Vão já quase 40 anos, publiquei um livro de poemas, "Livro de Visitas" em que faço uma "visita" ao Horácio Espalha. Durante anos partilhámos, diariamente, muitas horas, muitas histórias e outras tantas palavras. Também falava muito com outra figura esquecida, o Álvaro Inês, taxista, picado de bexigas ( ai! estas reminiscências camilianas...), sempre de óculos escuros, fumador de boquilha que fora preso e torturado pela Pide no Porto. Ele e o Horácio Espalha (Horácio Morais com tias que tinham uma pensão onde hoje é o Bom Amigo, ou mesmo ao lado, não estou certo). Não sei por que não se falavam. Mas penso que tinham "ciúmes" um do outro, porque cada um queria reivindicar para si a "instrução revolucionária" ou, pelo menos, subversiva, de alguma juventude de Moncorvo.
O Horácio Espalha morreu já depois do 25 de Abril, andava eu longe de Moncorvo, em contencioso com a Vila e comigo mesmo. Só mais tarde, após um processo lento, em que a aprendizagem da tolerância terá sido a melhor ferramenta, me reconciliei com a Vila, ainda que não comigo mesmo.
Após o 25 de Abril, o Horácio Espalha terá sido um pouco utilizado pela juventude do MRPP que surgiu pujante em Moncorvo, sob a direcção desse homem bom que foi o Toni Americano, infelizmente para todos nós, já falecido. E desiludido, tanto quanto me é dado saber pelas visitas que me fazia em Lisboa,vindo da América, com os seus antigos camaradas.
As minhas relações com o MRPP não eram agradáveis. Meses antes de morrer, o Horácio Espalha escreveu-me uma carta, uma longa e dolorosa carta, cheia de queixas, algumas contra mim, mas reatando uma amizade que, da minha parte, nunca tinha sido desatada.
Quando escrevi este poema, que vou copiar, tinha eu 20 e poucos anos, incluído num livro editado em 1972. Poderá ferir pela sua aparente crueza. Engano, na minha perspectiva, porque sempre apreciei a inutilidade dos deuses, sejam eles da Grécia ou de Moncorvo. E sempre me escondi de manifestações de ternura, para que houvesse ternura.
Prefiro a inutilidade dos deuses à vulgaridade dos homens. Aqui vai o poema, sem correcções, tal qual foi publicado. Espero que não se escandalizem e perdão a um jovem de então que tropeçava na escrita, insultava a metáfora e ainda não sabia que a poesia( como diz Jorge de Sena com outras palavras) é o que de mais inútil há, mas não conheço nada mais importante.
Visita ao Horácio Espalha
Tinha nervos de banha o velho azul olhos de
fogo concentrado em cinzas quentes. Pelas mãos
lhe escorriam os ócios ou as palavras eram
franjas de saliva suja ou os sons eram incómodos
arrítmicos no pasmo. Tinha o velho a dimensão
do pedincha centauro instalado na Vila, pus
que só a morte esguichará par as grandes
planícies do silêncio em que ele não crê, azul e fogo.
Abanava trapos pela violência nas mesas caricaturais
do espaço deposto. Apostava o corpo crueldade obesa
aos olhos educados das gentes decentes que mais decentes
não se viram.Vira vai vem vaia o velho veloz
nervos de banha cinzas quentes. Os dentes desistiram do
dia são os sons bolhas as folhas outonais da
eternidade. Verrugas e rugas unhas sujas prisão de fome
ócios lhe escorrem escorrem palavras palavras pus morrem.
As mãos são ovais como cordas de gestos enforcando a luz.
Domador das estradas que ouviu britar até à silicose
roer os homens, estratega do inútil, do inútil vivendo
sabe de cór a dor, da dor conhece a cor dos gritos,
dos gritos cria a pedra, das pedras soterra a Vila na
morte ---ele o pus, a oratória sangrada, o nada.
ele nada--caminhando pelas fezes pétreas
agrestes rudes que consomem os espaços...
Tinha nervos de banha o velho azul olhos de
chama ou concentração de fome, centauro
a petiscar a morte nos que dela próximos estão
cantor da memória, centauro tagarela e inútil
mito roto, deambula pelo plástico hirto
da dimensão comercial da nossa Vila,único
sobrevivente do tempo dos deuses, esperando
que chuva ou névoa o venha desenterrar da pedra.
Livro de Visitas ( 1972)
domingo, 8 de fevereiro de 2009
Visita ao Horácio Espalha
sábado, 7 de fevereiro de 2009
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Felgar, hoje
Reza o calendário, confirma-o "O Seringador" que dia 20 de Janeiro foi dia de S. Sebastião.
Calhando numa terça-feira, fez-se a procissão no domingo seguinte.
Apenas a procissão, que isto não está para festas.
No final a Banda da Sociedade Filarmónica Felgarense actuou em frente à igreja matriz.
Ficam o Leonel Brito e o N. Campos nomeados mordomos com direito a uma peça de música: o"Barbanha".
Perdoem, se puderem, a péssima qualidade da filmagem.
Fica a intenção de divulgar a Banda, o Felgar e o Concelho.
Tentem visualizar em HQ. Vê-se um pouco melhor
A. Manuel
Felgar ainda... de "Outros Tempos"
Não tenho dúvidas que a autora deste belo poema tinha o Felgar em mente (um Felgar talvez dos anos 40), quando o escreveu... Importa dizer que a Drª. Maria da Assunção Carqueja foi, também, a autora do hino da sua terra natal ("És tão linda, oh minha aldeia...")
Por isso aqui fica, do seu mais recente livro (saído pelo Natal de 2008), com a devida vénia:
OUTROS TEMPOS...
Aldeia de Trás-os-Montes
com seus palheiros e fontes,
suas casas de granito
dezenas d'anos atrás...
Tantas saudades me traz...
Como tudo era bonito!...
As portas, de par em par,
marcavam o começar
da faina do novo dia...
... e as crianças da escola
levando sua sacola
lá iam em correria!
Brincadeira e gargalhada
pulando pela calçada
tudo dava p'ra brincar,
procurando violetas
nos cantinhos das valetas
ou charcos para saltar!...
Era tudo feito à mão
as meias de algodão,
as botas do sapateiro,
até os linhos vestidos
bordados e coloridos
sem marca de costureiro!
Galinhas com pintainhos,
cavalos e burriquinhos
e carros de bois jungidos
... Tanto me vem à ideia
da vida da minha aldeia
dezenas d' anos volvidos!
Maria da Assunção Carqueja
In Jardim da Alma, poemas.
Dezº. 2008.
Felgar
Como vários Felgarenses se têm mostrado interessados em ver /saber coisas de outros tempos sobre a sua terra, e como eu também me considero Felgarense (a minha avó paterna, Julieta Freire, era natural do Felgar; a família era, nessa altura, conhecida pelos Laranjos), aqui vão o texto do Assis e fotos minhas, em homenagem aos homens do barro e ao Nelson, pelo seu trabalho “Centros Oleiros do Distrito de Bragança”
Leonel Brito

Capelas no Larinho (1)

Tenho a sensação que o Larinho é uma aldeia com uma forte tradição de culto do divino. Um dos aspectos que me surpreendeu foi a quantidade de capelas espalhadas pelos bairros e largos.
A primeira fotografia mostra a capela do Senhor dos Aflitos (1896).
A segunda fotografia mostra uma representação nada simpática (como seria de esperar) das forças do mal, que faz parte de uma imagem da capela de Santo António, seguramente mais antiga do que a primeira.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
De passeio pela Lousa
A primeira fotografia colocada no Blogue sobre a Lousa despertou sentimentos a muitos dos visitantes. Não foi por acaso que lhe chamei "mais alto ainda". É que a situação geográfica da aldeia, quando olhada de Moncorvo, dá um sentimento de liberdade, qual pássaro pousado no galho mais alto de um carvalho, agitado pelo vento. O que sentirão os habitantes da Lousa quando olham Moncorvo?
A sede de concelho sempre esteve muito longe (a Lousa pertenceu ao extinto concelho de Vilarinho da Castanheira). Com o tempo os acessos melhoraram, mas, a Lousa continua distante, solitária no alto da encosta cravada de ciclópicas rochas graníticas. Os seus habitantes desfrutam das mais belas paisagens do concelho; da Serra da Estrela a terras de Espanha, acompanhando o sol desde que nasce, até que se esconde, talvez mergulhado nas águas do Douro.
Nesta minha primeira vista À Descoberta da Lousa, tive tempo para percorrer grande parte da aldeia, do Largo Fonte da Cruz até ao Cabeço, brindado por um céu azul, que a espaços se cobria de nuvens, ora de branco florescente, ora de negro ameaçador.
Hoje publico mais duas fotografias com um agradecimento à Wanda, que, do Brasil, espevitou o meu desejo de visitar a Lousa. Como pode ver Wanda, mesmo num dia de tempestade em todo o Portugal, não tive frio na Lousa (estamos em pleno Inverno!).
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Mais alto ainda
Subir a encosta e chegar à Lousa, já é uma aventura, mas subir ao ponto mais elevado da Lousa é um deslumbramento. Este é um bom lugar para nos deixarmos embriagar de paisagem!
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Cortinha da Guarda
Nota: Não pretendo monopolizar o blog. Esta foto está relacionada com os comentários ao post anterior
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Moncorvo, Zona Quente em Terra Fria

Devido à actualidade dos temas abordados na reportagem “Moncorvo, Zona Quente em Terra Fria”, de Março de 74, no jornal República (da autoria de Fernando Assis Pacheco e fotos minhas), creio ter interesse publicar, por temas isolados, a reportagem na íntegra. Já saíram, neste blogue, “ O sonho das minas” , "A vila passada a pente fino”, "... e lá se foi o castelo”, “Os vizinhos ajudam os vizinhos a partir a amêndoa no inverno” , ”As contas do guarda-rios”. Hoje é a vez de “Gil Vicente entre os jovens,”com encenação do pai do Tiago Rodrigues...
Nota: O grupo “Alma de Ferro””apanhou-me” por acaso em Moncorvo na noite da estreia. Surpreendeu-me pela qualidade. A recuperação do antigo celeiro é notável. Estamos todos de parabéns.
Leonel Brito
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
A Revitalização

O passado histórico de Mós mantém-se, sendo rico o seu património vai-se perdendo, à semelhança do que acontece noutras localidades, acontece porém que compete aos autarcas de cada Freguesia,Vila e Cidade criar incentivos através de roteiros turísticos, de modo a dinamizar as localidades dando a conhecer o vasto património e vestígios históricos, como já acontece noutras terras deste país “ ALGARVE – ALENTEJO” a criação de percursos pedestres, aproveitando locais outrora de interesse económico para as populações seria de realçar para poder dinamizar e trazer mais vida a estes locais perdidos e por vezes esquecidos.
Como roteiro de início, Ferraria da Chapa Cunha apesar de actualmente se encontrar em ruínas, mas como antiga fábrica de ferro, aproveitando o seu passado histórico como primeira ferraria da região ou, mesmo da Península Ibérica, o Castelo em ruínas, Igreja de Santa Maria, Capelas de Santo António – Santa Barbara – Santo Cristo, Fonte Românica, Fonte do Cano, e com bastante interesse de divulgação a Calçada de Mós e os percursos adjacentes à mesma “No passado rede viária de Vila Velha de Santa Cruz com cerca de 700 metros de comprimento“, realçando também as antigas minas do ferronho entre outros locais esquecidos que poderemos descobrir, neste combate da desertificação.
Autor:Cidadão do Mundo
Pelourinho de Mós

No Concelho de Torre de Moncorvo, foi o único recuperável, ao consultar livros deste evento o Pelourinho, de que fala o Abade de Baçal nas suas "Memórias Arqueológicas-Históricas do Distrito de Bragança" do seguinte modo "... Mós - O Pelourinho desta Antiga Vila, sede de Concelho, hoje estupidamente apeado, mas as suas pedras estavam em 1899 na casa dos herdeiros do Doutor Gabriel, não haverá alma generosa que se compadeça do venerando momumento, lídimo brazão nobilitante da terra, reerguendo-o no primitivo local, em frente da antiga casa da Câmara de Mós..." Hoje convertida em sede da Junta de Freguesia e antiga Escola Primária "...também nos fala de actos de vandalismo que terão destruído o referido Pelourinho...".
No local referido pelo Abade Baçal, data da história de que em 1830 ainda se encontrava de pé, data esta da morte da Rainha CARLOTA JOAQUINA DE BORBON, por cujo luto gastou o Concelho de Mós mil e duzentos réis com que pagou por baeta preta para cobrir o Pelourinho desta Vila de Armas, da Casa da Câmara na ocasião de luto pela morte da Sereníssima senhora Rainha. Toda a sua destruição e segundo os historiadores terá sido acto dos ventos do Liberalismo e com a extinção das Vilas abrangidas pela reforma Administrativa de 1836, pelo Dec-Lei do mesmo ano publicado em 2 de Novembro.
Pelourinho de Mós
O Pelourinho de Mós, possivelmente construído no Séc. XVI, perdeu-se na memória e no tempo. Quis o destino que em 1992, seis das pedras que o constituíam fossem encontradas num muro da aldeia.
Hoje, o pelourinho está lá, na praça, enchendo de orgulho os mozeiros, que não se cansam de falar da Antiga Vila de Mós. Esta é só uma amostra do muito que há para "descobrir" nesta aldeia que já foi sede de concelho.
domingo, 18 de janeiro de 2009
Estevais Ano Zero



Pensando tratar-se da sua terra (Estevais, de Mogadouro), o Professor Rentes Carvalho adquiriu, em tempos, o documentário “Estevais, Ano Zero”. Era sobre Estevais da Vilariça, e ofereceu-o ao Nelson. O Nelson, reconhecendo o autor, teve a gentileza de lho regalar. Feito num dia de 1975, integrado na série “Arte e Ofícios” para a R.T.P..
Graças às novas tecnologias, transformei três fotogramas nestas imagens.
Nessa época não havia água canalizado na aldeia, razão porque as pessoas tinham que ir abastecer-se a uma fonte no meio da fragada, a 4 km..
O Senhor António, fez parte, em 1914/18, do Corpo Expedicionário do Exercito Português no sul de Angola. Depois de uma estada de três anos no Brasil, onde sofreu a crise de 29, regressou nesse mesmo ano, para sempre, à sua terra.
A rua era o recreio dos galináceos, que obrigavam os seus donos a pagar uma multa de oitenta mil e crôa à G.N.R. (a jeira, na Ribeira, era de cinquenta escudos).
O documentário pode ser baixado da internet, com o nome Estevais Ano Zero
Leonel Brito
sábado, 17 de janeiro de 2009
Caminho, no Larinho
Na tranquilidade da tarde aquecida pelo sol de Outubro, procurava a localização de uma fonte, bastante antiga, no Larinho. O encontro com a fonte, não uma, mas duas, transportaram-me ao passado e imaginei-me várias décadas atrás, quando o acesso àquelas fontes era feito por este e outros caminhos. A luz rasante do final de tarde convidou-me. Não resisti a registar em fotografia este rústico caminho.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Pastagem Natural em Terras de Moncorvo - Raça Mirandesa
Ao passar pela Qtª Branca, no Larinho, na estrada que liga Moncorvo a Carviçais, chamaram-me à atenção estes lindos animais de raça mirandesa.
Apesar de ser raça oriunda da região trasmontana, os bovinos mirandeses estão já espalhadas por várias explorações de norte a sul do país.
A carne de bovino mirandês é a base da "posta à mirandesa", iguaria da cozinha nordestina. Apesar da qualidade, por vezes, é difícil abastecer o mercado, em expansão fora das fronteiras do Solar da raça.
Carne muito saborosa e suculenta. A carne destes animais é bastante utilizada na cozinha tradicional desta região, sendo de destacar a muito afamada posta mirandesa, que é uma forma de grelhar carne cujo único tempero é o sal, apenas para realçar o excelente sabor . Frequente é também o consumo sob a forma de vitela assada no forno, bifes à Alto Douro e vitela entronchada à transmontana. As restantes peças, menos nobres, são consumidas noutros pratos tradicionais da cozinha regional e nacional, designadamente no cozido nortenho, no cozido à portuguesa e em estufados vários.
Por terras de Moncorvo também se come uma bela posta à mirandesa, pois vale a pena passar em Carviçais no Restaurante "O Artur", onde a especialidade é a Posta à Mirandesa.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
A tradição Transmontana
Em Trás-os-Montes o Natal é diferente do que no restante pais. Prova disso é a quantidade de migrantes e emigrantes que invadiram as estradas portuguesas rumo ao interior transmontano na quadra natalícia.
Hábitos e tradições transmontanas no dia vinte e quatro à tarde começam a descascar as batatas e a arranjar as couves para o jantar. Na boa mesa transmontana não pode faltar polvo, couve, e bacalhau. No que respeita às sobremesas as filhós, os milhos e as rabanadas continuam a ocupar o topo das preferências e tradições.
Em quase todas as casas transmontanas o jantar começa cedo porque as gentes transmontanas não têm o hábito de jantar tarde como os citadinos, à mesa reúne-se quase a família da habitação e poucos são aqueles que ainda cumprem a tradição de abrir as prendas à meia-noite, perdeu-se na história a tradição que mesmo sendo crianças ainda acreditam na vinda do Pai Natal.
Depois do jantar e das prendas distribuídas e abertas normalmente junto à lareira que pelo menos nessa noite se acende na maioria das casas, por vezes segue-se a saída, para a praça da Aldeia, Vila ou Cidade, este ano com a neve mas apesar disso já não neva como antigamente, o frio continua a marcar presença assídua na noite de Natal e ainda há locais onde se fazem grandes fogueiras onde se aquece a população durante toda a noite.
A tradicional fogueira do Galo, continua a tirar as famílias de casa, que apesar da desertificação ainda são muitos novos e alguns de idade avançada, pois é costume dizer-se que Trás-os-Montes tem uma população envelhecida, as chamas vindas de grandes troncos arranjados nos dias e na noite que antecedem o Natal aquecem dezenas de pessoas que se juntam ao seu redor enquanto a missa do galo não começa, mas é uma forma de juntar a família e os amigos, como os costumes nunca se perdem alguns trazem chouriças, outros pão e outros vinho e às vezes ficam até de manhã, sendo por hábito o café da manhã ser feito e servido ali.
As fogueiras de Natal, ou “murras” [gigantesco canhoto de carvalho, castanho ou negrilho, que arde noite fora no largo principal de algumas das aldeias mais puras do Nordeste, representa a coesão de uma comunidade rural, que festeja na rua o verdadeiro sentido do Natal] em algumas localidades do interior transmontano, e ainda representam para muitos a coesão dos habitantes, crianças, jovens, adultos e idosos convivem pela noite dentro e fazem apenas um intervalo para a Missa do Galo à meia-noite.
Numa região onde a população está cada vez mais envelhecida, já houve mesmo paroquias que resolveram antecipar a missa do Galo e fazê-la no dia 23 durante o dia, como aconteceu em 2008, no 25 há missa de Natal seguida de mais uma reunião da família,o almoço que volta a juntar toda a gente na mesma mesa, é fruto da mistura de costumes em algumas casas que não dispensam o perú na mesa, no entanto, nas famílias mais tradicionais ainda se continua a comer a típica “roupa-velha”, uma espécie de mistura de todas as sobras do jantar do dia 24, o famoso cabrito assado transmontano é também frequentemente servido como refeição neste dia, em algumas casas.
Em resumo mais ou menos frio, mais ou menos tradicional, o facto é que a época natalícia continua a encher as Cidades, Aldeias e Vilas desertificadas do interior transmontano que durante o resto do ano se encontram praticamente desertas, alguns matam e trazem saudades, alegria e cor ao interior de Trás-os-Montes, os que cá ficam vão continuar a preparar tudo para acolher nestas e noutras épocas os que decidiram um dia sair à procurar de melhores condições de vida.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Depois da neve... mais nevoeiro e geadas
domingo, 11 de janeiro de 2009
O Tempo, essa noção...
Os comentários têm sido fecundos em relação ao passado e à importância do passado nas nossas vidas, individuais e colectivas. O tempo, em suma. Muitos post e outros tantos comentários, mais do que passado, estão a desenhar uma identidade de Moncorvo. Numa busca desordenada de papéis velhos vou encontrando, tempos próprios, porventura datados: uma carta de Monteiro de Barros de 1976, descrevendo a situação política da época em Moncorvo; uma carta do Horácio Espalha já quase de despedida e influenciado pelo voluntarismo (mais do que utopia) do MRPP; o primeiro livro de Pires Cabral, com 25 exemplares, feito a stencil na Escola Secundária de Moncorvo, em Junho de 1974, com capa de Horácio Simões(dr.), um velho com chapéu de aba larga e barba de oito dias. É a primeira obra editada por Pires Cabral, hoje um dos grandes poetas portugueses. E depois leio a Primeira Comunhão da Júlia Guarda Ribeiro, um testemunho precioso, ainda que em linguagem grácil mas de conteúdo sofrido, que revela, embora com a tolerância que lhe é peculiar, os preconceitos de uma vila, a moralidade de sacristia, preconceitos e moralidade que ainda não foram de todo afastados. E todas estas leituras me obrigaram a uma reflexão sobre o Tempo. Espero a vossa benevolência a par das críticas. Falar do Tempo é falar de uma abstracção que só existe enquanto nós existimos. Ou se existe é apenas no nosso pensamento. Com a nossa morte, para quem não acredita na eternidade, o tempo deixa de existir. De qualquer modo, para quem acredita na eternidade, não tem sentido a existência do tempo, pois a eternidade pressupõe o infinito. Mas vamos às origens mitológicas do Tempo antes que a inquietação me perturbe o raciocínio. Chronos, com h, para distinguir do outro Cronos, o que engoliu os filhos ao nascerem, com o medo de ser destronado por um deles, Chronos, com h, repito, é entre os gregos e os romanos, nestes sob o nome de Saturno,a personificação do Tempo, criado por si mesmo. Era um ser incorpóreo e serpentino, com três cabeças, de homem, touro e leão. Permaneceu deus do tempo remoto e sem corpo. A minha reflexão dificilmente aceita a linearidade, porque o tempo não é linear, embora seja contínuo na nossa descontinuidade, no depois de nós outros vêm.
Há vários tempos: o mítico, o histórico, o simbólico. entre outros. O tempo simbólico só é possível num espaço simbólico, como no ritual da Igreja e na Bíblia, sobretudo no Pentateuco (os cinco livros da Tora judaica) em que os predestinados, como Matusalém, por exemplo, chegam a ter a provecta idade de 600 anos. Na rua, em relação à missa na igreja de Moncorvo, por exemplo, o espaço é outro e outro é o tempo. Em Kant o tempo é sempre espacializado. É o tempo simbólico subjectivo? É. Todo o tempo pessoal e o tempo na relação com o Outro são subjectivos. A definição mais comum do tempo e a que menos inquietação provoca: período que vai de um acontecimento anterior a um posterior. Ou seja, uma espécie de ponte invisível entre o passado e o futuro (este blogue é paradigma disso).
É minha profunda convicção de que não há tempo absoluto, porque o Homem e a Humanidade só sobrevivem nos seus limites. (Lembra-me uma Ode de Píndaro, que serviu de epígrafe ao Mito de Sisifo de Albert Camuns: "Ó minha alma, não aspires à vida imortal/ Mas esgota o campo do possível")
É impossível instituir uma medida única do Tempo. A simultaneidade de acontecimentos distantes no espaço não tem senão um sentido relativo. Para uns os acontecimentos não são o que são para os outros. Cada sistema de referências tem o seu tempo próprio.
O tempo histórico, também chamado " a ciência dos homens no tempo", podemos dividi-lo em três subsistemas: o tempo curto, de acontecimento circunstancial; os ciclos económicos, por exemplo, como um tempo conjuntural; e o tempo de longa duração, este estrutural.
O tempo mítico refere-se a um tempo primordial que tem muito pouco a ver com a história real. É o tempo, entre outras idades, da Idade do Ouro, tão bem poetizada nas Metamorfoses de Ovídio ou no milenarismo do Apocalipse e do calendário Maia (no primeiro, o Mundo acabava aos mil anos para surgir o Mundo melhor, guiado por Messis; no segundo, termina em 2012, em 21 de Dezembro, com a última passagem do planeta Vénus, no século XXI, também para vir um mundo melhor).
Entremos agora no campo das interrogações, das dúvidas e da perplexidade do ser.
Através da distância do tempo, que não é mensurável, o definitivo não é o definitivo; o ser, embora sendo, não o é ainda. A estrutura da temporalidade em que se produz o ser está ligada a um gesto elementar do ser que rejeita a totalização. O ser não consegue ultrapassar os limites do possível.
Trazemos connosco um armazém da memória e o aceno das recordações. Na memória, não seleccionamos o passado pela importância real dos factos. É possível lembrarmo-nos da primeira vez que nos fomos banhar ao Rio Sabor e esquecermos o dia do nosso casamento. Não fomos nós que seleccionámos. Não houve repressão consciente. A memória não é repressiva. Ou é? Quanto às recordações, são sempre como um lenco frágil à procura do tempo perdido, que nos proporcionam sonhos, mas não nos devolvem as ocasiões perdidas. Mas a recordação surgida a cada novo instante não nos dará já ao passado um sentido novo? (Estou-me a lembrar de algumas fotografias editadas no nosso blogue).
Na paternidade em que o Eu através do definitivo de uma morte inevitável (uma certeza que nós todos comungamos) se prolonga no Outro, o tempo triunfa, pela sua descontinuidade, da velhice e do destino.
A paternidade, no meu sentir, é a maneira de ser Outro continuando a ser o próprio.
Regressemos ao instante, à recordação que, de tão intensa, pode ser tão duradoura como o nosso derradeiro limite. É a própria obra do tempo.
Em contrapartida, o esquecimento anula as relações com o passado. E aqui entramos no capítulo da culpa e do perdão. Citando uma expressão comum: perdoo tudo, mas não esqueço nada. O perdão conserva o passado. Mas aqui levanta-se o problema da culpa e do sofrimento. Até que ponto podemos perdoar, quando pelo sofrimento (também outra noção do tempo) nos quiseram e por vezes conseguiram reificar? Estou-me a lembrar de Auschwitz e de todos os Goulags de todo o Mundo, estou-me a lembrar da banalização do mal (vidè Hanna Arendt), estou-me a lembrar da vulgarização da violência, do conformismo face à corrupção, da falta de indignação face ao indigno. Esquecer, como já disse, é anular todas as relações com o passado; mas perdoar é assumir, já no presente, o sofrimento futuro.
Por fim, para os que crêem na eternidade (ausência de tempo e ausência de espaço), lembro a descida aos Infernos de Dante e a subida ao Paraíso. E interrogo-me sobre o sentido da culpa e o sentido da recompensa. Tanto o céu como o inferno não dão oportunidades de redenção ou pecado: o que está no céu não pode pecar; o que está no inferno, não pode fazer o bem. Neste maniqueísmo, não há lugar para segundas oportunidades.
Ou seja, transmutados para uma abstracção sem tempo, não têm a possibilidade de se redimir da culpa, nem, em sentido contrário, de cometer algum acto que provoque o sentido da culpa. A eternidade não é só a negação do tempo. É também a negação da liberdade.
Ponto final: os homens já roubaram todo o fogo aos deuses; eu contento-me com menos: roubo-vos um pouco do vosso tempo.














