
Como aqui foi anunciado, decorreu, no passado sábado, dia 14 de Março, a apresentação pública, em Torre de Moncorvo, do livro de Júlia Guarda Ribeiro (cá na terra conhecida por Júlia “Biló”, o outro nome literário com que costuma assinar as obras mais referentes à nossa região), intitulado: “Primeira Comunhão”.
Depois de um excelente almoço-convívio num restaurante cá da vila, entre familiares e amigos/as (incluindo alguns “blogueiros”) a sessão de apresentação decorreu na biblioteca municipal, perante numeroso público.
Estiveram na mesa, além da Autora, o Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, Engº. Aires Ferreira, a Presidente da Junta de Freguesia de Torre de Moncorvo, Milú Pontes, o Dr. Adélio Amaro (editor), Doutora Graça Abranches (professora universitária e amiga da autora), e Drª. Lucinda Antunes (colega de infância da autora).
O Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, Engº. Aires Ferreira, gracejando, principiou por referir que estava ali, com o sr. editor, a “servir de jarra”, apenas para cumprir as quotas de presença (masculina, neste caso). Anunciou, de seguida, a reedição dos anteriores livros de Júlia Biló, “Contos ao luar de Agosto” (por já se encontrarem esgotados), e outros passos da política cultural do município para os próximos tempos.
Por sua vez, o editor, Adélio Amaro, replicou que o facto de “servirem de jarra”, significava que estavam rodeados de “lindas flores”, referindo-se às senhoras que estavam na mesa, suscitando a hilaridade e aplauso dos presentes. Fez, de seguida, uma apresentação geral do livro, a qual foi aprofundada por Graça Abranches, contextualizando-o na época em que a “acção” decorre (período do “Estado Novo”, finais dos anos 40), sendo a autora, juntamente com sua mãe, as principais protagonistas, sobrelevando o moralismo eclesial da época, os preconceitos sociais, as mentalidades e o enquadramento político (ditadura). Referiu-se ainda à capacidade “contística” da autora, já patente nos seus livros anteriores, fazendo uma análise intelectual, citando teóricos da literatura (que estudaram a literatura oral e, sobretudo, a arte de “contar” histórias) e da sociedade, mormente no aspecto da estética, como Walter Benjamin.
A Drª. Lucinda Antunes, que foi colega de Júlia Biló, na sua infância e adolescência passada em Torre de Moncorvo, referiu-se a esses tempos de companheirismo, enaltecendo as suas qualidades e recordando algumas peripécias.
Por fim, a autora, agradecendo as palavras dos intervenientes e das pessoas que quiseram estar presentes, explicitou melhor o contexto e a história de vida (pessoal) que foi objecto deste livro, assim como de outros, como os contos recolhidos junto das mulheres da Corredoira, analfabetas, mas carregando toda uma literatura (oral) e histórias de vida fantásticas. Evocou, por exemplo, a história do homem daquele bairro, que gostava de a ouvir ler histórias, e que muito se admirava por aquilo que ela dizia estar contido nos “risquinhos” que eram as linhas e as letras que estavam no livro: “ - A minha alma está de joelhos!”, foi a exclamação do velho homem, que Júlia Biló nunca mais esqueceu. Tendo lido alguns excertos do livro, terminou com uma referência ao nosso blogue e a alguns amigos que através deste espaço conheceu ou reencontrou, como foi o caso de Leonel Brito, Rogério Rodrigues e Daniel de Sousa, moncorvenses que estão longe da sua terra, mas que dela não se esquecem. Do Dr. Daniel de Sousa, médico cirurgião algures na região de Lisboa, leu a bela mensagem que fez questão de enviar e dois poemas, da sua colectânea “Café Il Greco”; de Rogério Rodrigues, jornalista e escritor, leu um poema intitulado “Femina, Femina”, dedicado à Mulher.
Houve, a encerrar, uma concorrida sessão de autógrafos e um Porto de Honra, servido no ambiente aprazível dos jardins da biblioteca, em ambiente de convívio e descontracção até ao fim da tarde.
Sobre a autora e o livro “Primeira Comunhão”, ver:
http://livros.paravenda.net/produtos/932-j%C3%BAlia_guarda_ribeiro_primeira_comunh%C3%A3o.aspx
Texto: N. Campos
Fotografias: Xo_oX
segunda-feira, 16 de março de 2009
Jornada de apresentação de “A primeira comunhão”, de Júlia Guarda Ribeiro
sábado, 14 de março de 2009
Saúde e Fraternidade
Muito se tem falado e escrito sobre Campos Monteiro. E muito pouco sobre o seu livro de maior êxito, "Saúde e Fraternidade". Publicado em 1923 ainda sem as caricaturas de A. (Américo) Amarelhe que só aparecerão na capa na versão definitiva da sátira, não sei se na segunda ou terceira edição, o "Saúde e Fraternidade" chegou a vender 40 mil exemplares, a ponto de Aquilino Ribeiro reconhecer que foi um dos livros de maior êxito no primeiro quartel do século XX. Após um longo esquecimento, só em Dezembro de 1978, nas Edições Templo, é que saiu a última edição da "Saúde e Fraternidade ", baseada na sétima e décimas edições, incluindo ilustrações de Amarelhe. Contudo, numa edição pouco cuidada, enganam-se na data do preâmbulo dos editores. Onde, na primeira edição, Campos Monteiro escreve 1993, eles erram escrevendo 1939.
Tanto a primeira edição com a última (eu tenho ambas) serviram para uma consulta de que vou dar alguns apontamentos neste post.
"Saúde e Fraternidade (História dos Acontecimentos Políticos em, Portugal desde Agosto de 1924 a novembro de 1926), Livraria Civilização Editora, Rua das Oliveiras, 75, Porto)" é um libelo contra os últimos anos da República e um sonho, jamais realizado, da reintauração do regime monárquico através do levantamento popular dos camponeses do Minho e e Trás-os-Montes contra um Estado Bolchevique. Já lá iremos. Escreve Campos Monteiro, numa espécie de advertência preambular: "Este livro há-de ser escrito daqui a 70 anos. Por um processo especial de adivinhação, já conhecido de resto, pelos que se dedicam ao estudo do Iluiminismo, conseguiu quem o dá a lume saber a maneira como os historiadores do século XX hão-de encarar os sucessos políticos a que nós, homens de agora, vamos assistindo (...) Publica-se a obra tal como saiu dos lábios do Vidente, da nossa pena de simples secretário seu, tal como há-der sair dos prelos de uma imprensa do Porto, em certo dia de Outubro de 1993".
O prefácio serve para criticar Afonso Costa, um dos alvos predilectos de Campos Monteiro, a par de Júlio Dantas e Lopes Cardoso.
Com uma capacidade satírica notável, ridiculariza, ao jeito da "Queda de um Anjo", de Camilo, o Parlamento e o anticlericalismo dos primeiros anos da República. A título de exemplo critica e diverte-se com o facto de o deputado (mais tarde primeiro ministro) Sá Pereira, se rebelar contra a Igreja, considerando casus belli a erecção do Coração de Jesus no morro do Corcovado (Rio de Janeiro). Júlio Dantas, o cortesão médico/ escritor da "Ceia dos Cardeais" é dado por Campos Monteiro como o exemplar, por excelência, dos adesivos. De monárquico chegará a Comissário dos Sovietes, mas quando estes são derrotados começa a escrever a história de Ilustre Casa de Bragança... O Almada (Negreiros) é que o topou. E o Mário Viegas também, declamando o "Manifesto Anti-Dantas".
Como Vidente, ou seu secretário, imagina um Governo revolucionário em que "não houve soldado que não ficasse sargento". São encerrados os centros políticos que não sejam radicais ou socialistas, redobra o "velho ódio às crenças cristãs", o Dente d'Ouro, o sargento Olímpio, da Marinha é libertado do forte de Elvas e trazido em apoteose para Lisboa. Diga-se que o Dente d'Ouro, era natural da Cardanha e esteve na Noite Sangrenta em que foram mortos António Granjo, primeiro-ministro, natural de Chaves, Machado dos Santos, o herói da Rotunda, e Carlos da Maia. O Dente d'Ouro seria o matador, encomendado e pago pelo padre Lima, também da Cardanha como mais tarde terá confessado a Berta Maia, viúva de Carlos da Maia que, com frequência, visitava na cadeia o assassino do seu marido, numa investigação quase heróica. O livro de Berta da Maia só saiu em 1926, exactamente na altura de "revolução do 28 de Maio", o que deu a que tenha ficado na penumbra durante todos estes anos. Espero que o centenário da República seja a data ideal para uma reedição digna.
Continuando: segundo as profecias de Campos Monteiro teria sido também libertado, Júlio Costa, o assassino de Sidónio Pais. Não deixa de ser curioso que o regicida Alfredo Costa seja da mesma terra, Garvão (Alentejo) que o assassino de Sidónio Pais, ainda que, com o mesmo nome, não fossem nada um ao outro.
Mas é o ministério de Procópiode Freitas que é alvo da grande sátira (é obrigatório reconhecê-lo), ainda que de um reaccionarismo incomodativo, no mínimo. Salienta que o nacionalismo lusitano onde navegavam os monárquicos sob a tutela ideológica do integralista António Sardinha sonhavam com o fascismo de Mussolini.
Não resisto a transcrever a demissão de três ministros de Procópio de Freitas. Textual:"... O País estava descontente com o ministério; e não só o país: o próprio partido,-sem reparar em que , se o governo nada fizera, fora porque o partido o não deixara. Nesta condições, o gabinete punha nas mãos do chefe do Estado a solução da crise, oferecendo-lhe desde já a sua demissão.Bernardino Machado continuava anediando a pêra e cofiando o bigode. Os seus olhos, agora, cravavam-se no ministro das Finanças.
- Suponho não ser preciso tanto - disse depois de uma pausa. - São três apenas os ministros que desgostaram a opinião pública: o das Finanças e Trabalho, o da Instrução e o da Guerra. E não será necessário apelar para a sua dedicação ao regime quando se reconhecer a impossibilidade...
Aragão e Brito, Camilo de Oliveira e Veiga Simões ergueram-se, depondo as suas pastas sobre a secretária presidencial.
- Muito bem! - disse Bernardino Machado, com o mais amável dos seus sorrisos. - Nem outra coisa seria de esperar da isenção e inteireza de carácter que sempre me aprouve reconhecer em vossas excelências.
E chamando o seu secretário, antes que os três se arrependessem ou algum dos presentes alvitrasse qualquer outra solução:
- Meu caro Ângelo! Faça aí a nota oficiosa de que os ministros das Finanças, Instrução e Guerra solicitaram a sua exoneração, e mande-a já para a Imprensa.
Ângelo Vaz ia retirar-se, ajeitando as lunetas, quando Bernardino Machado tornou:
- Ouça. Não se esqueça de pôr que Sua Excelência o Presidente insistiu com os ilustres estadistas para que retirassem o seu pedido, sem conseguir demovê-los da resolução tomada.
E voltando-se para Procópio de Freitas:
--O senhor presidente do ministério terá a bondade de mandar lavrar imediatamente os decretos, sem esquecer as palavras sacramentais, que desta vez são de absoluta justiça: "serviram com zelo, comprovada dedicação e acendrado patriotismo".
Os três ministros demissionários iam a retirar-se quando se abriram de par em par as batentes de uma porta e por ela entraram dois criados com bandejas de prata na mão. E o presidente cordialíssimo:
- Então já se retiram? Não tomam uma chávena de chá? Um cálice de vinho?
Como os outros recusassem, agradecendo, e marchassem para a saída, o chefe de Estado terminou, de chávena na mão e roendo uma torrada:
- Que pena terem tanta pressa! Mal imaginam como estão deliciosas estas torradas, com manteiga da minha fábrica de Coura...
***
A notícia da demissão dos três ministros acalmou o país. Ninguém lamentou a sua queda, salvo eles próprios, que deram um cavaco medonho com a história. Aragão e Brito, então, estava furioso. Aquela piada presidencial da manteiga provava-lhe que fora especialmente o monopólio desse produto, altamente prejudicial para a a indústria dos lacticínios do norte, quem o deitara a terra. E comentava para os companheiros de desgraça, no automóvel que os reconduzia ao centro da cidade:
- Todos os ministros caem escorregando numa casca de laranja. Nós escorregamos num pacote de manteiga.
- Escorregássemos fosse no que fosse, a questão é que caímos - respondeu o tenente-coronel Camilo de Oliveira.
- Mas não ficaremos assim!Eu pelo menos! - disse Veiga Simões. - Amanhã corro a filiar-me no partido sindicalista.
- E dois! - fez Aragão e Brito.
- E três - concluiu o ex-ministro da Guerra.
Assim foi, de facto. Dois dias depois os jornais noticiavam a adesão dos três estadistas ao anarquismo."
Poderá parecer excessivamente longo este excerto narrativo de Campos Monteiro. Mas exemplifica bem o estilo de Campos Monteiro, a sua capacidade de "inventar" situações e recriar diálogos, não fosse ele um homem que escrevia muitas obras para o teatro e operetas. E depois tem o registo do que ele chama as trouvailles. Ainda o francês era a língua nobre.
Recorda, salivando de satisfação, os dias turbulentos do Parlamento, em que havia pancadaria a sério, deputados ferrabrás, para quem estes Eduardo Martins e Afonso Candal não passavam de meninos de coro. Não deixa de brincar com os nomes dos ministeriáveis. E não faz por menos quando sabe que o ministro de Guerra é o Manuel Maria Coelho e o do Interior, Alfredo Gusado. Escreve ele que a má língua lisboeta chamou logo a este ministério o "ministério do coelho guisado".
Diverte-se com a questão do amor livre, em que cada deputado poderia votar "segundo a sua consciência ou o seu temperamento"
Noticia que Trindade Coelho aderiu ao partido monárquico.
Mas a sua sanha vai para Lopes Cardoso, conterrâneo seu, cuja casa, segundo me dizem, seria aquela da Rua do Cano, actualmente na posse do meu amigo Chico Sendas. Seria interessante saber as causas desta aversão a Lopes Cardoso.
Afirma Campos Monteiro que o acordo dos radicais e conservadores para uma lista não agrada a Lopes Cardoso " com o fundamento de que sendo o bolchevismo uma criação da grande judiaria europeia, e pertencendo ele à raça judaica, não lhe ficava bem combater os sindicalistas".
Esta ideia de bolchevismo ligado à judiaria do grande capital, alastrou e chegou mesmo à Alemanha de Hitler com uns apócrifos "Protocolos de Sião", escritos no princípio do século XX, justificativos de alguns pogroms e que teriam chegado a Paris pela mão de uma duvidosa condessa russa.
Ter-se-á então desenvolvido um grande movimento grevista, enquanto a fome alastrava pelo país. Campos Monteiro dramatiza ao máximo a situação. Seria interessante ( e é pena que agora não tenha oportunidade e sobretudo tempo) cotejar a verdade histórica com a "invenção" de Campos Monteiro.
Assim, o proletariado, os camponeses, numa remake da ocupação do Palácio de Inverno e mais tarde, já em 1975, do cerco e momentânea ocupação da Assembleia Constituinte pela Cintura Industrial de Lisboa, Campos Monteiro imagina o Parlamento nas mãos dos populares com um deputado, Moura Pinto, ainda a reagir, exclamando: " Estamos aqui por mandato do povo e só sairemos desta sala na ponta das baionetas.
- Vocês saem mas é na ponta dos nossos sapatos, respondeu um popular juntando o gesto à palavra".
Bernardino Machado foge de Belém e refugia-se no quartel do Carmo. Procópio de Freitas desfralda o pavilhão da república social no topo do navio. A marinha revolta-se. São criados os comissários do povo e o Alto Conselho dos Sovietes. Os jornais deixam de existir. Os estrangeiros fogem do país. A marinha mercante abandona os nossos portos. São cortadas relações diplomáticas e comerciais. Portugal fica entregue a si mesmo. o Governo russo reconhece a "república sovietista (sic) portuguesa". O Diário da República começa a chamar-se "Monitor da República dos Sovietes". É adoptado como hino a Internacional. É proibido qualquer culto religioso. São extintos todos os bancos. É decretada a pena de morte. O país é dividido em seis províncias. A província de Trás-os-Montes começou a chamar-se Kropotkine, o príncipe russo anarquista que pouco ou nada teve a ver com o leninismo, diga-se de passagem, o que parece Campos Monteiro não saber, não entender ou não querer entender.
Segundo o Vidente de que Campos Monteiro é secretário, no Verão de 1925 "havia fome em todo o país". E de novo vem Lopes Cardoso à baila. " O delegado adstrito ao corpo militar enviado a pacificar Trás-os-Montes foi Lopes Cardoso, antigo monárquico, ministro democrático, reconstituinte, nacionalista e radical, enfim tornado bolchevista. Era sua e da sua gente a província que pisava agora, à frente de uma coluna do Exército Vermelho (...) Era bem o homem que tendo sido católico ao ponto de não faltar a uma procissão em Bragança e realista ao ponto de conspirar contra Paiva Couceiro, desatar a desterrar padres e a transferir juízes apenas se viu ministro da Justiça".
Muito mais haveria ainda a dizer sobre este ficcionado regime bolchevique por Campos Monteiro. As marquesas e condessas montaram um restaurante, Alfredo da Silva, o homem mais tarde da CUF, era empregado de mesa, o Teatro Nacional foi transformado em Teatro Lenine e Júlio Dantas começou a escrever peças de "realismo socialista".
Paiva Couceiro revolta-se, mas não tem apoios e regressa á Galiza. Até que o povo do Minho e de Trás-os-Montes começando em Alijó bate o Exército Vermelho e proclama em S. Pedro do Sul a monarquia. E Campos Monteiro, pelos vistos, fica feliz com uma ilusão que nem em 1993 (como se fora um serôdio Orwell) a monarquia vingou. É um livro divertido, para não ser levado a sério mas que de qualquer modo se aprecia pelo talento satírico, pelo reconstruir de situações em que Campos Monteiro é exímio.
Peço desculpa por esta escrita tão apressada, sem jeito nenhum. Quis apenas deixar o registo de um livro que, hoje é tão pouco conhecido.
Na natureza à nossa volta
A atenção do blogue tem-se centrado nos livros, mas, com a subida da temperatura a vida desperta em cada fresta de rocha e em cada prado à nossa volta. Esta espécie vegetal foi fotografada junto ao rio Douro, no final do mês passado. Como não tive ainda tempo para tentar a sua identificação, fica o desafio aos amantes da natureza e curiosos pela sistemática.
sexta-feira, 13 de março de 2009
Miguel Mesquita, o homem do Cinco de Outubro
A fotografia não era, na altura em que foi tirada ( talvez anos 50, não sei), um acto banal. Exigia algum estudo, mesmo que não fosse em estúdio. E Miguel Mesquita quis marcar, consciente ou inconscientemente, a sua presença e o seu carácter, homem da Corredoura de lavradores e proletariado rural. É fotografado longe da Vila, mas donde visse a Vila, republicano que não escapa à presença gigantesca da Igreja. De chapéu e casaco num muro de xisto, lendo o jornal, talvez o Século, talvez a República, como republicano que se preza.
Seria muito interessante, agora que se aproximam as comemorações do centenário da República, começar a vasculhar nos jornais da época ( e Moncorvo tinha uma grande tradição de publicação de jornais, semanários ou quinzenários, dos vários partidos) para sabermos melhor como o Cinco de Outubro foi visto e implantado na vila. Moncorvo tem uma tradição liberal que se deve ter manifestado no Cinco de Outubro. Gostaria de saber um pouco mais sobre as convulsões políticas na época em Moncorvo. Um pequeno trabalho de pesquisa agradecia-se. E a pergunta: há uma tradição republicana em Moncorvo?
Rogério Rodrigues
Nota:
Comemoração do Dia Internacional da Mulher, em Torre de Moncorvo
Comemorou-se, no passado Domingo, em Torre de Moncorvo, o Dia Internacional da Mulher, numa iniciativa organizada pela Junta de Freguesia de Torre de Moncorvo. Como forma de assinalar a data, foram oferecidas rosas às moncorvenses e outras visitantes que nesse dia se encontravam de passeio pela nossa vila. Houve ainda uma palestra sobre a condição feminina, na Biblioteca Municipal, pela Drª. Adília Fernandes.Num folheto dustribuído pela Junta de Freguesia de Torre de Moncorvo, salienta-se que esta data (8 de Março) pretende relembrar às jovens e mulheres de hoje os direitos conquistados ("de estudar, escolher a profissão, ter conta bancária, de viajar, vestir o que lhes apetece, de casar ou coabitar com quem amam (...) de votar"), mas que nem sempre foi assim. E acrescenta-se no mesmo texto: "No início do século XX ainda a maior parte das universidades europeias não permitia o ingresso de mulheres e a luta pelo direito de voto foi uma das mais acesas do séc. XIX, onde mulheres com muita ou pouca cultura e com mais ou menos bens económicos reivindicaram vivamente esse direito (...)".
quinta-feira, 12 de março de 2009
Moncorvo em Flor

Ainda com o branco de algumas Amendoeiras em Flor, Torre de Moncorvo já tem o amarelo das mimosas a maravilhar-nos.
quarta-feira, 11 de março de 2009
"Contos dos Montes Ermos", de António Sá Gué
Num comentário a um “post” anterior ficou referência a mais um livro de contos, para além do de Vítor da Rocha, também recentemente editado (Dezembro de 2007). Trata-se de “Contos dos montes ermos”, de autoria de António Sá Gué, obra editada pela arteEscrita.
Para além desta obra, Sá Gué publicou ainda o romance As duas faces da moeda (Papiro, 2007) e participou na antologia Mimos e contos de Natal (também com a chancela da Papiro, em 2007) - ver nota bibliográfica na badana da capa, em baixo.
Os Contos dos montes ermos são 11, a saber: o velho; o eucalipto; o comboio; o colégio; a feira; o desertor, a procissão; o desmancho; a banda; a ignorância; o formigueiro. Como o título indica, o cenário desses contos são as terras transmontanas “grosso modo”, adivinhando-se alguns contornos de povoados aqui bem próximos de nós. Tal como o comboio é o da defunta linha do Sabor… Até mesmo a fábula da formiga do último conto, acaba por ganhar, no final, a marca da região: tratava-se de uma “aluda” (confesso que a primeira vez que ouvi esta palavra, era eu um chavalo, foi em Carviçais… - fui ver à Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, e não é que constava lá, com a indicação: "regionalismo, da região de Torre de Moncorvo"?).
A apresentação deste livro, em Torre de Moncorvo, foi realizada no ano transacto (2008), na Biblioteca Municipal.
Capa do livro Contos dos Montes Ermos e biografia do autor (clicar em cima para aumentar)
Para aguçar o apetite, aqui fica um excerto:
“…dava dó ver os possantes catrapilas desenraizar as centenárias oliveiras e carregá-las para serem vendidas por essa Europa fora, a alindarem algum jardim de alguém endinheirado. Até os muros de pedra solta foram veniaga. Como é possível?..., perguntam-se alguns. Não estou a falar de pedra, não, estou a falar de muros, muros de pedra solta,
muros que contam história,
peças de património,
molduras da paisagem,
Não! O dinheiro tem mais peso… Qual património, qual memória de povo!... As máquinas precisam de entrar à vontade.
Morreu de pasmo, quando os charruões, capazes de arrancar fraguedos, esventram sem dó nem piedade o olival da Ferraria”.
- A que atentado ao Património se estará a referir o autor?
Para o saberem, procurem o livro, pedindo-o para Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo, ou para: artEscrita Editora Ldª. , Rua Comendador António Augusto da Silva, 127, r/c, 4435-193 Rio Tinto; e-mail: editora@artescrita.com
- Chamamos ainda a atenção para o "site" (ou sítio) parceiro deste blogue, intitulado "Palavras ao Vento" (na coluna do lado direito, em baixo); aí poderão ler mais textos de António Sá Gué e conhecer melhor este nosso conterrâneo. Ou, se preferirem, podem clicar já sobre este endereço: http://antoniosague.blogspot.com/
"Na andadura do tempo", de Vítor da Rocha
Porque nos comentários ao "post" anterior veio a propósito o nome do nosso conterrâneo, o escritor Vítor da Rocha e o seu livro Postigo Cerrado (Círculo de Leitores, 2002), aqui apresentamos o autor (ver nota biográfica na contracapa, em baixo), assim como um excerto do seu primeiro livro Na andadura do tempo (contos), de 1997 (ed. Campo das Letras).
Este último teve já uma reedição em 2007, sendo alvo de uma apresentação, com sessão de autógrafos, em Outubro desse ano, na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo.
Capa da 2ª. edição, da editora ArtEscrita (2007)
domingo, 8 de março de 2009
Peredo dos Castelhanos, 20 de Fevereiro de 74 (cont.)
Têm a palavra alunos e ex-alunos, professores e ex-professores da nossa região.
sábado, 7 de março de 2009
VI Feira dos Produtos da Terra e Stocks
Foi inaugurada no passado dia 5 de Março, pelas 17;30h, a VI Feira dos Produtos da Terra e dos Stocks, no pavilhão multi-usos da Corredoura, em Torre de Moncorvo (organização da ACIM/Associação de Comerciantes e Industriais de Torre de Moncorvo e Câmara Municipal de Torre de Moncorvo).
Aí poderá encontrar os mais diversos produtos regionais (vinhos, queijos, enchidos, amêndoa coberta, vestuário de todos os tipos, etc) da região e não só. Pode ainda aí almoçar e jantar, e depois dar um pé de dança, no recinto do largo, estando previstos para hoje (dia 7) pelas 22;00 horas os “La Salsa” e para amanhã (dia 8, domingo), pelas 16;00h, o famoso Quim Barreiros.
Secção de enchidos.Ainda “O Roboredo” de Campos Monteiro…
Completam-se hoje 133 anos sobre o nascimento de Campos Monteiro.
(…)
“E vejo agora na cortinha em frente
uma brigada de trabalhadores.
Cavam a terra estéril… lançam-lhe a semente…
Crispam-se o húmus, dolorosamente…
Ninguém pode ser mãe sem sofrer as dores!
Nos pedregosos, húmidos carreiros,
passam rebanhos chocalhando. Atrás,
precedidos dos cães, os pobres pegureiros
chamam por eles, para que os rafeiros
deixem as aves e os reptis [sic] em paz.
Pende-lhe’a negra taleiguita ao lado,
por uma fita de bezerro presa:
um pão centeio petrificado,
um pedaço de porco mal curado,
quatro medronhos para a sobremesa…
Se a fome aperta, ou sentem o perigo
dos escorpiões e víboras subtis,
o mesmo naco de toucinho antigo
lhes serve de alimento e de presigo
e sara as mordeduras dos reptis.
Horas de almoço… O chefe da brigada,
fazendo um gesto à gente que moureja,
- “Louvado seja Jesus Cristo!” – brada.
E num momento, abandonando a enxada,
todos respondem – que bendito seja!
Levanto os olhos mais. Vejo a Fraga do Facho,
talhada a pique, como uma parede,
com o seu manto de musgo e heras e escalracho.
Dela dimana e corre serra abaixo
a àgua pura que nos mata a sede.
Emergindo da rocha, a todo o custo e receiosa,
deita a fugir da vila em direcção.
E na carreira louca e temerosa
traz sobre o dorso pétalas de rosa,
raminhos de alecrim e de serpão.
Pelas caleiras de granito é vê-la
cantarolar, correr, cheia de pressa!
E os castanheiros curvam-se sobre ela,
fazem-lhe sombra com a sua umbela
para que o sol do estio a não aqueça.
E as ovelhinhas bebem à vontade…
Voando, as pombas vêm matar a frágoa…
- Minha terra natal! Como há-de
ser cheia de pureza e bondade
a gente que depois bebe esta água!...”~
(continua)
sexta-feira, 6 de março de 2009
Tecedeira de Urros , Fevereiro de 74
Detalhes em Ferro 3
Nem só o que é velho e ferrugento chama a atenção do fotógrafo (embora isso aconteça com muita frequência). Os Detalhes em Ferro da fotografia (ferro fundido e ferro forjado), foram captados em Peredo dos Castelhanos num portão muito, muito recente.
quinta-feira, 5 de março de 2009
Cruzeiro de Nossa Senhora da Piedade

O Cruzeiro de Nossa Senhora da Piedade, em Urros, Classificado Imóvel de Interesse Público. Está situado entre a aglomerado populacional e a Capela de Santo Apolinário.
quarta-feira, 4 de março de 2009
“O Roboredo” de Campos Monteiro (continuação)
O poeta evoca aqui, bucolicamente, as paisagens que se divisam da serra do Roboredo, a partir de uma casa onde afirma que passou a sua infância (será que viveu mesmo aí, ou seria uma casa de campo onde a família ia amiúde? - era interessante determinar qual). Decerto não seria muito longe da capela de N. Srª da Conceição, a outra “casa” (que se imagina próxima) onde diz que mora “a Virgem Mãe de Deus”.
Fala ainda de um surto de febre-amarela, ocorrido nos meados do séc. XIX, que vitimou muita gente (sendo muitos enterrados junto da dita capela). Prolongando as pestes medievas, estas epidemias, tais como pneumónicas, tuberculoses, carbúnculos, tifos, febres palúdicas (ou sezões), etc., eram frequentes, de tempos a tempos, provocando grandes mortandades, tendo chegado ainda aos inícios do século XX – só a generalização das vacinas a partir dos anos 40-50 foi debelando esse problema.
São léguas de terreno. E em tal distância,
só duas casas sob o azul dos céus!
- Duas casas banais, pobres, sem importância…
N’uma delas passei a minha infância.
Na outra mora a Virgem Mãe de Deus.
Velha Casa da Serra! Que saudades!
Do teu balcão, que lindo era o sol-pôr!
Ouvia-se na vila o toque das trindades,
e o fumo que subia das herdades
envolvia num véu as ribas do Sabor!
Nas montanhas da Lousa o sol caía,
'inda toucando de oiro o Cabeço da Mua…
A Vilariça, exangue, adormecia…
Vinha o crepusc’lo… terminava o dia…
- silêncio enorme!... e despontava a lua…
Lá vejo ao lado a mancha verde luzidia
Das figueiras do cimo-do-pomar,
às quais, quando criança, impávido subia,
enquanto em baixo meu avô fingia
que dormitava, pr’a não me ralhar.
Dentro do souto vejo ainda o bardo
Para o rebanho à noite se acolher.
D’aquele sítio que lembranças guardo!
Foi ali mesmo que meu tio Eduardo,
Quási brincando, me ensinou a ler!
Da Conceição, ao fundo, eis a capela,
com ar de mágoa e de desolação.
Há meio séc’lo já que houve a febre amarela.
Enterravam-se os mortos junto dela,
e ficou assim triste desde então…
Quando eu passava no caminho em frente,
a minha mãe mandava-me ajoelhar,
- e de mãos postas, fervorosamente,
rezava ainda pela pobre gente
que a epidemia veio ali matar!
O sol já vai em meio da subida,
e o meu olhar, ansioso, não descansa.
A saudade é uma dúlcida bebida!
Recordar é viver de novo a vida,
e eu sinto-me hoje inda uma vez criança!
(continua)
Torre de Moncorvo 7 de Março de 2009 - Turismo do Douro
A nova Entidade Regional Turismo do Douro dá voz aos empresários e agentes do sector de toda a região. O I Encontro, destinado principalmente aos agentes locais do Douro Superior, realiza-se na Associação Comercial e Industrial de Torre de Moncorvo, no dia 7 de Março, pelas 15 horas.
A Direcção eleita para a Turismo do Douro definiu como uma das prioridades do seu mandato organizar encontros com os agentes locais e regionais, directa e indirectamente, ligados à actividade turística. Esta intenção, dada a conhecer pelo seu presidente, António Martinho, no seu discurso de tomada de posse, tem por objectivos auscultar as preocupações e os receios dos profissionais em relação ao sector na Região, percepcionar as expectativas dos vários empresários relativamente ao trabalho a desempenhar pela nova entidade, mas igualmente saber que contributos poderão eles e as demais entidades e instituições envolvidas dar à Região e ao turismo.
Foram convidados para este Encontro as autarquias dos concelhos que integram a Turismo do Douro, as Associações representativas do tecido empresarial; os estabelecimentos de ensino, os empresários da Hotelaria e Restauração, as agências de viagem; as empresas de rent-a-car e animação turística, a comunicação social da Região, entre outras instituições relevantes. O I Encontro tem como convidado/moderador o director do Departamento de Estudos do Turismo de Portugal, Sérgio Guerreiro, que falará sobre as políticas do Turismo de Portugal, direccionadas ao sector
Autor:-Cidadão do Mundo
FONTE:-NOTÍCIAS DE VILA REAL
Peredo dos Castelhanos, 28 de Fevereiro de 2009
A minha escola era bonita.
Foi nela que descobri as palavras
Os números, os jogos, as cores,
Amigos, amigas ... amores.
Nela não havia tempo,
Porque o tempo era infinito.
Nela não havia espaço
Porque era todo o espaço
Necessário para ser feliz.
Havia flores todo o ano!
No Inverno, de amendoeira,
Mas também de lírios, lilases,
E mil pétalas de roseiras.
Hoje a minha escola está bonita
Brilha de tão caiada
Mas o silêncio é grande...
Ninguém fala, ninguém corre,
Falta-lhe a garotada.
Fecho os olhos...
Lá estão eles, muitas faces a sorrir!
Há muita vida na escola,
Sempre que eu quiser cá vir.
A minha escola é a mais bonita do mundo.
Carlos Santos























