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sábado, 21 de março de 2009

Versos amendrucais



Tenho as veias nas fragas
e os olhos no Reboredo,
à cotovia dou asas
e ao homem este segredo:
Depois do estoirar das cigarras
e do cortar da geada,
ofereço meu leque de vida
e em troca não quero nada.

Jardim da Primavera

21 de Março, para além de Dia da Árvore, é também o Dia Mundial da Poesia.
Assim sendo, aqui fica um poema a assinalar e a festejar a data:
JARDIM DA PRIMAVERA
Arábigo jardim
de socalcos suspensos
que amendoeiras florescem
laranjeiras perfumam
e romãzeiras espalham
de preciosos rubis
e onde pomos diversos
de várias árvores são versos:
cerejeira, ameixoeira,
pereira, macieira,
figueira, nespereira,
oliveira, amoreira,
entre outras cantam
seus hinos à terra.
Da terra e das paredes
de xisto antigo
brotam flores
de cores silvestres:
vermelho-papoila,
branco, lilazes,
do verde se desprendem
num festival de aromas.

Insectos zumbindo
são violinos,
pássaros trinando
serão clarinetes;
o resto da orquestra
que a imagine o poeta,
que está cheio de acordes
o Jardim da Primavera.

Tragam alaúdes,
almofadas e versos,
tragam odaliscas,
néctares, essências,
e vinde cantar o Amor
no Perfumado Jardim!...

Poema e fotos de Henrique de Campos

sexta-feira, 20 de março de 2009

Começou a Primavera! - comemoração nos jardins do Museu

Segundo nos informa o Seringador (Reportório crítico-jocoso e prognóstico diário para 2009), entrou hoje, dia de Santa Eufémia, pelas 11;44 horas, a Primavera!

Correspondendo ao Equinócio da Primavera (hoje o dia e noite terão exactamente a mesma duração, continuando depois os dias a aumentar e as noites a diminuir, até ao Solstício de Verão, na noite de S. João, a mais curta do ano...).


A Primavera era saudada, pelos povos da Antiguidade, com uma série de ritos relacionados com a Natureza e a fecundidade. Contudo, não sabemos se algum desses povos tinha por hábito plantar uma árvore nesta altura do ano, coisa pouco provável, pelo menos numa Europa ainda povoada de vastas florestas, até à conquista Romana.

Assim, o Dia da Árvore só viria a ser instituído no séc. XIX, mais precisamente em 1872, nos Estados Unidos da América (estado do Nebraska), e era em Setembro. A "Festa da Árvore", como se designou, depressa se expandiu por vários países do Mundo, tendo-se celebrado em Portugal, pela primeira vez, em 9 de Março de 1913.

Só em 1971, por proposta da Confederação Europeia de Agricultores, a FAO (organismo da ONU para as questões da Alimentação mundial) instituíu o Dia Florestal Mundial, com objectivo de sensibilizar as populações para a importância da floresta e manutenção do ecossistema global. Para o hemisfério Norte, foi estabelecido o dia 21 de Março (inícios da Primavera), sendo esta data celebrada pela primeira vez em 1972 por inúmeros países, entre os quais Portugal. No hemisfério Sul, nomeadamente no Brasil, o Dia Mundial da Árvore e da Floresta coincide com o dia 21 de Setembro.


Antecipando o Dia da Árvore (que será amanhã), hoje, nos jardins do Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, foram plantadas, pelas crianças do Agrupamento Vertical de Escolas de Torre de Moncorvo, algumas árvores da região, nomeadamente laranjeiras, amendoeiras, carvalhos e um azevinho. Foi ainda inaugurada uma mostra de trabalhos dos alunos, tendo estes escutado, no auditório do museu, uma palestra sobre a importância da árvore e da floresta, pela professora Marlie Andrês (coordenadora da acção) e Engª. Mariana (engenheira florestal do município de Torre de Moncorvo).


Mais informação sobre este evento em: http://parm-moncorvo.blogspot.com/

Mais se informa que na próxima Segunda-feira, dia 23 de Março, pelas 10;00 horas, também no Auditório do Museu, será realizada uma outra palestra, ilustrada com imagens, sobre as Aves e Árvores da região, pelo Engº. Afonso Calheiros, presidente da direcção do PARM; esta acção é também sobretudo orientada para os alunos das Escolas (igualmente com participação do Agrupamento de Escolas), mas obviamente podem assistir todos os interessados, que poderão apreciar uma exposição de desenhos de alunos do 5º. ano, sobre diversas aves da região.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Sismo em Torre de Moncorvo - aconteceu há 151 anos!!

No artigo “Moncorvo, ou Torre de Moncorvo”, do Dicionário abreviado de chorographia, topographia e archeologia das cidades, villas e aldêas de Portugal, obra de José Avelino de Almeida, publicada em 1866, ao falar da nossa grandiosa igreja matriz, diz o autor o seguinte:

«No dia de S. Joseph, 19 de Março de 1858, chegou a deslocar-se e a cair uma pedra de cantaria da abóbada, por causa de um forte tremor de terra, mas foi logo substituída». - Mais informa que a pedra caiu junto do altar das Almas (o primeiro altar, do lado direito, para quem entra pela porta principal).

Não sabemos a amplitude de outros estragos que possam ter ocorrido na vila, impondo-se mais alguma investigação arquivística para apuramento de algo mais sobre este episódio sísmico. Que a falha da Vilariça tem sismicidade activa todos sabemos, embora os geólogos e sismólogos afirmem que é de baixa intensidade e que é difícil que ocorra um grande terramoto como o de Lisboa de 1755.


Em todo o caso, ouvimos dizer há um bom par de anos ao eminente geólogo Doutor António Ribeiro (autor da tese: Contribuition à l’étude tectonique de Trás-os-Montes Oriental, Lx., 1974), que terá ocorrido um importante sismo em Torre de Moncorvo em 1750, antes do de Lisboa. Não temos registo documental deste episódio, mas, a verdade é que a igreja apresenta preocupantes brechas em alguns pontos das suas paredes, sinais de uma existência algo atribulada.
Até há poucos anos existia no alto da serra, na zona das “Antenas”, uma estação sismográfica que enviava os dados (por telecomunicação) para a delegação local dos serviços do Ministério da Agricultura. Constou-nos que já foi desactivada. A ser assim, acho que se deveriam apurar os motivos.
Mais informamos que a secção de Geologia do PARM (Projecto Arqueológico da Região de Moncorvo), tem prevista para breve uma conferência sobre Sismologia e suas aplicações, a realizar no auditório do Museu, integrada nos ciclos de palestras sobre Geologia e Minas, que desde o ano passado se têm realizado.

Nota1: Agradecemos ao nosso colega “webmaster”, Aníbal Gonçalves, o ter-nos chamado a atenção para esta efeméride.

Nota2: Foto do interior da igreja matriz de Torre de Moncorvo de autoria de Lonel Brito (anos 70?). - A zona do desprendimento da pedra (certamente das nervuras da abóbada da nave lateral) está parcialmente encoberta pela 1ª coluna do lado esquerdo.

quarta-feira, 18 de março de 2009

19 de Março, Feriado Municipal em Torre de Moncorvo

Celebra-se no dia 19 de Março, dia de S. José, o feriado municipal de Torre de Moncorvo.

Quando surgiram os feriados municipais?
E qual a razão da escolha de S. José, já que a padroeira desta vila é N. Senhora da Assunção? Ou até poderia ter sido Santa Bárbara, em homenagem aos mineiros (de que Stª. Bárbara é patrona), considerando aqui a existência das importantes minas de ferro...

Respondendo à primeira questão, os feriados municipais foram instituídos logo após a República, por decreto de 12 de Outubro de 1910, ao que parece, em resultado da supressão de alguns feriados religiosos. Dava-se, contudo, possibilidade de cada concelho escolher uma festividade relevante, recaindo, normalmente a escolha sobre o santo padroeiro.

Em Torre de Moncorvo acontecia que o dia da padroeira (Senhora da Assunção), que era/é a 15 de Agosto, coincidia com um dos feriados religiosos que terão escapado ao laicismo da 1ª. República. Mesmo assim, porque o manto azul e branco da Senhora evocava vagamente a bandeira monárquica e um certo conservadorismo, os conservadores locais entendiam dever manter-se o feriado municipal no dia da padroeira, mesmo que daí resultasse não haver um dia de folga extraordinária, para lá do feriado que era geral para todo o país (o 15 de Agosto, celebração da Assunção de N. Senhora). Mas os mais progressistas entendiam que não senhor, deveria haver um outro dia! Qual ele seria e porquê?

A Santa Bárbara não fazia sentido, porque a actividade mineira organizada pura e simplesmente não existia (tinham-se feito uns trabalhos episódicos de prospecção no jazigo de ferro, nos finais do séc. XIX, por conta da Schneider, e nada mais); e os antigos ferreiros de antanho parece que eram mais devotos de S. Bartolomeu, do que, sequer, Stª. Bárbara. Aliás, na vila de Moncorvo não há uma capela dedicada a esta mártir, apesar de estar representada na fachada principal da igreja matriz.

No entanto, o S. José também não dispunha de nenhuma capela pública, nem de qualquer tradição relativamente ao seu culto. E a única capela que lhe era devotada estava associada a um solar (o antigo solar dos Tenreiros, comprado depois pelos Guerras, nos finais do séc. XIX, ou inícios de XX). Terão os Guerras também "adesivado" à República, e, neste caso, aos seus sectores mais radicais, candidatando o santo da sua capela ao feriado municipal da vila e concelho? Não o sabemos...

Sabemos, no entanto, por informação ouvida há muitos anos, que a razão essencial parece que era a seguinte: S. José era considerado o santo dos trabalhadores (era carpinteiro, como sabem...), como tal um "santo proletário", de plaina na mão, o que explicava as simpatias progressistas e agastava os conservadores. Ao que parece, então, o feriado municipal ia mudando, consoante ganhavam os partidários da Srª. da Assunção ou os do S. José. Quando chega o "Estado Novo" estava a Senhora da Assunção no "poder", quer-se dizer, estava senhora do feriado municipal, e assim se manteve por muitos e bons anos, mesmo até depois do 25 de Abril, sem que ninguém já se lembrasse da questão do feriado municipal. Ninguém, ou quase.

Em 1980, o vereador Adriano Sousa (já falecido), invocando o facto de Torre de Moncorvo, em verdade, não possuir um dia de feriado municipal, como os demais concelhos, porque a data coincidia com um feriado religioso nacional, propôs a criação de um dia alternativo, que não calhasse em feriado nacional. E qual haveria de ser? - S. José, pois claro! - A proposta passou em Assembleia Municipal, julgo que por unanimidade.

E porque não há festa sem procissão, e a Câmara não dispunha de imagem de Santo para o efeito, havia que o pedir emprestado à capela privada da casa dos Guerras (no início da rua do Cabo). O solar e a capela entraram, entretanto, em grande degradação e a dita família levou a imagem para uma outra casa sua, em Maçores, o que fez com que a Câmara comprasse há poucos anos uma imagem nova, a qual é guardada na capela de Srª. de Fátima (antiga capela de S. João Baptista), para sair nas procissões do Feriado Municipal.

Panorâmica de Moncorvo

Mais uma panorâmica de Torre de Moncorvo. Quando se sobe à Serra do Roboredo, não se consegue resistir a tirar umas fotografias desta linda vila do Nordeste Transmontano. Moncorvo visto da Serra tem outro encanto.

terça-feira, 17 de março de 2009

Mons-Curvus


Na província de Traz os Montes, entre os rios Douro e Sabor, ergue-se em successivos e irregulares degraus a notavel serra do Roboredo. Querem alguns escriptores que os romanos, no tempo da sua dominação, a designassem pelo nome de Mons-curvus, por ser apparente a curvatura do seu dorso. Foi sobre este que elles fizeram passar a via militar que de Merida conduzia a Astorga, e cujos restos ainda se encontram na parte mais elevada d’aquelle monte. Outros porém affirmam que elles a appellidaram Roboretum, por causa da prodigiosa espessura da floresta de carvalhos que n’aquellas eras revestia as encostas da serra. Parece dar-nos ainda hoje testemunho d'esse facto a nativa pertinácia que tão robusta essência florestal oppõe á ferocidade destruidora com que a atormentam os incorregiveis e brutaes lenhadores, e a indesculpável incuria da administração municipal. Entre alguns vestígios de construcções romanas, que se encontram não muito longe d´aquella serra, vê-se n'uma das pedras de granito, com que foi construída uma antiga capella, próximo das ruinas da Villa Rica de Santa Cruz entre o rio Sabor e a ribeira da Villariça uma inscripção sepulchral com o nome de Lelia Roborina. Derivaria o nome d'esta dama romana d'aquelle com que era designada a serra? Seja como for, o nome da serra do Roboredo deve ser contemporâneo da dominação romana.
Das margens do Douro e do Sabor sobe-se por Íngremes e elevadas encostas até attingir a base do Roboredo, onde está assente em um outeiro de amplo desenvolvimento e olhando para o noroeste a antiga villa da Torre de Moncorvo. Villa notavel entre outras da mesma provincia pelas suas condições topographicas, pelas suas riquezas naturaes e pela sua patriotica historia. Cercam-a por toda a parte pomares, hortas, vinhas e principalmente olivedos, os quaes se abrigam de preferencia nos estreitos valles, formados pelas pregas da montanha entre os outeiros que gradualmente vão descendo, de uma parte para o Douro, da outra para o Sabor e para a extensa e fertil veiga da Villariça. Esta veiga, a pertença territorial mais valiosa de Moncorvo, estende-se dilatada para o norte, desde a foz do Sabor até ás abas da serra de S. Bade, que de Moncorvo se vê esbatida de azul pela distancia a que se acha. Fecham a planicie pelo noroeste e oeste as alturas de Villa Flor e as asperrimas serranias graniticas de Cabeço de Mouro, de Cabeça Boa e da Louza, que, fragosas, áridas e severas, nos limitam por aquelles lados o horisonte.
Entre a agglomeração pouco regular das casas que formam a villa de Moncorvo, quando de qualquer lado se divisa, o que sobresáe e captiva a attenção é a escura massa de granito, de que é formada a sua notavel igreja matriz. A extraordinária corpulencia d’este edificio domina e amesquinha todas as casas que a cercam. É quasi uma monstruosidade de pedra; mas o seu aspecto severo infunde respeito. A sua architectura só póde ser classificada como pertencendo ao estylo hybrido que precedeu a renascença. Segundo alguns escriptores a construcção d'esta igreja data do meiado do XIV seculo. Ha menos de cincoenta annos existiam ainda no centro da villa as ruínas de um castello, cuja edificação se aittribuia a D. Diniz, mas que fôra acrescentado ou restaurado no reinado de D. Manuel. Esse castello, cujas espessas e grossas muralhas com suas torres de granito viamos ainda na nossa juventude, já não existe: foi arrazado, e sobre os seus fundamentos encontram-se hoje os modestos edifícios que abrigam as repartições municipaes e administrativas e uma escola primaria, tendo na frente um acanhado passeio arborisado e sobranceiro á praça publica. Gosa-se d'este passeio a vistosa perspectiva da serra do Robordo em toda a sua extensão. Lá na encosta vemos o antigo convento de S. Francisco e o seu templo convertido em fabrica de sabão; mais acima as capellas de S. Bento e de S. Lourenco, alvejando no cume dos outeiros destacados da montanha; ali a ermida de Santa Thereza, entre arvores frondosas, e algumas casas brancas entre a verdura de soutos e pinhaes.
N’essas poucas matas e devezas se está vendo o vigor da vegetação com que, se houvera mais acerto e previdencia na administração municipal, se podia ter creado e mantido uma frondosa floresta para deleitar a vista, enriquecer a terra e melhorar o clima.
Foi n'outros tempos grande a importância que a villa de Moncorvo teve na organisação judicial e administrativa do paiz, sendo a cabeça da mais extensa comarca do reino. Nas antigas cortes tinha assento no decimo terceiro banco. Era rica e aristocratica; eram numerosas as famílias nobres que a habitavam; gloriosas e patrioticas as tradições com que se honrava e a que lhe davam direito os feitos e proezas dos seus moradores desde os mais remotos tempos da monarchia, e principalmente na acclamação de D. Joio I e na restauração do reino em 1640, e que mais tarde se haviam de renovar no principio d'este seculo, para cooperar heroicamente na libertação da patria contra o dominio francez.

Texto de: Júlio Máximo O. Pimentel
Foto de: Lelo Brito
Transcrição do texto: Contchi

segunda-feira, 16 de março de 2009

Jornada de apresentação de “A primeira comunhão”, de Júlia Guarda Ribeiro


Como aqui foi anunciado, decorreu, no passado sábado, dia 14 de Março, a apresentação pública, em Torre de Moncorvo, do livro de Júlia Guarda Ribeiro (cá na terra conhecida por Júlia “Biló”, o outro nome literário com que costuma assinar as obras mais referentes à nossa região), intitulado: “Primeira Comunhão”.
Depois de um excelente almoço-convívio num restaurante cá da vila, entre familiares e amigos/as (incluindo alguns “blogueiros”) a sessão de apresentação decorreu na biblioteca municipal, perante numeroso público.
Estiveram na mesa, além da Autora, o Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, Engº. Aires Ferreira, a Presidente da Junta de Freguesia de Torre de Moncorvo, Milú Pontes, o Dr. Adélio Amaro (editor), Doutora Graça Abranches (professora universitária e amiga da autora), e Drª. Lucinda Antunes (colega de infância da autora).
O Presidente da Câmara Municipal de Torre de Moncorvo, Engº. Aires Ferreira, gracejando, principiou por referir que estava ali, com o sr. editor, a “servir de jarra”, apenas para cumprir as quotas de presença (masculina, neste caso). Anunciou, de seguida, a reedição dos anteriores livros de Júlia Biló, “Contos ao luar de Agosto” (por já se encontrarem esgotados), e outros passos da política cultural do município para os próximos tempos.
Por sua vez, o editor, Adélio Amaro, replicou que o facto de “servirem de jarra”, significava que estavam rodeados de “lindas flores”, referindo-se às senhoras que estavam na mesa, suscitando a hilaridade e aplauso dos presentes. Fez, de seguida, uma apresentação geral do livro, a qual foi aprofundada por Graça Abranches, contextualizando-o na época em que a “acção” decorre (período do “Estado Novo”, finais dos anos 40), sendo a autora, juntamente com sua mãe, as principais protagonistas, sobrelevando o moralismo eclesial da época, os preconceitos sociais, as mentalidades e o enquadramento político (ditadura). Referiu-se ainda à capacidade “contística” da autora, já patente nos seus livros anteriores, fazendo uma análise intelectual, citando teóricos da literatura (que estudaram a literatura oral e, sobretudo, a arte de “contar” histórias) e da sociedade, mormente no aspecto da estética, como Walter Benjamin.
A Drª. Lucinda Antunes, que foi colega de Júlia Biló, na sua infância e adolescência passada em Torre de Moncorvo, referiu-se a esses tempos de companheirismo, enaltecendo as suas qualidades e recordando algumas peripécias.
Por fim, a autora, agradecendo as palavras dos intervenientes e das pessoas que quiseram estar presentes, explicitou melhor o contexto e a história de vida (pessoal) que foi objecto deste livro, assim como de outros, como os contos recolhidos junto das mulheres da Corredoira, analfabetas, mas carregando toda uma literatura (oral) e histórias de vida fantásticas. Evocou, por exemplo, a história do homem daquele bairro, que gostava de a ouvir ler histórias, e que muito se admirava por aquilo que ela dizia estar contido nos “risquinhos” que eram as linhas e as letras que estavam no livro: “ - A minha alma está de joelhos!”, foi a exclamação do velho homem, que Júlia Biló nunca mais esqueceu. Tendo lido alguns excertos do livro, terminou com uma referência ao nosso blogue e a alguns amigos que através deste espaço conheceu ou reencontrou, como foi o caso de Leonel Brito, Rogério Rodrigues e Daniel de Sousa, moncorvenses que estão longe da sua terra, mas que dela não se esquecem. Do Dr. Daniel de Sousa, médico cirurgião algures na região de Lisboa, leu a bela mensagem que fez questão de enviar e dois poemas, da sua colectânea “Café Il Greco”; de Rogério Rodrigues, jornalista e escritor, leu um poema intitulado “Femina, Femina”, dedicado à Mulher.
Houve, a encerrar, uma concorrida sessão de autógrafos e um Porto de Honra, servido no ambiente aprazível dos jardins da biblioteca, em ambiente de convívio e descontracção até ao fim da tarde.

Sobre a autora e o livro “Primeira Comunhão”, ver:
http://livros.paravenda.net/produtos/932-j%C3%BAlia_guarda_ribeiro_primeira_comunh%C3%A3o.aspx

Texto: N. Campos
Fotografias: Xo_oX

sábado, 14 de março de 2009

Saúde e Fraternidade

Muito se tem falado e escrito sobre Campos Monteiro. E muito pouco sobre o seu livro de maior êxito, "Saúde e Fraternidade". Publicado em 1923 ainda sem as caricaturas de A. (Américo) Amarelhe que só aparecerão na capa na versão definitiva da sátira, não sei se na segunda ou terceira edição, o "Saúde e Fraternidade" chegou a vender 40 mil exemplares, a ponto de Aquilino Ribeiro reconhecer que foi um dos livros de maior êxito no primeiro quartel do século XX. Após um longo esquecimento, só em Dezembro de 1978, nas Edições Templo, é que saiu a última edição da "Saúde e Fraternidade ", baseada na sétima e décimas edições, incluindo ilustrações de Amarelhe. Contudo, numa edição pouco cuidada, enganam-se na data do preâmbulo dos editores. Onde, na primeira edição, Campos Monteiro escreve 1993, eles erram escrevendo 1939.
Tanto a primeira edição com a última (eu tenho ambas) serviram para uma consulta de que vou dar alguns apontamentos neste post.
"Saúde e Fraternidade (História dos Acontecimentos Políticos em, Portugal desde Agosto de 1924 a novembro de 1926), Livraria Civilização Editora, Rua das Oliveiras, 75, Porto)" é um libelo contra os últimos anos da República e um sonho, jamais realizado, da reintauração do regime monárquico através do levantamento popular dos camponeses do Minho e e Trás-os-Montes contra um Estado Bolchevique. Já lá iremos. Escreve Campos Monteiro, numa espécie de advertência preambular: "Este livro há-de ser escrito daqui a 70 anos. Por um processo especial de adivinhação, já conhecido de resto, pelos que se dedicam ao estudo do Iluiminismo, conseguiu quem o dá a lume saber a maneira como os historiadores do século XX hão-de encarar os sucessos políticos a que nós, homens de agora, vamos assistindo (...) Publica-se a obra tal como saiu dos lábios do Vidente, da nossa pena de simples secretário seu, tal como há-der sair dos prelos de uma imprensa do Porto, em certo dia de Outubro de 1993".
O prefácio serve para criticar Afonso Costa, um dos alvos predilectos de Campos Monteiro, a par de Júlio Dantas e Lopes Cardoso.
Com uma capacidade satírica notável, ridiculariza, ao jeito da "Queda de um Anjo", de Camilo, o Parlamento e o anticlericalismo dos primeiros anos da República. A título de exemplo critica e diverte-se com o facto de o deputado (mais tarde primeiro ministro) Sá Pereira, se rebelar contra a Igreja, considerando casus belli a erecção do Coração de Jesus no morro do Corcovado (Rio de Janeiro). Júlio Dantas, o cortesão médico/ escritor da "Ceia dos Cardeais" é dado por Campos Monteiro como o exemplar, por excelência, dos adesivos. De monárquico chegará a Comissário dos Sovietes, mas quando estes são derrotados começa a escrever a história de Ilustre Casa de Bragança... O Almada (Negreiros) é que o topou. E o Mário Viegas também, declamando o "Manifesto Anti-Dantas".
Como Vidente, ou seu secretário, imagina um Governo revolucionário em que "não houve soldado que não ficasse sargento". São encerrados os centros políticos que não sejam radicais ou socialistas, redobra o "velho ódio às crenças cristãs", o Dente d'Ouro, o sargento Olímpio, da Marinha é libertado do forte de Elvas e trazido em apoteose para Lisboa. Diga-se que o Dente d'Ouro, era natural da Cardanha e esteve na Noite Sangrenta em que foram mortos António Granjo, primeiro-ministro, natural de Chaves, Machado dos Santos, o herói da Rotunda, e Carlos da Maia. O Dente d'Ouro seria o matador, encomendado e pago pelo padre Lima, também da Cardanha como mais tarde terá confessado a Berta Maia, viúva de Carlos da Maia que, com frequência, visitava na cadeia o assassino do seu marido, numa investigação quase heróica. O livro de Berta da Maia só saiu em 1926, exactamente na altura de "revolução do 28 de Maio", o que deu a que tenha ficado na penumbra durante todos estes anos. Espero que o centenário da República seja a data ideal para uma reedição digna.
Continuando: segundo as profecias de Campos Monteiro teria sido também libertado, Júlio Costa, o assassino de Sidónio Pais. Não deixa de ser curioso que o regicida Alfredo Costa seja da mesma terra, Garvão (Alentejo) que o assassino de Sidónio Pais, ainda que, com o mesmo nome, não fossem nada um ao outro.
Mas é o ministério de Procópiode Freitas que é alvo da grande sátira (é obrigatório reconhecê-lo), ainda que de um reaccionarismo incomodativo, no mínimo. Salienta que o nacionalismo lusitano onde navegavam os monárquicos sob a tutela ideológica do integralista António Sardinha sonhavam com o fascismo de Mussolini.
Não resisto a transcrever a demissão de três ministros de Procópio de Freitas. Textual:"... O País estava descontente com o ministério; e não só o país: o próprio partido,-sem reparar em que , se o governo nada fizera, fora porque o partido o não deixara. Nesta condições, o gabinete punha nas mãos do chefe do Estado a solução da crise, oferecendo-lhe desde já a sua demissão.Bernardino Machado continuava anediando a pêra e cofiando o bigode. Os seus olhos, agora, cravavam-se no ministro das Finanças.
- Suponho não ser preciso tanto - disse depois de uma pausa. - São três apenas os ministros que desgostaram a opinião pública: o das Finanças e Trabalho, o da Instrução e o da Guerra. E não será necessário apelar para a sua dedicação ao regime quando se reconhecer a impossibilidade...
Aragão e Brito, Camilo de Oliveira e Veiga Simões ergueram-se, depondo as suas pastas sobre a secretária presidencial.
- Muito bem! - disse Bernardino Machado, com o mais amável dos seus sorrisos. - Nem outra coisa seria de esperar da isenção e inteireza de carácter que sempre me aprouve reconhecer em vossas excelências.
E chamando o seu secretário, antes que os três se arrependessem ou algum dos presentes alvitrasse qualquer outra solução:
- Meu caro Ângelo! Faça aí a nota oficiosa de que os ministros das Finanças, Instrução e Guerra solicitaram a sua exoneração, e mande-a já para a Imprensa.
Ângelo Vaz ia retirar-se, ajeitando as lunetas, quando Bernardino Machado tornou:
- Ouça. Não se esqueça de pôr que Sua Excelência o Presidente insistiu com os ilustres estadistas para que retirassem o seu pedido, sem conseguir demovê-los da resolução tomada.
E voltando-se para Procópio de Freitas:
--O senhor presidente do ministério terá a bondade de mandar lavrar imediatamente os decretos, sem esquecer as palavras sacramentais, que desta vez são de absoluta justiça: "serviram com zelo, comprovada dedicação e acendrado patriotismo".
Os três ministros demissionários iam a retirar-se quando se abriram de par em par as batentes de uma porta e por ela entraram dois criados com bandejas de prata na mão. E o presidente cordialíssimo:
- Então já se retiram? Não tomam uma chávena de chá? Um cálice de vinho?
Como os outros recusassem, agradecendo, e marchassem para a saída, o chefe de Estado terminou, de chávena na mão e roendo uma torrada:
- Que pena terem tanta pressa! Mal imaginam como estão deliciosas estas torradas, com manteiga da minha fábrica de Coura...
***
A notícia da demissão dos três ministros acalmou o país. Ninguém lamentou a sua queda, salvo eles próprios, que deram um cavaco medonho com a história. Aragão e Brito, então, estava furioso. Aquela piada presidencial da manteiga provava-lhe que fora especialmente o monopólio desse produto, altamente prejudicial para a a indústria dos lacticínios do norte, quem o deitara a terra. E comentava para os companheiros de desgraça, no automóvel que os reconduzia ao centro da cidade:
- Todos os ministros caem escorregando numa casca de laranja. Nós escorregamos num pacote de manteiga.
- Escorregássemos fosse no que fosse, a questão é que caímos - respondeu o tenente-coronel Camilo de Oliveira.
- Mas não ficaremos assim!Eu pelo menos! - disse Veiga Simões. - Amanhã corro a filiar-me no partido sindicalista.
- E dois! - fez Aragão e Brito.
- E três - concluiu o ex-ministro da Guerra.
Assim foi, de facto. Dois dias depois os jornais noticiavam a adesão dos três estadistas ao anarquismo."

Poderá parecer excessivamente longo este excerto narrativo de Campos Monteiro. Mas exemplifica bem o estilo de Campos Monteiro, a sua capacidade de "inventar" situações e recriar diálogos, não fosse ele um homem que escrevia muitas obras para o teatro e operetas. E depois tem o registo do que ele chama as trouvailles. Ainda o francês era a língua nobre.
Recorda, salivando de satisfação, os dias turbulentos do Parlamento, em que havia pancadaria a sério, deputados ferrabrás, para quem estes Eduardo Martins e Afonso Candal não passavam de meninos de coro. Não deixa de brincar com os nomes dos ministeriáveis. E não faz por menos quando sabe que o ministro de Guerra é o Manuel Maria Coelho e o do Interior, Alfredo Gusado. Escreve ele que a má língua lisboeta chamou logo a este ministério o "ministério do coelho guisado".
Diverte-se com a questão do amor livre, em que cada deputado poderia votar "segundo a sua consciência ou o seu temperamento"
Noticia que Trindade Coelho aderiu ao partido monárquico.
Mas a sua sanha vai para Lopes Cardoso, conterrâneo seu, cuja casa, segundo me dizem, seria aquela da Rua do Cano, actualmente na posse do meu amigo Chico Sendas. Seria interessante saber as causas desta aversão a Lopes Cardoso.
Afirma Campos Monteiro que o acordo dos radicais e conservadores para uma lista não agrada a Lopes Cardoso " com o fundamento de que sendo o bolchevismo uma criação da grande judiaria europeia, e pertencendo ele à raça judaica, não lhe ficava bem combater os sindicalistas".
Esta ideia de bolchevismo ligado à judiaria do grande capital, alastrou e chegou mesmo à Alemanha de Hitler com uns apócrifos "Protocolos de Sião", escritos no princípio do século XX, justificativos de alguns pogroms e que teriam chegado a Paris pela mão de uma duvidosa condessa russa.
Ter-se-á então desenvolvido um grande movimento grevista, enquanto a fome alastrava pelo país. Campos Monteiro dramatiza ao máximo a situação. Seria interessante ( e é pena que agora não tenha oportunidade e sobretudo tempo) cotejar a verdade histórica com a "invenção" de Campos Monteiro.
Assim, o proletariado, os camponeses, numa remake da ocupação do Palácio de Inverno e mais tarde, já em 1975, do cerco e momentânea ocupação da Assembleia Constituinte pela Cintura Industrial de Lisboa, Campos Monteiro imagina o Parlamento nas mãos dos populares com um deputado, Moura Pinto, ainda a reagir, exclamando: " Estamos aqui por mandato do povo e só sairemos desta sala na ponta das baionetas.
- Vocês saem mas é na ponta dos nossos sapatos, respondeu um popular juntando o gesto à palavra".
Bernardino Machado foge de Belém e refugia-se no quartel do Carmo. Procópio de Freitas desfralda o pavilhão da república social no topo do navio. A marinha revolta-se. São criados os comissários do povo e o Alto Conselho dos Sovietes. Os jornais deixam de existir. Os estrangeiros fogem do país. A marinha mercante abandona os nossos portos. São cortadas relações diplomáticas e comerciais. Portugal fica entregue a si mesmo. o Governo russo reconhece a "república sovietista (sic) portuguesa". O Diário da República começa a chamar-se "Monitor da República dos Sovietes". É adoptado como hino a Internacional. É proibido qualquer culto religioso. São extintos todos os bancos. É decretada a pena de morte. O país é dividido em seis províncias. A província de Trás-os-Montes começou a chamar-se Kropotkine, o príncipe russo anarquista que pouco ou nada teve a ver com o leninismo, diga-se de passagem, o que parece Campos Monteiro não saber, não entender ou não querer entender.
Segundo o Vidente de que Campos Monteiro é secretário, no Verão de 1925 "havia fome em todo o país". E de novo vem Lopes Cardoso à baila. " O delegado adstrito ao corpo militar enviado a pacificar Trás-os-Montes foi Lopes Cardoso, antigo monárquico, ministro democrático, reconstituinte, nacionalista e radical, enfim tornado bolchevista. Era sua e da sua gente a província que pisava agora, à frente de uma coluna do Exército Vermelho (...) Era bem o homem que tendo sido católico ao ponto de não faltar a uma procissão em Bragança e realista ao ponto de conspirar contra Paiva Couceiro, desatar a desterrar padres e a transferir juízes apenas se viu ministro da Justiça".
Muito mais haveria ainda a dizer sobre este ficcionado regime bolchevique por Campos Monteiro. As marquesas e condessas montaram um restaurante, Alfredo da Silva, o homem mais tarde da CUF, era empregado de mesa, o Teatro Nacional foi transformado em Teatro Lenine e Júlio Dantas começou a escrever peças de "realismo socialista".
Paiva Couceiro revolta-se, mas não tem apoios e regressa á Galiza. Até que o povo do Minho e de Trás-os-Montes começando em Alijó bate o Exército Vermelho e proclama em S. Pedro do Sul a monarquia. E Campos Monteiro, pelos vistos, fica feliz com uma ilusão que nem em 1993 (como se fora um serôdio Orwell) a monarquia vingou. É um livro divertido, para não ser levado a sério mas que de qualquer modo se aprecia pelo talento satírico, pelo reconstruir de situações em que Campos Monteiro é exímio.
Peço desculpa por esta escrita tão apressada, sem jeito nenhum. Quis apenas deixar o registo de um livro que, hoje é tão pouco conhecido.

Na natureza à nossa volta

A atenção do blogue tem-se centrado nos livros, mas, com a subida da temperatura a vida desperta em cada fresta de rocha e em cada prado à nossa volta. Esta espécie vegetal foi fotografada junto ao rio Douro, no final do mês passado. Como não tive ainda tempo para tentar a sua identificação, fica o desafio aos amantes da natureza e curiosos pela sistemática.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Miguel Mesquita, o homem do Cinco de Outubro


Foi na casa de Miguel Mesquita, na Corredoura, hoje casa destruída com terreno ocupado por outra sem história, e à revelia da memória, que o Cinco de Outubro de 1910 foi proclamado em Moncorvo.
A fotografia não era, na altura em que foi tirada ( talvez anos 50, não sei), um acto banal. Exigia algum estudo, mesmo que não fosse em estúdio. E Miguel Mesquita quis marcar, consciente ou inconscientemente, a sua presença e o seu carácter, homem da Corredoura de lavradores e proletariado rural. É fotografado longe da Vila, mas donde visse a Vila, republicano que não escapa à presença gigantesca da Igreja. De chapéu e casaco num muro de xisto, lendo o jornal, talvez o Século, talvez a República, como republicano que se preza.
Seria muito interessante, agora que se aproximam as comemorações do centenário da República, começar a vasculhar nos jornais da época ( e Moncorvo tinha uma grande tradição de publicação de jornais, semanários ou quinzenários, dos vários partidos) para sabermos melhor como o Cinco de Outubro foi visto e implantado na vila. Moncorvo tem uma tradição liberal que se deve ter manifestado no Cinco de Outubro. Gostaria de saber um pouco mais sobre as convulsões políticas na época em Moncorvo. Um pequeno trabalho de pesquisa agradecia-se. E a pergunta: há uma tradição republicana em Moncorvo?
Rogério Rodrigues

Nota:
Lamento profundamente que, por lapso, não aparecesse o nome do autor do texto, Rogério Rodrigues. A ti ,Rogério, as minhas desculpas públicas por este erro. Limitei-me a copiar o texto para colocar com a fotografia de Miguel Mesquita.

Comemoração do Dia Internacional da Mulher, em Torre de Moncorvo

Comemorou-se, no passado Domingo, em Torre de Moncorvo, o Dia Internacional da Mulher, numa iniciativa organizada pela Junta de Freguesia de Torre de Moncorvo. Como forma de assinalar a data, foram oferecidas rosas às moncorvenses e outras visitantes que nesse dia se encontravam de passeio pela nossa vila. Houve ainda uma palestra sobre a condição feminina, na Biblioteca Municipal, pela Drª. Adília Fernandes.

Num folheto dustribuído pela Junta de Freguesia de Torre de Moncorvo, salienta-se que esta data (8 de Março) pretende relembrar às jovens e mulheres de hoje os direitos conquistados ("de estudar, escolher a profissão, ter conta bancária, de viajar, vestir o que lhes apetece, de casar ou coabitar com quem amam (...) de votar"), mas que nem sempre foi assim. E acrescenta-se no mesmo texto: "No início do século XX ainda a maior parte das universidades europeias não permitia o ingresso de mulheres e a luta pelo direito de voto foi uma das mais acesas do séc. XIX, onde mulheres com muita ou pouca cultura e com mais ou menos bens económicos reivindicaram vivamente esse direito (...)".

Aspecto da sessão comemorativa do Dia Internacional da Mulher, na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Vista Panorâmica de Moncorvo

Vista panorâmica de Moncorvo a partir da Quinta da Ventosa. Deste local pode-se ver a paisagem magnífica que Moncorvo possui.

Moncorvo em Flor



Ainda com o branco de algumas Amendoeiras em Flor, Torre de Moncorvo já tem o amarelo das mimosas a maravilhar-nos.
A acácia-mimosa é originária da Austrália, considerada invasora em Portugal (DL 565/99). Em condições favoráveis pode atingir os 20 m de altura. As suas flores em forma de cacho, com pequenos globos amarelos, com um aroma agradável, parece, aliás, estar na origem da sua introdução. É uma árvore que tolera bem a secura e que por vezes aparece a ladear as estradas ou a ornamentar jardins. Renasce facilmente após um fogo florestal (a germinação das sementes é estimulada pelo fogo e rebenta facilmente a partir das raízes) e quando as condições não são muito favoráveis não ultrapassa o porte arbustivo serrado que elimina qualquer competidora. Além disso, parece que é alelopática (isto é, produz compostos químicos que inibem o crescimento de outras espécies).
Mas apesar de tudo, nesta altura do ano um pouco por todo o país, não excluindo o Nordeste Transmontano, é agradavel ver a paisagem pintada de amarelo das mimosas o que a torna magnífica.
Para além das Amendoeiras em Flor, Moncorvo tem muito mais para maravilhar quem visita esta linda vila do Nordeste Transmontano, com a sua paisagem natural.

quarta-feira, 11 de março de 2009

"Contos dos Montes Ermos", de António Sá Gué

Num comentário a um “post” anterior ficou referência a mais um livro de contos, para além do de Vítor da Rocha, também recentemente editado (Dezembro de 2007). Trata-se de “Contos dos montes ermos”, de autoria de António Sá Gué, obra editada pela arteEscrita.
Para além desta obra, Sá Gué publicou ainda o romance As duas faces da moeda (Papiro, 2007) e participou na antologia Mimos e contos de Natal (também com a chancela da Papiro, em 2007) - ver nota bibliográfica na badana da capa, em baixo.

Os Contos dos montes ermos são 11, a saber: o velho; o eucalipto; o comboio; o colégio; a feira; o desertor, a procissão; o desmancho; a banda; a ignorância; o formigueiro. Como o título indica, o cenário desses contos são as terras transmontanas “grosso modo”, adivinhando-se alguns contornos de povoados aqui bem próximos de nós. Tal como o comboio é o da defunta linha do Sabor… Até mesmo a fábula da formiga do último conto, acaba por ganhar, no final, a marca da região: tratava-se de uma “aluda” (confesso que a primeira vez que ouvi esta palavra, era eu um chavalo, foi em Carviçais… - fui ver à Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, e não é que constava lá, com a indicação: "regionalismo, da região de Torre de Moncorvo"?).


A apresentação deste livro, em Torre de Moncorvo, foi realizada no ano transacto (2008), na Biblioteca Municipal.


Capa do livro Contos dos Montes Ermos e biografia do autor (clicar em cima para aumentar)

Para aguçar o apetite, aqui fica um excerto:

“…dava dó ver os possantes catrapilas desenraizar as centenárias oliveiras e carregá-las para serem vendidas por essa Europa fora, a alindarem algum jardim de alguém endinheirado. Até os muros de pedra solta foram veniaga. Como é possível?..., perguntam-se alguns. Não estou a falar de pedra, não, estou a falar de muros, muros de pedra solta,
muros que contam história,
peças de património,
molduras da paisagem,
Não! O dinheiro tem mais peso… Qual património, qual memória de povo!... As máquinas precisam de entrar à vontade.
Morreu de pasmo, quando os charruões, capazes de arrancar fraguedos, esventram sem dó nem piedade o olival da Ferraria”.

- A que atentado ao Património se estará a referir o autor?

Para o saberem, procurem o livro, pedindo-o para Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo, ou para: artEscrita Editora Ldª. , Rua Comendador António Augusto da Silva, 127, r/c, 4435-193 Rio Tinto; e-mail: editora@artescrita.com

- Chamamos ainda a atenção para o "site" (ou sítio) parceiro deste blogue, intitulado "Palavras ao Vento" (na coluna do lado direito, em baixo); aí poderão ler mais textos de António Sá Gué e conhecer melhor este nosso conterrâneo. Ou, se preferirem, podem clicar já sobre este endereço: http://antoniosague.blogspot.com/

"Na andadura do tempo", de Vítor da Rocha

Porque nos comentários ao "post" anterior veio a propósito o nome do nosso conterrâneo, o escritor Vítor da Rocha e o seu livro Postigo Cerrado (Círculo de Leitores, 2002), aqui apresentamos o autor (ver nota biográfica na contracapa, em baixo), assim como um excerto do seu primeiro livro Na andadura do tempo (contos), de 1997 (ed. Campo das Letras).
Este último teve já uma reedição em 2007, sendo alvo de uma apresentação, com sessão de autógrafos, em Outubro desse ano, na Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo.

Capa da 2ª. edição, da editora ArtEscrita (2007)

Contra-capa da 2ª. edição (clicar para aumentar - ver currículo)

Como vem a talhe de foice, no seguimento do "post" anterior sobre a escola primária do Peredo, pois aqui fica também este testemunho sobre a vida escolar de outros tempos, noutro lugar, quiçá Carviçais, terra do autor:
"Mais remediada que pobre é a família onde o Eusébio nasceu. Até à idade da escola andou sempre agarrado às saias da mãe, filho único, sem se saber se ruim era a semente de seu pai ou o campo da mãe, sem estrume, de modo que os primeiros contactos com os outros rapazes foram dolorosos. Uns pontapés nas canelas, socos nas costas, foram os primeiros cumprimentos dos mais velhos e ao verem que se encolhia e não devolvia o troco tomaram o gosto ao bombo da festa. Contudo, nas letras revelou-se mais vivo que os outros juntos, e foi a sua salvação, por tal se livrando de mais bordoada, pois que para que ele os deixasse copiar ou lhes fizesse os deveres meteram a mão no bolso e abandonaram o massacre. Mas, fora essa precisão, puseram-no de lado, incapaz de atirar pedras a distância que se preze, de subir a árvore, de acertar com o mijo no formigueiro a um metro de lonjura, de se espolinhar no pó do chão agarrado aos cabelos do inimigo. Humilde, disse o professor Dinis para o pai, no fim da quarta classe, um dos poucos que chegou ao termo da escola, e logo com umas provas dignas de doutor, a maioria desistiu e outros reprovaram, humilde e inteligente, senhor Óscar, o seu filho tem uma rica cabecinha, é pena se não seguir adiante. Mais adiante para onde, senhor professor?, não tenho posses para pô-lo a estudar, mesmo para deixá-lo andar até à quarta já foi o arco da velha, com precisão do rapaz nas leiras, que é o único braço com que eu e a mulher podemos contar, e o trabalho de menino é pouco mas quem o rejeita é louco. Cofiou a barba o professor Dinis, barba bem aparada, barba de senhor de letras e saber, pintalgada de branco de longe em longe, pois é, senhor Óscar, tem razão, mas olhe que é uma pena, tem ali um filho que podia ser doutor, ou talvez um padre. // Doutor ou padre, senhor professor?, com respeito do senhor, não me faça rir, que até me dá vontade de chorar, ora vejam lá, nascido no meio de porcos e dos machos, rumelento e ranhoso, sem direito para lhe comprar uns sapatos, e o senhor professor vem-me com essa de pô-lo a estudar pra doutor ou padre. Não alcanço tão alto, senhor professor, saber ler já é mais do que o que eu tive, e agora daqui para a frente é aprender a vida, os trabucos que ela nos dá, e ser um homem honrado, que não é pouco nos tempos que correm".
- O que terá acontecido ao Eusébio? será que continuou a sina milenar da sua gente, na gleba transmontana, ou terá seguido outros voos? > para o saber, terá de ler o primeiro conto de Na andadura do Tempo, intitulado: "O anjo e a puta".
- Para aquisição, pode contactar a Biblioteca Municipal de Torre de Moncorvo, ou fazer o pedido "on line" através do seguinte endereço: http://www.wook.pt/Authors/detail/id/37127
Boas leituras!!
Nota: logo que possível, será "postado" também aqui algo sobre o "Postigo Cerrado".

domingo, 8 de março de 2009

Peredo dos Castelhanos, 20 de Fevereiro de 74 (cont.)


Quando postei a foto da escola do Peredo, com texto do Rogério, era minha intenção, depois de alguns comentários, postar outra foto e o texto (reportagem) do Assis. (Além dos comentários, foi postado um poema de Carlos Santos e duas fotos a cores do Aníbal) Ambas fotos são inéditas, não saíram no “República”. A reportagem “Moncorvo, Zona Quente em Terra Fria”, com o subtítulo “Os Vizinhos Ajudam os Vizinhos a partir a Amêndoa no Inverno”, está no blogue, na pasta do Peredo. Os comentários ao primeiro post reflectem as várias visões que nós temos de uma situação. Isso é um dos objectivos do blogue.“Não pretendemos impor as nossas opiniões, mas simplesmente expô-las: não pedimos a adesão das pessoas que nos escutam; pedimos só a discussão: a discussão longe de nos assustar, é o que mais desejamos”, já dizia Antero nos finais do século XIX.
Têm a palavra alunos e ex-alunos, professores e ex-professores da nossa região.


sábado, 7 de março de 2009

VI Feira dos Produtos da Terra e Stocks

Foi inaugurada no passado dia 5 de Março, pelas 17;30h, a VI Feira dos Produtos da Terra e dos Stocks, no pavilhão multi-usos da Corredoura, em Torre de Moncorvo (organização da ACIM/Associação de Comerciantes e Industriais de Torre de Moncorvo e Câmara Municipal de Torre de Moncorvo).

Aí poderá encontrar os mais diversos produtos regionais (vinhos, queijos, enchidos, amêndoa coberta, vestuário de todos os tipos, etc) da região e não só. Pode ainda aí almoçar e jantar, e depois dar um pé de dança, no recinto do largo, estando previstos para hoje (dia 7) pelas 22;00 horas os “La Salsa” e para amanhã (dia 8, domingo), pelas 16;00h, o famoso Quim Barreiros.


Secção de vestuário

Secção de enchidos.

Ao fundo: secção de restauração.
Esta feira encerra no dia 8 de Março, pelas 18;00 horas, por isso, aproveite!!

Ainda “O Roboredo” de Campos Monteiro…

Completam-se hoje 133 anos sobre o nascimento de Campos Monteiro.


O nosso escritor nasceu em 7.03.1876 e faleceu em 4.12.1933. Como forma de assinalar o seu 133º. aniversário, aqui deixamos os restantes versos do capítulo “O Roborêdo” das Cartas da Minha Terra (in “Versos Fora de Moda”). Aqui faz uma evocação do trabalho dos jornaleiros que trabalhavam nas encostas da serra, dos pastores (“pegureiros”) com os seus gados, da paisagem serrana de onde emerge a Fraga do Facho e de cujas vertentes escorriam as águas que iam dar de beber à vila...
Torre de Moncorvo, o trabalho e os dias, nos inícios do século XX:

(…)
“E vejo agora na cortinha em frente
uma brigada de trabalhadores.
Cavam a terra estéril… lançam-lhe a semente…
Crispam-se o húmus, dolorosamente…
Ninguém pode ser mãe sem sofrer as dores!

Nos pedregosos, húmidos carreiros,
passam rebanhos chocalhando. Atrás,
precedidos dos cães, os pobres pegureiros
chamam por eles, para que os rafeiros
deixem as aves e os reptis [sic] em paz.

Pende-lhe’a negra taleiguita ao lado,
por uma fita de bezerro presa:
um pão centeio petrificado,
um pedaço de porco mal curado,
quatro medronhos para a sobremesa…

Se a fome aperta, ou sentem o perigo
dos escorpiões e víboras subtis,
o mesmo naco de toucinho antigo
lhes serve de alimento e de presigo
e sara as mordeduras dos reptis.

Horas de almoço… O chefe da brigada,
fazendo um gesto à gente que moureja,
- “Louvado seja Jesus Cristo!” – brada.
E num momento, abandonando a enxada,
todos respondem – que bendito seja!

Levanto os olhos mais. Vejo a Fraga do Facho,
talhada a pique, como uma parede,
com o seu manto de musgo e heras e escalracho.
Dela dimana e corre serra abaixo
a àgua pura que nos mata a sede.

Emergindo da rocha, a todo o custo e receiosa,
deita a fugir da vila em direcção.
E na carreira louca e temerosa
traz sobre o dorso pétalas de rosa,
raminhos de alecrim e de serpão.

Pelas caleiras de granito é vê-la
cantarolar, correr, cheia de pressa!
E os castanheiros curvam-se sobre ela,
fazem-lhe sombra com a sua umbela
para que o sol do estio a não aqueça.

E as ovelhinhas bebem à vontade…
Voando, as pombas vêm matar a frágoa…

- Minha terra natal! Como há-de
ser cheia de pureza e bondade
a gente que depois bebe esta água!...”~

(continua)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Tecedeira de Urros , Fevereiro de 74


tece o tear a trama do tecido
da manta do manto do teu pranto
tecido e véu de bruma
névoa e encanto bate e lança
a lançadeira e tece e retece
a dor que arrefece
lento e vazio por fim
acontece
nos teus dedos tece a dor que não esquece
vai e vem numa noite sem fim
fuso e pente do teu tear
farrapo e dança
vai e vem
aquece o meu sonho
durmo no teu peito
tecedeira
mãe
Daniel

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