiro

Moncorvo homenageia Campos Monteiro

Dez anos após a sua morte, em 1943, Carlos de Passos, amigo de Campos Monteiro prepara e edita uma “Homenagem a Campos Monteiro. Miscelânea de estudos em honra do escritor e do cidadão--1876-1933”. O livro com uma tiragem apenas de 500 exemplares é editado pela Livraria Tavares Martins, Porto, 1943.
Além de vários depoimentos, constantes do livro, na generalidade de escritores e jornalistas de direita e extrema-direita, homens do Estado Novo e monárquicos, o in memoriam trás a notícia do Primeiro de Janeiro dando conta da homenagem que lhe foi prestada em Moncorvo, a 21 de Janeiro de 1934, um mês e meio, sensivelmente, após a sua morte em S. Mamede de Infesta.
Pelo seu interesse, aqui a publicamos na íntegra, com a devida actualização ortográfica:

“MONCORVO, 22 - Na sala de Leitura do Dr. Campos Monteiro, do Club Recreativo Moncorvense, efectuou-se ontem uma sessão solene de homenagem à memória daquele grande escritor, sendo nesse acto descerrada a fotografia daquele conterrâneo ilustre. Assistência numerosa, onde se encontravam as individualidades de maior categoria social desta vila.
Presidiu à sessão o sr. Dr. José de Abreu, digno notário desta comarca e presidente da assembleia geral, secretariado pelos srs. Julião Serra e Alfredo de Sousa, membros da direcção do mesmo Club.
O sr. Presidente abriu a sessão e no seu discurso, que foi cheio de frases eloquentes, focou com brilho admirável a grande figura que foi Campos Monteiro.
Falou em seguida o representante da Direcção Sr. Julião Serra que em palavras singelas pôs em relevo algumas da obras do grande mestre.
Fala depois um novo que promete --o Sr. Telmo da Fonseca --, que num discurso brilhante, cheio de beleza e frases arrebatadoras, enaltece o grande valor moral e intelectual de Campos Monteiro, pedindo no final um minuto de silêncio como homenagem à memória daquela figura que tanto enriqueceu as letras pátrias.
Fala a seguir o Snr. Alcino Alves, digno Inspector da Companhia de Ferro, que num esplêndido discurso pôs em relevo o poeta ilustre que foi Campos Monteiro, além de prosador incomparável e médico distinto.
O retrato, obra admirável da Fotografia Medina, dessa cidade, estava coberto com a bandeira da Municipalidade de Moncorvo, sendo descoberto pela interessante filhinha do membro da Direcção, Sr. Adriano Fernandes e sobrinha do homenageado, Maria Adelaide da Silva Fernandes.
Na biblioteca, em princípio, há 400 volumes, encontrando-se ali representados os maiores escritores, tanto nacionais como estrangeiros, a qual vai ser enriquecida brevemente, com a obra do saudoso morto.
Campos Monteiro que tanto amava a terra em que nasceu, merece uma homenagem mais alta e grandiosa. O nome numa rua, é pouco. Uma lápide na casa onde soltou os primeiros vagidos ainda não é o bastante.
Campos Monteiro, essa distinta figura da literatura portuguesa, merece uma homenagem maior, muito maior, e que mostre às gerações vindouras esse grande vulto que enriqueceu as letras pátrias, foi o orgulho da terra que lhe serviu de berço.
Nota -- Essa homenagem maior está em vias de realização, pois brevemente na sua terra natal se inaugurará o justo monumento comemorativo da nobre figura intelectual que foi o Dr. Campos Monteiro. A iniciativa e a realização do mesmo devem-se a uma comissão de bairristas, formada pelos Exmos Srs: Engenheiro Guilherme de Castro Leandro, Dr. António Joaquim Marrana, Alferes António Augusto Serra, Amadeu Ferreira d’Andrade, Claudino d’Oliveira Pereira e António José Martins”.

Era esta a notícia do “Primeiro de Janeiro”, provavelmente de um correspondente local. Em 1939, da autoria de Sousa Caldas, foi erguida a escultura de Campos Monteiro frente à Câmara Municipal.

o ferro... e a alma


Digitalis purpurea

A abelhinha da ASAE, a ver se o mel é puro.

Açoreira, Torre de Moncorvo.

Cravo-romano


Cravo-romano (Armeria pseudarmeria), fotografado junto ao rio Sabor.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Zoom à Teixeira





Frescos no exterior.
Capela da Nª Sª da Teixeira , Sequeiros
Torre de Moncorvo, Março de 2005.

Peredo dos Castelhanos (1)

Quando tropeçamos nas pedras do tempo nem sempre nos magoamos. A entrada de Moncorvo, vindo das Aveleiras, com o cavaleiro, em ladrilhos, a anunciar o nitrato do Chile, quase sempre me remete para a minha infância e para a casa dos meus avós na aldeia, casa que hoje não existe, demolida e transformada em mais uma nova e atípica casa de emigrantes. Era térrea e dela via as eiras onde, descalços, jogávamos a bola, entre cardos secos e algumas agudas pedras, enquanto a “trilhadeira” e os “rolheiros” de trigo não ocupavam aquele nosso espaço privilegiado da infância. Perto, havia o tronco, onde o velho Marcelino de Urros, alto, esguio, de preto vestido, mas muito dado aos copos valhó Deus, ferrava as bestas e os homens jogavam ao ferro, com um caldeiro de água fria ao lado. Eram conceituados os de Maçores neste jogo, de força e rigor. Os homens jogam também à raiola com patacos pesados e já cobertos da patina do tempo. E em Setembro ripava-se o olmo para a vianda do porco. O chilrear dos pássaros irritava o silêncio pacato e quente do crepúsculo. Éramos porventura felizes? Porventura sim porque os nossos desejos e necessidades eram muito limitados. A minha avó fazia-me a marrafa em cabelo crespo e rebelde. Tínhamos a mão afoita à pedra e sabíamos onde se escondiam os ovos das perdizes. O Ângelo Chocalho guardava, com desvelo sem fim, o pinheiro manso junto à Nossa Senhora da Glória, não fosse a canalha roubar os pinhões do patrão. O ti Ifigénio, um santo homem, levava-nos com ele a guardar as ovelhas. Mas vistos hoje os dias à distância de meio século, a miséria era muita. Corrijo, não digo miséria. Prefiro antes pobreza.

Pedro Castelhano

(Em breve os próximos capítulos)

Afonso Praça

Gostaria de escrever mais alguns textos (alguns deles já escritos, passe a redundância) sobre o Afonso Praça, ou seja, escrever sobre alguém que teve um amor sem fim por Trás-os-Montes

Carta ao Afonso Praça
Caro Afonso Emílio:
escrevo-te depois de uma longa ausência, que cada vez será mais longa a ponto de se considerar interminável. Não me tens telefonado e não te tenho telefonado porque, se porventura te encontrares em algum lado, será num lado onde não há telefones. E agora vamos às notícias: amigos teus deixaram um rasto de saudade e ternura pelos jornais, espalharam a cinza das suas lágrimas por muitas palavras que resistiram à pressão do efémero. Tenho seguido com atenção este caminho de reconhecimento e afecto. E nas suas palavras renasces, retirada a escória profana. E surges como sempre te conheci: sem inimigos declarados, incapaz de levantar a voz, não sujeito aos pecados da cólera e da inveja, bem mais tolerante em relação à gula e à luxúria.E há quem lembre os teus sofrimentos no seminário e na tropa. Mas registam com alguma surpresa que sempre mantiveste relações privilegiadas com gente da Igreja católica e da instituição militar.Com algum sentido de humor, a tua sogra disse um dia: “Imaginem com quem as minhas filhas haviam de casar—com um Praça (Afonso) e um Tropa (Alfredo)”. Conheci-te mal acabaras de sair do seminário e eras falado por todo o distrito de Bragança como o jovem que dominava o Latim qual Cícero e o Português como um padre António Vieira.Era eu então um imberbe adolescente e mal imaginávamos que mais tarde, durante anos e anos, viveríamos juntos tantas horas e tantas noites.De quando em quando atacava-nos a melancolia. A tua, mais suave e disfarçada; a minha, mais crua e descarnada.Jantávamos e almoçávamos na Casa Transmontana, às Escadinhas do Duque. Mandávamos vir as alheiras de Moncorvo e tínhamos convencido a Teresa a ter também a ementa em mirandês. Por vezes cansada, deixava-nos a chave e ficávamos até de madrugada a esmoer histórias, numa prolongada digestão de afectos, com alguma crítica, pouca, de permeio. Sabes? a Teresa está mal, vive com o Chico em Álvaro, uma aldeia da Beira Baixa, tem uma casa toda em granito, há muito abandonou o restaurante e a cidade, mas a Teresa está mal. Telefonou-me há dias e chorava de tanta solidão e doença.E que saudades tínhamos nas longas noites do Snob e outros ínvios bares, esconsos, de africanidade –tu sempre tiveste uma sedução particular pelas mulatas – do nosso Trás-os-Montes que nos foi tão padrasto, mas que amámos tanto.Tu ainda conseguiste arrumar as contas. Vendeste a casa no Felgar e fomos buscar a tua mãe a Poiares, para vir morrer junto de ti. Depois, compraste uma casa na Alentejo, na Igrejinha. Tu sempre foste o transmontano mais alentejano que conheci, até no modo como cortavas o pão, tasquinhavas o queijo e o presunto e contavas histórias, no ondular lento e melodioso da palavra, com o acento transmontano que nunca perdeste. Que o diga o Manuel da Fonseca, o teu dilecto parceiro de fins de tarde, nos tempos do República.Mesmo a cidade está muito diferente, Afonso, desde que os teus amigos não conseguiram impedir que tu partisses. Mas nós fizemos-te algum mal para partires assim? A cidade, Lisboa que tu amavas tanto, fez-te algum mal? O teu Campo Grande que tu olhavas olhando os montes e as pedras bem mais longe mas tão perto, o próprio Campo Grande já deu pela tua falta. Já nem sei como está a Feira Popular, nem sei se o restaurante Mirandela ainda existe. Fomos lá uma vez, a primeira em que a médica te obrigou a fazer dieta, porque a pele da tua cara, parecia um tambor. Sentamo-nos. Era a tua última refeição antes de entrares em dieta. “Não achas que se deixar de ser gordo, perco a graça toda?” Confessaste-me já nos últimos dias antes da partida que estavas a preparar um conjunto de cartas românticas para mulheres sós. Escritas em linguagem adaptável à condição social e cultural de cada mulher imaginada. Estou a ver o teu apego à ternura, o teu passar de mãe gorducha e lenta pelos cabelos cansados das mulheres sós.Tinhas tanta capacidade e necessidade de pensar nos outros que às vezes te esquecias de ti próprio. Vai longa a carta. Não quero que canses a vista. O teu coração está forte, como sempre. E mordo-to. Prometo-te que na próxima feira irei comprar uma corneta de barro. Se ainda houver oleiro na tua aldeia que faça cornetas de barro. Eu também quero ser o rapaz da corneta de barro. Um abraço do Rogério.

*Este texto foi publicado num opúsculo da responsabilidade da Câmara Municipal de Lisboa, em edição do Museu da República e Resistência, em homenagem a Afonso Praça.

Mon-COR-vo


Torre de Moncorvo, Rua das Flores.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

do outro lado do tempo

Até quando esta porta de Mós estará voltada para nós.
Esta(Mós) à espera!

Mós , Torre de Moncorvo

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