domingo, 26 de outubro de 2008
Partidela de amêndoa

Serve esta fotografia de 1974, enviada por Liónidas de la Torre para recordar que no próximo Sábado, 15;30 horas, vai ter lugar 5ª Partidela Tradicional de Amêndoa no Museu do Ferro & da Região de Moncorvo. Há música, animação ... e amêndoas. Espero que também não falte um repórter, para nos "contar" o que se vai passar.
A fotografia é espantosa e espreita a beleza de um tempo. Daquele tempo.
Em 1975 , no ano seguinte, também eu fui a várias "sessões" da partidela de amêndoa. Metia-me em tudo, acabada de chegar de África queria experimentar coisas diferentes da terra fria. Aliás, na altura, aquele ritual divertia-me, parecia que estava a brincar. "Acertar" a cadência das marteladas com a dos Pais Nossos e Ave Marias do terço que simultaneamente se rezava, era um "jogo" divertido. Por vezes, desacertava, batia com o ferrinho ao lado e magoava um dedo mas isso fazia-me rir pois ponha-o na boca para arrefecer como os cowboys a pistola nos filmes do Faroeste.
Também andei à amêndoa e senti a "liberdade" cabrita de andar pelos montes. E os meus pais em Moçambique ainda…
Eu contava-lhes estas histórias por carta , muito contente, e eles ficavam muito "aflitos", pois que diriam na terra "a filha do Óscar e da Bernardete a andar à amêndoa…, devem estar a precisar, coitados!...". Não era assim e eu também não queria saber da jeira . Queria "brincar" e "fingir" que era "uma mulher do campo". Tinha 15 anos e, quem sabe, o fascínio das máscaras ...
Hoje, posso concluir que as memórias também se fazem de fios de água. Coisa pouca, mas estes têm um cheiro de raiz transmontana à sua passagem.
M. Aleixo
Fonte da Lamela/Fontela?
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
Recordações da amêndoa
Recordo-me perfeitamente do tempo e em que circunstâncias foi tirada esta fotografia.
Um dia, tinha eu publicado um livro de poemas, o Fernando Assis Pacheco quis-me conhecer. Era jornalista na República com banca ao lado do Afonso Praça. E o Praça disse-lhe que eu estava colocado como professor em Moncorvo. E aí vem o Assis, durante uma semana, a fazer seis ou sete reportagens sobre Moncorvo para o República. Ainda hoje são o grande retrato de Moncorvo, três ou quatro meses antes do 25 de Abril. Estávamos em Fevereiro de 74. Vem com ele, como fotógrafo e guia na geografia física e humana de Moncorvo, o Leonel Brito que tem mais de 50 fotografias da vila e de aldeias naquela época. São dois retratos notáveis de Moncorvo e dalgumas das suas aldeias. Esta fotografia trás-me à memória muita história ligada à amêndoa. Reconheci de imediato pelo menos duas pessoas, ainda vivas. A pessoa do meio suspeito quem seja, mas não tenho a certeza.
A amêndoa era o ouro do Peredo dos Castelhanos. Só se começava o varejar em 15 de Agosto, com a presença da GNR. Ficava depois, para os pobres, muitos pobres, o "rebusco". Os estudantes, e havia muito estudante na aldeia, roubavam alguns quilos de amêndoa já em grão que vendiam ao Tenente de Urros ou ao Basílio. Durante um mês ou dois, no Porto ou em Foz Côa onde havia uma grande comunidade de peredanos, viviam à grande e à francesa.
A reportagem de que esta fotografia faz parte modificou a minha vida. Fui convidado pelo Assis (mais tarde meu compadre) para ingressar nos jornais. Deixei uma paixão e adquiri um vício. É pena, mas aconteceu. Como diria o beato Gugu (Guterres): - É a vida...
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
fonte no Carvalhal
No Carvalhal, freguesia do Felgar, não há só muitos carvalhos, aprecio com apetite o pão, a bola de azeite, às vezes alguns económicos, mas nunca passo no Carvalhal sem encher alguns garrafões de água nesta antiga fonte que está na fotografia. As barragens abundam por todo o vale da Vilariça, só a qualidade da água é cada vez pior. Porque será?
domingo, 19 de outubro de 2008
Cardoso Pires em Moncorvo
Esclarecidos os equívocos, em que não há inocentes, mas também não há culpados, por isso mesmo se chamam equívocos, regresso ao blogue com memórias de José Cardoso Pires sobre cuja morte já passaram 10 anos (exactamente em 26 de Outubro).
Às vezes diz-se: celebram-se 10 anos sobre a morte. Como se lembrar a morte fosse motivo de celebração.
Há anos, já não me recordo do ano, o presidente da Câmara, Aires Ferreira, pediu-me se conseguia algum escritor que pudesse vir a Moncorvo falar do 25 de Abril
Lembrei-me de José Cardoso Pires, então o nosso mais nobelizável (não fosse a força espanhola, via Pilar, a apostar em Saramago), por quem um mantive até à sua morte, uma profunda, muito profunda amizade. Creio que este sentimento era recíproco. Tenho provas para tal.
O José Cardoso Pires já tinha um compromisso para uma conferência na Alemanha. Cancelou o compromisso para vir a Moncorvo. Um carro da Câmara foi buscá-lo a Lisboa, e à Edite, a sua mulher. Eu vim no meu próprio carro.
A conferência numa parte, a menor, do Cine-Teatro, foi no hall que dá para o primeiro balcão. Cardoso Pires falou sobre a Censura, antes e depois do 25 de Abril. Na assistência, escassíssima, estava um informador da Pide. Só mais tarde lho disse porque temia a sua reacção se o soubesse no decorrer da conferência. Nem hoje direi o nome. Paz ou guerra à sua alma que a misericórdia também tem limites.
Acabámos a noite no Noitibó (o primeiro bar-discoteca que houve em Moncorvo), que então era do Miranda e tinha o Aires como empregado. O Aires colocou uma Martin's de 20 anos (o tal Martins judeu de Trancoso que fugiu para a pérfida Albion) no balcão e estava proibido pelo Miranda de permitir que o copo do escritor estivesse vazio.
Mais tarde o Cardoso Pires perguntar-me-ia se o Miranda não se importava que um dia fosse personagem de uma ficção sua.
Já regressou muito tarde à Residencial Passarinho. A Edite já dormia. Eis senão quando se ouvem uma guitarradas. Tinha começado uma serenata ao Cardoso Pires. À viola (e disse guitarradas porque violadas na noite poderia ter outra leitura), o engenheiro Sendas (já falecido) e nos trinados, em voz aguda, o Artur Paiva, bancário, e o comandante da GNR, natural de Parada e cujo nome, de momento, esqueci. Para ele estava proibido o balão.
O Cardoso Pires veio à janela agradecer e a Edite já não conseguiu dormir até de manhã.
Várias vezes o Cardoso Pires contava este episódio. Dia 26, vai ser homenageado, com a presença do Presidente da República, em Vila de Rei, o concelho da sua aldeia, o Peso.
Um dos maiores romancistas do último século veio a Moncorvo e pouca gente notou. L'air du temps. Ai! se fosse o Tony Carreira...
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
sábado, 11 de outubro de 2008
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Isto de viver em Lisboa
Andando eu com o Leonel Brito (encontrámo-nos de propósito há dias em Lisboa) à procura de darmos algo ( gratuitamente, é bom que se sublinhe) a Moncorvo, nas correspondências a que vou tendo acesso acabo por perceber que chego a Moncorvo e regresso a Lisboa e esqueço-me de Moncorvo. É uma ideia e eu tolero sempre a ideia dos outros. Por outro lado, registo, sem qualquer juízo de valor, que, de quando em quando, "escrevo uma coisas". Não é opinião que me incomode, mas é opinião que registo. Poderia, não fosse parecer-me inútil, enunciar algumas coisas que fiz e tenho feito (graciosamente, insisto) por Moncorvo e pela sua imagem. Mas não vale a pena. Não devo nada a Moncorvo, insisto, nem um favor, nem uma cunha, nem uma benesse. Mas também Moncorvo não me deve nada. Neste capítulo estamos, pois, quites. Como dezenas e dezenas de moncorvenses vivo fora da vila. Ninguém se interroga pelo que os outros têm feito pela memória de Moncorvo. Passarão por lá uma semana de férias, mais como detentores de uma nostalgia revivalista do que numa perspectiva de presente ou num olhar de futuro. São mais cómodos e são mais pacíficos. O Moncorvo deles é o Moncorvo que eu quero que não seja. Estamos com um projecto, o Leonel e eu, de que não queremos nem um euro. Vale a pena? Temos as nossas vidas e damos semanas das nossas vidas ( graciosamente, insisto) à memória de Moncorvo. Valerá pena? Eu sei que santos da terra não fazem milagres. Mas eu não sou santo, nem sequer acredito em milagres. Não sou sombra de ninguém e também não sou luz. Gostaria, isso sim, de dar a Moncorvo, o que Moncorvo não me deu, eu que "escrevo uma coisas" e (não) me esqueço de Moncorvo. Peço desculpa por usar esta blogue para uma reflexão que a única pessoa que pode ferir é a mim mesmo. Necessito de dizer aos meus companheiros de blogue que é esta a última intervenção a que vos obrigo. Isto de escrever uma coisas não cabe na dimensão literária, ética e estética deste blogue.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Rua de Mós

Bonita rua de Mós, onde as casas recuperadas convivem harmoniosamente com as mais antigas.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
É vinho

A sair do lagar para o pio. Ainda não é vinho, já não é sumo, é uma promessa.
Dia 2, no Larinho.
sábado, 4 de outubro de 2008
Panorâmica do Larinho

Na minha primeira visita ao Larinho fui positivamente surpreendido. Em primeiro lugar pela simpatia das pessoas, que me mostraram recantos da sua aldeia com muito carinho e entusiasmo. Depois porque estava à espera de uma pequena aldeia, cinzenta, deserta e encontrei uma aldeia com espaços amplos, com muitos motivos de interesse e ainda muito povoada.
Tenho pena de não ter conseguido encontrar a ponte romana, mas esta é uma boa "desculpa" para voltar ao Larinho, para captar outros pormenores que me escaparam nesta primeira visita.
A fotografia de hoje é a "colagem" de quatro fotografias, tiradas de junto da capela de Santa Bárbara.
(nota: estou com dificuldades em arranjar um site onde alojar imagens maiores do que o normal; O Blogger apenas aceita imagens até 1600 pixels. Se alguém tem conhecimento de algo melhor, agradeço a informação. O Panoramio, sítio que usei até hoje, deixou de permitir colocar as imagens, aqui, no Blogue).
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
No reino de Baco
Uma visita ao Larinho, levou-me a presenciar algumas fases do tratamento do vinho, num lagar tradicional. Grande parte das uvas do concelho já estão vindimadas, mas no Vale da Vilariça, a colheita continua.
A quantidade de uvas é boa e o tempo seco que se tem feito sentir talvez ajude a qualidade dos vinhos. Ficamos a aguardar...
terça-feira, 30 de setembro de 2008
a fraga do arco - Maçores
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Gente do Norte
Em 1977, com apoio da Gulbenkian, o Leonel Brito na realização e eu, no argumento, realizámos um documentário sobre Moncorvo, intitulado Gente do Norte. Além do Prémio da Crítica Internacional do Festival da Figueira da Foz, o filme correu mundo, foi passado na televisão e ganhou vários prémios. Do filme existe ainda uma cópia em bom estado que nós vamos recuperar para um projecto que ainda está no segredo dos deuses. Mais tarde contaremos o que está acontecendo. O projecto, com uma grande, grande probabilidade, envolverá o nosso amigo Nélson. Mas ainda é cedo para falar nisso. Deixo-vos de qualquer modo a letra da canção do filme, escrita, musicada e cantada por José Mário Branco, editada então num single, hoje raríssimo. Ando a ver se o consigo passar do vinil para o CD. Tenho esperanças. De qualquer modo aqui vos deixo já a letra:
Moncorvo terra e gente
pobre-rica, rica-pobre
nobre serva, serva nobre
entre passado e presente
entre presente e ausente
Foi das pedras
foi das pedras e das águas
do calor, do rosmaninho,
foi da torga, foi das fráguas
que nasceu
este império pequenino
Foi do sol
foi do sul e foi do gelo
foi do sonho e da roda
do Picôto e do Covêlo
que nasceu
este império à nossa moda
Moncorvo torre e gente
pobre-rica, rica-pobre
nobre serva serva nobre
entre passado e presente
entre presente e ausente
Foi do calo
foi da pedra descoberta
da terra desempedrada
que nasceu
esta mina já deserta
Foi do roxo
foi do arrojo e do Douro
do tesouro de caliça
foi do velho e do vindouro
que nasceu
o sangue da Vilariça.
José Mário Branco fez-se acompanhar pelos músicos José Pratas, Luís Pedro Faro e Carlos Guerreiro.
Gostaria em tempos próximos de oferecer um CD desta canção ao Nelson que pode publicá-lo no nosso blogue.
Estamos a recuperar também, eu e o Leonel, alguns filmes para a televisão que fizemos, com texto meu, como "Estevais, Ano Zero", a "Encomendação das Almas", com intervenção filmada (o que é raro) do padre Rebelo, "Artes e Ofícios", com uma tecedeira do Felgar que era a mãe do Afonso Praça e ainda um filme que deu polémica e debates na televisão sobre "Guerra Junqueiro".
Há tempos que não escrevia para este blogue, mas está-me a parecer que a preguiça, sendo um fenómeno nacional, também nos atacou a todos. Um abraço deste exílio citadino.
Armando Martins Janeira - actividades a não perder !



Vejam também o site dedicado a este ilustre Moncorvense, que foi embaixador de Portugal no Japão e insigne japonólogo, em:
http://armandomartinsjaneira.net/
terça-feira, 23 de setembro de 2008
terça-feira, 16 de setembro de 2008
sábado, 13 de setembro de 2008
P’ra lá do portão

P’ra lá do portão,
Onde o tempo se apaga,
E a luz se acende,
O espírito ascende.
Sobe a montanha,
Que o sol afaga,
P’ra lá do portão.
Porta da vida,
Entrada, saída,
Por lanças guardada.
Ponto de encontro,
Do tudo, e do nada.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
sexta-feira, 5 de setembro de 2008
Adeganha

Mesmo sem as técnicas de construção actuais, mantêm-se em pé e operacionais.
Adeganha, 7 de Junho de 2008.
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Receita Tradicional - Batatas à Espanhola ou à Bispo
Colocar a panela ao lume (preferência ao lume a lenha)com água, desfiar o bacalhau e lava-se, colocar às camadas as batatas e o bacalhau, após tudo cozido escorrer bem a água, numa frigideira deitar cebola, azeite bastante, pimento e alho, misturar tudo num pote, tapar um bocadinho. Esperar 5 minutos, está pronto a comer, no caso de não pretender colocar o bacalhau e as batatas às camadas, também se podem misturar.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Receita Tradicional - Tripas
Preparam-se as tripas e os pés do cordeiro, cozem-se com louro, salsa e sal, cortam-se aos bocadinhos, colocar num recipiente com azeite, louro, salsa e vinagre, unto ou pingo. Tudo isto é refogado. Após o refogado deita-se um bocadinho de água e pimento, migam-se e deitam-se as sopas, com dois ou três ovos batidos, servir tudo numa travessa. ( Prato usado durante a época das matanças).
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Vale da Vilariça

Entre a Foz do Sabor e as Cabanas de Cima, olhei em direcção à Quinta da Portela. O cenário parecia uma pintura a óleo.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Afonso Praça homenageado
A vasculhar papéis, descobri a mensagem que o Afonso Praça enviou quando foi homenageado pela Câmara Municipal de Moncorvo, no âmbito do 7º centenário da vila. Coube-me a mim ler a mensagem do Afonso, já que ele ,or motivos profissionais, ão pode vir a Moncorvo. A cerimónia decorreu no Cine-teatro. Pela importância e significado do texto que nunca foi publicado e apenas uma vez, por mim, lido, aqui o deixo a todos os frequentadores do blog. O texto é uma imagem quase perfeita daquilo que era o Afonso Praça. É um texto, na minha opinião, particularmente valioso, para a memória do concelho de Moncorvo. Então aqui vai:
"Decidiu a Câmara Municipal de Moncorvo celebrar o 7º centenário da Vila, aproveitando a oportunidade para, segundo palavras do presidente do município, prestar "homenagem pública a alguns 'filhos da terra' que, de algum modo, se tenham superiorizado nalgum ramo de actividade"
Mentiria se não dissesse que fiquei surpreendido ao ver que o meu nome fora incluído na lista dos alvos da referida homenagem pública, mas seria falsa modéstia escusar-me à distinção. Sem curar de saber quais os critérios que presidiram à elaboração da lista, na qual o meu nome é incluído, terei de afirmar, no entanto, que muito me sensibilizou tal decisão e por dois motivos:primeiro , porque a iniciativa partiu da Câmara Municipal, um órgão do poder local, livremente eleito pela gente da minha terra; segundo, pela boa companhia que, na lista, me é oferecida, entre moncorvenses que, na verdade, muito se têm distinguido nos respectivos campos de actividade, alguns dos quais eu conto entre os meus melhores amigos.
Não quer isto dizer que eu mereça a distinção. Pelo contrário, estou sinceramente convencido de que a lista, além os inevitáveis pecados de omissão, contém um erro de monta: o meu nome.
Mas enfim, uma vez que o mal está feito, aos responsáveis resta a obrigação de se penitenciarem e, a mim, empurrado para estas lutas de evidência que não pedi, não esperava e nem sequer mereço, o dever de endossar a mercê a todos os meus conterrâneos sem excepção, aos do Felgar e aos vizinhos, embora me fosse grato referir alguns em particular, nomeadamente os que já não pertencem ao número dos vivos.
Nenhum homem existe isolado, nenhuma vida se constrói no vazio, sem alicerces e fora de um contexto. Por isso, neste momento a que a Câmara da minha terra quis imprimir solenidade, gostaria de invocar, se mo permitem, a memória de meu pai, lavrador por destino e homem de sete ofícios por necessidade, que morreu uma semana depois de eu ter partido para a primeira viagem pelo mundo, ainda menino, a merenda na taleiga, uma cântara de barro cheia de água fresca do chafariz do Felgar. Gostaria ainda de recordar minha mãe, tecedeira, que ao tear consumiu a vida e que, hoje, muito velha e quase cega, vive em Lisboa um exílio todo feito de saudades dos montes da nossa terra. E homem de palavras que sou, já que a palavra é a ferramenta indispensável ao duro ofício de jornalista, quero aproveitar a oportunidade para lembrar o professor que me ensinou a ler: Amândio Augusto Cosme, natural do Souto da Velha.
Se bem ajuizo, a homenagem que a Câmara Municipal de Moncorvo decidiu prestar a alguns 'filhos da terra', neste ano em que se comemora o 7º centenário da fundação da vila, contempla moncorvenses que, por um motivo ou por outro, têm de desenvolver a sua actividade longe da terra que os viu nascer.
Por mim, gostaria que a homenagem juntasse no mesmo abraço todos os moncorvenses, e ainda os que, sendo de fora, elegeram esta terra para terra sua. Mas apegando-me à letra da decisão da Câmara, não posso deixar de repartir a parte que me toca com os filhos da minha terra que foram obrigados a partir, muitas vezes em circunstâncias dramáticas, à procura de melhor vida noutras paragens -- nas Américas, na África e na Europa. No mundo.
É provável que nem todos se tenham superiorizado no seu ramo de actividade, passando ignorados e esquivos,como clandestinos. Mesmo assim, deixem-me que afirme que muitos foram superiores na força de vontade, na coragem e na aventura.
Se puder, um dia regressarei a Moncorvo, ao Felgar, mas não é provável. Os homens, como as árvores, também se habituam à terra para que foram transplantados. Mas ao contrário das árvores, os homens não esquecem nunca a terra onde criaram as primeira raízes.
Afonso Praça"
domingo, 10 de agosto de 2008
Futebol feminino


Equipa de futebol feminino do Santo Cristo que, com muito mérito, conquistaram a taça, em Zedes, no dia 10/08/2008.
sábado, 9 de agosto de 2008
Receita Tradicional - Ovos Doces
DEITA-SE ÁGUA E ACÚCAR NUMA SERTÃ.DEIXA-SE DISSOLVER O ACÚCAR.PARTEM-SE OS OVOS PARA DENTRO, E DEIXA-SE COZER.COMEM-SE COM PÃO. É COMIDA FORTE, USADA DURANTE O INVERNO.CONFECCIONA-SE E COME-SE NO MOMENTO.
terça-feira, 5 de agosto de 2008
domingo, 3 de agosto de 2008
sábado, 2 de agosto de 2008
À memória do Urgel
Ao chegar de Agosto, fazia as malas em Lisboa e regressava à aldeia, a Peredo dos Castelhanos, sempre para o encontro marcado com o Urgel, vindo de França. Era um ritual que se repetia há anos. Trazia-me sempre um maço de cigarros Gitanes e bebíamos, ao correr do tempo, cerveja.
Até para o ano. Mas este Agosto, com ida que vou adiando, vai ser diferente. O Urgel morreu. Só muito mais tarde o soube. Hoje a sua ausência é em mim uma presença que queima. Como que a aldeia e Agosto já não são os mesmos. O Urgel é uma amizade antiga, tão amigos que ocultávamos, por pudor, também por timidez, a intensidade dos afectos. Amigos de aldeia quando, de tão crianças, ainda parecemos felizes, durante anos os nossos caminhos não se cruzaram. Soube que foi à guerra e na guerra, creio que em Moçambique, foi condecorado. Salvara da morte, abnegado e generoso como sempre foi, o seu pelotão. Nunca se julgou um herói. O que ele fez, fê-lo pelos outros, como faria pela vida inteira. Foi o solitário mais solidário que eu conheci até hoje. Os pais foram convidados pelo Governo a ir passar férias com ele a Moçambique.
Terminada a tropa, regressou à aldeia. Trazia com ele uma condecoração e nada.
O mundo diferente, a amargura e o sofrimento dos dias passados, já lhe tornavam impossível regressar à pureza inicial da aldeia. Partiu para a França. A memória, a solidão, o álcool e o desemprego às vezes, iam-no corroendo lentamente. Nunca casou nem amores se lhe conheceram.
A última vez que o vi, no Agosto passado, os cabelos brancos, mas ainda crespos, o rosto um mapa enrugado, mas sempre disponível para todos, anunciava já um fim precoce.
Este mês, Urgel, quando chegar à aldeia, beberei cerveja como se estivéssemos juntos, numa conversa cheia de silêncios, e acenderei um Gitanes. Já que não consigo ser tão solidário como tu, permite-me ao menos que recorde para sempre, com lugar cativo na minha memória, a tua bondade. A tua presença na tua ausência.
Pedro Castelhano
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
quinta-feira, 31 de julho de 2008
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Os tons do estio, em Mós

Em redor da Capela de Santa Bárbara, avistam-se quilómetros de montes e vales. Aos tons frios do horizonte, misturei as cores quentes do primeiro plano, com flores secas, de cardos. Espinhosas, recortadas, cheias de sementes mais leves do que as nuvens, mais suaves do que a seda .
De um ponto tão elevado, compreendemos um pouco a razão da importância de Mós na história.
Basta levantar os braços e deixar-se levar, encosta abaixo, serpenteando os montes, qual ribeira, de encontro à passagem estreita que rasga as fragas, antes de se fundir nas água já sempre domesticadas do Douro. Ou então, visitar Santa Bárbara, última guardiã dos altos, agora já sem castelo.
Adoura-se a erva com o estio, mas com ele vem a festa, a devoção, a procissão, a música, o arraial. Assim como as estações vão dando lugar umas às outra sem se esgotarem, também nós, vimos e partimos, nascemos e moremos, mas as aldeias permanecem, lutando como os cardos, que esperam pelas chuvas que farão de novo brotar flores.
domingo, 27 de julho de 2008
Erva quê?
sábado, 26 de julho de 2008
À distância de um olhar
É realmente fantástica a beleza que nos espera na beira da estrada, quando circulamos de carro! Olhando o que está mais próximo, ou desviando o olhar para o horizonte, explorando o pormenor ou o infinito. Foi o que eu fiz enquanto descia de Estevais até à Quinta da Portela. Com algumas fotografias fiz este arranjo. Pode ser que alguém goste dele para "papel de parede" do seu computador.
quinta-feira, 24 de julho de 2008
quarta-feira, 23 de julho de 2008
À Descoberta de Estevais

No dia 7 de Junho de 2007 fiz uma curta passagem por Estevais. Eram sete da tarde e o sol que pairava sobre Vila Flor, trespassava a verdura da beira da estrada com os seus "sabres" de luz. Alguns pardais, atrevidos e alegres, penduravam-se nas espigas de um campo de aveia perto de cemitério. Os zimbros, abundantes por aqui, ganhavam tamanho, formas dignas de Cervantes, recortadas conta o azul difuso do Vale da Vilariça.
No povoado, tudo era calma. Uma velhinha, com um lenço ainda mais negro do que as suas roupas colocado desleixadamente sobre a cabeça, gozava a paz do entardecer, sentada numa cadeira de madeira.
Do meio de algumas ruínas e casas velhas saiu um jardim! Um jardim repleto de rosas, com cores vivas, daquelas que nem a câmara do Xo_oX regista. Havia tufos de mil e uma flores, de mil e uma cores, do azul carregado, ao branco puro da açucena. Estavam combinados os factores para um quadro de encantamento: luz, cor, silêncio e isolamento.
Captei rapidamente o momento com medo que a pouca luz se deixasse vencer pelo batalhão das cores, tornando-se estas mais saturadas, mas impossíveis de diferenciar no reino das sombras. Vaguei pelo centro da aldeia, qual mariposa tonta, em busca do néctar da vida.
Entrei na pequena capela, cheirava a limpeza recente. O chão granítico favorecia a frescura e as açucenas e malmequeres enchiam o pequeno espaço de perfume e as flores dos vasos cimeiros, artificiais, de inveja. Apesar do ar deteriorado das paredes a capela tem um altar muito bonito. Depois do vermelho e dourado da igreja da Cardanha, venho encontrar aqui o azul e o dourado, que não é uma pior combinação.
Ao centro está Nossa Senhora. Parece-me Nossa Senhora do Rosário que me lança um olhar de surpresa e de agradecimento. Surpresa pela minha presença neste local singelo e distante, agradecimento pelo meu respeito e veneração.
Segui em direcção à igreja, onde se venera S. Ciríaco. Admirei o seu campanário com pináculos e uma cruz ao centro. Admirei as suas linhas singelas de igreja do século XVIII, com alterações recentes, com o sol a iluminar o frontispício, que se elevava acima do mundano circundante. Continuei em frente. Entre algumas casas novas e palheiros com cheiro a estrume, cresciam mais algumas açucenas. Sentei-me num muro semi-destruido admirando a Criação. Só um grupo de privilegiados podem viver com tanta paz. Só um grupo de mais pequeno de eleitos podem parar para admirar e reflectir sobre isso.
Foi envolvido pela melancolia da magia das oito horas da tarde que cheguei ao Miradouro de S. Gregório. O silêncio era tanto que o obturador da máquina parecia um trovão! Era a hora de recolhimento e introspecção. Senti-me ganhar asas e parti por sobre o Sabor de encontro ao do Reboredo. Escorreguei pela cintilação da encosta e molhei os pés na Foz. Nadei no brilho das folhas das vinhas das Cabanas e desmaterializei-me, vale acima, perdendo-me numa brisa que subia a Serra de Bornes.
Entrei no carro, e, lentamente, regressei a casa, com medo de perturbar a harmonia do vale que, pouco a pouco se entregava à sombra, rendido, enfeitiçado pelos últimos raios de sol que douravam as espigas na beira do caminho.
terça-feira, 22 de julho de 2008
domingo, 20 de julho de 2008
I Encontro de Colaboradores do Blogue

Uma fotografia "provocadora" do vasdoal foi a gota de água que levou a este encontro de colaboradores do Blog. E foi importante. A verdade é que estamos a tentar criar uma equipa, mais baseada na produção de cada um, do que no conhecimento mútuo. Este encontro, à volta de um bom prato de peixes do rio, veio revelar a rosto e a pessoa, por detrás de cada "nome".
Foi assim, que nos juntámos na Foz do Sabor e nas Cabanas de Baixo, para nos conhecermos e trocarmos algumas ideias. A animação veio dos lados de Espanha, com o Angel a tocar tambor e flauta de tês buracos, arrancando sons que identifiquei como da raia, lembrando o planalto cheio de erva seca e o horizonte manchado de verdes escuros. De tão entusiasta para as “meriendas” imaginava-o mais forte, e bem disposto, como realmente é. Só tenho a agradecer-lhe a alegria e boa disposição, que juntamente com a sua esposa, partilhou connosco.
Estiveram também presentes vasdoal, a. basalouco, PARM e eu, o AGoncalves. Outros colaboradores que não puderam estar presentes, estão em dívida, e terão que se empenhar a fundo para não faltarem ao próximo encontro.
Espero que ninguém se lembre de postar uma boa posta mirandesa, ou um bom bacalau, sob pena de termos que marcar um novo encontro.
Até lá, vamo-nos encontrando, todos os dias, aqui, no blogue.



e o Douro amendoado


























